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Vergonha, modos de usar
O desfecho da comissão parlamentar de inquérito à CGD gerou um episódio que começa por ser inacreditável, e que acabará por ser carimbado como burlesco ou trágico. Inacreditável porque não se acredita que o PS fosse para a votação do relatório – ainda por cima, e antes de tudo, dadas as questões em causa e sua notoriedade – sem saber onde estavam os deputados envolvidos, suplente incluído. Burlesco se a causa tiver sido a incompetência do grupo parlamentar. Trágico se tivermos assistido a uma encenação dos socialistas para obterem exactamente este resultado, o chumbo do relatório. Para clarificar esta última hipótese teremos de esperar pela conclusão das investigações judiciais à Caixa, algo que pode demorar meses ou anos. Neste contexto, a notícia da saída de Alberto Martins do Parlamento pode ser um sinal de que algo profundamente errado aconteceu nesta história ou tratar-se somente de uma coincidência.
Factualmente, quais as informações novas geradas pela iniciativa parlamentar que colocou sob juramento os principais responsáveis pelo banco nos períodos investigados? Para o leitor e espectador interessado nos assuntos políticos, a resposta é nada, zero, nicles. PSD e CDS foram para a comissão cheios de suspeitas e essas suspeitas continuam intactas, na sua retórica, ou esvaziaram-se, de acordo com as declarações dos inquiridos. Resta a esperança de os colossais crimes estarem guardadinhos na papelada do banco à espera do olhar aquilino de um Ministério Público onde acabou a impunidade graças ao heroísmo e santidade de Joana d’Arc Vidal. Ou seja, se nos cingirmos às posições e declarações dos partidos, o inquérito serviu para reforçar a ideia de que a direita explora hipocritamente uma situação onde não tem qualquer prova para apresentar, limitando-se a mandar atoardas por ser essa a sua cultura política, um estado de decadência onde a calúnia aparece como a principal arma de arremesso.
Esta seria uma situação onde a imprensa poderia vir em nosso auxílio. Do que se trata é de tentar saber o seguinte:
– PS, PCP e BE encobriram ou adulteraram algum dado, ou dados, nos trabalhos da comissão?
– Alguma informação substantiva que indicie ilegalidades ficou registada nas declarações dos inquiridos? Se sim, qual ou quais? Se sim, em quê e porquê?
– A versão do PSD e CDS – a qual implica que não só Sócrates como também Teixeira dos Santos (na prática, todo um Executivo, ou dois) e vários dirigentes máximos da CGD cometeram inauditos e homéricos crimes de corrupção – merece algum crédito, sequer módico respeito?
Portugal é pequenino e a nossa imprensa é minúscula. Um dos primeiros a opinar foi o David Dinis – A honra do convento – e o que escreve deixa-nos um retrato de anomia, uma visão onde o jornalismo não passa de uma câmara baixíssima que serve apenas para destilar maus fígados. Se lermos o seu texto 10 vezes não conseguiremos extrair qualquer dado objectivo sobre o que realmente esteve e está em causa, seja na comissão de inquérito ou no seu acto final. Pelo contrário, o autor prolonga o discurso da direita, largado suspeições que não fundamenta para poder colocar todo o entusiasmo teclado na difamação. A frase “Salvou-se a comissão de uma vergonha” não quer dizer absolutamente nada para além do seu desejo de insinuar que estamos perante uma farsa gigantesca. Uma farsa que ele topa muito bem, claro, apenas não se dando o caso de ter tempo para nos explicar em que consiste e por que sortilégio ainda se mantém apesar deste bacano estar por dentro da cena e ter um jornal e não sei quantos canais de TV e rádio à disposição para expor a “vergonha”.
É que acabar com as vergonhas políticas que este tipo de jornalistas vão coleccionado pode não dar jeito nenhum, né? Se acabassem, falavam do quê?
Serviço público
Num bairro que se habituou a ter medo da polícia, a ouvir "para dentro, caralho", a revistas sem motivo, a portas partidas, a balas perdidas, a ser tratado por tu, a não protestar "porque é pior" e a não fazer queixa "porque não serve de nada", a acusação do MP à esquadra de Alfragide é como uma esmola demasiado boa: o pobre quer acreditar mas desconfia. É muito tempo sem justiça nem lei, de "preto vai para a tua terra", de "cala-te se não queres levar". A sede de uma espera só se estanca na torrente. Virá ela?
