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Marcelo por Rui Ramos, a agonia da direita decadente

Não é só na esquerda que está em curso um movimento de placas tectónicas como não conhecemos nos quarenta anos anteriores, nesta experiência de termos PCP e BE a aceitarem ser parte (mesmo que periférica, mas concomitantemente estrutural e, por isso mesmo, radicalmente cultural) da governação. Na direita, no deserto causado pela saída de Portas e pela continuação de Passos, igualmente se contempla o fim de um paradigma (no caso, marcado pela decadência) sem que se vislumbre qual será o seguinte (podendo até vir a ser pior). Exemplo maior deste trânsito, Marcelo está no olho do furacão da crise que tem demolido a direita partidária e ideológica.

Ninguém melhor do que o folclórico Rui Ramos para ilustrar o drama. Eis o que ele escreveu nas vésperas da vitória de Marcelo nas presidenciais:

Marcelo Rebelo de Sousa é mesmo um candidato livre e independente, e é disso que os oligarcas não gostam.

[...]

Ao regime convém um presidente com força própria, que lhe permita nomeadamente ser flexível. Marcelo Rebelo de Sousa tem essa força. Tem a força de um dos mais longos percursos públicos da democracia. Tem a força de quem avançou sem precisar de avales de panteão. Tem a força de quem aceitou o apoio de partidos, mas não o pediu. Tem a força de quem fala para todos, sem clubismos ideológicos. Não é apenas o melhor dos candidatos que se apresentaram. É o melhor de todos os candidatos que se poderiam ter apresentado, desde logo porque teve a coragem de se apresentar. Desculpem, mas nunca houve eleições em que a escolha fosse mais óbvia. Se mesmo assim há um problema, não é Marcelo Rebelo de Sousa.

Marcelo Rebelo de Sousa, obviamente

Nesta ode desvairada, Rui Ramos tenta entrar em diálogo com os fanáticos à direita que queriam outro Cavaco Silva para fazer a folha ao Costa e que lamentavam essa perda por antecipação, pois Marcelo não lhes estava a dar os sinais de querer ir por esse caminho de guerrilha sórdida e boicote institucional. A sua mensagem é “Calma, pessoal! O Marcelo é cá dos nossos e não deixará de os foder quando for a altura. Só que vai fodê-los ao seu estilo, um bocadinho mais elegante e charmoso do que o golpista anterior.” De lá para cá, o vento mudou e ela não voltou. Passou um ano e meio de marcelite aguda. Eis-nos em Pedrógão, um feliz acontecimento na vida publica do Rui. Tomai e comei um pedaço do seu entusiasmo:

Pedrógão-Grande é a maior vergonha do actual regime. Morreram dezenas de pessoas, por falhanço de um Estado que continua a falhar: passado mais de um mês, ninguém desfez as incertezas mais básicas, ninguém explicou, ninguém pediu desculpa, ninguém se demitiu, e parece que o dinheiro da solidariedade ainda está para chegar a quem precisa.

A ignorância de Estado

Notavelmente – aliás, misteriosamente – num texto onde denuncia “a maior vergonha do actual regime“, o nome Marcelo Rebelo de Sousa e as palavras Presidente da República não aparecem. Vamos recapitular: Rui Ramos, licenciado em História e doutorado em Ciência Política (Oxford), consegue dissociar o maior escândalo do regime e o Chefe de Estado nesse mesmo regime, como se habitasse numa ilha sem vivalma e já não se importasse de passar por maluco. Para lá dos aspectos cognitivos fascinantes nessa operação, o que podemos concluir, recorrendo ao bom senso tão bem espalhado pelo vulgo, remete para um regicídio simbólico. O seu herói a 19 de Janeiro de 2016 desaparece do palco e encontra-se agora, em 25 de Julho de 2017, em parte muito incerta, provavelmente no Inferno. Incapaz de o reconhecer no plano consciente, pois tal estilhaçaria a sua identidade tal como ele a constrói publicamente, o choque leva-o para o estalinismo: apaga-se o traidor da fotografia. Porém, o Rui tem uma poção mágica onde vai buscar a sua força argumentativa sobre-humana: o termo “oligarquia”. Cá está ele em acção:

A oligarquia no poder não é a melhor fonte para percebermos o que é lícito e moral. Esta semana, os oligarcas deram-nos a boa nova de que vivemos em democracia, isto é, num regime em que podemos perguntar e discutir tudo livremente, ao contrário do que acontece em ditadura. Ao mesmo tempo, porém, disseram-nos esperar que não fizéssemos perguntas nem discutíssemos a tragédia de Pedrogão-Grande, como alguns políticos e jornalistas, porque isso seria “aproveitamento político”, o que é “imoral” e portanto inaceitável. Em que ficamos? Pode-se ou não discutir tudo? Até onde chega a democracia em Portugal?

Pedrógão Grande: quem tem medo da “politização”?

