Todos os artigos de Valupi

Revolution through evolution

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5 Things You Must Do While You Wait for the COVID-19 Vaccine
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Study suggests link between word choices and extraverts
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Big bumblebees learn locations of best flowers
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New flower from 100 million years ago
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Primordial black holes and the search for dark matter from the multiverse
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As a year like no other draws to a close, the power of gratitude can bring healing

No princípio era o Logos não o povo

A democracia precisa da persuasão e suas técnicas. Nas monarquias, timocracias, oligarquias, tiranias e aristocracias a persuasão é secundária ou complementar. Nas democracias a persuasão é central para o seu pleno cumprimento como sistema político onde se pode escolher livremente entre diferentes candidatos com igual legitimidade política. Mas a persuasão continua a ser essencial depois de se conquistar o poder pois, se a democracia se continuar a cumprir como liberdade, as possibilidades políticas da comunidade vão sempre depender do diálogo entre os eleitos e os eleitores, entre os governantes e os cidadãos, entre os representantes do soberano e a comunidade soberana – ou seja, não vem da filosofia ou da ideologia mas da persuasão a relação entre os agentes políticos e a audiência, assim se estabelecendo retoricamente o que fica como a própria realidade política e seus possíveis tipos e modos de concretização.

Que vemos nos debates televisivos presidenciais? O mesmo que Aristóteles viu e tematizou dois mil e trezentos anos antes da invenção da televisão. Que no discurso persuasivo há três dimensões de eficácia: Logos, Ethos e Pathos – os argumentos, a personalidade do orador e as emoções da assistência. Qualquer das dimensões pode gerar um efeito de persuasão na audiência ou públicos-alvo. As incontáveis e aleatórias circunstâncias levam, ao longo da História das democracias, a que as fórmulas usadas pelos agentes políticos sejam ilimitadas misturas das três facetas do poder retórico ao dispor dos políticos. O que não muda, sequer numa civilização mediática e digitalizada como a nossa, é a evidência de que uma comunidade política se fundamenta na opinião. E em mais nada.

As nossas opiniões formam-se por mecanismos automáticos que não controlamos a não ser retrospectivamente. Podemos gostar de um político porque os nossos pais também gostam, porque parece mandão ou simpático, porque é da nossa idade ou género, porque é giro ou carismático, porque defende ideias que nos são queridas, porque é o mal menor, porque sim. Há políticos que nos tentam comunicar raciocínios a que dão muita importância, outros esforçam-se por mostrar que são mais sérios ou mais puros do que a concorrência, outros apenas querem ver a cidade a arder na fogueira dos afectos mesmo que estes sejam irracionalizantes, animalescos, fanáticos.

Embora estas três dimensões da persuasão pareçam equivalentes nisso de se poder atrair ou convencer alguém a partir de cada uma tomada na sua singularidade, há uma estrutura interna que se organiza hierarquicamente na tríade. A democracia é uma ideia altamente sofisticada que exige complexas abstracções prévias à sua aceitação política e social. O conceito decisivo na arquitectura do sistema democrático é o de “lei”, ao contrário do que os demagogos e populistas apregoam na sua retórica. Para as tiranias e oligarquias o poder vem da força, e a força fica como a “lei do mais forte”. A democracia nasce na Grécia quando o confronto entre os grupos sociais detentores da terra e os que ocupavam as cidades levou os legisladores a começarem o longo e sempre incompleto processo de colocar num exercício meramente intelectual toda a força política que estava nos braços e nas armas. É deste movimento tectónico que surge um modelo de convivência entre desiguais que reduz a potencial violência destruidora da comunidade ao instituir uma igualdade: a democracia, garante de que a lei passa a ser mais forte do que os mais fortes. Logo, primeiro é o Logos; também para os democratas de todos os cantos e calendários. A democracia estabelece na “polis” que o “povo” tem o poder mas não para que aqueles que calhem ocupar esse poder o usem para se considerarem superiores à lei. Isso tem outro nome, chama-se oclocracia.

