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Ironia socrática

«The third realm, finally, in which we move and live together with other people — the realm of privacy — is ruled neither by equality nor by discrimination, but by exclusiveness. Here we choose those with whom we wish to spend our lives, personal friends and those we love; and our choice is guided not by likeness or qualities shared by a group of people — it is not guided, indeed, by any objective standards or rules — but strikes, inexplicably and unerringly, at one person in his uniqueness, his unlikeness to all other people we know. The rules of uniqueness and exclusiveness are, and always will be, in conflict with the standards of society precisely because social discrimination violates the principle, and lacks validity for the conduct, of private life.»

Hannah Arendt

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Pertenço àquele grupo de malucos que não acha reprovável viver com dinheiro emprestado. Sei disso porque não acharia reprovável que um amigo, ou mais do que um, vivesse à custa do dinheiro que eu pudesse emprestar – sendo que já recorri a amigos por carência financeira em várias ocasiões. Sou até capaz de apostar 10 euros em como essa será uma prática usual entre amigos desde a invenção do dinheiro, os empréstimos. E mesmo sem o vil metal na equação, há muita outra coisa que dá para emprestar entre amigos; honi soit qui mal y pense. A parte do ser maluco está em assumir essa ideia no discurso público, e a parte do grupo tem a ver com o Arons de Carvalho, pois com ele já somos dois.

Os ditos empréstimos de Carlos Santos Silva a Sócrates são justamente alvo de censura moral colectiva, do meu ponto de vista, apenas e só por estarem a gerar uma dúvida legítima quanto à sua licitude. Essa dúvida decorre da racionalidade e toma inevitavelmente a forma de uma suspeita a obrigar a investigação judicial. E o processo respectivo, pelo simples facto de existir, é danoso em diferentes planos da avaliação da responsabilidade de Sócrates. Aqui só lidamos com a dimensão moral.

Os mesmos supostos empréstimos causaram problemas éticos a um conjunto indeterminado de pessoas que, também com plena razão, se sentiram traídas por Sócrates não ter partilhado com elas essa situação. Como não o fez, elas não puderam escolher afastar-se dele ou protegerem-se calhando reprovarem esses actos ou temerem pela sua segurança (devassa da privacidade, calúnias). Trata-se de uma questão ética por implicar uma proximidade vivencial que nasce da liberdade de cada um e onde se estabelecem responsabilidades mútuas nessa esfera, mas não tem de se relacionar com nenhum conceito moral.

Finalmente, a publicitação da existência desses alegados empréstimos despertou uma imparável exploração política desde o início do processo, a qual tomou proporções avassaladoras desde a semana passada com as declarações de altos responsáveis do PS a respeito dos problemas de consciência que a “Operação Marquês” causa ao partido. A política em causa é a partidária e tribal, onde o sectarismo e as dinâmicas do ódio enchem de energia a retórica inflamatória e castigadora usada. Porém, há lógica militar no alarido, pois o que se pretende é fragilizar o PS. Derrubada uma muralha, o silêncio institucional do PS sobre o caso antes de ele ter um desfecho judicial, agora o próximo objectivo é a caça ao escol socialista na tentativa de substituir a boa moeda pela má. Se conseguirem provocar o afastamento de algum “socrático”, é menos um recurso de qualidade que terão de enfrentar. Se os alvos resistirem, farão pontaria a Costa por estar a manter “corruptos” nos seus Governos e equipas partidárias. Em qualquer dos casos, é só vantagens para a direita decadente. Ficaremos a conhecer tudo acerca de Rio neste contexto – porque não haverá uma terceira via: ou alinha com os pulhas ou lhes fará frente, os mornos serão vomitados.

Provavelmente (sei lá), mais de 90% dos estudantes universitários seria incapaz de distinguir a esfera moral da dimensão ética, a começar logo pelo facto de ser uma distinção teoricamente questionável onde a semântica se mescla. Na destrinça que aqui faço, a moral corresponde ao domínio social e seu conjunto de normas, explícitas e implícitas, que identificam e regulam o comportamento aceitável e inaceitável numa dada comunidade. Quem nasce, se nascer humano, nascerá concomitantemente nalgum contexto cultural que inclui uma qualquer codificação moral mais ou menos cristalizada, mais ou menos plástica, e sempre mutável no espaço e no tempo. A ética pertence ao reino das relações privadas, nas quais a liberdade é a única lei. Ora, quando a política não passa da luta do poder pelo poder, as categorias morais e éticas são usadas como armas de arremesso. Os fins passam a justificar os meios e os assassinatos de carácter aparecem como a mais recorrente táctica de ataque político. Porquê? Porque é cognitivamente económica (fácil e rápida) e porque é fonte de recompensas hormonais (testosterona, dopamina e serotonina). Tentar destruir a reputação do adversário é um automatismo que define a baixa política. Esta práxis reduz-se à produção de insultos e calúnias, e o político reduz-se ao animal.