É isto. É simples. Acossado e ressabiado perante as declarações do Presidente da República onde este deu dois tabefes na violência da direita fanática, a solução do Sr. Ramos passa por considerar Marcelo, o candidato presidencial que atestou ser detestado pelos oligarcas, como mais um deles, igual, provavelmente pior dada a desilusão amorosa causada. Chega ao ponto de conseguir chamar salazarista a Marcelo por carambola com o obsessivo ataque a Costa. Sendo então mais um dos oligarcas, o texto diz-nos que Marcelo quer destruir a liberdade e acabar com a democracia. Porque é isso que o bom povo faz, pela voz dos iluminados com cursos de História e doutoramentos em Ciência Política, quando se cavalga desenfreadamente uma tragédia como a de Pedrógão e se largam os cães de guerra sobre as suas vítimas. O povo quer linchamentos, fogueiras, sangue – desde que devidamente conduzido para os alvos que os iluminados anti-elites escolham do alto do seu superior discernimento. Quem se opõe ao povo livre, que pulsa e respira nos textos libertadores do Rui Ramos, está ao serviço dos oligarcas situacionistas que defendem um Governo de tiranos.

A lição, sem moral, é esta: a direita decadente, do ódio e do fanatismo, tem parasitado o espírito do tempo; a direita criativa, que traga inteligência e coragem, terá de nascer do espírito do lugar. Que lugar é este onde vivemos uns com os outros?

Nicolau, larga o vinho

Apenas hoje vi a situação que levou Nicolau Santos a escrever o seguinte, a 18 de Junho:

Constança Urbano de Sousa só apareceu no sábado à noite, quando o Presidente da República se deslocou ao local. Debitou algumas banalidades. Mas o mais notável que fez, quando Marcelo Rebelo de Sousa se encontrava a falar aos jornalistas tendo ao seu lado Jorge Gomes, foi pedir ao seu secretário de Estado para se chegar para o lado e passar para trás para ficar ela ao lado do Presidente da República (é ver as imagens televisivas para confirmar o que escrevo).

Quando, no meio de uma tragédia destas, numa área sob a sua tutela, a ministra mostra estar preocupada é com a sua visibilidade na comunicação social ou o seu lugar na hierarquia governamental, a única hipótese que resta é a sua demissão. Pelo seu pé, para ser uma saída honrosa. Ou por decisão do primeiro-ministro, porque Constança Urbano de Sousa não merece nem dignifica o cargo que ocupa.

Porque é que a ministra da Administração Interna se deve demitir

O Nicolau não é um desses broncos que fazem o grosso da presença opinativa da direita portuguesa, nem sequer à direita pertence, pelo que podemos excluir o sectarismo e o tribalismo como causas do fenómeno. Provavelmente, foi a comoção pela perda de tantas vidas e a violência do incêndio – amplificada mediática e mimeticamente pela dramatização afectiva de Marcelo in situ – que o levou para a injustiça de atacar a ministra da Administração Interna por uma atitude que não tinha a conotação que ele lhe deu. Também Clara Ferreira Alves, no Eixo do Mal, repetiu a distorção, como se fosse uma evidência estarmos perante algum tipo de erro político ou moral na conduta de Constança Urbano de Sousa.

Ora, não estamos. Primeiro, tudo se passa no reino do ofegante e confuso improviso. Há jornalistas a entrevistarem o Presidente da República, há um secretário de Estado ao seu lado, e há uma ministra que, por razões que desconhecemos e que são irrelevantes para a avaliação do que vemos, não pôde estar ao lado do Presidente quando ele começou a falar com os jornalistas. À volta, há uma catástrofe em curso e uma operação logística de alta complexidade e transbordante intensidade emocional. Depois, Constança toma a decisão de também participar na comunicação aos jornalistas por ser absurda a decisão contrária. O facto de não ter apanhado o começo da conferência de imprensa informal não era razão para se escusar de comparecer para benefício da imprensa e da população. Ela estava obrigada, dadas as suas responsabilidades governativas, a ir juntar-se a Marcelo. Por fim, não partiu dela a iniciativa de trocar de posição com Jorge Gomes, antes de alguém que avisa o secretário de Estado. Este cumprimenta Constança e tem um gesto ternurento enquanto cede a posição. Ainda assim, a ministra não se coloca mesmo ao lado de Marcelo, ficando mais recuada em relação à anterior posição de Jorge Gomes.

Podemos interpretar o episódio de muitas e desvairadas maneiras, obviamente, mas convém respeitar a inteligência dos leitores se a ideia for a de passar módico profissionalismo jornalístico – e mesmo que no caso o género seja jornalismo de opinião, pois jamais tais exercícios se reduzem ao estatuto de mera opinião dado estarem a representar, de alguma forma ou até de várias, a autoridade editorial do jornal, rádio ou TV onde se publiquem. Assim, dizer que “a ministra mostra estar preocupada é com a sua visibilidade na comunicação social ou o seu lugar na hierarquia governamental” só é possível quando se desiste da objectividade, da honestidade intelectual e da empatia. Mesmo que tal aparecesse na forma de uma fortíssima hipótese, por hipótese, escrevinhar a suspeita em forma de certeza e pedir por causa disso a demissão da ministra é um registo de taberna.

