Pinto da Costa tem andado abatido, perdeu o pio, não consegue ter graça. Os tribunais talvez perdoem, a idade não.
Todos os artigos de joaopedrodacosta
É da idade — Série clichés
Duchamp, esse leão
Não valem dois luíses — Série clichés
Troca de cadeiras — Série clichés
País pobre, pouca gente.
E só agora é que descobriram? — Série clichés
Ganda Portugal — Série clichés
Somos os maiores.
Voto útil
Marasmo
Marques Mendes e Rui Rio foram almoçar. Este apoia aquele, aquele apoia-se neste. Ambos afirmaram ser a estabilidade o projecto político mais importante para o PSD. Conclusão: apesar de almoçarem, os chefes da oposição definham no marasmo.
Manoel de Oliveira continua a enterrá-los
A última aventura
A última máscara
Justiça virtual
Alguém no Ministério da Justiça, talvez um jovem assessor com muito tempo livre, conseguiu convencer o ministro a instalar um centro de mediação e arbitragem no Second Life. A função será a de mediar conflitos entre avatares, os respectivos serviços serão pagos com lindens dollars e a entidade forense ficará numa ilha do mundo virtual.
Não acham lindo termos uma Justiça capaz das mais despudoradas metáforas?
Sócrates no máximo da arrogância
O nosso primeiro-ministro é conhecido pelas manifestações de arrogância, e pouco mais. Isto, segundo as bem informadas, e melhor formadas, forças da oposição; entretanto comandadas pelo poeta Alegre, dado o tilt ocorrido nas chefias dos partidos à direita. Ora, a arrogância socrática parece ter atingido um novo máximo. Ao fazer frente a Jardim na lei do aborto, podemos afirmar, com razoável segurança, ter a arrogância do nosso Primeiro chegado à Madeira. Trata-se de uma torpe ingerência num território autónomo habituado a governar-se sozinho, coitadinho, sem outra ajuda para lá das centenas de milhões de euros enviadas todos os anos pelos desprezíveis cubanos. Os propósitos de Sócrates são óbvios: asfixiar a peculiar concepção de democracia do soba das bananas. Durante 30 anos, Jardim recolheu a conivência de todos os políticos que exerceram o Poder, sem espinhas. Com que direito o arrogante do Sócrates vem agora querer aplicar uma lei da República? Acaso a Madeira é algum Charrua onde o déspota do jogging imagina que pode pôr a mão?
Quem se sabe comportar é o PSD, mantendo-se caladinho. Para quê tomar uma posição, uma qualquer, quando está em causa continuar a garantir o feudo político e os negócios instalados? Afinal, há ou não há autonomia? É que se há, o pidesco Sócrates devia ficar-se pela economia, onde consta que anda a ter ganhos como ninguém acreditava ser possível. Ou ficar-se pelas reformas, contra a maralha instalada em décadas de privilégios e incompetências. Aí é que ele está bem, pois dá para mandar umas bocas de ocasião. Agora, ir afrontar a paradisíaca Madeira? E por causa da porcaria da aplicação de uma lei?! É preciso ser-se arrogante, entre outras coisas.
A prova final do descalabro estratégico da oposição
Manuel Alegre vem avisar a malta contra os perigos de Sócrates. Ele não sabe, e nunca o poderá saber, mas acaba de passar um atestado de competência política ao seu alvo.
