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A braçadeira do C e do R

Ao ter começado a sair de campo com o jogo ainda a decorrer, Cristiano Ronaldo sabia que poderia ser expulso. Por acaso, o árbitro do Sérvia-Portugal, sem se ter apercebido da situação, terminou o jogo com ele ainda em campo. Esta é a mais grave falha da sua carreira na Selecção Nacional porque poderia ter prejudicado a equipa para os próximos jogos de apuramento por sua intencional e estouvada iniciativa.

Ter mandado a braçadeira ao chão, num gesto de frustração e descontrolo emocional, não prejudica os interesses da Selecção Nacional. Apenas insulta a malta e mostra que o herói passou a acreditar no mito. O “C” da braçadeira já não é de Capitão para ele, é de Cristiano. Pelo que pode fazer dela o que quiser. Mandá-la ao chão. E deixá-la aí ficar para quem a quiser apanhar. Como vedeta mimada e adolescente.

Que não espante, então, a cena maravilhosa que vimos no Luxemburgo-Portugal. CR7 sozinho frente a um guarda-redes que joga na 2ª Divisão da Bélgica. E sem conseguir marcar golo com um remate e uma recarga. Não é para qualquer um – e concorre com o também miraculoso feito de Bernardo Silva no jogo anterior, quando este craque que vale mais de 100 milhões de euros conseguiu acertar no pé de um defesa tendo uma baliza sem guarda-redes à sua frente. O episódio Golias-Moris deveria levar a que no próximo jogo dessem ao melhor do Mundo em quase tudo do pontapé na bola uma nova braçadeira, com um “R”. É que o histórico Capitão despromoveu-se a si próprio a soldado raso, devíamos oficializar a situação.

Moedas, trocos e patacos

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Carlos Moedas confirmou, logo em 2014, que Ricardo Salgado lhe telefonou para tentar obter a sua ajuda por causa da investigação das autoridades do Luxemburgo a três empresas do GES e para interceder junto da CGD de forma a obter crédito de emergência para o GES. Por sua vez, o PSD validou a escuta onde José Manuel Espírito Santo lançou para a posteridade a expressão “Eu punha já o Moedas a funcionar“, a qual não carece de grande hermenêutica quanto ao seu sentido conotativo, e onde Ricardo Salgado relata que Moedas se comprometeu a ajudar, prometendo fazer o que família Espírito Santo lhe estava a pedir. Isto, por si mesmo, é um mundo que está por explorar do ponto de vista da história do BES, do GES, do Governo de Passos, da relação de Ricardo Salgado com a oligarquia e as elites nacionais (políticos, empresários, juristas, jornalistas), e finalmente do republicano e comunitário interesse público. Algum dia será explorado? Tal não é provável pois não existe imprensa em Portugal nem se vê qualquer partido com interesse em fazê-lo.

Moedas defende que nesse telefonema optou por mentir a Salgado, simulando alinhar mas não mexendo uma palha. E porquê? Porque é uma pessoa educada e simpática, como se pode ouvir acima. Aparentemente, o nosso educadíssimo e simpatiquíssimo Carlos não está preocupado com a antinomia de valores que a sua justificação comporta (pun intended). Esta versão do “fumei mas não inalei” é patética e insulta a nossa inteligência pois ninguém está preocupado com aquilo que Moedas disse e não fez na ocasião, o que releva é a certeza de Moedas já ter funcionado noutras ocasiões ao serviço da mesma engrenagem – como é normalíssimo que assim seja, como é inevitável que o tenha sido, dada a evidência. E quanto a não ter ajudado o GES em Junho de 2014, tal tem como contexto a decisão de afundar esse Grupo, arrastando o BES com ele, que Passos tomou em tandem com Carlos Costa. Obviamente, Moedas foi-se informar com o chefe e recebeu ordens para ficar quieto e calado. Uma cena de arrebimbomalho, análoga à decisão de chumbar o PEC IV, ia acontecer. Com o mesmo protagonista principal e consequências igualmente devastadoras para a economia. Numa jogada que misturou a farsa da “saída limpa” com vinganças pessoais, e que foi contra o interesse nacional pois teria sido preferível decapitar a hierarquia e salvar o que tivesse salvação em vez do napalm e da terra queimada. Agitar a bandeirinha de que Passos foi o único a dizer “não” a Salgado é o mesmo que admitir terem Durão Barroso, Santana Lopes e Cavaco Silva dito “sim” muitas e muitas vezes. Acontece que a nega de Passos correspondeu à preferência irresponsável pelo mal maior, o oposto da escolha de um estadista.