Ontem vimos um debate com um candidato presidencial para quem primeiro é o Pathos. Toda a sua técnica retórica, copiada ao nanómetro de Trump, consiste em boicotar a racionalidade dos adversários recorrendo ao abuso das regras combinadas e à violação dos princípios do respeito pelos adversários e pela comunidade. Para os seus apoiantes, esse candidato venceu o debate com facilidade. Esses apoiantes estão igualmente blindados para ignorarem qualquer demonstração das incoerências, falhas morais e mesmo eventuais crimes do seu ídolo. Trump resumiu brilhantemente este efeito quando verbalizou na campanha de 2016 “I could stand in the middle of Fifth Avenue and shoot somebody and I wouldn’t lose voters“, pelo que a dimensão do Ethos não lhe fará perder qualquer apoio, digam e mostrem os adversários o que quiserem. Como debater com ele, então?

Como é de manual na persuasão, começa-se pelo produto. O produto, por si mesmo, impõe constrangimentos ao leque de estratégias e tácticas possíveis. Assim, o produto João Ferreira não pode defender o capitalismo, para dar um exemplo crasso. Todavia, esse candidato podia ter pensado na primeira pergunta inerente a um plano eficaz de persuasão: com quem quero falar? Fará sentido querer falar com os actuais apoiantes do coiso? Não será melhor falar para indecisos? Mas quem será essa gente que está indecisa face a quem se declara inimigo do 25 de Abril? Resolvida esta questão, vem de imediato a segunda: que quero dizer à audiência escolhida? A partir daqui, as estratégias e tácticas estão finalmente em condições de serem desenhadas. Ora, no seu debate com Ventura não foi possível descobrir uma coisa ou outra. A testosterona não foi devidamente canalizada para a prudência, resultando num favor a quem depende da política como patologia social. Esta é a mais valiosa lição do que se passou, podendo ser aplicada idiossincraticamente pelos restantes candidatos. Não está, pois, em causa encontrar uma panaceia universal para enfrentar a invenção de Passos Coelho e o mais recente amigalhaço de Rui Rio, este momento supremo da decadência da direita portuguesa. Há é que reler Aristóteles e agradecer ao destino ter a oportunidade de fazer algo verdadeiramente democrático: defender a liberdade e os direitos humanos contra um oclocrata.

Rui “Força nisso!” Rio

*_*

2021 em funcionamento há mais de 24 horas e o desvairo acima apenso continua sem ser apagado. Provavelmente, continuará em exibição enquanto existir a conta. Isto porque Rui Rio não apaga “tweets” dado ser seríssimo e recusar dar o dito pelo não dito? Ou por ser um vero homem do Norte? Ou estará a explicação na sua passagem pela Deutsche Schule zu Porto, instituição onde colheu lições dos mestres que, in illo tempore, já proibiam com disciplina alemã que se apagassem quaisquer conteúdos uma vez publicados nas redes sociais? Nunca o saberemos, nem sequer quando sair o último volume das suas memórias.

O que sabemos é que quem assina tamanha alarvidade, e a mantém publicada, não tem condições para ser primeiro-ministro. Não tem, factual e indiscutivelmente, ponto final na conversa. E também não deveria ter condições mínimas para liderar a oposição. Porque é demasiado estúpido nisso onde a estupidez corresponde à incapacidade para se controlar, para ser decente e para se corrigir. Rui Rio não conseguiu perceber que estava a usar a memória de uma pessoa morta em condições trágicas e inumanas para se mostrar “engraçado”. Rui Rio não consegue entender que a existência desta inacreditável publicação é um bloco de cimento a puxá-lo para o fundo de um esgoto sem fundo. Rui Rio nunca irá compreender que havia um PSD, uma direita e um centro disponíveis – na verdade, desesperados – para acreditarem num líder que fizesse da política não uma arena de gladiadores e seus truques sujos mas antes uma ágora onde se compete pelas melhores ideias e onde as técnicas de persuasão nos elevam, acrescentam, libertam da ignorância e do medo.