De lá para cá, o Nicolau tem mantido a coerência com esta posição inicial nascida nas labaredas da sua subjectividade. Uma irritação que se transformou em orgulho. E preconceito.

Cineterapia


Paterson_Jim Jarmusch

Preferias ser peixe? Se fosses um peixe talvez também escrevesses poemas que não rimam. Com as barbatanas, escritos na areia do mar ou no vazio cheio de água salgada. Tão ou mais poéticos, parecidíssimos. E talvez também te chamasses Oceano, ou Lago, ou Rio, ou Aquário, calhando morares num oceano, num lago, num rio ou num aquário.

Mas se fosses um peixe não poderias conduzir autocarros. Nem ir passear o cão e ir beber a cerveja. Não viverias com uma peixa especialista em fazer queques, elogiar os teus poemas, gastar o teu dinheiro, sorrir e encher a vossa casa de maníacos padrões a preto e branco (não necessariamente por esta ordem).

E depois temos os gémeos. O problema dos gémeos. Gémeos. Duplicações. Paterson com Paterson. Driver com driver. Rimas. Metáforas das rimas que não prestam para fazer poemas na cidade do William Carlos Williams? Consta que Jarmusch escreveu o guião sem gémeos. Por acaso, a mãe de uma miúda que foi escolhida como extra para uma cena no autocarro foi buscá-la às filmagens com a sua irmã gémea. A partir daí, porque sim, decidiu que o filme iria ter gémeos aos magotes. E explica: “É um elemento anti-significativo”. ‘Tá explicado, Jim.

O mais provável, se o filme te percorrer as veias, será concordares que o realizador quis muito deixar-te com a ideia de que a poesia está espalhada à nossa volta, em tudo, nas pequenas coisas, no quotidiano, ao longo da monótona semana. Um condutor de autocarro pode ser um poeta e viver com uma pessoa do sexo feminino sem discussões nem sexo. Um cão pode embirrar sofisticadamente com um fulano e ter actos de crueldade abjecta contra a poesia. As palavras podem juntar-se às palavras, as frases podem suceder-se quais orações, e assistirmos ao divinal processo criativo num ecrã gigante. E esta ideia, ou aquela, ou até a outra, se misturada com personagens que assumem serem actores provocando riso a outros actores armados em personagens, se temperada com um japonês que não se perde em traduções, se embrulhada em folhas que caem e águas que voam, vai deixar-te a gostar mais de ti. Só que não sabes porquê.

Nem tens de saber. O próprio Jarmusch ainda está a aprender o que seja o cinema. Eis o segredo de um dos melhores filme do ano, seja lá qual for o ano em que vejas este exaltante aborrecimento.

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Marcelo e a lua nova

A entrevista de Marcelo ao DN gerou uma curiosa polémica negativa. Negativa no sentido em que se está a discutir algo que apenas se consegue definir negativamente, descrevendo a sua ausência. No caso, é a ausência do que alguns comentadores gostariam de ter encontrado e não encontraram e do que outros dizem ter encontrado e não se encontra: alguma declaração para usar como arma de arremesso contra o Governo.

Estamos no período mais intenso do dolce fare niente. O País está a banhos. Condições óptimas para uma típica discussão bizantina. Mas será só isso? Será apenas mais uma crise de azia naqueles que desesperam com a gestão paciente e teatral do calendário eleitoral por parte de um actor que poderá estar a aprender um papel novo no acto mesmo de representar uma peça cujo enredo está desactualizado e para que foi outrora escolhido precisamente pela sua popularidade e dotes histriónicos?

Paulo Baldaia, protagonista principal desta polémica, já despachou dois textos sobre o assunto. No primeiro, O “momento” de Marcelo, declara o seu alinhamento com Vítor Costa, uma das vítimas azoadas pela falta de combustível conspirante nas frases saídas da boca de Marcelo. No segundo, O que se disse sobre o que disse e não disse Marcelo, embirra com Sousa Tavares e Louçã e apresenta-se com o orgulho ferido. O registo é de tertúlia, Baldaia tenta ripostar imaginando que existe uma audiência interessada na sua defesa perante o que lhe parecem críticas ao seu trabalho como entrevistador, editor e director – ou talvez estado-se a marimbar para a putativa audiência, servido o jornal onde escreve tão-só como meio para o jogo de espelhos em que se concebe como figura pública.

