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Na sombra dos inúteis

Antes dos incêndios de Pedrógão, os bons resultados do Governo estavam a deixar a oposição (a oficial partidária e a oficiosa jornaleira) em crescente e sofrido desespero. Como vimos noutras conjunturas, e que não será exclusivo da direita mas talvez muito mais frequente nela por razões antropológicas, nesse estado qualquer boa notícia para o País é sentida como mais um golpe na auto-estima, mais uma ameaça à identidade dos infelizes que estão reduzidos ao maniqueísmo compulsivo. A vitória da Selecção no Campeonato da Europa ficava como um azar, a vitória de Portugal na Eurovisão como propaganda, a entrada de cada vez mais turistas como uma das trombetas do Apocalipse. A bílis correu caudalosa à medida que o Diabo não aparecia, sequer nos pequenos detalhes, e em que o sucesso na Economia, no Parlamento e na Europa deixava Costa como um semideus capaz de mover montanhas e fazer milagres. Este era o tempo em que o actual primeiro-ministro tinha já encomendada a estátua de maior habilidoso na política nacional desde as cortes de Lamego.

Veio Pedrógão, impossível de prever e de evitar. Veio Tancos, que continua em investigação sem qualquer nexo causal ou relacional com o Ministério da Defesa. Veio Outubro, aqui com falhas óbvias na governação e, especialmente, com a hérnia do regime chamada Marcelo. De repente, Costa era mais bisonho do que um recém-filiado na juventude do PURP (Partido Unido dos Reformados e Pensionistas). O que passava a dizer e o que deixava calado só adensava o peso da sua incompetência. E com isso espalhou-se um sentimento de alívio, de júbilo, de frenesim na oposição partidária, na oficiosa e na de ocasião. Todo o cão rafeiro aproveitava para morder no primeiro-ministro e seu bando de ministros, gente do pior. Se fossem sérios andavam era a trabalhar, não se metiam naquilo, eis o sumário executivo que a comunicação social entretanto completamente tabloidizada (só varia no grau) acredita que chega para vender papel e cliques.

E Costa, no meio disto? Sou insuspeito, pois não lhe aprecio o estilo e certas decisões, certas companhias. Mas é cristalina a sua alta qualidade de estadista e de servidor público. Ao se oferecer para o cargo de primeiro-ministro, para lá da motivação subjectiva que poderá nunca vir a ser conhecida publicamente ou só daqui a muito tempo, o que mais impressiona é a radical diferença entre a complexidade e esforço da sua função e a displicência e irresponsabilidade dos directores de imprensa, jornalistas-comentadores e demais publicistas com poleiro em órgãos profissionais e ditos de “referência”. São pessoas que, muito provavelmente, nunca aceitariam passar por experiência similar, ou que lá chegadas não aguentariam nem a milionésima parte do que o currículo de Costa prova que aguenta. Todavia, cagam sentenças a metro e ao peso, saturando a mancha da opinião publicada na imprensa escrita e audiovisual. Aliás, são os mesmos aqui e ali, ubíquos e repetitivos. A sua produção verbal é uma logomaquia narcísica – inevitáveis e salubres excepções à parte. Sem saberem, sem olharem para o chão que os suporta, na sombra dessa montanha diária de sectarismos e inanidades refulge imperceptível a heróica vocação daqueles que aceitam sujar as mãos e a esperança nas muralhas da cidade.

À série


2017_Pedro Bidarra_1ª temporada

A série A Criação dá que falar. Dá para dizer que não gerou conversas públicas. Que se tornou um alvo do Correio da Manhã, continuando um ataque anterior ao autor que também pretende atingir a actual direcção da estação pública e a sua reputação. Que mostra um mundo de difícil descodificação para quem não for do meio publicitário ou do marketing. Que apresenta alguns episódios iniciais com muito boa qualidade de produção. Que tem uma realização brilhante quando tem espaço para isso. Que está mal escrita, pois é raro ter graça ou pertinência, e porque não tem interesse dramático. E que fica como um notável insucesso que, apesar disso, permite aplaudir a política de investimento na ficção televisiva nacional que a RTP tem promovido.