Em vez disso, temos uma pessoa nascida em 1957, licenciada em Economia, actualmente na presidência do PSD, que exprime o desejo de “Mais uma morte no aeroporto“. A expressão é inequívoca, de interpretação literal, sendo ainda reforçada pela exclamação imperativa final. Quer dizer que o autor do texto quis – conotativa e denotativamente – apropriar-se do horror que matou Ihor Homeniuk para despachar um inane espasmo de chicana que conseguiu o singular feito de ter atingido em cheio o seu próprio carácter – ou falta dele, no caso. O bonequinho com que encerra o exercício, ali colocado para que possa dizer “Era na reinação, não liguem, é para rir”, fica como monumento à decadência moral e cognitiva deste tipo de vedetas deslumbradas consigo próprias.

Porém, contudo, todavia, ainda mais impressionante é a tolerância de tudo e de todos à sua volta. O líder da oposição viola os princípios mais básicos do respeito ético e cívico pela dignidade humana, mostrando evidentes sintomas de agudo destrambelhamento, e sistema político, imprensa e sociedade fingem que não viram, nem sequer se tropeça em manifestações de alarme ou mera indignação. Ficamos, portanto, à espera de um novo “tweet” de Rui Rio onde repita a lógica que o deixou tão bem-humorado. Por exemplo, para comentar a última sondagem TSF/JN/DN nada melhor do que umas graçolas com as mortes por Covid. Força nisso, Rio!

No final do melhor 2020 de sempre

Queridos amigos, chegados ao fim de um ano cujos nove meses finais provocaram um aumento anormal de mortos e de sofrimento generalizado, degradando a saúde física e mental de todos sem excepção, e também atingindo a segurança financeira de muitos até aí com rendimentos, há a dizer que podia ter sido pior.

Reconhecer que podia ter sido pior não nos traz quem perdemos nem o que perdemos. Nem evita que possa piorar o que já é mau. Faz antes outro serviço à nossa cognição e capacidade para agir: coloca-nos com os pés no chão da realidade. É nesse terreno que se pode fazer caminho. Dar passadas no ar, por mais vigorosas e rápidas que sejam, não nos fará avançar um milímetro.

Donde, olhando para o que nos rodeia, ouvindo quem nos fala, quem são os que nos ajudam a pôr os pés na realidade e a cabeça apontada ao horizonte do que é possível atingir? Quem são os que nos preferem nefelibatas?

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Abraços acetilsalicílicos
Júlio
Américo Costa
F Soares

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Marcelo terá concluído a catequese?

«Eu naquela altura disse exactamente o seguinte: que valia a pena pensar se quem, no plano da administração pública, exercia funções que tinham conduzido a certo resultado seriam indicadas, aquelas pessoas, para a mudança. Eu falei "administração pública", tive o cuidado de dizer isso, naquela altura! E a senhora ministra [Constança Urbano de Sousa] pediu a exoneração... [sobre Eduardo Cabrita] Eu usei até uma expressão que era paralela a essa, num plano diferente.»

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«É verdade, os portugueses foram enganados, de facto. [pela ministra da Saúde]»

Marcelo Rebelo de Sousa

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No comício de 17 de Outubro de 2017, em Oliveira do Hospital, Marcelo não usa uma única vez a palavra “administração“. E usou uma única vez a palavra “pública” mas para adjectivar o substantivo “manifestação“.

Na parte da declaração onde pede a cabeça da então ministra Constança Urbano de Sousa recorre a esta construção: “Pode e deve dizer que abrir um novo ciclo, inevitavelmente, obrigará o Governo a ponderar o quê, quem, como e quando, melhor serve esse ciclo.

Na parte onde chantageia o Governo e ameaça com a dissolução da Assembleia da República declara: “Pode e deve dizer, se na Assembleia da República há quem questione a capacidade do atual Governo para realizar estas mudanças que são indispensáveis e inadiáveis, então, nos termos da Constituição, esperemos que a mesma Assembleia clarifique se quer ou não manter o Governo.