O culto messiânico a Passos nasce, fundamentalmente, de ser considerado o principal responsável pela prisão de Sócrates – por via da escolha de Joana Marques Vidal e do que ela deixou Rosário Teixeira fazer em conluio com Carlos Alexandre. Acessoriamente, ter afundado Portugal para derrubar o PS da governação, e depois ter optado pela destruição das cadeias de valor do BES/GES, blindam Passos num posicionamento de líder disposto a tudo para chegar ao poleiro e manter o poder. Para sectários e fanáticos, trata-se da única forma de fazer política que concebem. Uma atitude e comportamento face à democracia que implica levar ao extremo as tendências paranóides e dar vazão incontinente às teorias da conspiração e ao ódio político. Só assim conseguem manter a coerência identitária e cognitiva, diabolizando os adversários em ordem a legitimar as maiores violências que estão dispostos a fazer-lhes para os afastar do poder. Este caldo deu origem ao fenómeno Ventura, primeiro no PSD e depois no Chega. Ventura esse que se reclama discípulo e súbdito de Passos, ao mesmo tempo que repete a retórica do antisocratismo militante, obsessivo, doentio (ou seja, apavorado).

Que tem Moedas a ver com Passos e com Ventura? Nada, para quem papar a anedota de que José Manuel Espírito Santo se lembrou do Moedas por estar bêbado na tal reunião de crise, sugestão logo acolhida pelo seu primo por este estar ainda mais bêbado do que aquele. Tudo, para quem abomina uma direita decadente que trocou o patriotismo e o pensamento pela falta de escrúpulos e pelo golpismo. O que Moedas fez ao lado de Passos – portanto, o que continua disposto a fazer de acordo com as circunstâncias – só são trocos para patacos.

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Does ‘harsh parenting’ lead to smaller brains?
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Narcissism driven by insecurity, not grandiose sense of self
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Don’t let the small stuff get you down – your well-being may depend on it
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Maintaining Emotional Health and Wellbeing During COVID-19
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Study shows stronger brain activity after writing on paper than on tablet or smartphone
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Study Indicates Deliberate Hiring of Unethical Management Accountants
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Union-friendly states enjoy higher economic growth, individual earnings
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Da série “Pôr o Moedas a funcionar”

«"Sem dados novos, com base no depoimento, que já tinha acontecido na primeira comissão de inquérito, de administradores propostos por Ricardo Salgado, o PS vem abraçar a narrativa de Ricardo Salgado sobre a viabilidade do BES. Algo incompreensível. Esta aliança entre o PS e a narrativa de Ricardo Salgado é inaceitável, inesperada, execrável", nota Duarte Pacheco.»
Fonte

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Esta reacção – com Duarte Pacheco a recorrer à “falácia do espantalho” e com Rui Rio a fazer mais uma “piada” no Twitter – mostra-nos aquilo que o PSD é actualmente e desde a fuga de Barroso: uma real bosta.