Revolution through evolution
Study Finds ‘Sexism’ in Sexual Assault Research, but This Time Men Are the Target
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Cannibalism: A new way to stop the spread of disease
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Cognitive behavioral therapy improves functioning for people with chronic pain, study shows
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Handshaking viewed more positively by Westerners than by East Asians
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Banks hired risk officers to mitigate risk in years before collapse. It didn’t go so well
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A Purpose in Life by Day Results in Better Sleep at Night
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Study Reveals the Hidden Ways Math Helps Us in Everyday Life
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Perguntas simples
Suspeito, não sabe do quê, até prova em contrário
Em mais um 14 de Julho, aniversário da Revolução Francesa, vem a propósito recordar o que se passou há 11 dias com Manuel Pinho. Segundo o seu advogado, Pinho foi constituído arguido no caso das rendas da EDP sem ter sido ouvido e, principalmente, sem ter conhecimento do que estava na origem da acção judicial sobre a sua pessoa. No dia seguinte, a PGR enviou para a Lusa uma declaração onde se lia que “no momento da constituição, o arguido foi informado dos factos que lhe são imputados”. Mais um dia passado e Ricardo Sá Fernandes apareceu a desmentir a PGR e a anunciar uma queixa à Ordem dos Advogados para refutar o que considerou como falsidade. De lá para cá, no meu radar, nada mais aflorou a respeito. Não sabemos quem mente, mas sabemos que alguém mente.
Será este episódio algo sem importância cívica, política ou social? Não, impossível. O silêncio que o encobre revela uma sociedade que já transitou em julgado a culpa de um grupo de cidadãos. Nesse grupo está Manuel Pinho, figura que é fácil de ridicularizar e ofender. Saber que foi constituído arguido sem saber porquê, sem se poder defender e, como também apareceu publicado, apenas para evitar a prescrição de um inquérito, não causa escândalo, sequer solidariedade ou mínima preocupação. Na prática, testemunhamos um ostracismo generalizado que foi e é desejado por este Ministério Público de Joana Marques Vidal. Acham, e com toda a razão, que é meio caminho andado para prolongarem um exercício de poder que, a confirmar-se a versão de Sá Fernandes, corresponde a uma prática despótica. Saber como chegámos a este estado não é operação cognitivamente exigente, pois existe uma campanha intensa para linchar publicamente todos os alvos que possam contribuir para a exploração caluniosa de Sócrates com objectivos comerciais e/ou políticos. Pinho alia a ligação a Sócrates à ligação ao BES, transportando uma nuvem de culpabilidade que não passará nunca, nem mesmo que saia ilibado dos imbróglios legais onde está metido. Ainda por cima é rico, logo, fogueira com ele.
228 anos passaram desde a Tomada da Bastilha. Incontáveis e radicalmente decisivas as alterações políticas e sociais resultantes desse evento na França, na Europa, no Ocidente. Qual a relação desse pilar da História Moderna e Contemporânea com esta nanohistória de um fulano mal-afamado que foi constituído arguido no meio de um bate-boca sobre questões formais a que ninguém liga, muito menos tratando-se da rês em questão? A relação é a que cada um quiser – e puder – estabelecer. Na verdade, podemos recuar mais anos, mais séculos, até milénios, e continuar a estabelecer nexos fundamentais. Trata-se de reconhecer o papel do conhecimento histórico na formação da consciência política, primeiro, e na formação da actividade cívica, depois. Quem não souber explicar a si próprio o que aconteceu na Revolução Francesa igualmente não conseguirá sequer perceber qual seja a importância de vivermos num Estado de direito democrático. Porque não irá entender o que seja uma democracia, uma constituição, um direito. Nesse caso, qual será a origem das suas convicções ou opções políticas? Quais os mecanismos através dos quais toma decisões eleitorais? Como se gera na sua consciência os gostos e aversões pelas figuras públicas ligadas ao poder político, económico e social? Não é um acaso que, neste País vítima de décadas de analfabetismo e iliteracia, décadas de ignorância intelectual e atrofio cívico, o Correio da Manhã seja o grande educador do povo.
Como escreve Sócrates – Arguido por prevenção – o Código Penal não contempla a figura de arguido por fezada e arbítrio de algum procurador que esteja para aí virado. Porém, talvez o devesse fazer. Talvez o melhor seja regularizarmos a situação. Pormos em letra de lei que se pode constituir arguido qualquer cidadão sem carência de factos que o sustentem, sem que seja ouvido pelas autoridades judiciais, e ficando a partir daí ao dispor do Ministério Público e do seu aparelho mediático para o que lhes apetecer. É que coisas destas já aconteceram, eram a norma no tal passado registado na História. Os poderosos de então não conheciam outra forma de exercer o poder que não passasse pela lei do mais forte. Foi preciso que muita e muita gente verdadeiramente heróica morresse, ou perdesse tudo de seu e ficasse na miséria ou encarcerada, antes de se conseguir criar neste planeta uma outra forma de convivência onde a liberdade, a igualdade e a fraternidade substituíssem a tirania, o privilégio e a opressão.
Nesta terra de liberais de pacotilha, temos de perguntar aos valentões que apanham corruptos pelo cheiro, não precisando que qualquer investigação se conclua nem de conhecer a defesa dos envolvidos, se estão de acordo com a tal mudança do Código Penal – se isto de tratar cidadãos como suspeitos não sabem do quê até prova em contrário é só para ser usado contra alguns tipos que eles não gramam ou se também querem ver a sua família, amigos e colegas de carreira sujeitos ao mesmo remédio. Conseguir levá-los a responder a esta questão seria verdadeiramente revolucionário.