Marcelo, Presidente e candidato, mente sobre o seu silêncio a respeito de Ihor Homeniúk com desplante teatral e mente à descarada numa matéria onde sabe melhor do que ninguém estar a violar a Constituição: os Presidentes da República Portuguesa não governam, muito menos demitem ministros. Mente com este à-vontade porque, como vimos nos dias seguintes, nem imprensa, nem partidos, nem sequer os restantes candidatos presidenciais se importam com as mentiras do Presidente da República. O Estado de direito democrático não é, definitivamente, uma paixão nacional. Se dúvidas houver, o que se lê em O contributo de Marcelo para segurar Cabrita no Governo é coisa para que as estátuas na fachada da Assembleia da República levem as mãos à cabeça.

Alguém com esta habilidade para desrespeitar a separação de poderes está em condições óptimas para lançar um ataque surpreendentemente sórdido e canalha contra Marta Temido. Depois de ter aproveitado para montar um número de campanha eleitoral ao se deixar vacinar para a fotografia em Outubro, e em ordem a fugir à sua responsabilidade directa na corrida às vacinas da gripe que promoveu – a qual teria sempre de causar excesso de procura pois a ideia nunca foi a de se vacinar o País inteiro – Marcelo faz da ministra o bode expiatório para lavar as suas mãos. Faz isto indiferente ao que a cidadã Marta Temido, liderando a resposta governativa na área mais crucial face à pandemia, tem conseguido gerir no meio de uma inaudita complexidade de novos problemas de gestão de recursos. Faz isto preferindo ignorar o que a pessoa Marta Temido, sob uma pressão inimaginável, vivencia por causa do traumático desgaste de estar obrigada a tomar decisões de guerra que não irão evitar milhares de doentes graves e de mortos mesmo que sejam as melhores decisões humanamente possíveis. Ao agarrar a deixa lançada pelo Miguel Sousa Tavares, o genial Professor Marcelo, cromo máximo da jurisprudência e do boneco televisivo, traiu todas as formas de lealdade institucional e cívica que se podem conceber ao ceder à pulsão política assassina.

É por isso que ao ouvi-lo reclamar-se católico temos de nos questionar se na infância, com a ânsia de ler coisas mais complicadas para vir mostrar aos brutos, não terá deixado abandonados a um canto aqueles livrinhos com bonecos foleiros e letras garrafais. Os da catequese.

Começa a semana com isto

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Todos nascemos inteligentes mas isso não impede que se possa aprender a ser inteligente. Kathleen Eisenhardt é tão inteligente a ensinar a inteligência dos inteligentes que quem chegar ao fim dos primeiros 5 minutos deste vídeo já está mais inteligente do que no estava nos 5 minutos antes. E continua-se a esse ritmo de crescimento nos 50 minutos seguintes.

São as regras, estúpido!

Revolution through evolution

In shaky times, focus on past successes, if overly anxious, depressed
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Difference in blood pressure between arms linked to greater early death risk
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Break Up Your Work Day with Healthy Stair Climbing Exercise Snacks
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New evidence that spices, fruits from Asia had reached the Mediterranean earlier than thought
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Psychologists and counselors offer tips to improve optimism, emotional balance and overall well-being
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Study reveals four ways to connect with and help grandkids
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Resolve to achieve healthy sleep in 2021

Psiquiatria política no Eixo do Mal

Pedro Marques Lopes - [sobre a acusação do MP a Rui Moreira com pedido de perda de mandato] Acho estranhíssimo que seja feito exactamente no ano eleitoral, acho muito estranho. E estas acusações que parecem fabricadas... Vou repetir, fabricadas... Que me dá a sensação que são feitas para dar uma espécie de... que há uma campanha contra os ricos e poderosos, é inacreditável [...]

Daniel Oliveira - Deixa-me só dizer uma frase sobre isto. Dizer que eu não sou fã de Rui Moreira, acredito na presunção de inocência do Ministério Público, o Ministério Público não é culpado até prova em contrário - este calendário é impensável... Isto começa a ficar demasiado repetitivo, começa a ficar demasiado repetitivo!... Começa a ser demais, começa a ser demais!

Luís Pedro Nunes - O Ministério Público parece que tem uma agendinha... Que é: agora este, check; agora este, check...