As comissões de inquérito parlamentar têm sido um festim de chicana desenfreada, obscena, soberba para os direitolas. Lembro só uma mão cheia de exemplos. Desde a que em 2008, à nacionalização do BPN, serviu para colocar todo o odioso em cima de Vítor Constâncio, o polícia sem arma nem lupa, e para limpar o Cavaquistão, o qual criou a partir da sua elite um banco especializado em gamar e alimentou até ao topo do topo os seus porco-ricaços laranjas com sacadas de dinheiro vivo e acções em família. Passando pela que em 2010 ridicularizou a Assembleia da República ao ter como motivo o “exercício da liberdade de expressão em Portugal” (leia-se “claustrofobia democrática”, a invenção patético-canalha do Paulo Rangel), e que apenas serviu para o Henrique Monteiro se ir chorar por ter estado duas horas ao telefone com Sócrates, para o Mário Crespo ir mostrar aos deputados uma camisola de algodão (100%) sobre o mesmo Sócrates, para o deputado Branquinho pedir emprego à Ongoing, e para ficarmos a saber que no primeiro e único Governo de maioria socialista o órgão de comunicação social que tinha maior compra de espaço publicitário pelo Estado era… o “Correio da Manhã”. Chegando às três comissões de inquérito sobre a CGD, as quais tiveram como único propósito martelar até ao vómito a teoria da conspiração preferida dos pulhas e dos broncos: a de que Sócrates, a partir do seu telefone ou talvez por telepatia, controlou a CGD e o Banco de Portugal para conseguir meter Vara no BCP e assim iniciar 1000 anos de tirania absoluta e diabólica em Portugal.

Duarte Pacheco sabe do que fala, pois a projecção a que se entrega não pode ser mais transparente a seu respeito e dos seus colegas. E Rui Rio está mesmo convencido de que tem graça e que o Twitter do líder da oposição e, por inerência, mais forte candidato a primeiro-ministro deve servir para se exibir como irresponsável e acéfalo. Ambos revelam conceber as comissões de inquérito parlamentar apenas como instrumentos de baixa política para fins de demagogia e assassinatos de carácter. É por isso que surgem ressabiados e rancorosos quando se vêem no papel de alvos. É por isso que ficam em pânico com o regresso aos tempos em que o Pedro e o Aníbal punham e dispunham. Apurar factos, saber quem fez o quê e porquê num assunto com a gravidade e consequências da resolução do BES e dissolução do GES, servir o interesse nacional e a missão do Parlamento, isso não existe nem sequer como sombra de um sonho nestas duas figurinhas de merda.

Ao cuidado do “Diário de Notícias” e seu dono

Caro Marco,

Temos de falar sobre os 7 euros e 90 cêntimos que te dou mensalmente. Estou preocupado. Comecei a ficar preocupado quando apareceu o Bugalho, um dos melhores amigos do Camilo Lourenço. Depois fiquei muito preocupado quando saiu o Pedro Marques Lopes, de quem sou o maior fã no rectângulo a seguir à família, amigos e adeptos do FCP. Agora, a preocupação ameaça dar lugar ao pânico pois fiquei com a ideia de ter visto nas tuas instalações uma personagem muito parecida com a Joana Amaral Dias. Confesso que não apanhei o que disse pelo que poderá ter sido uma ilusão, uma miragem ou um pesadelo acordado. Mas também poderá ser verdade que tu ou alguém por ti se tenha lembrado de começar a dar dinheiro a essa figura de proa da indústria da calúnia. Ora, calhando confirmar-se o pior, o cenário será de catástrofe.

É que, pá, é uma catástrofe um gajo querer dar dinheiro a jornais com jornalistas que façam jornalismo e quase não ter por onde escolher por causa da poluição dos pulhas no editorialismo sectário e na opinião tóxica e decadente. O DN, até tu teres comprado a casa, era um desses últimos bastiões de integridade sob o comando do Ferreira Fernandes. Com a desinteressante Rosália Amorim, uma máquina de platitudes nos seus copiosos editoriais, começa a desenhar-se uma crise para a nossa relação financeira actual.

Vou dar-te mais uns tempos para pensares bem no assunto dos meus 7 euros e 90 cêntimos mensais, que tanta falta te fazem. Mas o relógio já está a contar. Olha no que te vais meter, são 7 euros e 90 cêntimos, praticamente 8 euros. Ao mês. Valerá a pena arriscares tamanha perda por causa de uma caluniadora profissional?

