Passos Coelho e Pacheco Pereira. Duas figuras radicalmente diferentes, mesmo antagónicas, em vários aspectos das suas personalidades públicas, ideários, trajectos profissionais e responsabilidades políticas. Contudo, ambas representam o PSD dos últimos 20 anos, de modo pleno nos últimos 10. A uni-las para lá da diversidade aparente e substancial está a mesma ausência de escrúpulos, a mesma cumplicidade com os poderes fácticos desta direita apavorada que tem orquestrado uma luta política suja e decadente.
O Pacheco é um profissional da política-espectáculo e da indústria da calúnia. Foi um quadro partidário muito importante durante todo o cavaquismo, mas nunca ninguém lhe leu uma linha acerca desse tempo e da natureza moral, ética e legal das práticas partidárias e governativas que estão associadas ao fenómeno social e criminal do BPN. Do BPN, por exemplo; por ser, no mínimo, um exemplo incontornável no seu contexto biográfico, mas o cavaquismo foi muito mais do que isso no que diz respeito à apropriação do Estado para servir interesses particulares. Voltou desasado às lides políticas para ser o principal conselheiro, e estratega a mielas com Cavaco, da campanha de Ferreira Leite para as legislativas de 2009. Desse período, ficou o modo celerado como se entregou à promoção das golpadas judiciais e mediáticas contra Sócrates, com logística e patrocínio de grupos de comunicação social, magistrados e Belém. Arrastou esse ódio a outrance até ao seu limite, tendo conseguido enfiar o focinho nos cueiros de Sócrates dentro de um cubículo na Assembleia da República. Nunca nada explicitou do que leu, nunca nada provou do que caluniou, e viu-se desmentido sem margem para dúvidas por um deputado comunista que igualmente leu o resultado dessas escutas ilegais feitas e conservadas em Aveiro com o único intuito de criar um caso político que desse a vitória ao PSD nas eleições de 2009, ou que fragilizasse fatalmente o PS e seu Governo caso os socialistas as ganhassem. Em 2017, o Ministério Público continua a seguir esse plano, como nos informa em garridas capas o seu órgão oficial. E em 2017, o Pacheco continua igualmente a mentir ao serviço da sua obsessão, como inveterado narcisista agarrado à paixão funesta onde se sonhou herói. Ontem, no meio de banalidades e evidências acerca da decadência do PSD, largou esta oração “a crítica política solitária de Manuela Ferreira Leite ao caminho de Sócrates para a bancarrota.” Trata-se de uma recriação livre da História, pois a Manela nunca se referiu ao que estava quase a acontecer, a crise das dívidas soberanas que começou pela Grécia em 2010 e viria a arrastar vários países europeus para resgates de emergência e planos especiais de financiamento. Do que a seríssima e vera senhora falava era do custo que as “gerações futuras” teriam de pagar por causa de um aeroporto por decidir e uma linha de TGV por construir nas contas de um país que, em Setembro de 2009, estava com nota AA nas agências de notação financeira. Igualmente com Ferreira Leite aprendemos que a recessão mundial de 2008 tinha sido um “abalozinho”, assim exibindo os seus pergaminhos em matéria de honestidade intelectual, decência política e cara de pau. Nem ela nem o fogoso Pacheco sonhavam com o abismo para onde a Europa iria enviar alguns países e suas populações logo ali ao virar da esquina. Se tal imaginassem, teriam posto aí todo o poder de fogo. Em vez disso, desenharam uma campanha que consistia no assassinato de carácter, na pressão mediática caluniadora e nos crimes e abusos praticados impunemente por agentes da Justiça. Apesar disso tudo, apesar da gigantesca convulsão no eleitorado socialista provocada pela tentativa de avaliar os professores, Cavaco, Manela e Pacheco perderam essas eleições.