A CGD e a telepatia
O PSD, e muito bem, pretende que o Parlamento investigue até à última gota a CGD. Perante um inquérito parlamentar que não encontrou provas de pressões políticas sobre a Caixa, tendo os principais dirigentes do banco declarado sob juramento que sempre agiram sem condicionalismos dos diferentes Governos, os sociais-democratas estão em combate para que não se aprove as suas conclusões. Na berlinda está o levantamento do sigilo bancário da CGD, do Banco de Portugal e do Ministério das Finanças. A suspeita que justifica o interesse é da maior importância para a direita partidária e mediática, dizendo respeito a certos empréstimos, a certas pessoas, para certos negócios. É uma suspeita que tem sido explorada a outrance vai para 10 anos, coincidindo com a implosão do BCP por exclusiva responsabilidade de Jardim Gonçalves e do seu delfim, Paulo Teixeira Pinto. Ambos criaram uma situação de ruptura que abriu uma crise institucional no banco. Nesse contexto, diferentes accionistas aliaram-se para encontrar uma nova solução de gestão, e é neste âmbito que nasce a teoria da conspiração predilecta da oligarquia: Sócrates deu ordens à CGD para emprestar dinheiro àqueles que depois iriam conseguir controlar o BCP e meter Santos Ferreira e Vara no comando das operações. A teoria implica ainda que Sócrates dominava o BES e seu DDT. Ou então que era dominado pelo Ricardo, pois a teoria dá para os dois lados com igual eficácia argumentativa posto que nada tem de ser provado, sendo usada nas duas versões consoante as ocasiões e a direcção do vento. Mas o interesse da direita e seu império mediático não se esgota no BCP, pois qualquer empréstimo que possa ser associado, seja de que forma for, a Sócrates é alvo da suspeição máxima, quando não de certezas prévias às eventuais investigações. Existem milhares de declarações de políticos, directores de imprensa, jornalistas e comentadores em “órgãos de referência” a propagar estas ideias num qualquer grau ou modalidade. Se o PSD tiver razão, se os tais documentos em falta forem disponibilizados aos deputados e revelarem o esquema dos bandidos, ficaremos penhorados aos bravos da Lapa porque algo historicamente importante para a Justiça, a política, a sociedade, e até para a cultura, em Portugal terá acontecido ao apanharmos criminosos desse calibre.
Curiosamente, o PSD não pretende que se investigue até à ultima gota o caso do apagão no Fisco de 10 mil milhões de euros transferidos para paraísos fiscais. O que está em causa são transferências ocorridas em 2012, 2013 e 2014, exclusivamente do BES e Montepio nos três anos consecutivos – e correspondendo no caso do BES ao volume de 7917 milhões de euros omissos na base de dados. Perante a auditoria da Inspeção-geral de Finanças que concluiu pela inexistência de responsabilidade humana nessas anomalias, os sociais-democratas de imediato reclamaram que o Governo devia um pedido de desculpas a Passos Coelho, ao Governo anterior e ao PSD. No entanto, não é preciso ser técnico das finanças ou de informática para suspeitar que tamanha coincidência talvez seja mais improvável do que ganhar o Euromilhões 3 vezes de seguida. É que o programa do Fisco envolvido só teve problemas no registo das transferências para offshores. E só em 2012, 2013 e 2014. E só para o BES e Montepio nos três anos consecutivos. E permitindo que o BES, na altura crítica em que pairava sobre os seus donos o descalabro total, pudesse mover para fora do País aquela quantidade de dinheiro ocultamente. Pode ser uma coincidência, claro e sei lá eu. Todavia, porque está o PSD cheio de pressa para arrumar o assunto apesar das evidências que suscitam a maior perplexidade? Ainda por cima, a ter existido mãozinha, ela abrirá um novo capítulo na história da criminalidade em Portugal graças à sofisticação da operação. Dir-se-ia que este material jornalístico seria capaz de deixar a imprensa nacional a salivar de apetite e com ganas de revolver os calhaus da estrada, mas, como não mete socialistas, reina o marasmo na produção de títulos e falatório.
O caso da CGD é fascinante para os apaixonados por política. Estamos a falar de um banco que teve e tem nos seus quadros dirigentes – portanto, ou seja, isto é, nas pessoas que conhecem perfeitamente bem o que se passou com os tais empréstimos, dispondo de toda a documentação a respeito para ler e reler caso sofram de insónias – dezenas de bacanos ligados ao PSD e ao CDS ao mais alto nível. Faria de Oliveira, presidente do Conselho de Administração e CEO de 2008 a 2011, foi uma figura grada do Cavaquistão. José de Matos, o presidente da CGD que se seguiu, foi escolhido pelo Governo do PSD-CDS. Paulo Macedo e Rui Vilar não carecem de apresentações nem de explicações sobre os seus percursos. E estas referências dizem apenas respeito ao pináculo da pirâmide, logo abaixo os níveis directivos estão repletos de imitações. Donde, não há nada que se possa descobrir nos tais documentos em falta que eles não tenham descoberto directa ou indirectamente. A comissão de inquérito parlamentar à CGD foi anunciada pelo PSD com pompa e excitação dada a promessa de se ir, finalmente, confirmar o faduncho que andavam a cantar nas esquinas. Lá chegados, só um indivíduo deixou no ar suspeições que não provou e que foram de imediato desmentidas pelos terceiros que referiu. Esse indivíduo dá pelo nome de Campos e Cunha e a sua obsessão com Sócrates e com o PS não passa de um caso de ódio até prova em contrário. Os restantes desmentiram, sob palavra de honra, o discurso calunioso da direita. Em suma, se a CDG foi um pardieiro do “bloco central”, como PCP e BE não se têm cansado de repetir ao longo de décadas, essa paridade tornava impossível a sua manipulação para a luta política por um dos lados em desfavor do outro. Pura e simplesmente, tal seria denunciado com todas as provas suficientes para interromper as manobras na hora. Ora, as suspeitas nunca passaram de munição caluniosa, apesar da facilidade em expor os eventuais actos legal ou politicamente ilícitos.