É fácil dizer bem do conceito e mal da intenção. Retratar os tipos das agências e dos “clientes”, com os seus traços característicos, maneirismos e anedotas associadas, pode dar uma série televisiva com popularidade. Optar pela farsa e pela sátira, usando a caricatura animal como abstracção e subtexto, continua a ser viável mas obriga então a uma profundidade narrativa de elevada complexidade se a ideia ainda for a de servir públicos eclécticos. Mas apenas ter como alimento no enredo um incurável ressentimento contra a classe onde se foi rei não é suficiente para puxar a carroça. Esta série é intencionalmente ordinária e ressabiada, primária e infantilóide, uma catarse que se esgota na tortuosa persona profissional do Pedro. O seu maior pecado, porém, consiste na pobreza criativa que exibe enquanto história.

A classe dos publicitários portugueses é conservadora, discreta e está praticamente destruída pela crise económica e pelas alterações tecnológicas. Acontece nesta indústria o mesmo que vemos nos jornais, o fim de um paradigma por causa das alterações sistémicas no consumo da informação e nos modelos e processos das trocas sociais. O Pedro saiu de cena quando as regras do jogo mudaram, o dinheiro já não corria nos canos por onde passara durante décadas de boa vida para esses artesãos das micro e nanonarrativas. Enquanto pôde impor a sua visão, ele destacou-se por combater furiosamente a ignorância e a banalidade a que produtores, gestores e decisores dos reclames se agarram inevitavelmente por medo do que é novo, forte, arriscado. Se voltar a ser autor de ficção televisiva, ou cinematográfica, ou teatral, tem no seu passado a bússola que faltou neste projecto. Ou seja, já tem em si o essencial. O resto é só a criação.

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Os 10 episódios prontos a servir aqui

RESSALVA

Trabalhei com o Bidarra durante quase dois anos numa agência de publicidade, embora em departamentos diferentes. A relação entre essa experiência e as opiniões acima vertidas não é mera coincidência.

Vamos lá a saber

A biografia de António Mexia é, de facto, o retrato do regime nestes últimos 30 anos, entre crises e euforias, surdas conspirações, densas manobras de bastidores, movimentos ocultos, cumplicidades e traições, e milhões, sempre milhões, no princípio e no fim de tudo. Dava uma peça de teatro ou um thriller sem tempos mortos.


Miguel Sousa Tavares

Do que fala quem assim fala? E quais poderiam ser os títulos para essa peça de teatro ou filme de emoções fortes?

Revolution through evolution

We overstate our negative feelings in surveys
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Ancient fossil microorganisms indicate that life in the universe is common
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How singing your heart out could make you happier
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A single sand grain harbors up to 100,000 microorganisms from thousands of species
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How Much People Earn Is Associated with How They Experience Happiness
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Walking more than 4,000 steps a day can improve attention and mental skills in adults ages 60 and older
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How Do You Spot a Russian Bot? Answer Goes Beyond Kremlin Watching, New Research Finds
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Corrupção da comunidade

Chocou-a algumas das revelações desse caso?
Chocam-me. Absolutamente. Houve sempre ao longo do mandato de Sócrates, a partir de certa altura, muitas desconfianças. O caso Freeport. Aí, a Justiça não se ajudou a si própria. Hoje percebemos que isso foi uma reação dos magistrados porque, de cima, o procurador-geral [da República, Pinto Monteiro] os impedia de fazer isso. E, sobretudo, naquela altura em que estavam indubitavelmente sob controlo de um procurador que estava ao serviço do poder político. E eu disse-o várias vezes. Porque foi exatamente isso que concluí que foi atuação do procurador Pinto Monteiro, quer no caso dos voos da CIA, quer no caso dos submarinos, depois mais tarde percebemos que foi também essa a situação no caso do Freeport, no caso Face Oculta, etc.