A problemática do dinheiro usado por Sócrates vindo de Carlos Santos Silva não é uma questão política antes da decisão judicial final sobre o caso. Se estivermos perante um caso de corrupção, essa descoberta levantará um problema político inaudito no regime. Se estivermos perante um caso de abuso da Justiça, a qual terá inventado uma acusação sem provas, essa descoberta igualmente levantará um problema político inaudito no regime. Constatar que Sócrates mentiu na esfera moral e na esfera ética não equivale a declarar que mentiu na esfera política – mesmo que haja consequências políticas das mentiras nos planos moral e ético. O máximo a que se pode chegar é à constatação de haver uma perturbação cívica a carecer de reparo judicial.

O que neste momento há para dizer sobre a responsabilidade política de Sócrates na temática da corrupção é isto: ao seu Governo se deve o reforço de instrumentos, legais e materiais, que permitiram essa muito maior capacidade de investigação da corrupção que o Ministério Público exibe nestes últimos anos. Tão eficaz foi essa produção legislativa que o próprio responsável político máximo por ela nela foi apanhado e logo metido no chilindró.

O mete-nojo quer uma avença no Ministério Público

«Acredito que se houvesse algum indício forte contra si na Operação Marquês o Ministério Público não teria hesitado em acusá-la. Até porque, convenhamos, era isso que apetecia fazer – pela sua atitude arrogante nos interrogatórios, por tudo aquilo que tem escrito contra a Justiça, pela postura absurda que manteve ao longo dos anos, pela mania de calar o essencial e vociferar sobre o acessório.»


Caluniador profissional ao serviço do Público

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8 de Maio de 2018. Nesta data, uma das estrelas (a maior?) da indústria da calúnia usa o jornal que lhe paga – fundado por, entre outros, Vicente Jorge Silva e Jorge Wemans – para defender uma ideia política que conhecemos muito bem da História: criminalizar a opinião, a liberdade de expressão, a divergência intelectual, a alteridade moral e até a idiossincrasia psicológica. É o que está escrito, e a sua interpretação é à prova de estúpidos. Este fulano declara que gostaria de ver o Ministério Público a inventar uma acusação qualquer contra uma dada cidadã só a partir de atitudes, textos, pensamentos. Atitudes, textos e pensamentos que o incomodam, desgostam, irritam e acabam por lhe justificar o deslumbramento de expor que, como regedor da moral jornaleira, a Justiça deve servir para perseguições políticas e vinganças pessoais.

JMT não acordou maldisposto, nem escreveu bêbado de álcool. Embriagado pelo que experimenta como o maior triunfo na sua carreira de caluniador, sim, mas não está aí o principal factor que explica a confissão. Ao longo de anos, e em crescendo, foi usando todas as violações ao segredo de justiça acerca de Sócrates para construir uma imagem de justiceiro especializado no PS. Quando começaram a aparecer gravações áudio de escutas, de imediato as usou para fazer inferências e chegar a conclusões. E ao apanhar os registos vídeo de interrogatórios, chafurdou feliz na redução daquelas pessoas, naquelas circunstâncias, apresentadas daquela maneira e inseridas num ambiente de linchamento, a algo que já nem humano é posto que lhes nega qualquer possibilidade de defesa. Tivesse nascido 50 anos mais cedo, sabemos onde iria parar como um dos mais motivados agentes dessa polícia. No seu bestunto, JMT apenas precisa de fragmentos de escutas e de interrogatórios feitos por terceiros para absolver ou condenar alguém. Ele só lamenta não poder estar nas salas de interrogatório para poder cheirar o medo, o pavor, daqueles que persegue. Pelo cheiro é que ele os topava logo, o cheiro dos corruptos. Então, esse método de indução canalha implica que as provas dos crimes que ele se lembrar de convocar não vêm do mais profundo e rigoroso conhecimento da realidade mas da sua imaginação. O Tavares concebe-se como omnisciente, bastando consultar os seus divinos neurónios para despachar sentenças acerca da inocência e honra de quem lhe apetecer, e ainda recebe dinheiro para andar a disparar no espaço público as flutuações do seu arbítrio.