Espremendo o que o director do DN diz e repete, a sua mensagem resume-se a esta brilhante ideia: Marcelo, por agora, não vai fazer nada contra os interesses do Governo; mas, atenção, Marcelo, num destes dias, poderá fazer alguma coisa contra os interesses do Governo. Este simplismo interpretativo, nascido da auto-infligida necessidade de dizer coisas só porque assim o dita a convenção e a vaidade, transforma-se em hermenêutica pirata na ênfase dada a estas tautologias: “É grave. Não desdramatizo, é grave.” e “Se há responsabilidades, tem de haver responsáveis.” Para o entrevistador, estão aqui os sinais de que Marcelo está a pedir cabeças de governantes servidas em travessas, com ou sem molho. Para quem estime os humildes mas nada modestos preceitos da lógica e da gramática, Marcelo está é a dizer que não se pode desdramatizar aquilo que se calhe considerar grave, num caso, e a explicar que incluso no conceito de responsabilidade, atributo exclusivamente dos seres conscientes e dotados de vontade ou de entidades onde esses seres exerçam funções, está o conceito de responsável, no outro.

Marcelo não exibe a pulsão odiosa e golpista para onde Cavaco foi empurrado pela oligarquia quando o império bancário desta começou a ruir em 2007 e 2008. Marcelo também não precisava de ser Presidente da República para se sentir feliz da vida. Pelo que aquilo que começou por ser apenas uma luxúria e um oportunismo, a sua candidatura presidencial tantos anos em preparação na TV, pode levá-lo para um percurso de verdadeiro estadista. Por agora, ainda é cedo para o sabermos, embora tudo aquilo que tem deixado a direita fanática em polvorosa seja a expressão de um exercício do cargo onde o interesse nacional está a ser respeitado como primeiro e principal critério de intervenção e decisão. No entanto, a futilidade dos exercícios como os de Vítor Costa, Marques Mendes e Paulo Baldaia apenas se foca na intriga. São como meteorologistas que se limitam a observar o tamanho da Lua para descobrirem se vai chover ou fazer sol.

Estava aqui a pensar no mesmo

«O que Marcelo e Costa perceberam, cada um à sua maneira, é que o modo da sua política deve estabelecer uma diferença marcada com o passado recente. Marcelo separa-se de Cavaco, que interpretava a austeridade melhor do que ninguém (e por isso se perdeu, com a lamúria sobre a sua pensão) e Costa separa-se do tempo da troika e do PSD e CDS (e por isso se perderam, com a sua gula de empobrecerem o país). Isso é totalmente óbvio na sua linguagem: ao contrário de Passos, que se passeia como se fora um primeiro-ministro no exílio e à espera de poder desembarcar no Terreiro do Paço, zangado com o mundo que o esqueceu, Costa sorri e é uma pessoa normal, enquanto Marcelo corre o país a acarinhar o povo.

De facto, ambos perceberam um segredo que pouco mais gente partilha: é que na política há dois mundos e dois tempos bem separados. Um é o frenesim de políticos e jornalistas, das grandes intrigas e das grandes frases (os suicidados de Pedrógão, ou que vivemos sob um governo totalitário porque o Ministério Público não juntou a senhora atropelada à outra lista das vítimas directas da tragédia!), outro é o da gente normal, que prefere que lhe garantam que não vão ser reduzidas as pensões dos nossos pais e que quer ver esforço para resolver as muitas dificuldades da sua vida.»


A chave da política

Manchete que mancha

Parece que a nossa direita é tão decadente, tão ridícula, que está agora dependente do que aparece no Público, no Expresso e no Observador para fazer prova de vida. É a própria que o assume. E que aparece nesses bastiões onde se luta de espada na mão e faca na liga pela defesa da liberdade e das crianças num pobre país dominado pelos criminosos socialistas? No jornal da Sonae, o director especializou-se em fazer listas de perguntas sobre ocorrências variadas, as quais envia por email para ali e para acolá, igualmente lhe servindo o paleio para se fantasiar como um jornalista que põe o Governo e o Estado de cócoras. Ao mesmo tempo, este director usa um caluniador profissional para, como se lê no último trabalhinho, espalhar veneno no espaço público e fazer declarações de amor ao populismo. É uma fórmula, e o dinheiro é deles, mas gostava de conhecer os resultados comerciais por mera curiosidade. No jornal do militante nº 1 do PSD a situação é muito mais divertida. Para além da presença alada do mano Costa, temos um Guerreiro que está quase a merecer uma estátua graças à criação de um novo estilo de prosa jornalística: o pornolirismo para encher o chouriço. Foi assim que chegaram àquela magnífica manchete onde se lia “Lista dos 64 mortos exclui vítimas de Pedrógão”, a típica arte de enganar o patego recorrendo à superior inteligência do Ricardo e ao majestoso coração do Pedro. Parece que depois uns malandros se aproveitaram desses 8 termos, incapazes de se ficarem pela contemplação estética da maravilha. Merdas que acontecem. Finalmente, no jornal não se sabe bem de quem, estamos numa típica madraça da direita fanática, ressentida, golpista, caluniadora e complexada. São uma extensão do Correio da Manhã, no que diz respeito à estratégia de combate ao PS, embora tenham outra embalagem por se dirigirem a um público com um bocadinho mais de literacia. As peças que fizeram agora sobre umas manigâncias menores no PSD estão a servir para corrigir um posicionamento que se tinha esgotado num nicho sem peso político. De facto, se é para crescerem, vão ter de ser um bocadinho mais sofisticados no sectarismo.

