Arquivo da Categoria: Luis Rainha

Tradução com rabo de fora

Vem o “Público” de hoje com um artigo sobre o desenlace da batalha legal que tem oposto o antigo organista dos Procol Harum aos declarados autores do vetusto hit “A Whiter Shade of Pale”.
A linhas tantas do luso artigo, surge a intrigante frase “cujo acompanhamento se baseia em vários trabalhos de Johann Sebastian Bach’s works, incluindo Air on a G String”. Assim mesmo, com a entrada intempestiva de palavras inglesas e o adeus ao solfejo. Seguindo pistas do Google, não foi difícil dar com este artigo e, sobretudo, com este. Ah; a prosa em idioma misto está assinada por um jornalista português.

O Pai Natal existe e é um sociopata

atomic-energy-lab-01.jpg

Pequenas lambretas que tomam o freio nos dentes. Dardos desmesurados que perfuram crânios. Luzes de discoteca incendiárias, mísseis sufocantes, bonecos canibais (a sério!), Barbies voadoras com instintos assassinos (confesso que dei uma destas à minha filha). E, com um brilho muito próprio, o “Laboratório de Energia Atómica”, lançado em 1951, que devia ter como objectivo preparar a miudagem americana para a III Guerra Mundial: incluía quatro amostras de Urânio 238, um contador Geiger e vários adereços indispensáveis ao cientista em início de carreira. Em caso de acidente, os infantes vitimados sempre poderiam ter uso como candeeiros.
Esta lista dos brinquedos mais marados da história merece consulta atenta. E vai dar-vos vontade de examinar com outros olhos as cartas com os pedidos ao Pai Natal dos vossos herdeiros.

O discurso de aceitação mais tocante que já leram

Diz o Re21: “Esse tal luis rainha, difamou-me,caluniou-me e ofendeu-me publicamente a minha pessoa num post merdoso que colocou no pasquim onde o deixam editar posts, é um acto grave que esse luis rainha cometeu.E ainda por cima tem a lata de aqui me vir ofender pessoalmente mais uma vez, é gente que não presta.E como tem feito aqui várias vezes, não só me ofende a mim como ofende as pessoas que aqui comentam, sim, é um dos “vómitos” que só tentam denegrir e difamar a minha pessoa e tentar destruir o meu blog, são dezenas os comentários provocatórios à minha pessoa que esse “vómito” aqui tem escrito ao longo da existência desta versão do meu blog e da anterior versão. Update:Tania e restantes leitores este tal luis rainha escreveu um post precisamente igual a este num pasquim de edição electrónica já extinto onde difamava, caluniava e ofendia outras pessoas, post esse considerado de “merdoso” por muita gente e o que levou ao afastamento de muitos que visitavam esse extinto pasquim, só para dar a conhecer um pouco o ser que é luis rainha. Mas há mais, muito mais.”

Os grandes desvencedores de 2006!

piores.jpg

Antes de zarpar rumo a paisagens mais condizentes com a quadra, onde me esperam quilómetros de neve fresca e matilhas de capitosas instrutoras de esqui, tenho ainda uma missão a concluir: anunciar os resultados do blogoconcurso que aqui lancei há uns tempos. Adicionando as minhas escolhas pessoais a sugestões recebidas pelos mais variados meios, lá consegui chegar a uma lista definitiva de premiados. Isto para não ficar muito atrás destes senhores, que até tiveram a gentileza de nos colocar em 4.º lugar já não sei bem de quê.
Vamos lá então passar em revista as áreas de (in)excelência agora distinguidas:

Continuar a lerOs grandes desvencedores de 2006!

Pinochet e o milagre com pés de barro

Augusto Pinochet lá faleceu, depois de anos de cuecas com a morte, incluindo o miraculoso sprint da cadeira de rodas com que culminou a sua fuga à justiça inglesa. Por mim, só tenho pena que ele nunca tenha sido julgado, no Chile ou em terra alheia, pelos incontáveis crimes cometidos em seu nome e com seu conhecimento.
Calculo que a esta hora já tenham surgido alguns obituários menos sombrios, sempre salientando as maravilhas do dito “milagre económico chileno”, que terá ocorrido sob a batuta dos Chicago Boys de Friedman. Uma nova versão dos comboios a horas dos fascistas, portanto. O pior é que, como o mito da pontualidade italiana sob Mussolini, trata-se de uma historieta com pinta de fábula mal contada. Agora, urge expor o outro lado da questão, não vá o tal “milagre” solidificar poleiro na hagiografia emergente de S. Pinochet, revoltoso traiçoeiro e ditador sanguinário já antes recauchutado em avozinho inofensivo e pai da pátria chilena.
Há quase três anos, mantive uma discussão interessante com o hoje blasfemo JCD. O tema foi o tal “milagre económico”. Julgo que pouco tenho a acrescer aos meus argumentos de então, que partiram deste artigo de um colunista do Observer, Greg Palast. É o que se segue.