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FODA (Fear of Dating Again) is a thing now
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The role of adult playfulness in romantic life
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Study: 94% of older adults prescribed drugs that raise risk of falling
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Don’t Like Exercise? Try a Hot Tub Soak
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What happens in your brain when you ‘lose yourself’ in fiction
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Picking up a book for fun positively affects verbal abilities
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High emotional intelligence ‘can help to identify fake news’
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Perguntas simples

Se é para gamar pela calada, vale mais um gajo ir a correr inscrever-se na Maçonaria ou será melhor tentar sacar uns milhões de dinheiros públicos à pala de 1063 formandos para nove aeródromos municipais, todos na região Centro?

Saltos lógicos, afiança o mano Costa


in O século do BES e do Marquês

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Mesmo entre aqueles que ficaram radiantes com o aparecimento da Operação Marquês, e com a sucessão de castigos e humilhações para Sócrates e terceiros a ele ligados, há um limite de consciência caso não tenham entrado já num buraco negro de fanatismo e de ódio sem regresso possível. Surge quando reconhecem que a transformação da acusação num megaprocesso colado ao universo BES e à PT, e ainda com a CGD à mistura, só pode vir a gerar um oceano de cocó ao bater na cachimónia de juízes que não tenham medo da pulharia – pois, após se ter amontoado 13.500.000 ficheiros informáticos (sim, treze milhões e quinhentos mil ficheiros informáticos), 53 mil páginas de papel, 35.000 escutas, recolhidos dados bancários sobre 500 contas, ouvidas mais de duas centenas de testemunhas, e vamos deixar de fora a papelada dos anexos, não se encontrou uma singela prova de corrupção. Toda a acusação está sustentada numa única e pícara testemunha chamada Hélder Bataglia, a qual relaciona Ricardo Salgado com Carlos Santos Silva contra a palavra de ambos, e a qual é considerada comprada de forma ilícita pelo Ministério Público com um análogo da delação premiada.

Ricardo Costa é um desses que se vai reposicionando caso a decisão de Ivo Rosa deixe cair a corrupção (o que, por inerência, fará cair o branqueamento) e se limite à valoração da acusação no domínio fiscal. Não é preciso ser bruxo nem especialmente dotado de sinapses para antecipar esse desfecho como o mais provável dada a demora do juiz alvo de campanhas negras incessantes na Cofina e no Observador. Se fosse com o Calex, os 10 dias previstos teriam sobrado pois ele, muito antes da acusação ter sido formulada, já tinha condenado o arguido à sua guarda constitucional através desse instituto jurídico chamado “entrevista na TV”, tendo de seguida acusado todo o sistema judicial de conspirar contra si por causa de um sorteio; assim voltando a mostrar com exuberância os predicados que lhe dão o estatuto de herói na indústria da calúnia. Pelo que, muito provavelmente, Ivo Rosa não tem parado de teclar ao longo destes longos meses do seu silêncio, tamanha a logística de engenharia reversa em causa para desmontar a montanha de nada. Se, no entanto, e contra as expectativas, a acusação de corrupção se mantiver, então, e à mesma, a demora para decidir terá ficado absolutamente justificada e terá sido feita boa Justiça. É esperar, qualquer resultado será legítimo e valioso posto que Ivo Rosa ainda não deu qualquer motivo para se duvidar da sua integridade, tem sido exactamente ao contrário.