O Expresso é, dos três, o caso mais interessante. Impossível alegarem falta de experiência na profissão, pelo que aqueles bacanos devem ser julgados implacavelmente. Podemos começar por um laivo de coragem moral de um deles, Filipe Santos Costa:

"Um último comentário, sobre a manchete desta edição. Por uma questão de lealdade, fiz as minhas apreciações a quem de direito dentro do jornal. Serei, por isso, parcimonioso na crítica pública. Digo apenas que achei a formulação infeliz, pela simples razão de que aquela manchete não se percebe. Eu, pelo menos, não a percebi - ou seja, não consigo tirar dali um sentido. E isto significa que não leio ali uma manchete contra o Governo, contra a oposição ou a favor do que quer que seja. Não percebo, ponto final. E uma manchete que não se percebe não pode ser boa."

O ódio ao jornalismo livre

Apesar da sonsa confusão em que se enreda para não ser frontal, tem pelo menos o mérito de ter falado no assunto. O assunto consiste no facto de estarmos perante um manchete intencionalmente mentirosa, intencionalmente sensacionalista, intencionalmente alarmista, intencionalmente tóxica. Este amigo, que até tem um curso de Ciências da Comunicação e anda nisto desde 1994, faz-nos rir a bom rir ao teclar que a manchete “não se percebe”, ficando depois agarrado, qual desesperado no cadafalso, à sua incapacidade para “perceber” o que lhe está a acontecer. Quero daqui dizer-lhe que nós percebemos, que ele já pode adormecer descansado.

Antes da parangona demasiado críptica até para a elite do jornalismo político nacional, tivemos direito a mais uma obscenidade do Guerreiro:

"Uma morte é uma tragédia. 64. 65. Todas. Uma tragédia. Esquecê-las é uma covardia. Jurar nunca esquecê-las é então ter mentido. E "se uma notícia mudar a vida de uma pessoa então já valeu a pena escrevê-la", é através da transparência e da verdade que o fazemos. Pelos sobrevivos que ficam. Pela solenidade da homenagem aos que morreram.

É aqui que tudo começa: nas pessoas. Quem anda pelos conselhos queimados pela desgraça não conta apenas lápides, mas histórias, mas nomes, mas traumas, mas pessoas, mas quem peça que acudam, mas quem se sente demasiado sozinho mesmo que (ainda) não abandonado. E sim, há quem perdeu a confiança no Estado. No Estado cujas estruturas de prevenção e socorro falharam, como já se demonstrou e o Ministério Público investiga.

[...]

E assim voltamos ao início, este é ainda o tempo da investigação das causas, da preparação de reformas no Estado para que a tragédia não volte a acontecer, para uma cultura de responsabilidade de quem representa o bem público. Este é ainda o tempo das perguntas por responder. Este é já o tempo da homenagem e de não esquecermos que cada morte é uma tragédia. Todas. 65. 64. Uma.


Não esqueço os mortos
Não esqueço os heróis
Não esqueço
o luto
das famílias

todos silenciosos

Denuncio
publicamente
a nossa cobardia

e quem mente

António Reis, “poemas quotidianos” (1957)

A 65ª vítima

É um prato cheio. Desde a acusação genérica, vaga, insultuosa, de que os governantes e demais funcionários públicos são irresponsáveis à associação directa entre o incêndio e seu desfecho letal com umas certas “reformas” que vão acabar com esses acontecimentos, garante. Mas o que mais importa está no contexto em que sai esta lábia: a discussão sobre a manchete do Expresso e seus efeitos mediáticos, sociais e políticos. E o que lemos é a justificação para valer tudo, inclusive explorar todas as mortes que possam ter real ou imaginada ligação ao incêndio. Vale tudo, explica o director da coisa tocando o seu violino no Olimpo sobre a cidade, porque basta invocar os interesses de alguém para se poder publicar o que lhe der na gana. Dêem-lhe uma suposta vítima de Pedrógão como ponto de apoio e ele levantará uma tempestade que abrirá rachas em S. Bento. E é tão simples, basta escolher o título errado para a notícia certinha.

Depois de o próprio Marcelo ter mostrado que já chegava de deboche, e de Lobo Xavier se ter publicamente afastado do cadáver chamado PSD, o Expresso fez um editorial onde continuou ao ataque, culpando os socialistas pela situação que o próprio jornal tinha criado: O Governo e o Expresso. O despudor é tal que chegam a escrever que a sua notícia encerrou uma especulação a respeito do número de mortos. Aposto os 10 euros que tenho no bolso como a prosa e a arrogância é do mano Costa.

