Um panfleto no metro

«Ja não tens desculpa», repete com insistência o panfleto que me estendem à saída da estação do Metro da Baixa-Chiado. «Vem este Verão a Lusiberia e aproveita as vantagens», insiste o panfleto. Quando me estou a recompor do choque do «tu» ostensivo (porque «Ja não tens desculpa» é um «tu» mal escondido), apanho com três erros de ortografia: Ja por Já, Lusiberia por Lusibéria e Aquatico por Aquático.

Isto anda tudo ligado – dizia o poeta Eduardo Guerra Carneiro. No domingo passado José Saramago no Diário de Notícias falava da inevitabilidade da nossa integração em Espanha. Até fala de um parlamento igual ao da Catalunha; a criatura já tinha pensado em tudo. Integrado está ele, pois tem a vida controlada pela mulher e pelos cunhados que lhe filtram os passos e as chamadas telefónicas.

Dois dias depois de dar esta polémica entrevista a João Céu e Silva, Saramago casou-se em Espanha, numa cerimónia íntima. Pois. No dia seguinte, aparece-me este «Ja não tens desculpa» sem acento no «a», a convidar-me a ir até Badajoz gozar as delícias do Parque Aquático sem acento no «a», cujo dono se chama Lusibéria sem acento no «e».

Mas não vão tão longe como Saramago, que se fixava na Ibéria; eles chamam à empresa Lusibéria. Dito de outra maneira: não diluem a Lusitânia como pretende o Nobel 98. Embora não concorde com a ideia, Lusibéria (mesmo sem acento no «e») tem muito mais lógica que Ibéria.

Depois de ter feito desaparecer do livro os nomes das pessoas que lhe contaram as histórias do «Levantado do chão», Saramago propõe o desaparecimento do país e a sua diluição na grande Espanha. Sinto-me «atirado ao chão», mas vou arranjar forças para me levantar. É caso para dizer em bom português: Safa!

José do Carmo Francisco

2 thoughts on “Um panfleto no metro”

  1. Então foi por isso que eu nem consegui chegar a meio do Levantado do Chão. Vinha encantado da Blimunda Sete-Luas e do Baltazar Sete-Sóis e atirei-me a esse mas enjoei incomensuravelmente nem sabia de quê. Afinal era de apropriação indevida, só agora entendi.

    Amuei e qual nobel qual carapuça, só voltei a ler o Ensaio sobre a Lucidez porque me interessava politicamente, e gostei.

    Entretanto fui ouvindo novas de um amigo meu que, por profissão, lia todos.

    já sei que tenho de ler ‘O ano da morte de Ricardo Reis’, fica para o ano e é se…

    já agora, para o próprio, à minha sua maneira:

    eu sei
    que as meias-solas que deitei
    nestas botas aprazadas,
    não resistem
    à calçada dos tempos que discorro

    talvez parado as botas me durassem
    mas quieto quem pode?
    mesmo sabendo que é desta vida
    que me morro

    (versão livre do Meias-Solas que me ficou de cor, quebas talvez minhas, Poemas Possíveis J. Saramago)

  2. O meu trabalho e sobre a falta de vitamina A e a prodessora quer que entregamos para a proxima semana o pior de isso tudo é que eu nunca fiz um panflute e a professora quer que seija algo original.
    Ps: se podessem fazer :S

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