Entretanto, o Ministério Público de Joana Marques Vidal entrou numa guerra de vida ou de morte com Sócrates ao abrir o “Processo Marquês” e ao seguir por uma linha de violação de direitos e abuso de poder. O enredo que seguem é o da direita e corresponde, ao milímetro, a uma operação gigantesca de investigação aos Governos do PS de 2005 a 2011. Neste momento, temos investigações a correr sobre as PPP, os gastos com cartões de crédito desses governantes e sobre qualquer contrato com a assinatura de Sócrates que possa ser usado para alimentar suspeitas e acabar referenciado na eventual acusação a Sócrates. Até negócios de privados poderão ter utilidade desde que se estabeleçam esquemas de ligações entre protagonistas. E quais os grandes negócios, num país minúsculo, que não têm qualquer ligação entre terceiros com o poder político do tempo? Pois. Em jogo não estão apenas factos, outrossim percepções – dado que com percepções também se condena em tribunal ou, pelo menos, na opinião pública. E o fascínio da questão consiste em observar até onde é que a Justiça e a direita vão levar a farsa de ter existido um primeiro-ministro que dominou um banco público para cometer crimes de regime – e impossíveis de esconder, no acto mesmo de se realizarem – apenas recorrendo aos seus poderes telepáticos.
Deliciosa desgraça
Os mortos de Pedrógão e o aparente assalto em Tancos foram festejados exuberantemente pela actual direita partidária, pela indústria da calúnia e pela classe dos jornalistas vulgares. A uni-los a mesma satisfação na expressão descontrolada da agressividade e da violência verbal. Uma questão de adrenalina, mas também de dopamina e serotonina. A depressão causada pelas boas notícias para o País e para os portugueses foi substituída pela euforia resultante da catástrofe, da tragédia e do pânico. O caudal de acusações, centradas na abstracção do “Estado” e na indefinível “resposta” do actual Governo, permitiu reunir no mesmo festim os pulhas do costume, os fanáticos profissionais e, para surpresa dos incautos, certas vozes que tomamos como ponderadas e activas no acrescento de salubridade para o espaço público. Podemos usar como exemplo paradigmático este texto: Estado de desgraça
Anselmo Crespo recreia-se a colar com cuspo banalidade atrás de banalidade, caricatura atrás de caricatura, numa juliana de vacuidades que foi registando ao longo dos dias nas leituras dos colegas de comentariado. A retórica escolhida, muito provavelmente num automatismo insciente, é um misto de registo coitadinho a rasar o lamechas com o desvario hiperbólico do tabloidismo e da demagogia mais básica. Exemplos:
– «E foi quando se começou a perceber que a demissão de um ministro, por si só, não resolvia os problemas, que se começou a aplicar a velha estratégia do "empurra com a barriga"."»
– «Aquilo a que assistimos nas últimas semanas, quer no caso de Pedrógão quer no de Tancos, foi a dois ministros completamente desorientados, a cumprir ordens do primeiro-ministro, do Presidente da República e dos assessores de imprensa, sem a menor noção do que fazer.»
– «No caso de Pedrógão Grande, continua o jogo do passa-culpas, tocam-se uns requiens com a presença do Presidente da República, mas continua-se sem dar resposta à pergunta mais importante: aquelas 64 pessoas tinham que morrer? Tinham, senhora ministra?»
É a cassete dos “malandros dos políticos”, bando de corruptos e incompetentes que muito aborrecem os santos e geniais jornalistas que têm de relatar as suas actividades e ainda opinar a respeito. Mas é mais. É também a exploração, aqui consciente, do ódio larvar nas audiências a quem estas peças se dirigem, não hesitando em apontar para uma governante e dizer que ela foi responsável pelas mortes do incêndio de Pedrógão. Como é que o valente Anselmo consegue estabelecer esse nexo? É o próprio que o explica ao abrir as cortesias:
«A tragédia de Pedrógão Grande e o assalto aos paióis em Tancos são dois casos completamente diferentes, apenas com uma semelhança: o falhanço do Estado. E não, não é preciso esperar pela investigação da Polícia Judiciária ou pelas conclusões da comissão independente - que nunca mais ata nem desata - para chegar a esta conclusão.»