Este episódio é significativo de algo mais do que o pedantismo narcísico de certos jornalistas na sua miserável condição de meros espectadores da política com pretensões a profetas e mágicos. O que está em causa é uma crise profunda na direita portuguesa, onde as sucessivas lideranças desde Barroso têm sempre optado pelo cinismo e pela baixa política, quando não pelo golpismo. Com Barroso, foi-nos vendido um sonho pessoal que se filiava no legado cavaquista quando tal ainda era credível e tragável para muitos. Depois da sua traição, apenas temos tido operacionais do poder pelo poder, às descaradas. Daí o arsenal que utilizam, essa mistela de retórica feirante com violência mediática e populismo pragmático. Merecem a nossa radical ausência de tolerância.

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Realmente, há um antes e um depois de Pedrógão

Poucas horas depois de se conhecer a gravidade do incêndio de Pedrógão, em área ardida e em vidas perdidas, algumas pessoas com tribuna nos principais órgãos de comunicação portugueses (e até num espanhol, puta madre) começaram a repetir que passava a haver “um antes e um depois de Pedrógão”. Essas pessoas são políticos, jornalistas e comentadores profissionais. Em cada um desses papéis poderiam ter optado por serem decentes com as instituições e solidários com as vítimas, mesmo que quisessem lançar críticas para mostrarem a sua “oposição” ou “independência”, mas optaram exactamente pelo contrário num crescendo de violência verbal e emocional que culminou na cena desonrada de vermos o PSD a fazer um ultimato ao Governo para que cometesse um crime em nome do torpe e insano boato lançado pelo Expresso.

A expressão, como se viu pelas sondagens feitas após o incêndio, não carecia de qualquer ligação à sociedade. Tratava-se, e trata-se, de um instrumento retórico nascido da febril necessidade desta direita para explorar qualquer potencial negatividade que possa ser lançada contra o Governo e os partidos que o suportam no Parlamento. Esta direita, repetindo o seu paradigma calunioso em vigor como práxis após a traição de Barroso, chama a essa estratégia decadente “fazer política”. Se for preciso achincalhar as famílias, amigos e populações com ligação directa às vítimas do incêndio, então bute, salivam rapaces, toca a usar as suas mortes como carne para canhão. O que pretendem é criar um clima de alarme social que se transforme em perseguições mediáticas aos governantes e a qualquer tutela do Estado que possa ser denegrida – com sorte, conseguindo que a pressão mediática sensacionalista e a irracionalidade dos ataques lançados pelos comentadores incendiários tome conta do desespero de alguém e haja agitação popular aqui e ali; idealmente, com agressões que possam ser filmadas, seja lá quem for que se esteja a agredir. Uma política, literalmente, da terra queimada.

É verdade, há mesmo um antes e um depois de Pedrógão. Antes, ninguém imaginava que um ex-primeiro-ministro e actual líder da oposição pudesse aparecer em público a garantir que tinha conhecimento, de fonte “particular” e relativo a um caso de “família”, de “um” suicídio miraculosamente transformado em “suicídios”, só para se vir a descobrir logo depois que era tudo mentira: os suicídios, o suicídio, o familiar e até o particular. Também antes de Pedrógão ninguém imaginava que, factualidade dos suicídios e vocação para mentir do Pedro à parte, algum político com pretensões à governação, ou que fosse só ao cargo de deputado ou vereador, se dispusesse a usar a temática dos suicídios como arma de arremesso contra o Governo. Um caso onde a estupidez da atitude quase que ultrapassa a sordidez da mesma (quase…). Num efeito de vasos comunicantes, a estupidez do líder passou para o Hugo Soares e seu brilhantemente capitaneado grupo parlamentar, originando a cena gaga onde se cobriram de vergonha. Finalmente, antes de Pedrógão o Expresso ainda mantinha uma réstia de respeito próprio. Agora, na sequência de um já longo caminho de aproximação e rivalidade com outros esgotos a céu aberto, podemos ter a certeza de que o ideal jornalístico foi substituído neste vetusto e outrora prestigiado título por um escabroso fanatismo ao serviço da sua agenda de baixa política.

Moral desta triste história: os pulhas têm toda a razão.

Pacheco e a ciganice

Pacheco Pereira escreveu um artigo didáctico onde despacha o populismo de Trump e a questão cigana de uma forma não só razoável, não só convincente, mas também interpelante – Trump e os ciganos. A eficácia argumentativa vem da exposição do inegável. É inegável que os ciganos – tomados como etnia – ainda não aceitaram incluir na sua antropologia, ou que fosse só na sua axiologia, essa maravilha civilizacional chamada Estado de direito democrático. O Pacheco compraz-se em registar que tal fenómeno gera silêncios à esquerda e na militância a favor das minorias que são fácticas cumplicidades com as vítimas ciganas e não ciganas daí resultantes, igualmente contribuindo para o aproveitamento populista do Ventura. O texto está destinado a ser aplaudido como consensual.