Aqueles que montaram a Operação Marquês enganaram-se, cometeram algum tipo de erro que os levou, por descuido, para este megaprocesso considerado um monstro impossível de julgar? Nem as pedras da calçada papam essa carambolice. Rosário Teixeira e Joana Marques Vidal, algures no tempo, tiveram de tomar a seguinte decisão: continuavam a investigar na sombra com o que já tinham recolhido, na esperança de encontrar provas de corrupção que blindassem a acusação, ou avançavam para a prisão de Sócrates e consequente terramoto político e social sem elas, na fezada de que iriam aparecer quando abarbatassem os telefones e computadores dos bandidos ou quando apertassem mauzões com a escumalha nos interrogatórios? Repare-se que o calendário da Operação Marquês não foi justificado por ninguém com autoridade no mesmo. Isto é, não sabemos por que razão Sócrates foi detido no final de Novembro de 2014 e não em Outubro ou Dezembro, por exemplo. Todavia, sabemos outras coisas, factuais. Sabemos que alguém no Ministério Público – em Julho do mesmo ano – resolveu publicitar que existia uma investigação em curso a Sócrates. Qual terá sido a lógica dessa violação ao segredo de justiça? Foi para ajudar o suspeito, permitindo-lhe apagar ficheiros, destruir telemóveis e combinar versões com os seus cúmplices durante 4 meses? Ou a única explicação terá de ser encontrada num outro calendário a correr paralelo ao da investigação, o da política? À Procuradoria-Geral da República, desconfio, chegam notícias do exterior. Dava para ver que Seguro precisava de uma ajuda, tal como deu para ver que Costa, na véspera de ser entronizado secretário-geral do PS, tal coincidindo com a entrada num ano eleitoral de legislativas, precisava de uma bomba debaixo do palco donde iria começar o ataque ao passismo. Essa bomba chamou-se Operação Marquês.

A acusação que saiu em 2017 é a concretização das campanhas negras que decorriam desde 2008, altura em que ao rancor de Jardim Gonçalves e Belmiro de Azevedo, entre outros oligarcas, se juntou o de Pacheco Pereira conselheiro de Ferreira Leite e o da Casa Civil de Cavaco Silva, para onde toda a direita corria exigindo que o Presidente derrubasse o monstro, salvasse os anéis. E foi o que ele tentou fazer. Falar da Operação Marquês sem falar do Face Oculta e da Inventona de Belém não se deve à amnésia ou estupidez, é necessário para ocultar os protagonistas e suas ligações, o modus operandi e o modus faciendi, os contextos, os pretextos e os subtextos. Resumindo, como já foi dito por tantos, na Operação Marquês quis-se julgar o “regime” – ou o “sistema”, para adaptar à retórica mais recente. Mas trata-se de um “regime” e de um “sistema” reduzidos ao período entre 2005 e 2011, e que, milagre dos milagres, deve a sua corrupção à sobre-humana capacidade de um solitário gigante: José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.

Altura de perguntar ao Ricardo Costa: se em Novembro de 2014, sendo ainda muito mais gritante do que agora, não havia prova directa e era preciso dar saltos lógicos para construir uma acusação com as consequências políticas, sociais, financeiras e humanas que esta tem, uma acusação que irá provocar abalos na democracia caia para que lado cair, valeu a pena? Estás a curtir, mano?

Sócrates não mudou radicalmente o Brasil – garante este especialista na Operação Marquês

Daniel Oliveira sentiu necessidade de ir buscar Sócrates para concluir um brevíssimo apontamento em que estava em causa comentar os mais recentes desenvolvimentos na situação judicial de Lula. E o resultado é extraordinariamente ordinário.

Primeiro, não se percebe qual foi a necessidade a justificar a ida até à Ericeira naquela altura em que falou. Se houvesse algum nexo noticioso na actualidade entre a Operação Lava Jato e a Operação Marquês, ou entre Lula e Sócrates, eu não estaria agora a gastar o meu teclado. Só que não há, e foi o próprio Daniel quem garantiu que nunca houve nem haverá. A sua intervenção é apenas negativa, resolveu dizer coisas precisamente porque não havia nada para dizer. Daí ter-se armado em Zandinga do comentariado e ter feito uma profecia a respeito de Sócrates. Como bom feirante, serviu um prato onde irá sempre sair a ganhar: se se confirmar, virá a correr dar voltas à pista sob o aplauso dos colegas repetindo “Já tinha dito, eu é que o topo”; se não se confirmar, continuará a adormecer fantasiado de valentão que assustou e calou o mafarrico.