E não, não, não e não. De facto, não é preciso gastar mais do que meia caloria para concluir que a velocidade a que o autor chega às conclusões que lhe dão jeito tem como consequência o despiste da sua inteligência pela ribanceira do sensacionalismo abaixo. Donde, a questão: qual a finalidade de exercícios como este, neste meio? Sendo o resultado prático da leitura do texto o encontro com a decadência intelectual e cívica a que ele nos conduz feliz da vida, podemos igualmente concluir que estes jornalistas de uma opinião que se contenta em chafurdar na impotência são parte da tal desgraça que os alimenta e embriaga.
Exactissimamente
Revolution through evolution
Our faces reveal whether we’re rich or poor
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Surprising trend in extramarital sex in America
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Self-driving cars may soon be able to make moral and ethical decisions as humans do
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Smelling your food makes you fat
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Who’ll win at Wimbledon? Just listen to the pitch of the grunts
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Computer that reads body language
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Vegetable coloring agent lutein may suppress inflammation
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O assalto ao bom senso
Tinha, tenho e continuarei a ter o Paulo Tavares na conta de jornalista sensato e útil. Mesmo depois de ele ter publicado isto como “opinião da direção”:
O gabinete do ministro da Defesa enviou ao DN um esclarecimento a propósito da manchete de ontem, Autorização para obra na vedação de Tancos demorou 73 dias. À parte a correção de pormenor nas datas, importa fixarmo-nos no último parágrafo. Aí revela-se muito mais do que uma simples correção de datas. É dito que "o despacho em causa (...) não resulta de nenhuma questão de segurança da infraestrutura; diz respeito estrito a um ato administrativo de autorização de procedimento contratual". Conclui-se, portanto, que ao ler as palavras "cerca", "paiol" e "reparação" todas juntas, num documento do Exército, não passou pela cabeça do ministro - ou de alguém do seu gabinete - questionar as chefias militares sobre as condições de segurança daquele perímetro [...]
Não foi uma "questão de segurança"? A sério?! Mas senhor ministro, que outra razão haveria para o Exército querer uma cerca nova ou instalar um circuito vídeo naquelas instalações? Ter uma vedação mais bonita e de uma cor que combinasse melhor com o mato por cortar dentro do perímetro dos paióis? Passar a ter câmaras mais modernas, a cores e alta definição, para ver ao detalhe a nova cerca? Acaso os pedidos que lhe chegaram à secretária foram para construir canteiros de flores ou fazer melhoramentos na messe dos oficiais? São uns frívolos e vaidosos, estes tipos do Exército...
Querido, mudei a cerca (ao paiol)
A coisa, do princípio ao fim e a começar pelo título, pretende-se sarcástica, mas é apenas parva. De acordo com o raciocínio, sempre que o Ministério da Defesa aprova uma despesa qualquer tem de questionar as chefias militares sobre matérias de segurança. É que tudo se pode relacionar potencialmente com algum risco, num qualquer grau, quando estão em causa as Forças Armadas. O articulista enche o peito com as palavras “cerca”, “paiol” e “reparação” sem perder uma caloria a pensar se o alvo da gozação não acabaria por ser ele próprio. Ter um ministro da Defesa a telefonar para os chefes militares por causa de uma reparação numa cerca de um paiol dá notícia, sem dúvida, só que à pala do ridículo da questão e pelo atestado de incompetência que esse ministro estaria a passar aos militares. Quando os nossos oficiais e praças precisarem da ajuda dos ministros para reconhecerem uma falha de segurança na protecção de um paiol por causa da porcaria de uma cerca essa será uma trombeta a anunciar que o melhor é fecharmos a tropa e confiarmos a defesa da Nação aos discos do Solnado.
Anatomia das crises políticas
Estar na oposição é estar permanentemente em crise política. Porque algo está a correr muito mal quando se é oposição. Nenhum partido foi criado com a intenção de ficar na oposição como meta ideológica ou programática. Ser oposição parlamentar implica sofrer o vexame da derrota nas urnas ou na Assembleia da República. A saída para essa inerente crise política passa pela abertura de novas crises políticas cujo alvo seja o Governo e o partido, ou partidos, onde se legitima. Logo, as oposições procuram constantemente, salvo nos acordos pontuais com o Governo onde obtêm vantagens, que o Governo se desgaste, enfraqueça e acabe por ser substituído – de preferência, antes do fim da legislatura – por outro Governo agora formado por quem estava na oposição.
Estar no Governo é estar permanentemente em crise política. Porque algo pode correr mal, ou muito mal, e algo acaba invariavelmente por correr mal e muito mal. Nenhum Governo escapa à permanente e ubíqua pressão da fiscalização dos seus actos – e ainda dos actos passados, de Governos anteriores, cujas responsabilidades e consequências possam ser associadas ao Governo em funções. A saída para essa inerente crise política passa pelo fechamento das sucessivas emanações do estado geral de crise, seja pela resolução dos problemas avulsos, seja pela retórica da pose de Estado. Logo, os Governos procuram constantemente, e especialmente nos acordos pontuais com a oposição onde tudo o que fica acordado são vantagens, que a oposição pareça incapaz de fazer melhor do que está a ser feito na governação, levando a que no final da legislatura o eleitorado prefira a continuidade à mudança.