Porém, como em tudo o que nasce desta impante figura, o viés ganha à lucidez. O seu alvo são os “nossos mais vocais grupos feministas e anti-racistas e muita gente à esquerda que abraça causas de género” com que encerra o exercício. É a partir deste epílogo que começa o nosso pensamento. Duas são as perguntas a fazer:

– A esquerdalhada que abafa a questão cigana faz mal em ocupar o seu tempo com as carências doutras minorias?
– A esquerdalhada que abafa a questão cigana é responsável pelo abafamento geral da questão cigana?

Para responder com honestidade intelectual à primeira pergunta, há que estar munido de um diagnóstico acerca do problema. Serão as questões tratadas pelos “grupos feministas e anti-racistas” da mesma ordem, complexidade e viabilidade legislativa do que aquelas inerentes à questão cigana? O Pacheco simula ser esse o caso, pois só dessa forma pode deixar o seu ferrete persecutório. Mas é mentira. Enquanto se pode facilmente legislar contra as descriminações de género e raciais, e essa legislação passar a ter aplicação universal sem dificuldade de maior, já não se pode legislar contra a identidade cultural de um grupo. Não se pode por limitações também culturais da entidade legisladora, a nossa comunidade política, e não se pode porque a problemática não se resolve pela produção de mais ou melhores leis. São os próprios envolvidos em práticas que rejeitamos que começam por se considerar politicamente separados, indiferentes ao que o Estado decida a seu respeito.

E este contexto leva-nos para a segunda pergunta. Curiosamente, o mesmo Pacheco tropeça na boa resposta quando regista que “alguns professores, alguns militantes católicos e um infelizmente muito pequeno grupo de ciganos” enfrentam heroicamente a adversidade na defesa dos direitos individuais das raparigas ciganas. Ora, neste passo o autor trava a sua análise e salta para a sacanice de apontar o dedo a quem luta social e politicamente para acabar com injustiças, as mais variadas. Mas podia ter optado por questionar antes a indústria onde vai buscar aquilo com que se compram os melões. Por que razão a nossa comunicação social não trata como “heróis” esses que o Pacheco descreve serem heróicos na tentativa de mudarem mentalidades na comunidade cigana? Não está aqui a chave social e política da questão, o silêncio na imprensa e o papel que pode e deve assumir? Por que razão o marmeleiro prefere atacar pessoas que corajosa e altruisticamente têm defendido diversos grupos minoritários prejudicados pelas maiorias em vez de atacar os partidos e sua inércia na questão? Aliás, por que razão o Pacheco não assume pessoalmente o combate e se vai juntar aos heróis que lhe serviram para compor a prosa?

Para que o veneno lançado pelo texto lhe caia em cima, basta soprarmos suavemente na sua direcção.

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Can Journalists Help Readers Navigate the Changing Media Landscape?
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Generous people live happier lives
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Case Grows for Link Between Happiness and Health
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Pensamento marado

Embora não apareça referido, é muito provável que António Guerreiro estivesse inspirado irritado pelo circense Quintino Aires quando escreveu Os psi, modelo de luxo. Para o que me interessa, só tenho a agradecer-lhe ter deixado no espaço público uma denúncia que apenas peca por vir com muitos anos de atraso. É que a coisa existe desde 2009, pelo menos: Pensamento Cruzado

Não sei em que ano deixei de os ouvir, mas sei que foi pela mesma falta de vocação para ser vazadouro de confusa sermonária vendida como “psicologia” que o texto do Guerreiro ilustra expondo a granel a inanidade da parelha. O que leva a TSF do Fernando Alves a ter este programa, agravado pela tonteira de durar só três minutos e ter dois oradores que querem muito dar lições de vida ao povinho, é um mistério. Adorava conhecer os números das audiências e algum estudo qualitativo, em nada me importando se viesse a descobrir que estamos perante um sucesso pois tudo é possível no gosto dos outros. Mas aposto os 10 euros que tenho no bolso em como o programa não consegue ter mais do que dois ouvintes fiéis, os próprios que vão para lá falar de tudo menos de psicologia e psiquiatria.

É desconcertante, até triste, porque a TSF, ou outro canal qualquer de prestígio, poderia ter um papel decisivo na educação para a saúde mental e no combate ao estigma da doença mental. Há tanto na área da psicologia e psiquiatria que pode ser divulgado com imediato impacto nos problemas de milhões de pessoas que este desperdício de espaço mediático aparece quase como um escândalo. Azar o nosso.

Isto agora é o da Joana

Felizmente, foi fazendo o seu caminho em Portugal uma cultura de intransigência social face à corrupção, que está atenta e não aceita a promiscuidade na política e as relações ambíguas entre ocupantes de cargos públicos e agentes económicos. Uma nova cultura de intransigência que, felizmente, tem eco no Ministério Público desde que Joana Marques Vidal está à frente da Procuradoria-Geral da República, dando um imenso contributo para a dignificação da Justiça, das instituições e da sociedade. Felizmente, o Ministério Público passou a estar atento ao comportamento dos políticos.