Depois, a partir do que disse podemos inferir que esta vedeta da opinião política dita de esquerda tem uma visão da Operação Marquês que não destoa em nada de nadinha de nada do que um José Manuel Fernandes, um Rui Ramos e um João Miguel Tavares martelam semanalmente: que Sócrates, independentemente do que Ivo Rosa ou qualquer outro juiz venha a decidir sobre o caso, é corrupto sem margem para a mínima dúvida; que existem provas concretas, ou de alguma maneira evidentes, de corrupção; que Rosário Teixeira e Carlos Alexandre foram exemplarmente imparciais e paladinos do Estado de direito e da Constituição ao longo de todo o processo; que não existe a menor suspeita de se ter violado o princípio do juiz natural; que a confluência do poder estatal e político de Cavaco Silva, Passos Coelho e Joana Marques Vidal na altura em que se inicia a investigação e quando se prende Sócrates é uma coincidência absolutamente irrelevante; e que, acreditem borregos, o espectáculo montado para a sua detenção no acto de regressar voluntariamente ao País, número que foi antecedido de uma violação do segredo de justiça com a finalidade de prejudicar Costa e favorecer Seguro nas eleições no PS, e número onde se distribuiu por jornalistas o racional que viria a ser usado (ipsis verbis) para justificar a sua prisão preventiva ainda antes de ter feito qualquer declaração às autoridades, tudo isto, portanto e para este bravo da esquerda pura e verdadeira, não teve qualquer significado nem importância. Ou seja, desconfiamos que o Daniel Oliveira já não vê televisão desde que desligou o aparelho lá de casa logo nos primeiros segundos da entrevista a Carlos Alexandre, em 8 de Setembro de 2016.

Finalmente, e será o aspecto mais patético (vergonhoso? assustador?) do seu argumento, vir dizer que Sócrates não é Lula porque este “mudou radicalmente o Brasil” leva-nos para o salão de convívio de Rilhafoles. Porque então, se é para entrar nessa reinação enquanto não passa o enfermeiro com os comprimidos, será de lembrar que Lula não é Churchill, que o próprio Churchill não é nenhum Obama, que o Obama jamais poderá ser um Carlos Magno, e que o dito Carlos Magno está muito longe de alguma vez vir a ser considerado um Péricles. Isto parece-me indiscutível, tão indiscutível como ver na declaração absurda deste tão calejado e profícuo comentadeiro a expressão da sua recusa em ser intelectualmente honesto para com os resultados da governação de Sócrates até ter rebentado a crise económica mundial de 2008. Com Sócrates – e daí o pânico de morte da direita e a vingança da oligarquia – houve crescimento económico, redução da pobreza, redução do desemprego, modernização do Estado, renovação das escolas e do ensino, progresso social, defesa das minorias e das mulheres, educação e formação para os mais velhos e mais carentes, investimento na ciência e na tecnologia, agressividade comercial nas exportações, vanguardismo ecológico, prestígio internacional, escrupuloso respeito pelas instituições e pelo Estado de direito, clima de total liberdade democrática. Isto é, tudo o que Sócrates ambicionou para Portugal, e que realmente começou a conseguir realizar nos primeiros três anos como primeiro-ministro, corresponde a um típico modelo de políticas social-democratas que em nada diferem do que Costa propôs ao PCP e BE para obter o seu apoio em 2015. O que é diferente está nas circunstâncias económicas e financeiras, bem distintas, de cada conjuntura mas a essência e o espírito são os mesmos, mutatis mutandis.

Não fez o mesmo que Lula no Brasil? Claro que não, até porque tal não era possível seja qual for o ponto de vista da comparação – enfim, a menos que o Sr. Oliveira explique como, recorrendo ao seu génio de estadista e notável experiência governativa, e prometo dar-lhe os 10 euros que tenho no bolso se nos obsequiar com essa fineza. O que há a realçar no persecutório acrescento que fez questão de deixar no programa é a sua lógica primária, sectária, animalesca: “Gosto do Lula, é cá dos meus, por isso dou a cara e o coiro por ele contra os pulhas. Não gosto do Sócrates, não é da minha esquerda, por isso alinho com os pulhas e contribuo no que puder para o seu linchamento.”