Paulo Portas ao fundo
A parábola dos cachuchos
Se as pessoas que passam pelas salas de aula portuguesas chegassem ao fim dos 12 primeiros anos de escolaridade a saber quem é Sequeira Costa, a conhecer a sua importância para a cultura em Portugal, ainda, ou só então, haveria esperança para este antro de imbecis. Sim, Sequeira Costa é apenas um exemplo para dar conteúdo à provocação, poderia usar o nome de outros ilustres patrícios. Mas o facto é que 12 anos, ou mesmo 21, de estudos não garantem que se descubra a existência deste português por parte de cada português. Português que celebra em 2007 o cinquentenário da fundação do Concurso Vianna da Motta. A esse propósito, e de propósito por causa da realização da actual edição, o pianista esteve na manhã da Antena 2, na passada quinta-feira, onde contou a seguinte anedota:
Tendo ganho o Concurso de Piano de Paris, assim como outros certames internacionais, amealhou a, ao tempo, substancial maquia de trinta contos. Em 1953, essa verba daria para grandes e estouvados deboches consumistas. O que ocorreu ao nosso Costa, meu primo, foi uma ideia peregrina: criar um concurso de piano em Portugal que se tornasse uma referência internacional pela sua excelência. Para tal, foi falar com uma Sua Excelência, Leite Pinto, o Ministro da Educação. Levou a esposa para a audiência ministerial e apresentou a ideia. Entusiasticamente, e do alto do seu prestígio e juventude, realçou a pique as vantagens para a Nação em albergar tal iniciativa, prestando-se ele a entregar todo o dinheiro ganho até então de modo a financiar a iniciativa. O ministro ouviu atento e composto. Silêncio mais tarde, olha decidido para a estrela do teclado e diz-lhe: Ó homem, mas porque é que você não pega nesse dinheiro todo e compra antes uns cachuchos para a sua mulher?!…
Que me perdoem as vítimas da PIDE e da Guerra Colonial, mas este episódio é o mais fiel retrato do salazarismo que conheço. Se alguém ainda tiver dúvidas sobre o que deve ser a acção política futura, que faça a si mesmo a pergunta: qual dos dois protagonistas pertence ao escol da Pátria? A resposta transformará a anedota numa parábola.
Retrato público
Não faço a mínima ideia de quem é ele, o poeta. Digo mais, com a comodidade da ignorância: se soubesse quem é, sentir-me-ia mais incomodado ainda, tão impiedoso é o retrato. E tão impiedoso que, mesmo que o soubéssemos inventado, continuaria a incomodar.
São assim os retratos, todos os retratos, de J. Rentes de Carvalho. E eu posso dizê-lo, que já tive
de me reconhecer num. Só não consegui (há destas sortes) inspirar-lhe a qualidade deste.
Desajeitados

«Muitos intelectuais», escreveu Marguerite Duras, «são amantes desajeitados, tímidos, assustados, distraídos. Isso não me incomodava sempre que percebia que quando estavam longe de mim eles eram escritores igualmente distraídos do seu próprio corpo». E Pedro Mexia transcreve-o num artigo de ontem no «Ípsilon» («Ypsilon» tinha outra graça) do Público. Você não deitou fora, pois não?
«É uma bela expressão: “distraídos do seu próprio corpo”», prossegue Mexia. «Como se o corpo não fosse o corpo. Como se o corpo dos escritores fosse o seu texto e o corpo propriamente dito um facto vivido distraidamente».
E eram – dizia-se – uma classe invejável. Porque amantes, amantes, são mesmo os trolhas. Lentos, exactos, e duros.
Um panfleto no metro
«Ja não tens desculpa», repete com insistência o panfleto que me estendem à saída da estação do Metro da Baixa-Chiado. «Vem este Verão a Lusiberia e aproveita as vantagens», insiste o panfleto. Quando me estou a recompor do choque do «tu» ostensivo (porque «Ja não tens desculpa» é um «tu» mal escondido), apanho com três erros de ortografia: Ja por Já, Lusiberia por Lusibéria e Aquatico por Aquático.
Isto anda tudo ligado – dizia o poeta Eduardo Guerra Carneiro. No domingo passado José Saramago no Diário de Notícias falava da inevitabilidade da nossa integração em Espanha. Até fala de um parlamento igual ao da Catalunha; a criatura já tinha pensado em tudo. Integrado está ele, pois tem a vida controlada pela mulher e pelos cunhados que lhe filtram os passos e as chamadas telefónicas.
Dois dias depois de dar esta polémica entrevista a João Céu e Silva, Saramago casou-se em Espanha, numa cerimónia íntima. Pois. No dia seguinte, aparece-me este «Ja não tens desculpa» sem acento no «a», a convidar-me a ir até Badajoz gozar as delícias do Parque Aquático sem acento no «a», cujo dono se chama Lusibéria sem acento no «e».
Mas não vão tão longe como Saramago, que se fixava na Ibéria; eles chamam à empresa Lusibéria. Dito de outra maneira: não diluem a Lusitânia como pretende o Nobel 98. Embora não concorde com a ideia, Lusibéria (mesmo sem acento no «e») tem muito mais lógica que Ibéria.
Depois de ter feito desaparecer do livro os nomes das pessoas que lhe contaram as histórias do «Levantado do chão», Saramago propõe o desaparecimento do país e a sua diluição na grande Espanha. Sinto-me «atirado ao chão», mas vou arranjar forças para me levantar. É caso para dizer em bom português: Safa!
José do Carmo Francisco