A comunicação social que cobre as actividades do Governo e da oposição alimenta-se das crises políticas. O registo é apocalíptico para quem estiver a empurrar a oposição na direcção do poder e dissuasor e panegírico para quem estiver a empurrar o Governo para se manter no poder. A energia dos participantes cresce na relação directa das reais ou inventadas fraquezas do adversário e das agendas respectivas daqueles que têm espaço mediático: políticos, directores de imprensa, jornalistas, comentadores. Quando não há matéria substantiva para crises, diz-se que essa situação prenuncia uma crise futura, iminente, já em curso… na comunicação social. Por exemplo, se um Governo estiver a superar todas as expectativas e a apresentar resultados económicos crescentemente positivos, alega-se que tudo podia ser muito melhor com outros senhoritos ou que vai tudo desabar em breve por causa disto e daquilo. Por exemplo, se um Governo tiver de lidar no espaço de poucas semanas com um incêndio com dezenas de mortos e um assalto a um paiol militar com falhas de segurança, declara-se a falência do Estado e agitam-se as bandeiras do caos. Não há, nem tem de haver, racionalidade, objectividade, justiça. Porque tal ponderação é contrária à dinâmica da comunicação social. Os milhares e milhões e milhares de milhões de situações que correram e correm bem nos serviços do Estado não impedem o frenesim sanguinolento quando as variáveis geram desastres e danos alarmantes. Na comunicação social, por causa do seu próprio ritmo editorial e da sua natureza autofágica, as crises políticas não são episódios, são conteúdos.
Porém, todavia, contudo, nem todas as crises políticas são crises políticas. Aliás, quase nenhumas, não passando de algazarra que se mastiga e deita fora assim que perde o sabor. Para percebermos o que é uma verdadeira crise política temos de pesar as suas origens e consequências. A mais recente aconteceu no seguimento das eleições legislativas de 2015, em que o partido vencedor em número de deputados não conseguiria formar um Governo com legitimidade parlamentar. Desta crise política veio uma solução governativa que não só tem resultado por cumprir o que prometeu aos eleitores como antecipa um salto qualitativo no sistema político no mesmo sentido. Antes dessa, tivemos a de 2011. A insuspeita Marina Costa Lobo, num artigo onde chega a citar o insuspeito Pedro Santos Guerreiro, explicou em tempo útil, e à prova de estúpidos, o que era uma obscena crise política em formação e andamento:
Famoso caça-socráticos queixa-se de ex-ama
Temos um Estado máximo a prestar serviços mínimos. Os portugueses andam há ano e meio a fechar os olhos a tudo isto, encandeados pelo sorriso do primeiro-ministro. Já vai sendo hora de começarem a abrir a pestana e exigirem responsabilidades pelas manifestações contínuas de absoluto desleixo por parte de quem dirige o país.
Cliente do serviço de amas do Palácio de São Bento
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João Miguel Tavares, talvez o melhor jornalista português na área da investigação (e não só), tem prestado serviços inestimáveis à Grei. Fruto da sua coragem, a corrupção socialista de casta socrática está a ser perseguida, julgada e condenada sem dó nem piedade; e também sem tribunais, pois, para quê gastar dinheiro nessas chatices se basta dar razão a umas certas pessoas da nossa preferência? Quando terminar a sua caça aos bandidos, que topa à légua nas capas dos esgotos a céu aberto, o País vai finalmente recuperar a decência. Há que esperar só mais um pouquinho na certeza de que não irá vacilar, é o combate da sua vida.
Entretanto, este farol ambulante da nossa moralidade colectiva deixou-nos um aviso sobre António Costa – fulano que conhece de ginjeira ao ponto de, no passado recente, lhe ter confiado a guarda dos filhos. Ora, parece que esse tal Costa anda a fazer merda da grossa. Como se pode ler no último edital do sr. Tavares, temos um primeiro-ministro que revela “absoluto desleixo” na governação. Se fosse apenas “desleixo” já seria gravíssimo. Com o adjectivo, é crime. Ou coisa absolutamente pior.
O alerta não vem de um raivoso qualquer, apenas interessado em despachar mais uns caracteres para sacar o seu. Muito pelo contrário. Trata-se de uma vedeta da fina flor do jornalismo nacional, uma inteligência superior, alguém especializado em socialistas e seus vícios congénitos, endémicos e sistémicos. E nós só podemos imaginar como este extremoso pai estará agora tão arrependido de ter ido meter os próprios filhos nesse antro onde reina o “absoluto desleixo”. Foi uma sorte as crianças terem conseguido voltar para o regaço paterno sem mazelas ou traumas.
Vamos lá a saber
Revolution through evolution
Immigration Does Not Raise Crime, UCI-Led Study Finds, Refuting Common Assumption
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Higher IQ in childhood is linked to a longer life
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Does Religion Protect Against Suicide?