Ana Gomes

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Ana Gomes repete e expande uma das calúnias preferidas da direita, a de que Pinto Monteiro protegeu Sócrates e impediu que diversos procuradores o tivessem constituído arguido nos vários casos onde o Ministério Público investigou assuntos onde aparecia referido de alguma forma. A parte em que expande a calúnia é quando coloca Pinto Monteiro a igualmente proteger Portas nos submarinos, fazendo dele um corrupto para todo o serviço ao serviço de corruptos de todos os tipos.

Estas declarações são vexantes. Pela imagem que espalham de completa falência do Estado de direito, do sistema político, do regime e da sociedade. Quem assim fala é alguém que anda desde o começo da década de 80, e em permanência, a ser paga pelo Estado e a assumir variadas funções com alta responsabilidade política. Alguém que, em simultâneo, criou uma pose de frontalidade na denúncia de abusos e da “corrupção”. Com que resultados?

Estas declarações são espantosas. Primeiro, pela forma falaciosa como se constituem e despacham. Será que Ana Gomes desconhece a estrutura e poderes fácticos da Procuradoria-Geral da República, já para não falar nas leis do Código Penal? Em que indícios, vamos esquecer as provas, se baseia para dizer publicamente o que diz e com a certeza com que o diz? Admito que possa ter informação que não é pública, mas então já a entregou à nova Procuradora-Geral da República, ou também a considera criminosa, ou não acha importante investigar o que fica como um dos maiores corruptos da História, esse tal de Pinto Monteiro, a acreditar na sua denúncia?

O espanto continua quando contemplamos a dimensão da acusação de Ana Gomes. Ela está a reclamar um conhecimento, uma autoridade, que não registámos em mais ninguém com responsabilidades institucionais nos períodos a que se refere. Segundo a senhora, Pinto Monteiro, de uma forma que não sente necessidade de explicar como, ameaçava ou aliciava diversos magistrados, sempre sem deixar provas ou então deixando-as para outros as fazerem desaparecer, e o Ministério Público ficava transformado numa extensão da roubalheira gigantesca dos governantes sem que ninguém, nem Cavaco ou partidos, juízes ou jornalistas, conseguisse parar, sequer denunciar, o festim. Até o BE e o PCP foram cúmplices dos bandidos de acordo com as suas palavras.

Finalmente, é espantoso que Ana Gomes repita esta cassete, de uma forma cada vez mais desvairada e alucinada, e não seja obrigada a assumir a responsabilidade pelo que está a fazer no espaço público. Nem no Ministério Público nem no PS, nem no Parlamento nem na comunicação social se observa qualquer incómodo. É como se o que ela está a descrever não tenha importância ou já seja consensual. Que num órgão de baixa política apareça a dizer isto sem contraditório nem módico respeito pela realidade e pela lógica, não surpreende. Que a Justiça e o PS premeiem com a sua passividade e indiferença tal conduta, eis um exemplo cristalino de corrupção da comunidade.

Já só conseguem ladrar e cuspir, é a miserável direita que temos

“Sem mais esclarecimentos, a nossa posição só pode ser frontalmente contra este negócio, que achamos pouco esclarecido, pouco transparente”, revelou a líder do CDS.

A culpa da obscuridade deste negócio? É do Governo. “O Governo tem a tutela da Santa Casa. E a Santa Casa, obviamente, não faz um negócio sem passar cartão ao Governo - como o Governo quer fazer crer. Veja as relações entre a Santa Casa, o Montepio e o atual provedor da Santa Casa e as dúvidas ainda se adensam mais”, atirou Assunção Cristas.

“Olhe para quem está de um lado, olhe para quem está do outro. Olhe para a grande família socialista. E no fundo, o que me é dado pensar, é que isto é tudo elaborado com muita facilidade entre uns e outros, chegando a soluções que não têm os reais interesses dos portugueses em primeiro lugar”, reiterou.


