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O flanco que nos faltava

Assegurámos o contributo de um extremo esquerdo rápido na finta e de um “carregador de piano” discreto e eficaz. Tratámos da contratação-surpresa em terras de Espanha. E arriscámos a compra de um artista do meio-campo que não há forma de aparecer no centro de treinos (e fica entregue à vossa inventividade a tarefa de adivinhar quem é quem)… só faltava mesmo guarnecer melhor o lado direito do nosso ataque. Precisávamos de um atacante rigoroso no cruzamento e estonteante na desmarcação. Alguém para usar o pé direito com proficiência, mas sem esquecer o jogo de cabeça.
Aí está ele: a partir de hoje, Rodrigo Moita de Deus é o nosso convidado residente. E vai dar início a uma existência dúplice, a uma epopeia do pensamento bicéfalo. O Dr. Moita de Deus, do respeitável Acidental, vai transformar-se de quando em vez no temível guerrilheiro maoísta-refundado El Rodrigo, no Aspirina B. Ou será ao contrário? Bem, vamos lá a ver no que isto vai dar. Adivinham-se dias turbulentos no balneário.

Domingo

Tive um sonho que era mais ou menos assim: no próximo domingo, às oito da noite, todas as televisões anunciam que Cavaco Silva é o novo Presidente da República, eleito à primeira volta (na RTP com 52%, na SIC com 54,5%, na TVI com 53%), os comentadores debitam as banalidades da praxe, que isto era o resultado previsível, que o homem de Boliqueime geriu bem os silêncios e os timings da campanha, que a esquerda fez mal em dividir-se, que Alegre e Soares acabaram por anular-se mutuamente, patati patatá, rebeubéu pardais ao ninho e agora um intervalo para compromissos publicitários, findos os quais voltam as emissões aos estúdios e surgem os directos nas sedes de campanha, os cavaquistas aos pulos e a fazerem o V com os dedos, enquanto se ouvem lá atrás os plop das garrafitas de 75 cl de Möet et Chandon compradas no Feira Nova e nas ruas cresce o alarido das buzinas que também marcaram presença nas maiorias absolutas de 1987 e de 1991 (mas não na Ponte 25 de Abril, claro está), e agora vamos para a sede de Mário Soares, caras de enterro, e agora para a de Manuel Alegre, só tristeza, e agora Jerónimo, malta cabisbaixa, e agora Louçã, tudo de monco caído, e os comentadores a trazerem novas fornadas de banalidades, será que Cavaco vai respeitar os limites constitucionais, como é que será a coabitação com Sócrates, e entretanto, discretamente, em rodapé, vão passando os resultados apurados pelo STAPE, gota a gota, grão a grão, distrito a distrito, e lá para as duas da manhã, quando acabam de ser contabilizadas as freguesias mais populosas, dá-se o choque, o drama, o horror: Cavaco Silva, afinal, fica-se pelos 49,9% (49,98%, para sermos mais exactos) e vai haver, ó céus benfazejos, a tal segunda volta que todos, ou quase todos, se esqueceram de equacionar.

Excesso de zelo

E no entanto o brief era simples: o cliente, num “ousado acto de gestão”, decidira ofertar algumas “pequenas comodidades” aos seus colaboradores, mordomias destinadas a “melhorar o ambiente de trabalho e, com isso, aumentar a produtividade”. O seu objectivo não deixava dúvidas: “-Se as pessoas se sentirem mais felizes em vir trabalhar, haverá teoricamente um maior rendimento” – e o próprio gestor poderá colateralmente aspirar a uma nomeação no conceituado relatório anual dos Great Places to Work. Suma felicidade = sumo rendimento, portanto; ganha o colaborador e ganha o gestor, que é como quem diz que ganha o país. Mas que não houvesse ilusões: os pequenos luxos postos à disposição dos colaboradores da empresa não podiam “de forma alguma” distraí-los do trabalho: “-Estamos a falar de pessoas responsáveis e as actividades têm regras de utilização”, precisou o gestor, que encorajou também os seus colaboradores a deslocarem-se mais cedo para o local de trabalho de modo a poderem tirar partido das diversas comodidades aí instaladas. A aplicação do “modelo de escritório anglo-saxónico”, em que ele diz ter-se inspirado, ao “estilo português”, que por muito viajado que seja nunca deixará de ser o seu, tem destes senões: os colaboradores, jovens logo entusiastas, reuniram-se em “comissão de colaboradores” e escolheram ter um ginásio e uma sala de squash; mas se a escolha da juventude foi aprovada, foram também impostos limites ao seu ardor desportivo (porque afinal “regras são regras”) e estipulados horários, de manhã, à hora de almoço e ao fim do dia, exclusivamente. Já o gestor, nas suas preferências, se mostrou mais recatado e com uma menor propensão para o dispêndio inútil de energia, bastando-lhe uma sala de descanso e outra de “cuidados pessoais” (não especificados) junto do escritório que ocupa no último andar do edifício e do qual se alcança uma ampla e inspiradora vista do seu jardim privativo. Numa concessão ao espírito new age, o gestor concebeu igualmente a ideia de um som ambiente que “transporta os visitantes pelos corredores da empresa”, sendo sua também a “selecção musical escolhida a dedo (necessariamente o seu) e que se reparte entre a música clássica e o chill-out, consoante a altura do dia”. Mas a sua referência às visitas diárias de uma manicura, uma cabeleireira e um engraxador (em particular deste último, um hábito que “bebeu da sua estadia nos Estados Unidos” e de que não abdica), constituiu um excesso de zelo que teria havido vantagem em evitar. Sucede que o gestor insistiu numa photo opportunity com o engraxador e, quando este lhe apareceu de fato e gravata, genuinamente honrado pela distinção que lhe era feita, ele mandou-o de volta para casa, a vestir o fato-macaco que distingue a sua função, para depois se fazer fotografar a ser engraxado (em sentido real) por um tipo aos seus pés (idem). Após cuidada análise, concluiu-se que a foto era politicamente incorrecta e socialmente insensível, mas depois de uma curta reflexão o cliente decidiu que podia ser publicada: afinal, era numa revista para gestores.