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Slow motion makes soccer referees more likely to give a red card
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Study Finds Hackers Could Use Brainwaves to Steal Passwords
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Why Social Isolation Can Bring a Greater Risk of Illness
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Cocoa can be seen as a dietary supplement to protect human cognition and can counteract different types of cognitive decline
Bela imagem
Exactissimamente
Onde esteve Sócrates na manhã e tarde de 17 de Junho?
Não me lembro de qualquer estudo que tenha como objecto as relações de antagonismo e simbiose entre a actividade jornalística e a actividade política em Portugal. Mas, às tantas, as universidades estão cheias deles. Sabemos que os políticos dependem dos meios de comunicação para obterem real ou imaginada influência social, eleitoral e até pessoal. Sabemos que os meios de comunicação que se proponham assumir o estatuto de “imprensa de referência” fazem a constante cobertura dos acontecimentos políticos, natural e logicamente tratados como os mais importantes na hierarquia dos conteúdos jornalísticos. E depois sabemos mais coisas, como sejam as preferências políticas e fulanizadas, explícitas ou implícitas, das empresas e indivíduos que constituem a substância dos órgãos de informação com poder de influência sobre as atitudes e comportamentos das audiências. Mas desconhece-se, ou desconheço, o efeito que o jornalismo de opinião e as opiniões em meios jornalísticos têm tanto nos actos eleitorais como nos processos correntes da governação e oposição. Que vale, que gera, um qualquer texto e suas mensagens – por exemplo, no Expresso?
Por exemplo, este – Foi crime. Ponto final! – onde o autor argumenta que o incêndio em Pedrógão Grande, e o seu efeito nos bens e nas pessoas, é de origem criminosa. Eis a fórmula a que recorre:
"Este rol de atos, agora provadamente criminosos, têm culpados. Neste e em anteriores governos. Seja por ação ou inação, o Estado foi negligente, permissivo e permitiu este trágico desfecho."
Comecemos por esquecer a sua dificuldade com a concordância gramatical, e apaguemos da memória a retórica parola com que abre e fecha o texto. Fiquemo-nos pelas suas intenções. Aparentemente, este passarão com tribuna num título histórico da nossa imprensa está realmente preocupado e indignado por causa do tal incêndio e suas vítimas. Tão preocupado e indignado que não carece de investigações oficiais e das suas conclusões, ele já chegou à verdade sozinho. Da listagem dos crimes que descobriu resulta que o autor gostaria de ver em tribunal um grupo de cidadãos cujo número deverá variar entre as muitas dezenas e as várias centenas (talvez esteja a calcular por baixo). Achará ele que nós achamos que ele acha que o que escreve é para levar a sério? Naaaa… O senhor está a desabafar, a usar o seu cantinho donde lança anátemas e absolvições, a sonhar-se um justiceiro que não está para perder tempo quando é tão fácil resolver os problemas com um teclado.
Contudo, do seu teclado também saiu esta interessantíssima revelação, a qual carimba como “crime”:
"o sistema de comunicações resultou de um contrato forjado pelas mãos ocultas do Bloco Central para enriquecer alguns, sendo hoje uma rede de segunda categoria."
Ignoro se ele entregou as provas do que publicou no Ministério Público ou se o irá fazer no futuro por iniciativa própria ou a pedido das autoridades. É lá com ele e com a Justiça portuguesa. Para o que nos ocupa, esta afirmação não suscita qualquer dúvida na interpretação. Um cidadão exercendo a função de diretor-adjunto do jornal Expresso usou esse mesmo jornal para divulgar a ideia de que Durão Barroso, Santana Lopes, Bagão Félix, Daniel Sanches e António Costa – pelo menos estes mas podemos esticar a lista à medida do tempo que queiramos perder com ela – são responsáveis pelas mortes, feridos e destruição de bens no incêndio de Pedrógão Grande dado serem corruptos, terem vendido a sua responsabilidade e honra numa manigância “para enriquecer alguns”. O texto saiu há dois dias e não há protestos de ninguém nem este bravo foi despedido ou admoestado, que saiba. Talvez por estar cheio de razão?
João Vieira Pereira tem contribuído com ânimo incansável para espalhar na opinião pública uma outra ideia relativa à corrupção, a de que os Governos do PS entre 2005 e 2011 eram antros de bandidos, sendo suspeitos todos os actos praticados pelos seus governantes. Já quanto à temática da corrupção a mando do “Bloco Central” ele tem sido muito mais comedido, tímido, quiçá apático. É que não se compreende como consegue ir trabalhar todos os dias na posse de tanto segredo tão mal guardado sobre negócios corruptos envolvendo sucessivas lideranças do PS e do PSD e ainda não termos sequer um artigozinho no jornal onde é um dos directores a expor essa colossal corrupção de décadas que nem a Justiça consegue beliscar. Tamanha discrepância leva-me para uma afundada suspeita: mais dia menos dia, este bravíssimo jornalista da nossa bravíssima “imprensa de referência” ainda nos vai ajudar a entender que o incêndio de Pedrógrão nunca teria acontecido se Sócrates tivesse continuado preso em Évora.