Cristas suspeita de interesses da “família socialista” na entrada da Santa Casa no Montepio

A notícia que o David Dinis não quis dar

«Um jornalista nunca põe a mão no fogo por um ministro — essa é a regra número um no trabalho que fazemos. Mas tem a obrigação de ser justo, não fazendo um julgamento público com a leviandade com que se grita numa rede social ou num estádio de futebol.»


David Dinis

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Sei o que levou esta personagem para o DN do Marcelino, para o Sol e para o Observador, e chama-se Durão Barroso (não pelo efeito cunha, disso nada sei nem alvitro, mas pela osmose ideológica e cultural, pela disponibilidade para usar a carteira de jornalista ao serviço da luta política). Já não sei bem o que queriam dele na TSF, apenas suspeito, e volto a saber bem o que querem dele no Público. Querem alguém intelectualmente medíocre mas habilidoso no controlo da linha editorial. Alguém que convive sem insónias com uma postura hipócrita e cínica.

Esta ideia de que a “regra número um no trabalho” de um jornal dito de referência é nunca pôr a mão no fogo por um ministro começa por causar perplexidade. Que raio de conexão é esta? De onde vem e para onde vai? A qual, logo de imediato, se transforma em pavor: qual será a regra número dois? Não pôr a mão no fogo por um secretário de Estado? E por aí abaixo até aos motoristas, contínuos e cozinheiros ao serviço do Estado? E quanto aos Presidentes da República e Presidentes da Assembleia da República, onde meter as mãozinhas? E no que toca a juízes, aí no jornal da Sonae lavam as mãos? Estamos no reino da estupidez, claro, mas não só nem o mais importante. Para todos os efeitos, a prosa surge assinada pelo director do Público e como editorial. Ele está a falar em nome da instituição, da redacção, dos accionistas. E declara que os ministros são, entre todas as entidades públicas e privadas, aquelas que mais desconfiança devem gerar num jornalista. Porquê? Não explica, claro. Até porque não tem explicação. Mas tem um corolário, a admissão implícita de que o jornalismo tal como o Dinis o concebe admite colocar a mão no fogo por alguém desde que se garanta não ser ministro. E com isto chegamos ao fim da primeira frase da citação.

Na segunda, o director mete-se num foguete e parte para um planeta distante onde também se vende um jornal chamado Público que, felizmente, cumpre a “obrigação de ser justo” e tem asco a quem faça nas suas páginas “um julgamento público com a leviandade com que se grita numa rede social e num estádio de futebol“. Não é essa a paisagem no Público do nosso planeta, como os textos do Manuel Carvalho, São José Almeida, João Miguel Tavares, Francisco Teixeira da Mota e até do Vicente Jorge Silva exibem, entre outros menos assíduos nessa praxis. A coberto do escudo “opinião”, despacham “julgamentos públicos” com muito mais leviandade do que a daqueles monstros que gritam nas luciferinas redes sociais e nos degradantes estádios de futebol. É que esta mole de zombies berra para o vácuo e o que diz é devorado pelo esquecimento e indiferença no acto mesmo de ser expelido, enquanto as vedetas do comentariado utilizam o prestígio e poder de difusão dos órgãos onde soltam os seus ódios e perseguições, ambicionando influenciar a opinião pública e o jogo político. Daí não se calarem no vitupério contra as “redes sociais”, as quais lhes aparecem como competição desonesta no mesmo mercado, um caso de dumping na indústria da calúnia.