Esta prática criminosa, esta aliança com criminosos, onde as violações do Estado de direito democrático são aceites e aplaudidas, só é possível se os agentes de tal violência estiverem desprovidos de empatia. A forma como JMT discursa sobre a privacidade relacional e afectiva da Fernanda não fica apenas como um monumento à pulhice, é igualmente uma consequência do altíssimo grau de narcisismo e abstracção em que opera como caluniador profissional. Donde, sem surpresa, o instinto que foi despertado perante um texto particularmente melindroso para a sua autora – texto que se situa na dimensão da crítica cívica, sem endossos à dimensão da sua intimidade e história pessoal – não foi o da compaixão, sequer simpatia. Ao contrário, 24 horas depois aparece a declarar que não está satisfeito, que exige mais, mais humilhação. Talvez a demissão do DN, a reforma antecipada, a emigração, a entrada num convento – ou, com maior probabilidade, um pedido de desculpas personalizado, mas público, onde a Fernanda reconheça que o Tavares é o novo Sol da Terra, e que ela ficará doravante aos seus pés para o servir.

Este infeliz tem aproveitado com impante sucesso a indústria da calúnia, a cultura da calúnia e a estratégia da calúnia seguida pela direita decadente. Calhando sair do Público, irá para o Observador. Calhando fartar-se do Observador, regressará ao esgoto a céu aberto. E, claro, terá também trabalho na TV e na rádio. Por onde passe, espalhará as sementes das maiores violências, aquelas que começam por ser feitas em nome do bem maior.

A qual destes senhores compravas um automóvel?

«A judicialização da política ou do jornalismo é perigosa, mas nada é mais perigoso do que um ex-primeiro-ministro acusado de corrupção.»

Ricardo Costa

«mesmo sendo a Operação Marquês o caso mais grave da democracia portuguesa, o atropelo de valores fundamentais do Estado de direito seria sempre mais grave»

Pedro Marques Lopes

O artigo do dia

É este:

If you believe it, it's truer
People reflexively accept information as accurate if it aligns with their worldview
Date: May 7, 2018
Source: American Associates, Ben-Gurion University of the Negev
Summary: A new study illuminates how rapid, involuntary mental processes kick in when responding to statements that correspond with an already held viewpoint.
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A new study illuminates how rapid, involuntary mental processes kick in when responding to statements that correspond with an already held viewpoint, according to a study by researchers at Ben-Gurion University of the Negev (BGU) and The Hebrew University of Jerusalem.

The research, published in Social Psychological and Personality Science, shows how people's tendency to remain entrenched in their worldviews is supported by their automatic cognitive "reflexes."

The team led by Dr. Michael Gilead, head of the Social Cognitive Neuroscience Laboratory at BGU, found that study participants verified the grammatical accuracy of statements about political topics, personal tastes and social issues much more quickly when they matched their opinion.

In a series of experiments, the researchers asked participants to respond to various opinion statements, such as "The internet has made people more isolated" or "The internet has made people more sociable," and indicate as quickly as possible if the grammar of the sentence was correct or not. Later, they were asked if they agreed with each statement. Participants identified statements to be grammatically correct more quickly when they agreed with them, which revealed a rapid, involuntary effect of agreement on cognitive processing.

According to Dr. Gilead, "In order to make informed decisions, people need to be able to consider the merits and weaknesses of different opinions and adapt to new information. This involuntary, 'reflex-like' tendency to consider things we already believe in as being true, might dampen our ability to think things through in a rational way. Future studies could explore how other factors, such as acute stress or liberal or conservative viewpoints, affect this tendency to accept or reject opinions in a 'knee-jerk' manner."

Dr. Gilead collaborated on this research with Moran Sela, a doctoral student in the Department of Psychology at The Hebrew University of Jerusalem, and Dr. Anat Maril, a professor in The Hebrew University's Department of Cognitive Science.

Story Source:

Materials provided by American Associates, Ben-Gurion University of the Negev.


Fonte

Revolution through evolution

Meditation and Aerobic Exercise Help Women Recover After Sexual Assault
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Sex After 65: Poll of Older Adults Finds Links to Health, Gender Differences, Lack of Communication with Doctors
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Get a grip: What your hand strength says about your marriage prospects and mortality
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Proximity to books and adult support enhance children’s learning opportunities
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To improve future relationship with your kids, turn up the music
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City upbringing, without pets, boosts vulnerability to mental illness
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Is It Time to Put Down Your Phone?
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A “Operação Marquês” é um processo político

A “Operação Marquês” é legítima pois existem indícios suficientes para o Ministério Público ter de investigar. O próprio Sócrates o reconheceu, tendo-se oferecido para ir voluntariamente prestar declarações antes de ter sido detido no aeroporto vindo de Paris, e não conheço ninguém com voz pública que conteste a bondade da acção da PGR que levou à abertura inevitável de um inquérito. Este é o único aspecto estritamente judicial do processo, o resto é essencialmente político.

