Na minha também longa vida, e não só politica, sempre achei que se alguma dúvida existisse sobre o sr. ex presidente, entre outros, ela nunca seria objecto de grande atenção, investigação ou propagação pela comunicação social. Aliás sempre pensei que seria exactamente ao contrário. Nesse aspecto, também eu, não me enganei. Nem um bocadinho.
Sócrates
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Em 2009, em cima das eleições legislativas e autárquicas, foi lançada uma golpada político-mediática que tinha como finalidade prejudicar o PS nessas votações. Essa golpada, ainda durante o período oficial da campanha eleitoral para as legislativas, foi exposta através de provas documentais que permanecem incontestáveis. A origem do estratagema era a Casa Civil da Presidência da República, a única dúvida que permanecia dizia apenas respeito ao grau de responsabilidade do próprio Presidente da República. Após o discurso de 29 de Setembro desse ano, supostamente para esclarecer a posição presidencial a respeito dos acontecimentos e que acabou por ser um dos momentos mais inenarráveis, degradantes e sonsos na carreira política de Cavaco Silva, qualquer interessado na questão encontrava uma solitária conclusão ao dispor da sua inteligência: o Presidente da República tinha participado na golpada eleitoral.
Este é um caso em que, até sem o recurso ao que foi revelado a respeito dos mandantes e agentes do embuste, somos conduzidos pela lógica para a solução do enigma. A 18 de Agosto uma inaudita bomba é lançada pelo Público: o Presidente da República suspeita que está a ser vigiado e escutado pelo Governo. Que se seguiu a uma suspeita que punha em causa os alicerces do Regime e era combustível para um clima de guerra civil? Pois nada. Não aconteceu rigorosamente nada durante 10 dias, excepção para a imediata exploração que PSD e CDS fizeram da calúnia. Só então Cavaco resolveu abrir a boca, mas não para extinguir o caso, antes para o manter na agenda. Ao dizer que acompanhava a situação mas fingindo desvalorizar o episódio, e chutando para depois das eleições o seu esclarecimento, Cavaco transmitia a exacta ideia de que estávamos perante uma invenção ao serviço da perversão da campanha eleitoral e da votação, daí não ser necessário actuar adentro dos seus poderes constitucionais como seria obrigatório que actuasse sendo o boato fundado em qualquer laivo de realidade. Três semanas depois, a poucos dias da votação, o DN publicou um relato baseado em provas que expunha a cabala. Que fez então Cavaco no confronto público com a verdade? Continuou a mentir, dizendo que estava realmente preocupado com questões de segurança, queimando Fernando Lima de forma a que não se queimasse a si, e deixando ir o eleitorado às urnas com essa grotesca suspeita tendo feito o seu caminho mediático e social sem nunca ter sido desmentida e continuando a pairar como avantesma que foi explorada ao máximo.
Na altura, pensei que Cavaco iria ficar com a reputação tão estraçalhada que não iria concorrer para o segundo mandato. Achava que nós, portugueses em Portugal com direito de voto, tínhamos um mínimo de respeito próprio e que, portanto, mesmo que Cavaco concorresse a sua derrota estava garantida. Fosse contra quem fosse. Isto porque a coisa era simples: ter um Presidente da República a cometer um crime de atentado contra o Estado de direito – é disso que se trata, senhores ouvintes – corresponde àquele limite que separa as repúblicas onde vigora a lei democrática das repúblicas das bananas. Só que basta olhar para os nomes que constituíram a comissão de apoio eleitoral de Cavaco nas eleições de 2011 para nos sabermos numa entidade colectiva onde a gana do poder pelo poder sobrepõe-se ao discernimento e à decência. Todas aquelas pessoas, sem excepção, tomaram conhecimento da real conspiração presidencial e, apesar disso, foram cúmplices da reeleição de alguém absolutamente indigno para ocupar o mais alto posto do Estado (ou qualquer outro, pelo menos sem que primeiro tivesse sido julgado e condenado pelo crime em causa).
Nós, os ingénuos, sofremos muito mais do que os cínicos, calafetados estes pela miséria moral onde se embrulham e a que passam a chamar mundo. Mas os ingénuos têm uma vantagem, ou que seja tão-só um penacho, que justifica todas as agruras a que ficam condenados: estão sempre a aprender – como dizia Sólon de si próprio, um dos venerandos patriarcas para todos os apaixonados pelo Estado de direito. E é preciso ser-se mesmo um grande ingénuo para elevar a lei abstracta e comunitária acima da fúria ideológica e tribal.