Testemos a duplicidade e vacuidade do Dinis com uma notícia em vez das gordurosas e impuníveis opiniões. Por exemplo, esta: Costa diz que 2017 foi um ano saboroso, Marcelo acha que é preciso haver memória. Vem assinada pela Sónia Sapage e pela Lusa, apropriadamente inserida na secção INCÊNDIOS. Quem ler a apresentação que a Sónia faz de si mesma – aqui – fica com a certeza de que a senhora, em matéria de jornalismo, sabe o que faz. Pois bem, que fez na notícia em causa? Basta a primeira linha da “notícia” para nos enterrarmos num exercício de intriga e chicana. Para a jornalista orientada pelo seu director, notícia é aquilo que permita publicar interpretações subjectivas com sensacionalismo. As suas ou as do Presidente da República, não temos forma de saber pois as afirmações citadas de Marcelo não nomeiam Costa nem referem a sua expressão. Contudo, resgatando a possível honestidade intelectual da jornalista, se ela acreditou para além de qualquer dúvida estar perante um comentário de Marcelo a uma expressão usada por Costa em Bruxelas relativa a algo que não tinha nada de nada a ver com incêndios e tragédias, então havia uma notícia a dar, de facto. Era esta: temos um Presidente da República volúvel que emprenha pelos ouvidos e fica tão descontrolado que chega a afrontar outro órgão de soberania com comentários calhordas e asininos.

Apesar dos pulhas, a democracia ainda é a mais bela flor da liberdade

No final do mês passado, assistimos a um episódio no Parlamento que deixou sem reacção o comentariado nacional (mas posso estar a errar, agradecendo a correcção). Ocorreu com Jorge Lacão, o qual viu o seu nome chumbado pela segunda vez numa votação para o Conselho Superior de Segurança Interna. O que torna esse resultado especialmente significativo é a existência de um acordo entre PS e PSD para a sua eleição. Não obstante, em 225 votantes, 76 deputados entregaram o boletim em branco e 18 tiveram a presença de espírito, e a criatividade, para transformarem o papelucho nalguma coisa que teve de ser considerada nula. Aparte: adorava que se conseguisse fazer um livro com a história dos votos nulos no Parlamento, para descobrir se os deputados nesses transes anárquicos também grafam insultos e caralhadas, à mistura com hipertrofiados Zé Bastos, ou se deixam citações de Cícero, Maquiavel e Churchill (ou Marx, Estaline e Mao Tsé-Tung).

Ora, 18 deputados equivale ao grupo do CDS, registe-se a coincidência. E 89 menos 76 prováveis refractários deixa eventuais 13 deputados do PSD que respeitaram o acordo feito pelo líder da sua bancada; no caso de terem estado lá todos (faltaram 4 deputados no total dos grupos parlamentares, pelo que talvez tenham sido apenas 9 os deputados laranjas com respeito pela orientação de voto). Trata-se de uma especulação, pois o voto é secreto, mas no caso é uma especulação sem margem para dúvidas. A direita quis humilhar Lacão. E porquê? As notícias que relataram a votação não apresentam qualquer laivo de causalidade, sequer comentários anónimos com testemunhos ou hipóteses sobre o fenómeno. Os jornalistas portugueses não tiveram pachorra para perder tempo com tão desprezível defunto ou foram avisados para não fazerem perguntas, terceira opção excluída.

Acontece que não existe nada na biografia e currículo de Lacão que o torne impróprio para cumprir funções na CSSI. Será ao contrário, dada a vasta experiência parlamentar e governativa deste deputado. Pelo que somos obrigados a ir buscar a única explicação que oferece racionalidade no contexto: Lacão foi excluído de forma cobarde (no caso, o secretismo do voto é instrumento de canalhice) dado ser alguém sem medo de dizer o que pensa. Aconteceu-lhe, em Fevereiro deste ano, ter posto em causa a versão de Cavaco sobre o pedido de resgate em 2011 tal como aparece no livro “Quinta-Feira e Outros Dias”, mais acrescentando que estávamos perante um exercício de devassa por causa do relato de conversas privadas entre Cavaco e Sócrates. A vingança demorou 9 meses a nascer.