O nosso líder da oposição não é piegas, que se lixem os suicidas
O incêndio em Pedrógão Grande, inevitavelmente pela sua dimensão, iria ser explorado politicamente. Mesmo que não houvesse mortos e feridos. Se o PS estivesse na oposição e o PSD no Governo, seria igual. As causas de tal dinâmica são óbvias e variegadas. Explorar implica aqui tentar obter potenciais ganhos partidários e/ou individuais que gerem vantagens eleitorais. Porém, o conceito de “exploração política” ilumina, concomitantemente, a cultura das entidades, colectivas ou individuais, que o utilizam e promovem. Por cultura, entenda-se aqui a moralidade, o civismo, a decência e a ética de cada um.
(psssst, ó malta: é possível formar e desenvolver princípios, práticas e ideais no campo da moralidade, do civismo, da decência e da ética, mas, sine qua non, é preciso querer quando não se recebeu tal graça desde o berço)
Temos duas fontes de exploração política de qualquer acontecimento: a própria classe política e aqueles que conseguem ter voz na comunicação social profissional e influente, sejam ou não jornalistas. Desta estrutura social veio nestas quase duas semanas de rescaldo um crescendo de violência nas declarações de uns e de outros, à direita do espectro político, que culminaram num extraordinário momento em que um ex-primeiro-ministro, e actual líder da oposição, usa uma mentira sórdida e demente para tentar obter um ganho político. Em abono da verdade, não foi a primeira vez que o fez. As mentiras de Passos Coelho antecipam Trump em vários anos, quanto ao desplante, e não têm paralelo conhecido na democracia portuguesa – ou seja, Passos é, de longe, o político mais mentiroso a ter chegado à chefia de um Governo. Pode até construir-se um argumento onde se compare a gravidade das suas mentiras e se conclua não ter sido a mais grave esta relativa aos suicídios, pois há outras que directamente enganaram o eleitorado e tiveram influência num acto eleitoral e suas consequências devastadores para milhares, centenas de milhares e mesmo milhões de cidadãos. Contudo, esta é especialmente escabrosa por causa da problemática de saúde mental, dor para as famílias e alarme social inerentes. Quem faz o que Passos acabou de fazer, fará mais do mesmo ou já o fez e não fomos informados. Desta vez, estamos informados e ficamos avisados.
Que fez Passos? Como alguns comentadores anotaram, mas não desenvolveram, este senhor pediu desculpa por ter utilizado uma informação falsa a respeito de suicídios. Com tal arrependimento, limitado à factualidade das suas declarações, mostrou que continua a achar legítimo usar suicídios reais para efeitos de exploração política. Neste caso, como as suas palavras atestam sem margem para dúvidas, deu-se tão-só o azar de, afinal, olha a chatice, não existirem suicídios para explorar. Por isso, ele pediu desculpas. Por isso e só por isso, por se ter enganado. Corolário: merecia que a cada futuro suicídio em território nacional lhe aparecesse à frente um jornalista a tentar obter a sua opinião sobre a responsabilidade do Estado, do Governo socialista (calhando haver um), do PS ou de socialistas avulsos nessa ocorrência.
A importância do que fez remete directamente para a importância do que é um suicídio, qualquer suicídio. Como bem sabe quem já foi vítima das suas consequências indirectas – os familiares, amigos, colegas, até vizinhos de quem se suicida – espalha-se um indomável sentimento de culpa por uma perda que parece absolutamente absurda e dilacerantemente evitável. Evitável pelos próximos na relação directa com a proximidade vivencial e afectiva estabelecida, eis a funesta associação que essa morte causa por cima da violência que acaba com uma vida deixando um vazio de sentido que de imediato se enche de confusão e desespero. Quando passamos para o contexto científico e clínico, não existe neste planeta qualquer autoridade que reduza a uma singular causa identificável a origem da situação e acto mental – inacessíveis para terceiros – que resulta num suicídio.
Esta a realidade que Passos não só tentou explorar como considera apropriado que se explore se for em seu benefício e do seu partido. Ao atribuir à “falta de apoio psicológico” um qualquer suicídio que, felizmente, não aconteceu, esta miséria ambulante – de iure – tentou provocar uma sequência de acontecimentos que atingiria todas as eventuais vítimas colaterais da eventual ocorrência. Por um lado, tornavam-se alvos mediáticos que suscitariam invasões da privacidade na procura de informações e “provas” a favor ou contra a tese. Por outro lado, e tragicamente, aumentariam os seus danos psicológicos com o aceno de um bode expiatório na figura de trabalhadores do Estado e de governantes, podendo ainda levar a outras violências imprevistas nascidas da irracionalidade atiçada. Estabelecer um nexo entre suicídios e políticos e políticas, ao nível a que se encontra Passos Coelho, é estar cônscia e intencionalmente a espalhar apelos ao ódio à custa de mortos e de quem os sofre.
O que fez ao abrir uma crise política que afundou Portugal no resgate de emergência é da mesma natureza, a natureza de quem colocou no seu altar interior o culto do poder pelo poder.