Ninguém no sistema partidário, à esquerda ou à direita, quis assumir as dores e o vexame da República na “Inventona de Belém”. A Procuradoria-Geral da República não viu motivo para intervir, até porque teria de ser o Parlamento a fazer a denúncia dado tratar-se do Presidente da República. A imprensa estabeleceu uma omertà que dura até ao dia de hoje, sete anos e meio passados. Os governantes e dirigentes socialistas ao tempo nada podiam fazer, pois estavam em cima das eleições e eram a parte fraca, o saco da porrada. E assim continuaram, indo para um Governo minoritário que foi queimado por Cavaco até às eleições presidenciais em 2011. Logo que foi reeleito, e no acto solene da tomada de posse na Assembleia da República, Cavaco apelou ao derrube dos socialistas por todos os meios, inclusive pela rua. A aliança negativa que chumbou o PEC IV fez-lhe a vontade. Foi a conclusão do mesmíssimo plano do qual a golpada de 2009 faz parte.
Cavaco podia ter continuado sem nada dizer a respeito do assunto, um assunto onde o País é cúmplice do crime ocorrido, mas como o seu sentimento de impunidade é total veio mentir mais uma vez. Nem sequer a confissão, também em livro, de Fernando Lima o travou. O desplante alucinado do que fez explica a reacção acabrunhada da direita, onde só os mais sordidamente fanáticos aparecem a louvar Cavaco pela desgraça ética onde está enterrado. Para piorar, um dos principais envolvidos na inventona, José Manuel Fernandes, também mente desbragada e impunemente, nem sequer sabendo o que o seu jornal realmente publicou e deu a publicar. Mentiras dos dois que não só rivalizam como chegam mesmo a superar as de Trump.
Ao ter vindo falar do caso, e ao fazê-lo do modo como o fez, Cavaco deu a Sócrates uma das melhores presenças mediáticas dos últimos anos. Essa exposição, frente a uma Judite de Sousa sem condições deontológicas e cognitivas para o papel de entrevistadora daquela figura a respeito deste caso, foi anulada mediaticamente nas horas e dias seguintes dado que nenhum dos fazedores de opinião, seja em jornais ou televisões, quer tocar no assunto. E não querem porque o que Sócrates disse é à prova de estúpidos.
Quando Vasco Pulido Valente, que não tinha de espetar essa lâmina para continuar a zurzir no seu ódio de estimação, escreveu “ele não gosta de escândalos como o escândalo das “escutas”, que vários peritos dizem que ele próprio inventou.” foi ultrapassado o Rubicão. O crime de Cavaco foi oficialmente proclamado como uma evidência, e as provas foram fornecidas pelo próprio. Só que nada lhe vai acontecer, porque o País prefere continuar a proteger Cavaco mesmo quando o que fez nos conspurca a todos.
Pacheco Pereira foi um dos mais activos e poderosos cúmplices de Cavaco na “Inventona das Escutas” e não só. Em cima das eleições de 2009, Pacheco andava desaustinado a dizer aos jornalistas que a seguir à votação se iriam descobrir os monstruosos crimes de Sócrates, e que se Cavaco não dizia mais a respeito disso era só porque não o podia dizer naquela altura, a poucos dias do escrutínio. O Pacheco continuaria nos meses seguintes a repetir essa cassete, e conseguiu fazer-se deputado para se enfiar numa saleta e escutar o que a espionagem a Sócrates nas conversas com Vara tinha recolhido. Saiu de lá a cuspir umas inanidades de imediato desmentidas pelo deputado comunista João Oliveira que se tinha prestado a exercício igual. De lá para cá, o Pacheco vestiu a toga de juiz do Regime e da sociedade, enchendo a boca com tiradas moralistas e morigeradoras a bem da Nação e seus costumes, mantendo a sua obsessão por Sócrates bem anafada e rosadinha. Pois bem, Pacheco, conta lá: não tens nem meio pingo de vergonha nessas barbas e nessa pose de cagão chico-esperto, pois não?
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