Há várias manifestações de perseguição e puro castigo sobre Sócrates, camaradas de partido e governação, e ainda qualquer um que seja apanhado no âmbito da “Operação Marquês” mesmo que não tenha tido cargos políticos. Uma das mais espectaculares é a de João Miguel Tavares sobre Domingos Farinho, estando o caluniador pago pelo Público em campanha para tentar prejudicar gravemente a vida particular do seu alvo ainda antes de este ser dado como acusado seja do que for – e perante a passividade, a inércia, a cumplicidade geral. Mas muitos outros jornalistas e publicistas fazem coro no mesmo sentido, dizendo-se indignados, escandalizados, por haver uns tipos que foram vistos ao lado de Sócrates e ainda andam por aí, inclusive no Governo e nas televisões. Se isto é assim às descaradas, o que não será na sombra, né?

Não podemos alegar surpresa ao contemplarmos a vingança como força motivadora no devir político e social. Vingança como expressão de uma prepotência sem nome e rosto ou como instrumento de comercialização do nome e rosto. Mas igualmente não devemos esquecer quem assim utiliza poder político e poder mediático. Especialmente nos casos, patéticos, em que aqueles que desprezam e violentam o Estado de direito ainda se macaqueiam como “liberais”. Estas pessoas não merecem castigo nem provar do mesmo remédio que espalham e vendem, merecem outro tipo de confronto. Basta que consigamos imitar o espírito democrático, apanágio dos que colocam a liberdade acima dos egoísmos e tribalismos, que as palavras de Lacão deixaram para quem tenha a sorte de poder admirá-las:

Declaração de Jorge Lacão, minuto 2:18

Revolution through evolution

Women Get Less Credit Than Men in the Workplace
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Common psychological traits in group of Italians aged 90 to 101
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How social networking keeps people healthy
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Disagreements can be a healthy antidote for biases
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Are societies more or less violent today than they were thousands of years ago?
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Action games expand the brain’s cognitive abilities, study suggests
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New research shows that blurring the boundaries between work and personal life can lead to exhaustion
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A direita portuguesa é isto, e isto é decadente

«A política é suja. Não é para meninos. Vencem os campeões da retórica. Ganha quem mais consegue brincar com as palavras.

E quando se trata de tentar explicar o inexplicável, o melhor é mesmo puxar de todos os truques. Três meses depois do roubo de material de guerra de um paiol de Tancos ainda tudo está por esclarecer.

Azeredo Lopes tem sido mais do que inábil a tentar justificar como é possível passar tanto tempo sem que haja uma pista, um culpado, um responsável. Mas tem sido muito hábil em lançar a confusão sobre o que se passou. ‘No limite, pode não ter havido furto nenhum’, chegou a ser uma das suas jogadas.»


João Vieira Pereira, 26 de Setembro de 2017

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O ministro não disse nada disso, Sr. Pereira. O ministro não lançou confusão nenhuma sobre o que se passou, sr. Director-adjunto do Expresso. Foi precisamente ao contrário. Mas para quem concebe a política como uma actividade suja tudo é projecção. Os outros, aqueles que não se grama, que assustam porque andam ao mesmo, transformam-se de adversários em inimigos. São políticos, logo sujos, e serão muito mais sujos do que nós dado nos estarem a querer tirar não sei o quê. Os outros é que fazem truques, os amigos e colegas do sr. Vieira não, coitados. É um grupo de santos e heróis que sofrem estoicamente os golpes sujos dos porcalhões, quase todos socialistas (todos mesmo, não sejamos económicos com a verdade).

Este passarão do império Impresa queria que o ministro da Defesa encontrasse “uma pista, um culpado, um responsável” pelas suas próprias mãos e num prazo que não beliscasse a sua impaciência. Se em Setembro se atrevia a expor em público uma estupidez deste calibre, temo que em meados de Dezembro, continuando o País à espera que as investigações das polícias civil e militar apresentem resultados, o sr. João ande de moca de Rio Maior na mão à caça de Azeredo Lopes.

