Onde esteve Sócrates na manhã e tarde de 17 de Junho?

Não me lembro de qualquer estudo que tenha como objecto as relações de antagonismo e simbiose entre a actividade jornalística e a actividade política em Portugal. Mas, às tantas, as universidades estão cheias deles. Sabemos que os políticos dependem dos meios de comunicação para obterem real ou imaginada influência social, eleitoral e até pessoal. Sabemos que os meios de comunicação que se proponham assumir o estatuto de “imprensa de referência” fazem a constante cobertura dos acontecimentos políticos, natural e logicamente tratados como os mais importantes na hierarquia dos conteúdos jornalísticos. E depois sabemos mais coisas, como sejam as preferências políticas e fulanizadas, explícitas ou implícitas, das empresas e indivíduos que constituem a substância dos órgãos de informação com poder de influência sobre as atitudes e comportamentos das audiências. Mas desconhece-se, ou desconheço, o efeito que o jornalismo de opinião e as opiniões em meios jornalísticos têm tanto nos actos eleitorais como nos processos correntes da governação e oposição. Que vale, que gera, um qualquer texto e suas mensagens – por exemplo, no Expresso?

Por exemplo, este – Foi crime. Ponto final! – onde o autor argumenta que o incêndio em Pedrógão Grande, e o seu efeito nos bens e nas pessoas, é de origem criminosa. Eis a fórmula a que recorre:

"Este rol de atos, agora provadamente criminosos, têm culpados. Neste e em anteriores governos. Seja por ação ou inação, o Estado foi negligente, permissivo e permitiu este trágico desfecho."

Comecemos por esquecer a sua dificuldade com a concordância gramatical, e apaguemos da memória a retórica parola com que abre e fecha o texto. Fiquemo-nos pelas suas intenções. Aparentemente, este passarão com tribuna num título histórico da nossa imprensa está realmente preocupado e indignado por causa do tal incêndio e suas vítimas. Tão preocupado e indignado que não carece de investigações oficiais e das suas conclusões, ele já chegou à verdade sozinho. Da listagem dos crimes que descobriu resulta que o autor gostaria de ver em tribunal um grupo de cidadãos cujo número deverá variar entre as muitas dezenas e as várias centenas (talvez esteja a calcular por baixo). Achará ele que nós achamos que ele acha que o que escreve é para levar a sério? Naaaa… O senhor está a desabafar, a usar o seu cantinho donde lança anátemas e absolvições, a sonhar-se um justiceiro que não está para perder tempo quando é tão fácil resolver os problemas com um teclado.

Contudo, do seu teclado também saiu esta interessantíssima revelação, a qual carimba como “crime”:

"o sistema de comunicações resultou de um contrato forjado pelas mãos ocultas do Bloco Central para enriquecer alguns, sendo hoje uma rede de segunda categoria."

Ignoro se ele entregou as provas do que publicou no Ministério Público ou se o irá fazer no futuro por iniciativa própria ou a pedido das autoridades. É lá com ele e com a Justiça portuguesa. Para o que nos ocupa, esta afirmação não suscita qualquer dúvida na interpretação. Um cidadão exercendo a função de diretor-adjunto do jornal Expresso usou esse mesmo jornal para divulgar a ideia de que Durão Barroso, Santana Lopes, Bagão Félix, Daniel Sanches e António Costa – pelo menos estes mas podemos esticar a lista à medida do tempo que queiramos perder com ela – são responsáveis pelas mortes, feridos e destruição de bens no incêndio de Pedrógão Grande dado serem corruptos, terem vendido a sua responsabilidade e honra numa manigância “para enriquecer alguns”. O texto saiu há dois dias e não há protestos de ninguém nem este bravo foi despedido ou admoestado, que saiba. Talvez por estar cheio de razão?

João Vieira Pereira tem contribuído com ânimo incansável para espalhar na opinião pública uma outra ideia relativa à corrupção, a de que os Governos do PS entre 2005 e 2011 eram antros de bandidos, sendo suspeitos todos os actos praticados pelos seus governantes. Já quanto à temática da corrupção a mando do “Bloco Central” ele tem sido muito mais comedido, tímido, quiçá apático. É que não se compreende como consegue ir trabalhar todos os dias na posse de tanto segredo tão mal guardado sobre negócios corruptos envolvendo sucessivas lideranças do PS e do PSD e ainda não termos sequer um artigozinho no jornal onde é um dos directores a expor essa colossal corrupção de décadas que nem a Justiça consegue beliscar. Tamanha discrepância leva-me para uma afundada suspeita: mais dia menos dia, este bravíssimo jornalista da nossa bravíssima “imprensa de referência” ainda nos vai ajudar a entender que o incêndio de Pedrógrão nunca teria acontecido se Sócrates tivesse continuado preso em Évora.

12 thoughts on “Onde esteve Sócrates na manhã e tarde de 17 de Junho?”

  1. Esta época de incendios está a desmascarar mais uma leva de pulhas que habitam a praça. No outro dia, estava Miguel Sousa Tavares, com ar grave, a dizer que a responsabilidade moral da tragédia de Pedrógão pertencia às empresas de celulose. Vá lá, não lhe ocorreu dizer que é de todos os que lêem os seus artigos de jornal e livros em papel, ou de quem não limpa o rabo a uma folha de couve.

  2. Quando um FILHO DA PUTA não consegue apresentar prova do que sustenta, diz: isso mesmo: “Ponto final!”

    O pirómano João Vieira Pereira diz que é preciso levar os criminosos (o governo) a tribunal pelos incêndio de Pedrogão. Está aqui, está director do Expresso…

  3. Vá lá que ainda não se lembraram de acusar o Governo de “contratar bruxos para fazer feitiços contra os bravos líderes da oposição” !

  4. oh jasmim,

    e possuir as mensagens do presidente da liga de clubes sem conhecimento do proprio? isso já vlae alguma acusação?
    e enviadas pelo presidente da assembleia geral da liga, hã?
    que luxo!!

  5. sinnceramente , aproveitar 64 mortos para fazer a defesa do socras ? e sim , deve ser por causa dos jornalixos que a justiça foi fazer a folha ao zézito … o corriqueiro ( toda a ente faz isso…) facto do o “amigo” legar a massa ao primo do dito e mais coisas assim , tipo o dinheiro nascer debaixo das pedras não tem nada a ver… não te trates , não.

  6. Ditto, em relação ao que Yo escreveu acima .
    Escrever um texto tão longo e sem nexo, apenas para fazer a defesa de Sócrates …
    Onde é que ele estava ?
    Olhe, pergunte-lhe !

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