Lançaram-se foguetes nos centros de influência da direita quando Bataglia negociou uma espécie de delação premiada para oferecer a Rosário Teixeira a possibilidade de terminar a investigação com algo parecido a uma prova da corrupção de Sócrates. Até lá, e depois de terem revolvido ao longo de vários lustros todas as pedras pisadas pelo demónio desde os tempos em que jogava à bola na rua, nada tinham com mais consistência do que bolas de sabão. Havia dinheiro a transitar ocultamente e uma relação de amizade estranha para os critérios convencionais da paróquia, mas sem o acto corrupto não seria possível estabelecer o binómio corruptor-corrompido. É verdade que investigar a corrupção ao nível de um primeiro-ministro seria sem surpresa a missão mais complexa alguma vez levada a cabo na Justiça portuguesa, mas também por isso temos de falar de política perante o modo como se chegou à acusação.

Que estaríamos agora a dizer da equipa que investigou os indícios, dispondo de todos os recursos humanos e materiais solicitados, caso a acusação apenas apontasse para crimes fiscais e para a habitação durante uns meses de um apartamento que nunca pertenceu a Sócrates? Diríamos que algo profundamente injusto se tinha passado, algo grotesco, pois para se descobrir tal não se podia começar por prender um ex-primeiro-ministro, ou que fosse um pedreiro, e só depois investigar. E que medidas o poder político se veria obrigado a tomar perante aquilo que ficaria como um ataque da Justiça ao Estado de direito democrático e à soberania e dignidade dos representantes políticos? Não se concebe, tamanha a magnitude da questão. Logo, não custa imaginar que a quantidade e exuberância dos indícios levaram o Rosário e a Joana a terem a certeza de que seria apenas uma questão de escarafuncharem um bocadinho para darem com um filão gigantesco de provas de corrupção. Ou que fosse apenas uma, prontos. Mas nem essa solitária prova encontraram, e quem nos garante tal é a própria Cofina que apenas conseguiu publicar calúnias ao longo destes anos e até à hora em que teclo.

Quando não se tem a certeza se um cidadão cometeu uma ilegalidade, as autoridades estão obrigadas a tomarem como valor superior a carência de prova em vez da presença da convicção. A convicção é irrelevante precisamente por não passar de uma fantasia subjectiva. Este o sentido de todos os edifícios penais onde a liberdade seja o fundamento da Lei. A história dos erros judiciais, quando não passa pela adulteração ou erro nas provas, é invariavelmente o registo do triunfo da convicção sobre a realidade. É por ser tão difícil e arriscado julgar suspeitas de crimes que a civilização republicana e liberal inventou um sistema repleto de equilíbrios, garantias e oportunidades para se corrigirem eventuais erros. A logística gongórica do universo judicial nasce do nosso amor à liberdade. Quem declara que não devemos esperar pela Justiça para fazer julgamentos políticos não gasta uma caloria a defender a liberdade.

Conseguir impor a um político a condição de arguido, fosse qual fosse o processo em causa, seria sempre uma festa para os seus adversários. Não só, dada a morosidade da Justiça, ficaria politicamente condicionado e enfraquecido por muito tempo como haveria danos indeléveis na sua reputação. O que está acontecer, todavia, ultrapassa os sonhos mais delirantes da direita e dos inimigos de Sócrates, muitos deles dentro do PS, pois a “Operação Marquês” envolve suspeitas de corrupção e já castigou Sócrates com uma prisão efectiva. Só que ainda não chega para satisfazer os desejos de vingança, transtornos de ódio e puro oportunismo partidário. Destruir Sócrates, para além do êxtase bacante da experiência e dos danos causados ao PS, é também a única forma da direita decadente se afirmar diariamente, horariamente, ao minuto, posto que nada mais têm para dizer (excluo Rio e seu projecto do bando dos pulhas e broncos). Nesta lógica, a “Operação Marquês” é um processo político desde Julho de 2014, meses antes da sua detenção, quando material das investigações foi usado para interferir nas eleições em curso no PS entre Seguro e Costa usando-se a Sábado para o efeito. Quem decidiu fazer essa violação do segredo de justiça estava tão confiante, ou já tão desiludido, que nem sequer se importou com os eventuais efeitos nos suspeitos de se anunciar que estavam a ser investigados. A pulsão e agenda políticas dentro da Justiça portuguesa foram muito mais fortes do que a responsabilidade, o dever e o cumprimento da lei.

O Ministério Público decidiu fazer da “Operação Marquês” um megaprocesso. Foi mais um castigo aos acusados e uma opção puramente política. Tão política que atenta contra o bom senso judicial e cívico, pois o trânsito em julgado poderá demorar uma década ou mais. Quando se olha para o que Sócrates gastou em numerário, no que alega serem empréstimos e que até poderá já ter pago na totalidade ou em grande parte, e depois se relaciona esse valor com as quantidades de dinheiro usadas nas teses do MP, vemos que a acusação aposta tudo na prova indirecta e no clima de pressão mediática e opressão popular sobre os juízes. Exacto, é a política no seu pior.