Há uma direita decente, inteligente e corajosa. Infelizmente, não a conseguimos encontrar no PSD e CDS, apenas em ilhas discretas na comunicação social ou na academia.

Têm boas, excelentes, razões para estarem apavorados

Ver PCP e BE a serem críticos do Governo e do PS mantendo o apoio que permite a governabilidade é o melhor espectáculo serviço que a democracia portuguesa oferece desde que me considero um ser político. Para além das consequências de tal conjuntura, há um trabalho intenso de negociação nos bastidores que trará uma alteração cultural do lado de bloquistas e comunistas. A República, isso que é nosso, pede uma democracia onde os sectarismos estejam reduzidos à expressão mínima ou desapareçam. Afastado o sectarismo, o qual se alimenta de fanáticos e seus delírios obsessivos, fica a negociação como arte da política, argamassa da coesão comunitária.

Não admira que à direita, a qual tem apostado tudo desde 2008 no radicalismo violento e castigador onde a política se reduz ao ódio, haja um estado de completo pavor perante a perspectiva de termos PS, PCP e BE em condições de repetirem esta união de responsabilidades nas próximas legislaturas.

Revolution through evolution

LGBQ* Women’s Sexual Desire Particularly Impacted by Social and Cultural Pressures
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Prehistoric women had stronger arms than today’s elite rowing crews
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Mindfulness meditation can offset the worry of waiting
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Humble sponges are our deepest ancestors: Dispute in evolutionary biology solved
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In first, 3-D printed objects connect to WiFi without electronics
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Storytellers promoted cooperation among hunter-gatherers before advent of religion
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Copy of ‘Jesus’ secret revelations to his brother’ discovered by biblical scholars
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Política da terra queimada

Está a acontecer na Califórnia algo similar ao que aconteceu em Portugal em Junho e Outubro: incêndios cuja tipologia devastadora, com uma velocidade de expansão muito maior, resulta de alterações climáticas para as quais ninguém, nem os americanos, se preparou, e perante os quais ninguém, especialmente os americanos, sabe como se preparar.

Em Portugal, oposição à direita e comunicação social de referência (passe a anedota) cavalgaram a onda da fúria emocional e da culpabilização dos malandros do costume. Primeiro, por causa do contexto eleitoralista, no caso de Pedrógão, depois, por endémica miséria moral inerente a quem se limita a ladrar quando passa a caravana. Mas a degradação maior foi ter visto o Presidente da República a usar as vítimas e os prejuízos dos incêndios para se deleitar na jogatana palaciana. É pedagógico reler os elogios que recebeu por um dos mais espectaculares e sofisticados exercícios de manipulação afectiva ao serviço de um cinismo que é destino.

Aquilo que foi considerado como erro crasso de Costa, a sua reacção executiva e expressiva aos incêndios, tem um reverso. O de ter sido ele o exemplo perfeito da recusa em usar o fogo para agradar à plateia e aos camarotes.

Exactissimamente

«E, para fechar a lista dos derrotados com a eleição de Mário Centeno, há um autoderrotado absolutamente incompreensível: Marcelo Rebelo de Sousa. De facto, desde a primeira hora em que a possibilidade se tornou real (ao contrário do que alguns, soberbamente, ridicularizaram), o Presidente não escondeu toda a sua animosidade à ideia. E, mesmo sabendo nós que o seu espírito analítico viaja várias galáxias à frente do nosso, não ignorando que o homem nunca dorme em serviço nem fora dele, é difícil, para não dizer impossível, entender tanto mal-estar. Terá Marcelo medo ou ciúmes do prestígio internacional do Governo? Terá achado que era altura de dar uma mão aos derrotados da direita, mesmo que para isso se tenha encostado à posição da extrema-esquerda? Francamente, não sei e não entendo.»


Miguel Sousa Tavares