[…]

A actual remodelação de secretários de Estado tem assim um lado simbólico. Esperemos não seja só isso e, daqui para a frente, surja uma cultura de exigência ética quanto ao comportamento dos ocupantes de cargos políticos. Isso seria mais do que o início de novo ciclo do Governo concreto de Costa. Seria um novo ciclo na actuação política e, por consequência, na governação do país.


A diferença de Joana Marques Vidal

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São José Almeida, jornalista com importante produção no campo do activismo homossexual, situa-se politicamente entre o BE e o PCP (ou coisa parecida, ou para lá do PCP, ou nada disto, sei lá eu). Na sua opinião publicada não se encontram rasgos proféticos, nem iluminações súbitas, a respeito do devir político nacional. Bem pelo contrário, a previsibilidade e banal sectarismo dos seus raciocínios rivaliza com a pontualidade de Kant nos seus passeios diários de outrora em Königsberg. O mundo apresenta-se bem arrumadinho e pronto a entender na sua cabeça. Há bons e maus. Os bons são quem ela decide que são, os maus os restantes. Por exemplo, os políticos são maus. Pelo menos, todos aqueles que a São José não considerar bons, o que resulta numa enormíssima maioria. São maus porque são corruptos, e são corruptos porque não são bons. É simples de explicar e ninguém contesta sob pena de ser acusado de cumplicidade com a corrupção dos políticos. Num outro e congénere exemplo, o PS também é mau. E, dentro desse mal encardido e venenoso, o pior vem de Sócrates e de quem esteve ao seu lado. Ora, Sócrates teve o partido todo a seu lado durante anos, e parte dos seus mais próximos continuam politicamente relevantes, e até próximos de Costa. Resultado, esta senhora não perde uma ocasião para denunciar a profunda corrupção que grassa entre os socialistas.

Dentro deste quadro maniqueísta, o populismo e o moralismo fazem lei. Não espanta, então, encontrar uma arrebatada, lunática e pacóvia glorificação de Joana Marques Vidal com a sua assinatura. O texto que cito é típico nisso de ser completamente falho de fundamentação. Como avaliar a seguinte frase “Felizmente, foi fazendo o seu caminho em Portugal uma cultura de intransigência social face à corrupção, que está atenta e não aceita a promiscuidade na política e as relações ambíguas entre ocupantes de cargos públicos e agentes económicos.“? De que “caminho” está a falar? Quais são as manifestações da suposta “intransigência social face à corrupção“? Como definir o que sejam “relações ambíguas entre ocupantes de cargos públicos e agentes económicos“? Nada explicitando, sequer pela rama, não podemos saber do que está a falar. E, portanto, o discurso fica blindado contra a crítica pois se furta à mera análise da sua veracidade e sentido. Qual o seu valor? Nada mais, nem menos, do que ao passar na rua ouvir-se um “Viva a Joana!” caído de uma janela.

Seria fascinante ler ou ouvir esta jornalista a discorrer sobre um tema que lhe é tão querido mas agora estando obrigada (voluntariamente) à objectividade. Que sabe ela da corrupção em Portugal com base nas informações disponíveis nos diferentes organismos do Estado, nas universidades e em organizações relacionadas com o fenómeno? Que tipo de dados e qual o seu tratamento que conseguiria organizar e divulgar? E, indo directamente para o âmago da sua paixão messiânica, como é que a incensada “cultura de intransigência” deste Ministério Público desinfectado da porcaria dos socialistas se saiu no caso dos submarinos e de Dias Loureiro, por exemplo? É que, se correu tudo bem, o seu entusiasmo com a prisão de Sócrates e a demissão destes secretários de Estado será assim um bocadinho a modos que prematuro. Ou suspeito. Onde não há suspeição, e podíamos espremer todos os seus textos, é na convicção de que os seus conhecimentos factuais a respeito da corrupção não diferem dos que são partilhados gratuitamente pelos taxistas.

A ideia de que a eventual corrupção que aflige a Nação diz respeito a viagens e hotéis para isto e aquilo, e que podemos ficar tranquilos desde que esses malandros passem a pagar do seu bolso esses luxos caso os queiram usufruir fora do horário de trabalho, não é apenas estupidamente estúpida. É algo muito pior, é o culto de uma hipocrisia de Estado que conhecemos dos totalitarismos e ditaduras. São José Almeida gostava de ver os políticos acorrentados nos seus gabinetes e a trabalharem sob as ordens de um capataz de chicote, porque não confia em quase nenhum dado conhecê-los tão bem na sua natureza maligna. No final do dia, receberiam uma malga de água e um pedacito de pão. Tudo em nome da “exigência ética” que vai pôr os “comportamentos dos políticos” na ordem. Ou na prisa.