Excesso de zelo

E no entanto o brief era simples: o cliente, num “ousado acto de gestão”, decidira ofertar algumas “pequenas comodidades” aos seus colaboradores, mordomias destinadas a “melhorar o ambiente de trabalho e, com isso, aumentar a produtividade”. O seu objectivo não deixava dúvidas: “-Se as pessoas se sentirem mais felizes em vir trabalhar, haverá teoricamente um maior rendimento” – e o próprio gestor poderá colateralmente aspirar a uma nomeação no conceituado relatório anual dos Great Places to Work. Suma felicidade = sumo rendimento, portanto; ganha o colaborador e ganha o gestor, que é como quem diz que ganha o país. Mas que não houvesse ilusões: os pequenos luxos postos à disposição dos colaboradores da empresa não podiam “de forma alguma” distraí-los do trabalho: “-Estamos a falar de pessoas responsáveis e as actividades têm regras de utilização”, precisou o gestor, que encorajou também os seus colaboradores a deslocarem-se mais cedo para o local de trabalho de modo a poderem tirar partido das diversas comodidades aí instaladas. A aplicação do “modelo de escritório anglo-saxónico”, em que ele diz ter-se inspirado, ao “estilo português”, que por muito viajado que seja nunca deixará de ser o seu, tem destes senões: os colaboradores, jovens logo entusiastas, reuniram-se em “comissão de colaboradores” e escolheram ter um ginásio e uma sala de squash; mas se a escolha da juventude foi aprovada, foram também impostos limites ao seu ardor desportivo (porque afinal “regras são regras”) e estipulados horários, de manhã, à hora de almoço e ao fim do dia, exclusivamente. Já o gestor, nas suas preferências, se mostrou mais recatado e com uma menor propensão para o dispêndio inútil de energia, bastando-lhe uma sala de descanso e outra de “cuidados pessoais” (não especificados) junto do escritório que ocupa no último andar do edifício e do qual se alcança uma ampla e inspiradora vista do seu jardim privativo. Numa concessão ao espírito new age, o gestor concebeu igualmente a ideia de um som ambiente que “transporta os visitantes pelos corredores da empresa”, sendo sua também a “selecção musical escolhida a dedo (necessariamente o seu) e que se reparte entre a música clássica e o chill-out, consoante a altura do dia”. Mas a sua referência às visitas diárias de uma manicura, uma cabeleireira e um engraxador (em particular deste último, um hábito que “bebeu da sua estadia nos Estados Unidos” e de que não abdica), constituiu um excesso de zelo que teria havido vantagem em evitar. Sucede que o gestor insistiu numa photo opportunity com o engraxador e, quando este lhe apareceu de fato e gravata, genuinamente honrado pela distinção que lhe era feita, ele mandou-o de volta para casa, a vestir o fato-macaco que distingue a sua função, para depois se fazer fotografar a ser engraxado (em sentido real) por um tipo aos seus pés (idem). Após cuidada análise, concluiu-se que a foto era politicamente incorrecta e socialmente insensível, mas depois de uma curta reflexão o cliente decidiu que podia ser publicada: afinal, era numa revista para gestores.

6 thoughts on “Excesso de zelo”

  1. Muito bom. Está na altura de começar a fazer marcação cerrada a essa casta.

    (não, não me refiro aos empresários, antes aos que passam por sê-lo; uma maioria ruidosa, ainda por cima)

  2. Mais uns quantos posts como este e outros espalhados pelo corredor, nem a Brigada Bigornas se vai dar à chatice de cá aparecer!

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