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa – Caso prático

O caso de Manuel Pinho, divulgado esta semana, em que o antigo ministro da Economia foi acusado de receber avultados pagamentos do BES através de offshores enquanto estava no Governo não podia ser mais oportuno para os justiceiros – e a prova de que tinham razão [...]

Vicente Jorge Silva

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Como regista o Vicente, a publicação de informações sobre Manuel Pinho no auge do protesto contra os crimes cometidos pela SIC e CM ao passarem vídeos de interrogatórios teve um duplo objectivo: abafar o escândalo e validar a violência e o crime cometidos pelos jornalistas e empresas que representam. Essas informações não foram descobertas por coincidência nesta altura, alguém as tinha guardadas e achou que esta era uma situação em que seriam valiosas para a sua agenda política.

Há uma história por contar que talvez nunca venha a ser contada, a começar por não haver quem para tal. É a história da estratégia de comunicação da Procuradoria-Geral da República ao gerir as informações que possui, as suspeitas que se podem construir com elas e o calendário do vazamento das calúnias (que é a sua tipologia final na imprensa, se é que não é logo na fonte da Justiça que as prepara) de forma a fazer do espaço público um palco de batalha decisivo para o condicionamento político e judicial do processo da condenação de Sócrates e quem mais conseguirem apanhar de forma a agravar a sua pena. Para os órgãos de comunicação social cúmplices, as vantagens são variadas e óbvias.

Se ao menos tivéssemos um poderoso grupo de comunicação social como propriedade do militante número 1 do PS, ou um grupo de comunicação social especialista em tabloidismo e perseguição ao PSD, ou um jornal de um empresário em modo de vingança contra um político de direita ou algum magistrado, entre outros notáveis exemplos que preenchem a paisagem mediática. Mas népias. Talvez se convença uns putos do Secundário a fazer um trabalho sobre o assunto onde eles mostrem se a liberdade de imprensa deve servir para destruir as liberdades individuais.

Serviço público

Uma PGR que nunca leu Kafka – ou a Constituição

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ADENDA

Aproveito a boleia da Fernanda pois queria escrever sobre Carlos Filipe Preces após tê-lo visto no “Prós e Contras” de 23 de Abril a repetir a cassete política da facção mais perigosa do Ministério Público, aquele grupo (minoritário ou maioritário?) de procuradores que cometem crimes. Este grupo, de que o SMMP é a corporização institucional, desenvolveu uma cartilha onde se apresenta como vítima da classe política, dos advogados e dos arguidos. Nunca admitem qualquer responsabilidade pelas disfunções judiciais e rapidamente estão a acusar terceiros por aquilo que a própria lógica obriga a relacionar só com os agentes de Justiça. A grande ambição destes funcionários do Estado que se sonham generais é a captura da Judiciária, órgão que pretendem controlar para finalmente ficarem com a República na mão. O discurso que repetem com a soberba dos impunes ganhou um acrescento medonho há uma semana quando este Preces desatou a exibir o seu profundo desprezo pela Constituição. O texto acima ligado, escrito por quem foi e é e será vítima dos crimes cometidos na Justiça e na imprensa portuguesas, detalha as vexantes afirmações do procurador armado em vedeta.

Mas quem é este Preces? Trata-se do xerife que apanhou o sucateiro e o Vara, ostentando a medalha de ter conseguido a condenação dos 36 arguidos. Titular do inquérito do “Face Oculta” no Departamento de Investigação e Acção Penal de Aveiro, foi metido no dream team do Rosário Teixeira para agora repetir a façanha com a mãe de todas as condenações. De Aveiro traz a experiência de ter escutado ilegalmente um primeiro-ministro em funções e de ter tentado lançar uma golpada judicial em cima da campanha eleitoral para as legislativas e autárquicas de 2009. Sabemos que se tratava de uma golpada porque confiamos na palavra de Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento quando fizeram cumprir a Lei e quando explicaram o que estava em causa. E continuamos a saber que se tratou de uma golpada quando, passados 9 anos, ninguém usou essas escutas para nada que ultrapassasse a calúnia. Aliás, o caso foi definitivamente encerrado pelo Ministério Público ao desistirem de incluí-lo na acusação da “Operação Marquês”.