Eixo do Mal, a partir de 45:50

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Pedro Marques Lopes fez um pedido que qualquer cidadão lhe deve agradecer. Pediu para que, a propósito de um caso que o deixa indignado, partidos, Governo e Presidente da República investiguem, apurem, intuam se no Ministério Público há agendas políticas a condicionarem o nascimento, o conteúdo e/ou o calendário de certas acusações. É um pedido que vai ficar sem resposta porque a evidência recolhida desde, pelo menos, 2009 mostra que Presidentes da República, Governos e partidos com assento na Assembleia da República convivem adaptados com a realidade de existirem acusações cujos calendários, conteúdos e origens radicam ostensivamente nas agendas políticas dos procuradores responsáveis pelas mesmas – tudo legal, tudo dentro da sua críptica e inescrutável “autonomia”. A inimputabilidade é tal que quem quiser ver o Estado de direito democrático a ser respeitado na Procuradoria-Geral da República deve começar por fazer o testamento pois irá para uma batalha donde não regressará com futuro político viável. O poder das corporações da Justiça – e dos poderes políticos, económicos e fácticos que lucram com os crimes dos magistrados e dominam a paisagem mediática – de imediato esmagarão esses insanos atrevidos. Exagero? Não quando um fulano que promove as fugas ao segredo de justiça como necessária medida para atacar políticos cuja perseguição lhe enche os bolsos é coroado como símbolo vivo de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

O Pedro tem a admirável vantagem nestas matérias de ser coerente e muito corajoso; ou seja, de parecer íntegro. Contra o ódio político dos seus pares de filiação partidária, contra o ódio ideológico da direita a que pertence nem que seja para se diferenciar do PS, e contra o ódio da turbamulta vítima do populismo do tempo e de todos os tempos, ele sempre conseguiu verbalizar no espaço público que o inimigo nº 1 do País, Sócrates, tinha direito a um julgamento justo. Daí, ao falar de Rui Moreira, e apesar de se anunciar seu amigo, a sua honestidade intelectual e autoridade cívica permanecem intactas.

Igual não se ouve nem se lê nos seus dois companheiros de programa, acima citados, que são pagos para dizerem que a culpabilidade de Sócrates não carece de tribunais para ser concretizada. Basta-lhes a sua deslumbrante cachimónia. Daí que as declarações destes dois melros em Dezembro de 2020, subitamente alvoraçados com o mesmo que têm visto ser feito ao PS há mais de 10 anos para seu próprio gáudio comentadeiro e produção neuronal de sentenças transitadas em emporcalhado, mereça registo. É especialmente engraçado ver o Daniel Oliveira a exclamar que agora, com o Rui Moreira, se chegou ao limite. Até aí, palavras dele, estava tudo bem. Porém, se a ideia é que o PS deixe de ter o exclusivo da atenção dos carrascos do Ministério Público, então alto e pára o baile. É que este Daniel, quando não está a ensinar ao BE como descer nas sondagens e a fazer coro com os direitolas para o abate de ministros socialistas, é um vero herói do Estado de direito. Nem dorme a pensar nele.

Dois pesos e duas medidas, relativismo moral, ambiguidades identitárias, vieses cognitivos os mais variados, pois claro. Tudo isto é ancestralmente humano, inevitável na política e na política-espectáculo onde estes artistas se divertem e ganham o seu. Mas há uma figura no elenco que arrasta o programa para o campo psiquiátrico, a Clara Ferreira Alves:

«O Sócrates pôs o País com uma mão à frente e outra atrás. Toda a gente sabe que o Sócrates tinha um lado profundamente lunático. Pronto, mas isso já está adquirido.»
[silêncio de todos os outros participantes] – Minuto 8:20