Passos Coelho é um político cujas principais características são o oportunismo e a vacuidade. Um Zelig que em 2008 elogiava Sócrates só para assim poder atacar Ferreira Leite, e que se fantasiou como “liberal” porque essa ala fanática e ressabiada da direita estava disponível para o apoiar num momento de pânico em que a oligarquia via ruir a sua estrutura de poder bancário. Provavelmente, e dando um exemplo ilustrativo do albergue espanhol que constituiu o suporte propagandístico da maior traição aos portugueses registada em democracia, Miguel Morgado não suporta conversar mais de 15 segundos com Passos, mas a sua parceria para fornecer munição ideológica fundamentalista exibe o que esteve em causa no assalto ao poder realizado em 2011. Um operativo para todo o serviço lobista, formado na escola de Ângelo Correia e que manobrava como parceiro comercial com Miguel Relvas, com a fotogenia que faltava a Ferreira Leite e sendo o que havia de mais parecido com Sócrates em poder de imagem para colocar frente às câmaras, ia ser lançado como testa-de-ferro de um plano de vida ou de morte gizado ao mais alto nível nacional e internacional – daí os papéis de António Borges, Vítor Gaspar e Maria Luís – onde iria valer tudo para derrotar o arqui-inimigo e recuperar as vantagens perdidas com a ruína do BCP, BPN e BPP. Nunca se mentiu tanto politicamente em Portugal, e tão às descaradas, como na campanha do PSD para as eleições de 2011. E nunca se violou tão gravemente o contrato eleitoral como no Governo de Passos e Portas, naquela que foi uma tentativa de reengenharia económica e social apenas contida pela manifestação de 15 de Setembro de 2012 e pelo Tribunal Constitucional. Presidente da República, António José Seguro e comunicação social foram cúmplices de um programa de achincalhamento e depauperação dos mais pobres, da classe média, das pequenas e médias empresas. Esta violência política, assumida no registo verbal tamanha a soberba e alucinação daquela gente, foi a eleições em 2015 em condições que são abafadas quando Passos e corte reclamam vitória. Primeiro, o PSD concorreu coligado. Só por isso, ninguém do PSD pode reclamar um triunfo que se individualize. Os votos dados à PAF não foram dados ao PSD, mas sim aos dois partidos por igual. Corolário: o PS foi o partido que teve mais votos e mais deputados, embora não tantos como os da coligação. Ora, onde está hoje essa coligação? Em lado algum, apenas temos o número de deputados estabelecido pelo acordo entre as duas forças. Logo, se a PAF desapareceu após as eleições por não ter maioria parlamentar, a solução de Governo actual era a única legal, racional e politicamente possível, assim consagrando a vitória do PS em 2015. Segundo, a forma como António Costa chega a secretário-geral do PS causou alguma erosão no eleitorado socialista. Costa, para além das suas fragilidades políticas no plano da exibição da liderança, teve muito pouco tempo para sarar as feridas causadas pelo processo eleitoral interno dos socialistas. Isso, e nada que tenha relação com a preferência dos eleitores por Passos, explica também a votação das últimas legislativas. Terceiro e último, a detenção de Sócrates, preparada para ser um espectáculo televisivo e mediático esmagador, e a sua prisão, sob pretextos ilegítimos e abusivos, condicionaram profundamente a afirmação de Costa, mais o ano e processo eleitoral com o qual se sincronizou. Junte-se a este ramalhete as irresponsáveis decisões sobre a banca só para se poder festejar a “saída limpa”, assim como a obscena mentira da promessa de devolução do IRS, amplamente divulgada pela imprensa laranja. Perante este quadro, ver Passos e restantes fanáticos moribundos a berrar contra o PS não dá vontade de rir nem de chorar. Dá vontade é de pegar na mangueira.
A decadência do PSD pode ter tido o seu início com as maiorias de Cavaco, numa típica deriva para abusos de poder por parte das maiorias quando as lideranças apenas procuram o poder pelo poder. A decadência do PSD teve um momento de exuberante manifestação com a traição de Durão Barroso ao País e ao seu juramento eleitoral. Mas esta sujidade onde a política fica reduzida a assassinatos de carácter, tabloidismo militante, caluniadores profissionais, golpismo judicial-mediático e retórica de vendedores da banha da cobra implica reconhecer que talvez ainda esteja por nascer quem consiga inventar uma direita decente, inteligente e corajosa.