O Preces percebe de corrupção. Sabe que é o nosso maior problema, muito maior do que a pobreza, a educação, a saúde, a economia, o envelhecimento, a ecologia, a violência contra as mulheres, a qualidade do patronato. Embora nunca apresente qualquer número, qualquer dado objectivo, qualquer fonte consultável que permita medir a sua dimensão e efeitos, pretende fazer da luta contra a corrupção o desígnio nacional. E tem um método cuja eficácia é milenar, havendo sido testado nos mais variados cantos e recantos deste planeta: tratar as testemunhas como suspeitos, os suspeitos como criminosos, os criminosos como párias. Ora, para além do Kafka, há um outro falante de alemão que vem ao caso ao tropeçarmos no à-vontade da sua lábia, de seu nome Carl Schmitt. Este amigo também não ia muito à bola com a civilização liberal e seu gosto em gatafunhar constituições cheias de direitos e garantias. Pelo que desenvolveu uma teoria onde tornava tudo muito mais fácil, bastando passar a identificar quem é que numa dada sociedade tinha o poder para estabelecer um “estado de excepção”, situação em que os códigos legais ficavam suspensos ou eram abolidos por uma razão qualquer (por exemplo, catástrofe natural ou guerra). Aquele que tiver esse poder será o soberano. E o soberano, como ensina Hobbes, não só pode como deve fazer o que lhe der na gana.

Saltemos para o Preces, o Rosário, o SMMP e a Joana. Polvilhemos com o Carlos Alexandre. A forma como fizeram de Sócrates um cidadão sujeito a um estado de excepção, o qual começou no facto de ter sido preso para ser investigado e de ter continuado preso sem legitimidade, e o modo como se revelam coniventes com os crimes ininterruptos e cada vez mais graves que ocorrem no universo judicial e mediático da “Operação Marquês”, tudo isto é carlschmittiano. É uma exibição de soberania. Não estão acima da Lei porque já não precisam dessa ginástica. Basta-lhes usar a palavra “corrupção” para reinarem nesta choldra.

Revolution through evolution

Aging: The Natural Stress Reliever for Many Women
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Study highlights need for strength training in older women to ward off effects of aging
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Let it go: Mental breaks after work improve sleep
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Dark chocolate consumption reduces stress and inflammation
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Weather associated with sentiments expressed on social media
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Children are as fit as endurance athletes
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Study Suggests Older Surgeons Produce Lower Mortality Rates in Emergency Procedures
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Magnífico

A insustentável leveza dos filmes do senhor procurador

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ADENDA

Pulhas e broncos (esses estados tendem a aparecer juntos, simbióticos, mas também existem especímenes puros) têm agitado o caso Watergate como justificação para os crimes cometidos por agentes da Justiça, jornalistas e empresas de comunicação social ao violarem o segredo de justiça e, agora, ao violarem direitos fundamentais dos acusados e de testemunhas na “Operação Marquês”. Tudo estaria a ser feito à americana, garantem, imitando o melhor exemplo do jornalismo de investigação inscrito na História. Ai, sim?

No Watergate, o jornalismo denunciou uma situação em que o Estado de direito estava a ser violado inaudita e gravemente. Enfrentando pressões do poder político governativo, a imprensa cumpriu-se como baluarte dos valores que associamos à civilização onde queremos viver: democracia, legalidade, coragem, liberdade. Por causa desse serviço público em nome da comunidade, as instituições dos EUA puderam punir os responsáveis e restabelecer a ordem constitucional.

Na “Operação Marquês” faz-se apenas uma exploração mediática do aparato judicial à volta de José Sócrates, principalmente, e de quem mais tenha sido apanhado no processo e sirva para atacar Sócrates e/ou o PS. A Justiça reuniu recursos colossais para tratar do caso e as decisões judiciais têm sido na sua quase totalidade contrárias às pretensões da defesa. Inclusive, temos direito a um juiz de instrução que declarou publicamente o seu asco contra o então arguido à sua responsabilidade. As informações que invadem o espaço público transitam quase todas do próprio Ministério Público através de uma imparável actividade criminosa no seu seio. As empresas de comunicação social para quem o caso é uma fonte de receitas e de combate político não fazem investigação pois já nada há para investigar – ou nunca houve. O exemplo dos casos passados a envolverem Sócrates em matérias judiciais, nos quais nunca foi constituído arguido mas que continuam a servir para campanhas de assassinato de carácter e para teorias da conspiração, é elucidativo do que agora também se passa. Estando esses processos (Freeport, Licenciatura, Casas na Guarda, Cova da Beira, sei lá que mais) à disposição de quem os quiser consultar, não foram reabertos nem apareceram quaisquer demonstrações de irregularidades na sua investigação e desfecho. A imprensa portuguesa, aliás, não nos oferece a menor recordação de ter sido autora de investigações relevantes, sequer sugestivas, acerca da tal corrupção que tudo invadiu desde 2005 e que só foi interrompida em 2011 graças à gente séria do PSD e CDS, como dizem os caluniadores profissionais a ganharem o pão com o suor da sua canalhice.