Ora, eis que aqui temos num simpático programa de cavaqueira desopilante a tese do ódio a Sócrates no seu grau mais alto de pulhice. Não só Sócrates surge como o actor individual que se pode singularmente destacar e acusar pela entrada da Troika em Portugal, sem que para tal seja preciso indicar um único facto explicativo, como a causa é atribuída a uma patologia, o lado “profundamente lunático“. Isto significa que o emissor da mensagem não reconhece no seu sujeito enunciado a capacidade para se responsabilizar pelos seus actos, merecendo ser afastado da convivência normal com os restantes cidadãos dado estar a carecer de tratamento médico sob pena de voltar a causar os males do passado, esse “isso” que “já está adquirido“. O silêncio do pessoal circundante face ao enésimo acto de contrição que a Pluma Caprichosa exibe na pantalha, seviciando-se com esgares de dor por causa de uma entrevista que a irá atormentar até ao fim dos seus dias e mais umas eternidades além, é um incontornável momento psiquiátrico para todos os responsáveis pela emissão. É que, caso não saibam, quem despacha diagnósticos de loucura contra terceiros via TV está a precisar – e com urgência – de marcar uma consultazinha da especialidade.

O que eu queria no sapatinho

Que as luminárias que festejaram o Trump, o Bolsonaro e o Brexit como triunfos magníficos contra a esquerdalha, contra os corruptos do sistema corrupto e contra o centro que não é carne nem peixe, viessem dizer se estão satisfeitos com os resultados obtidos até agora ou se o problema consiste em ainda não se ter chegado à solução final.

Ana Gomes só terá uma oportunidade

A entrevista de Ana Gomes na RTP, ontem, serviu para mostrar não só a inutilidade como o erro desta candidatura – dito de forma mais clara, não só o erro como a inutilidade da sua candidatura. Por mim, não faço a menor ideia do que a esteja a motivar que se possa relacionar com o bem comum e o interesse nacional. Nesse sentido, parece-me uma intervenção política análoga à de Soares em 2006 e à de Alegre em 2011, exemplos de desvarios estratégicos crassos da esquerda, absurdos eleitorais nascidos daquilo que na política é tão-só humano e demasiado humano.

Infelizmente ou felizmente, não vejo como é que a sua campanha se poderá salvar porque, nesta altura do campeonato, a sua marca deu um nó cego a si mesma. Ignora-se o que representa para além de uma postura relativista, publicitária e circense “contra a corrupção” donde apenas se consegue perceber que aprova crimes desde que sejam contra uns tipos que ela não grama, e também que a investigação a Sócrates serviu para descobrirmos que o dinheiro que “se dizia” que era da mãe afinal não era, pelo que já deviam ter prendido o homem por qualquer coisa faz tempo, sugere enfastiada. O cenário é tão confuso e inane que ela estaria agora em melhor posição caso tivesse mergulhado de cabeça no populismo mais sensacionalista em vez de, como ontem vimos, andar a exibir-se num fato que não lhe serve: a de estadista que está em condições de ir jurar defender o regular funcionamento das instituições democráticas – ou seja, defender o Estado de direito democrático como mais alta magistrada da Nação.

Pelo que só dispõe de uma oportunidade para sair do actual posicionamento irrelevante e passar para a frente da notoriedade e das escolhas de uma larga fatia de cidadãos, um eleitorado transversal aos diferentes quadrantes ideológicos que não tem quem o compreenda. Uma e só uma oportunidade. Aquela que irá ocorrer numa sexta-feira do próximo Janeiro, daqui por 16 dias. Ali chegada, Ana Gomes tem de se sacrificar pelos mais altos valores em que calhar acreditar e transformar-se num kamikaze apontado ao porta-pulhas que navega a cada vez maior velocidade nas águas da direita decadente.