Vermos este papel a ser representado num estúdio da SIC, pertencente ao Grupo Impresa que dá a este artista os rendimentos mensais com que desfruta de uma qualidade de vida muito acima da média, não me parece (nem ao velho Marx) despiciendo. Será um caso de exemplar dedicação ao trabalho e, quiçá, de excesso de zelo? Não sei, embora não custe a adivinhar que o seu patrão aprecia ter as botas a brilhar. Todas lambuzadas.

Rosário Teixeira cooptou o esgoto a céu aberto


in Ivo Rosa já decidiu destino da Operação Marquês

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Façamos o exercício de espremer a prosa, procurando os factos implícitos:

– É um facto que Ivo Rosa considerou ter Sérgio Azenha cometido um crime ao publicar informação a que só acedeu por usufruir do estatuto de assistente no processo.
– É um facto que o desembargador Ricardo Cardoso não só não sanciona o crime de Sérgio Azenha como lhe dá um prémio extensível a outras violações deontológicas cometidas enquanto jornalista no passado e que venha a cometer no futuro.
– É um facto que Rosário Teixeira admite que um jornal pode servir como auxiliar na produção de prova através de esquemas ocultos do público.

A partir dos factos, podemos e devemos elaborar as suposições mais prováveis:

– É uma suposição altamente provável que Rosário Teixeira tenha montado uma parceria com o jornalista Sérgio Azenha (pelo menos com ele, mas muito provavelmente com outros jornalistas, editores e directores de órgãos de comunicação social) para provocar reacções em certos alvos a partir de conteúdos veiculados pelo dito jornalista enquanto este simulava, simula ou simulará fazer jornalismo.
– É uma suposição altamente provável que Rosário Teixeira tenha fornecido ao jornalista Sérgio Azenha informações específicas, verdadeiras e/ou falsas, para desse modo obter material passível de ser incluído num processo que depende exclusivamente da “prova indirecta”, situação em que as escutas ganham mais poder indiciador ou até probatório.
– É uma suposição altamente provável que as relações entre alguns procuradores e juízes e o universo mediático da Cofina não se limite a este episódio mas que se estenda por centenas ou milhares de episódios ao longo de muitos anos, e com pública e celebrada parceria a nível institucional (participação de figuras gradas da Cofina em acções oficiais de magistrados, cobertura mediática especial, culto de personalidade a certas vedetas da “luta contra a corrupção”, ataques a adversários avulsos e a alvos políticos em sinergia com a agenda de certos procuradores e juízes).

O jornalista, Rui Gustavo, optou por contar o episódio acima descrito numa caixa à parte, assim lhe dando o merecido destaque. Embora ele não se permita deixar qualquer ilação, ela tira-se a si própria, quebra a casca do ovo e sai a rastejar: o crime da violação do segredo de justiça, e o seu uso para retirar direitos às vítimas e tentar condicionar as autoridades judiciárias, ocorre em Portugal num ecossistema que mistura abusos de poder por procuradores, crimes de jornalistas e cumplicidades de juízes, todos se protegendo mutuamente e sabendo-se blindados na capacidade para evitarem o apuramento da verdade e as respectivas consequências. Agora, ficámos a saber que é possível usar profissionais com a carteira de jornalista para iludir certos alvos e levá-los a certas respostas com utilidade para a percepção de culpabilidade donde se constrói uma acusação pelo Ministério Público.

Este quadro de obliteração do Estado de direito democrático sem que Presidente da República, Governo e partidos sequer ousem olhar a besta nos olhos conta com raríssimos denunciadores. Um deles é o Garcia Pereira, e, apesar de também não ir além da rama por razões que ignoro, o que aqui nos deixa são fatais peças deste puzzle: Onde páram agora os Moros da nossa praça?

Fedes, Tânia

Na Cofina, usa-se a liberdade de imprensa para fazer títulos onde se trata um juiz em funções como criminoso e cúmplice de criminosos. É essa a única interpretação do cabeçalho acima exposto, o enésimo ataque a Ivo Rosa e, por inerência, ao edifício judicial e à Constituição – portanto, ao interesse público e à ordem democrática. Darei 10 euros a quem me indicar qualquer resposta, por mais leve ou ambígua que seja, que tenha a assinatura de algum representante do Ministério Público, dos tribunais, da Presidência, do Governo ou dos partidos com representação parlamentar face a esta “notícia” – saída na primeira página do mais importante jornal diário nacional – onde se diz que Ivo Rosa é o inimigo nº 1 de Portugal e dos portugueses.