Se calhar, os bravíssimos jornalistas que dependem da actividade criminosa para mostrarem serviço poderão lamentar-se de não ter existido uma “Garganta Funda” no período socrático, daí nada terem descoberto. É uma hipótese. A outra remete para certas convivências e práticas “Por Detrás da Porta Verde”. Verde de BES, um filme obsceno acerca das orgias entre a finança e os jornalistas do qual nem sequer o trailer é do conhecimento público.

Isto não é não jornalismo não é não isto

«É jornalismo por estar editado, enquadrado e escolhido, expurgado do acessório, gratuito ou privado. Por ser feito por pessoas que acompanham o caso desde o início, jornalistas altamente especializados, que leram tudo o que existe no processo, que já falaram com os envolvidos, que sabem distinguir o trigo do joio, que fazem escolhas, que editam e enquadram. Que fazem reportagem na rua, que fizeram dezenas e dezenas de trabalhos sobre este caso, que têm fontes, que contam histórias.»

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«A luta pela liberdade de imprensa e pelo direito à informação nunca acaba. E cruza-se, sempre, com outros direitos, num difícil equilíbrio que está na base de qualquer democracia. O jornalismo não pode abusar das suas prerrogativas, mas tem que ter sempre presente a sua missão principal, que é a de informar.»

Ricardo Costa

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O director-geral de Informação da IMPRESA escreveu um texto a justificar os crimes por si cometidos com a publicação de registos audiovisuais de interrogatórios. À mistura com ranger de dentes e mordidelas dadas em quem o denunciou publicamente como o traste profissional que é, conseguiu reunir umas vacuidades para embrulhar a irresponsabilidade e a soberba. Na primeira citação, recorre à falácia do argumento de autoridade. “Pessoas que acompanham o caso desde o início”, “jornalistas altamente especializados”, fulanos que isto e aquilo, estabelece, podem cometer crimes que devem ficar impunes. Na segunda citação, declara que a nossa Constituição deve ser anulada perante o exercício “de informar”. Informar o quê e como? Ora, aquilo que os tais indivíduos referidos na citação anterior decidirem quanto ao conteúdo e quanto à forma. Corolário: vivemos numa república de informadores.

Ricardo Costa seguiria o mesmo critério caso os interrogados fossem Balsemão ou amigos e familiares seus? Ricardo Costa publicaria escutas em áudio entre Marcelo e Ricardo Espírito Santo? Ricardo Costa irá tentar sacar as escutas entre Sócrates e António Costa, e quem mais tiver sido apanhado a falar de política ou da vidinha, em nome do óbvio – porque é óbvio – interesse do público em conhecer o que disse o actual primeiro-ministro àquele que o próprio Ricardo Costa considera ser uma ameaça tão grande à democracia que se justifica anular os seus direitos constitucionais?

O Expresso, recordemos, é o tal jornal que recusou publicar as provas de que Cavaco tinha organizado uma golpada mediática para perverter as eleições legislativas de 2009, a pícara “Inventona das Escutas”. A IMPRESA, pois, não pode ser acusada de falta de critérios jornalísticos. Dá-se é o caso de terem tantos que se podem dar ao luxo de irem usando um de cada vez ao sabor dos ventos e das correntes.

Ricardo Costa, de Einstein a Eisenstein

Nada supera, até ao momento em que teclo, o que aconteceu na entrevista dada por Pedro Cruz ao SMACK, publicação digital do Grupo IMPRESA destinada a “um público maioritariamente jovem, um público que procura saber sempre mais, em mobile ou nas redes sociais“. Nada supera esse espectáculo se a intenção for a de vermos à transparência o que está na origem dos crimes cometidos pela SIC ao ter publicado excertos dos interrogatórios na “Operação Marquês”.

Este senhor é subdirector da informação na SIC. Ao longo da entrevista viola o Estatuto e o Código Deontológico dos Jornalistas. E ainda insulta e mente. Sempre a rir, sempre na maior, ufano e frenético.

Dois exemplos de arrebimbomalho:

i)

Pedro CruzA mim pouco me importa com quem é que dorme o José Sócrates, embora isso esteja lá nas escutas.

Menino De zero a dez, quão delicioso foi ouvir essas escutas nos bastidores?

Pedro Cruz Eu não as ouvi, infelizmente ou felizmente...

MeninaJá ouvi dizer que há coisas ainda mais juicy do que aquelas que podemos ver, mas que...

Pedro CruzA seu tempo...

MeninaA seu tempo?! Vamos ver mais?! Vamos ter mais coisas?!

Pedro CruzÉ possível, é possível, é possível!

ii)

Pedro CruzQuando José Sócrates diz «Ai, eu não trato o Ricardo Salgado por tu, nem ele a mim, ele chama-me senhor primeiro-ministro» e cola com «Ó Zé, 'tá bom?». Portanto, é mentira o que ele está a dizer e nós mostramos que é mentira.