Como? Provavelmente, não terá ninguém ao seu lado para a orientar. Antecipo até que os conselhos dos seus generais e tenentes sejam para ir na direcção oposta, recusando o choque. Fugindo do combate. Fingindo que não ouve as provocações sórdidas do novíssimo delfim de Cavaco e Passos. Só para tentar dizer uma ou duas coisas “de esquerda”, da tal “esquerda pura e verdadeira” ao gosto dos seus apoiantes mais mediáticos, uma esquerda que até neste PS sempre à direita da revolução é uma raridade (é assim que ela pensa mas tudo aguentou, inclusive no tenebroso período socrático, em nome do heróico trabalho que deixou feito em Estrasburgo). Se for este o plano, Ventura sairá vencedor. Porque Ventura vai entrar vencedor, e vencedor estará ao longo de todo o debate. A menos que…

A menos que Ana Gomes decida fazer da aniquilação política, em duelo, desse seu adversário o singular objectivo da sua participação nestas presidenciais. Se entrar atingindo-o nos centros vitais da sua retórica fascistóide e desumana logo a partir da sua primeira intervenção, fazendo da humilhação moral de quem explora as fraquezas dos mais fracos o assumido propósito do confronto, e só se calando quando apagarem as luzes do estúdio e os seguranças a retirarem à força em braços, então algo decisivo para a defesa da cidade terá sido alcançado. E o debate com Marcelo, no dia seguinte, será um desfile triunfal.

Marcelo supera Cavaco

Marcelo não irá superar Mário Soares em resultados eleitorais mas, a partir da entrevista de ontem, é com vexame nacional que se tem de admitir que Marcelo superou Cavaco – em sonsaria.

Um feito que muitos, e bem sábios, garantiam ser absolutamente impossível dada a gramagem de sonsice do criador da Inventona de Belém.

Revolution through evolution

Empowering women could help address climate change
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The 16 facial expressions most common to emotional situations worldwide
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Lemony scents, light sounds could help promote better body image perceptions, health
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The power of validation in helping people stay positive
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Three pillars of mental health: Good sleep, exercise, raw fruits and veggies
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Better heart health scores in midlife linked to lower risk of late-life dementia
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Nine Nonobvious Ways to Have Deeper Conversations
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Ficamos a ganhar se pagarmos a quem lhe pagou

[…]

Talvez seja aqui que Eduardo Lourenço foi mais profundamente incompreendido, só por ter tido a bondade e a delicadeza de não nos desmentir quando lhe oferecemos o papel de intérprete da nossa portugalidade. E logo a ele, que sobretudo quisera abalar a insegurança da nossa identidade mítica. Com aquele sorriso de quem viveu muito e atravessou com o seu pensamento "selvas, mares, areias do deserto" (como dizia o seu querido Antero), Eduardo Lourenço deixou-se levar para essa imagem de áugure nacional, com a ironia de quem sabe até ao fim a funda irrisão de todas as imagens que deixamos.


Eduardo Lourenço, o ausente de si mesmo

Um “Communication Specialist” a precisar de ajuda

João Adelino Faria está a fazer um péssimo trabalho na série de entrevistas da RTP aos candidatos presidenciais. Não só as suas perguntas são destituídas de relevância, sequer de interesse avulso, como a sua atitude acaba por afundar no esquecimento o eventual valor das declarações dos candidatos por causa do frenesim com que pressiona os entrevistados para que eles lhe dêem as respostas que gostava de ouvir. Quando isso não acontece, e não acontece logo a partir da primeira, entra em modo de roer a canela e insiste, insiste e insiste como se existisse alguma alma na assistência com a sobre-humana capacidade de perceber aonde pretende chegar. Não existe, sendo penoso o espectáculo produzido por um jornalista que se auto-intitula “Communication Specialist” no LinkedIn. Em sua justiça, diga-se que não estamos perante uma novidade. Quem vê o “O Outro Lado”, na RTP3, tem de levar semanalmente com a sua bicefalia de moderador e opositor aos comentadores, particularmente ao Pedro Adão e Silva (porque será? será do Guaraná?).