A intenção da Cofina, e de outros órgãos de comunicação que igualmente atacam Ivo Rosa, é a de ir explorando comercialmente o sensacionalismo, por um lado, e a de assassinar o carácter de um juiz português de forma a que se garanta um efeito de escândalo, ameaças e perseguição caso ele não conceda à Cofina et alia o troféu da confirmação em pleno da acusação do Ministério Público contra Sócrates, pelo outro.

Os representantes sindicais dos procuradores e dos juízes são useiros e vezeiros em mostrar que se sentem ameaçados pela simples existência da classe política. Classe política que não se importa de ver procuradores e juízes (quantos, quais?) a cometerem crimes em conluio com órgãos de imprensa. Crimes que aproveitam aos interesses corporativos de procuradores e juízes, ao negócio da comunicação social e à agenda de certos partidos e certos políticos. É um ciclo vicioso e viciante.

Sócrates deixou de estar sob a alçada do Estado de direito? O ostracismo e linchamento que se abate sobre a sua pessoa, e sobre a de terceiros com ele relacionados no passado e/ou no presente, tornou-se uma prova definitiva do carácter moral, cívico e político de cada um de nós. Não só pelos fundamentos da vida em comunidade onde precisamos de viver em segurança mas também, ou até mais, pelas condições subjectivas em que nos concebemos como seres merecedores de respeito, decência e justiça.

Perante a inaudita e ubíqua violência daqueles que querem consumar na “Operação Marquês” o processo político que lhe deu origem e lhe moldou o desenvolvimento, quem calar, consente. Quem consentir, quer.

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Everyday ‘hacks’ that counter gender inequality
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Biological differences between females, males need to be considered in scientific studies
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New discovery explains antihypertensive properties of green and black tea
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“Reading affects everything”
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Reflecting on your own capabilities boosts resilience
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Helpful behavior during pandemic tied to recognizing common humanity
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Is fighting a pandemic like fighting a war?
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Entretanto em Rilhafoles

«No final de uma reunião por videoconferência com o Presidente da República, sobre a situação da pandemia, Rio foi questionado se concordava com o antigo chefe de Estado Cavaco Silva que, no sábado, numa iniciativa do PSD, defendeu que Portugal vive "numa situação de democracia amordaçada."

"O termo 'amordaçada' é obviamente uma questão de português, não sei exatamente o que o professor Cavaco Silva ou o professor Marcelo Rebelo de Sousa - que tem uma visão ao contrário - entendem pela palavra amordaçada. Eu não iria por aí, mas devo reconhecer que há alguns episódios onde, efetivamente, é notório que há aqui um exagero de controlo por parte do Governo", afirmou.

Como exemplos, apontou a nomeação portuguesa para a procuradoria europeia ou a transição direta do ex-ministro das Finanças Mário Centeno para o cargo de governador do Banco de Portugal.

Mas é na área da comunicação social que Rio considerou existirem sinais mais preocupantes.

"Quando nós abrimos as televisões e vimos os programas de comentários, identifiquem-nos lá comentadores que não sejam afetos ao PS e, quando não são afetos ao PS e são afetos ao PSD, [os que] não são contra a direção nacional do PSD... Isso para mim é absolutamente evidente", afirmou.

Questionado se tal é da responsabilidade dos órgãos de comunicação social ou se se deve a pressões do Governo, Rio deu uma resposta ambígua.

"Em primeira linha, é das direções das televisões que convidam aquelas pessoas ou não outras, tem de perguntar se o fazem por mote próprio ou por pressão do Governo. Há aquele termo muito popular: que determinadas pessoas são mais papistas que o papa... Não sei há mais papistas que o papa ou se é o papa diretamente", afirmou, considerando que tem sido "um fenómeno que se tem agravado ultimamente".»

Fonte