No primeiro, vemos três abutres à volta de um cadáver. Está um festim a decorrer. A carne é dilacerada e engolida furiosamente. O subdirector da SIC anuncia que o cadáver tem carne ainda mais saborosa lá para dentro, fundo no corpo inerte. Os dois abutres pequeninos começam logo a salivar e abrem as suas boquinhas para largarem gritos de excitação. Onde? Onde? Onde está essa carne tão tenrinha, tão gulosa? Quero! Quero! Quero! O abutre velho aproveita para ensinar as virtudes da paciência aos filhotes. A seu tempo, diz ele. Estas coisas têm o seu tempo, e a arte de engolir um cadáver passa por guardar o melhor para o fim. Como isso de saber com quem é que o Sócrates dorme, né? Vá, calma. É que tudo é possível quando se é um abutre disfarçado de jornalista, remata o Pedro Cruz perante o olhar embevecido dos dois abutrezinhos.

No segundo, estamos perante uma montagem. Pegaram na passagem do interrogatório onde Sócrates declara que enquanto primeiro-ministro (2005-2011) Ricardo Salgado tratou-o invariavelmente com o formalismo, protocolo e etiqueta inerentes à sua função e colaram-lhe uma escuta de 2014 em que o Ricardo começa por reconhecer que se enganou no número (não queria falar para aquele “Zé”=José). Nada de nada de nadinha de nada do que é dito nessa conversa foge do convencional entre duas pessoas que mostram ter uma relação moldada por uma estima superficial e distante, duas pessoas apanhadas numa situação imprevista, irrelevante e algo constrangedora pois não era suposto o telefonema ter existido. Pedro Cruz, autêntico xerife do jornalismo da SIC, trocou o respeito próprio pela pontaria e crivou de balas o bandido. Sócrates mente porque a SIC assim o decidiu através daquela arte sem a qual não poderíamos desfrutar dos filmes: a montagem.

Dá para esquecer Balsemão e restante administração da IMPRESA, os quais lavariam as mãos dizendo que os seus jornalistas têm absoluta liberdade para exercerem a sua profissão como acharem melhor. E também esquecermos esta ridícula e degradante figura de seu nome Pedro Cruz, posto que não passa de uma peça menor na engrenagem. De quem importa falar é de Ricardo Costa. Depois do que vimos o Expresso fazer com a devolução da sobretaxa nas vésperas das legislativas de 2015, com o número de mortos em Pedrógão, com um inexistente protesto de militares e com um relatório fantasma dito das secretas onde se pretendia abater o ministro da Defesa, é óbvio que estamos perante um Einstein da imprensa, um génio que desenvolveu a sua própria Teoria da Relatividade. Informar com rigor e isenção, rejeitando o sensacionalismo e demarcando claramente os factos da opinião? É relativo. Procurar a diversificação das suas fontes de informação e ouvir as partes com interesses atendíveis nos casos de que se ocupem? É relativo. Abster-se de formular acusações sem provas e respeitar a presunção de inocência? É muito relativo. Abster-se de recolher declarações ou imagens que atinjam a dignidade das pessoas através da exploração da sua vulnerabilidade psicológica, emocional ou física, e não recolher imagens e sons com o recurso a meios não autorizados a não ser que se verifique um estado de necessidade para a segurança das pessoas envolvidas e o interesse público o justifique? Ui, isso é bué relativo, foda-se, solta o Ricardo enfastiado com a seita do Estado de direito democrático, essa religião funesta que persegue os jornalistas impolutos na posse da verdade.

Com este último número da publicação dos interrogatórios a Sócrates, arguidos e testemunhas, o Ricardo apresenta-se agora como a mais exuberante reencarnação de Eisenstein, o mestre da montagem em cinema. Aquilo que vemos no exemplo do fragmento das declarações de Sócrates quando interrogado a ser colado a um telefonema sem qualquer ligação legítima com a situação conduzida pelos procuradores é uma perfeita execução da chamada montagem ideológica ou intelectual. Eisenstein descobriu que uma sequência de planos aparentemente díspares resultava numa operação cognitiva que produzia um sentido no espectador que estava ausente das peças tomadas isoladamente. Este filão de automatismos narrativos permitiu elevar o cinema a um estatuto artístico superior, sendo considerado um dos pilares estruturantes da 7ª arte e de toda a ficção audiovisual. A pergunta a fazer é, pois, a seguinte: qual a ideologia que o Ricardo Costa pretende espalhar entre a malta ao fazer uma montagem que inventa uma mentira acerca de dois cidadãos servindo-se dos meios de divulgação que o seu patrão lhe oferece para se ir mascarando de jornalista? A resposta não é bonita, mas desconfio que dava para realizar um filme de terror.