A sua falta de profissionalismo e módico tino com André Ventura merece destaque, em duas dimensões: o que tal episódio revela acerca do jornalismo português, e o que nos permite pensar acerca do Ventura como desafio a esse mesmo jornalismo. Na primeira, o jornalismo português, aqui representado por um profissional maturo e prestigiado com o privilégio e a honra de servir o canal público de televisão, mostra-se dominado por indivíduos que se concebem como vedetas que só têm de prestar contas ao seu círculo de relações. Foi assim que o Faria apareceu em frente do Ventura, com o fácies moldado por um sentimento de intensa antipatia que se manteve e agravou ao longo da entrevista em que assediou às escâncaras o candidato presidencial. Do outro lado, esteve um entrevistado intuitivo que aproveitou para se vitimizar e passar as mensagens que quis e lhe apeteceu. Na segunda dimensão, e juntando-se aos conhecimentos adquiridos com Miguel Sousa Tavares nas duas ocasiões em que entrevistou Ventura e se mostrou escandalosamente inepto para a função, ficou evidente que é estulto pretender vencer um aldrabão recorrendo a aldrabices. A conduta do jornalista da RTP que entrevistou um perigoso inimigo da democracia e dos direitos humanos foi uma farsa do ponto de vista deontológico, o que teve como consequência branquear e blindar a sua degradante retórica num bastião de ressentimento e irracionalidade que atrai alienados, iletrados e néscios.

Paulo Moura, a respeito do mesmo, fez um sugestivo exercício reflexivo que merece leitura – Por que razão Ventura desarma os jornalistas – onde aponta para a necessidade de se ter de evitar ser Ventura com o Ventura caso a intenção seja fazer jornalismo ou política decente. No fundo, o mesmo arcano princípio, fonte da civilização em que queremos viver, que nos manda não usarmos o mal para combater o mal. Este princípio, contudo, não tem muita popularidade entre a direita partidária e os jornalistas portugueses (salvo as devidas excepções). As nossas vedetas da imprensa escrita e televisiva violam com indiferença calejada o Código Deontológico do Jornalista e o próprio Estado de direito, valendo-se da sua teia de cumplicidades políticas e sociais, e da incontornável ambiguidade dos textos normativos, para usufruírem de um estatuto de impunidade. Lembre-se, para dar só um exemplo que ilustra na plenitude o que está em causa, como o irmão do actual primeiro-ministro justificou a emissão de interrogatórios da Operação Marquês, no que ficou como uma exploração voyeurística bestial (pun intended). Esses conteúdos não tinham qualquer novidade informativa mas foram para o ar em nome do “interesse público” – leia-se, o interesse do público, que é afinal tão-só o das audiências para o negócio gerido pelo mano Costa. Tal qual como a Cofina justifica todas as suas cumplicidades criminosas com agentes da Justiça que geram a caudalosa violação de direitos dos alvos. Agarram-se ao bom povo que precisa com urgência de pão, circo e corruptos a serem apertados pelos nossos heróis no Ministério Público.

Ventura também fala em nome do povo, como tantos em todos os tempos e lugares. Segundo tem partilhado connosco, parece que o povo detesta ciganos, não-caucasianos e estrangeiros. O povo também não vai muito à bola com o Serviço Nacional de Saúde, a Constituição, os pedófilos e os ovários, e talvez tenha uma assolapada paixoneta por nazis infiltrados nas polícias e por empresários no ramo do armamento, vai-nos contando sempre que pode. Às tantas, o Adelino Faria terá ficado naturalmente zangado por ter de partilhar um estúdio de televisão com uma personagem muito mais sabedora do que ele a respeito do que o povo pensa e quer, e daí não ter resistido a mostrar-se agastado, mauzão. Acontece que tamanho descontrolo obteve precisamente o efeito contrário ao que (supomos) pretendia obter. Alguém, na RTP ou fora dela, tem de explicar a este “especialista em comunicação” que para lidar com o Ventura a partir de uma posição de superioridade interrogativa não há instrumento mais eficiente do que esta singular pergunta: “Como sabe?”. É que não adianta fantasiar que se vai convencer um único apoiante do Ventura recorrendo a argumentos racionais ou exibindo como troféus as suas contradições, aberrações e promessas de violência. Essa fatia da sociedade está perdida, é inútil querer dialogar com ela a partir do jornalismo (mas não o será a partir da política, outros os processos mentais à disposição).

O que precisamos que o jornalismo faça na cara dos populistas é que se cumpra como jornalismo – isto é, que seja metodologicamente empático, profundamente analítico e implacavelmente curioso.