Continuar a lerPinochet e o milagre com pés de barro

Eles têm o 31, nós estamos feitos num 8

vader.jpg

Aí está o que promete ser mais um excelente e animado blogue colectivo de direita: o “31 da Armada”, onde pontifica o nosso marialva preferido, o Rodrigo Moita de Deus. Acrescentemo-lo à blogroll mental, ao lado de coisas dignas de nota como o “Blasfémias” e o “Insurgente” (este com a ressalva de alguns reforços recentes um pouco mais fracos). Assim vai a direita pela blogosfera: bem. Bem organizada. Bem dinâmica. Bem interessante.
E a esquerda? Para lá de um sorumbático e sempre sério “5 dias”, é o deserto. Ou impera a simplicidade sem risco, ou o panfletarismo mais ou menos previsível, ou o mainstream pomposo que já não interessa a ninguém. Nem a coutada da Cultura serve para garantir animação à malta. Ná. Por estas bandas não há ideias novas, não se lobriga provocação inteligente, murchou a militância consistente e prolongada.
Reparem que não incluo a 100% o “Aspirina B” na funesta procissão: nunca aqui almejámos a unanimidade ideológica e sempre nos orgulhámos da nossa polissemia. Mas isso não nos imunizou contra a maleita geral: também aqui impera a acédia, também daqui fugiu a vitalidade, a discussão, e até a alegria que, de acordo com o mito, devia contaminar as hostes esquerdistas a tempo inteiro.
Sim; eu sei que é mais fácil angariar polémicas quando se tem ideias pour épater le bourgeois em barda, como a compra e venda de votos ou a privatização do ar. Ou quando se conta com clowns finórios como o Pedro Arroja, capaz de se atrever, sem medo do ridículo, a ressuscitar a ideia de que os ingleses só chocaram ex-colónias civilizadas e democráticas, esquecendo a caterva de casos mais sinistros, do Afeganistão ao Zimbabué.
Não sei se falta ao lado esquerdo da blogosfera um ou dois Arrojas; espero que não. Talvez seja apenas uma questão de míngua dos sombrios “financiamentos próprios cuja origem é desconhecida” agora denunciados, com algum veneno teleguiado, pelo Abrupto. Mas certo, certo é que há qualquer coisa que não funciona por aqui. Querem mais uma prova? No dia em que o “31 da Armada” se lançou no meio de grande festança, estava o pessoal deste estaminé ocupado a… esquecer o primeiro aniversário do blogue. Coisas de velhos.

“Quem se habituou a viver entre os gumes do desespero não lhes escapa pelo mero atenuamento das suas causas. Por muito que o Sol brilhe, o seu vulto permanece escuro, a sua sombra continua a adensar-se. Um volume enorme que cai no mar sob o nadador, arrastando-o num torvelinho irresistível. Até que ele já não distingue o que é cima e o que é baixo. Até que já nem lhe parece importante distinguir. Como se o salto verdadeiro tivesse sido dado muito antes de os seus pés deixarem a ponte; como se a balística do desespero nada tivesse a ver com a gravidade, ignorando o que jaz no lado de fora da vida. O centro está antes em algo que lhe cresce sem cessar dentro do peito, mesmo que privado das antigas raízes de acasos biográficos e outras tragédias menores. Osíris entrou de livre vontade no seu caixão. Pressentiu ali as suas medidas, precisas, magnéticas, predestinadas e letais.”

Anselm Kiefer, “Osiris und Isis”, 1985-1987

Escolha difícil

Pede-me o Nuno Ramos de Almeida que comunique aos nossos leitores mais “criativos” que na próxima quinta-feira o esquerda.net “promove uma reunião para trocar algumas ideias sobre a campanha da despenalização da interrupção voluntária da gravidez. O encontro será na quinta-feira às 21.30 na Rua Febo Moniz número 13, R/C Esquerdo.”
Infelizmente, a malta mais brilhante e criativa vai ter de estar no Café Suave, a partir das 22:30, para participar no lançamento do melhor livro de BD do ano.

Isto de ser eterno e omnipotente já não é como antigamente

goddead.jpg

Ahura Mazda — R.I.P.? Ao que parece, o conhecido mantra das entidades religiosas sobre o seu próprio porvir — «já cá andamos há dois mil anos, preparem-se para nos aturar por muito mais tempo» — é capaz de não dar assim tantas garantias. O Zoroastrismo, religião milenar que já contou com milhões de seguidores, encontra-se à beira da extinção . Mais interessante ainda é que parece ter sido o sucesso individual dos crentes, e as suas qualidades humanas, a ditar o fim desta religião.
Pode ser que a coisa se pegue às restantes pragas que têm assolado a Humanidade desde a sua mais tenra infância. Sonhar não custa. Haverá coisa melhor de imaginar do que um mundo livre de religiões organizadas?

Uma modesta proposta de blogoconcurso

piores.jpg

Com a aproximação do fim do ano, lá começam os “Prémios”, os “Óscares” e demais “Troféus Tanit”, todos entretidos a puxar o lustro à vaidade da blogosfera. Nada a obstar, que a malta tem de enganar as horas de maior tédio. Mas podíamos variar um bocadinho, este ano: elegendo, por exemplo, os blogues mais merdosos da lusa pátria. A coisa poderia até distribuir troféus sectoriais, prémios de carreira, incentivos à cessação imediata de actividade, etc.
Sugiro a seguinte lista de áreas de (in)excelência a distinguir:

1- O mais manhoso
2- O mais sobreavaliado
3- O mais feio
4- O mais ensimesmado
5- A escrita mais pomposa
6- O mais alienado
7- Os piores pontapés no Português
8- O mais ressabiado
9- O mais irritante
10- O pior dos piores tout court: a cereja bichosa no topo do bolo podre

Alguém quer votar?

Liberal, sim, mas só se a tua liberdade não me ofender

angry_god.gif

Pedro Arroja continua impulsionado pelas místicas visões que já o levaram a declarar Deus imprescindível à civilização e Cristo ao liberalismo. Agora, surge com mais um “original e importante” argumento (de acordo com imparcial avaliação do próprio), desta vez sobre o referendo ao aborto.
Ele começa por fazer de conta que não sabe que o primeira consulta não foi vinculativa: «o mais provável é que outros referendos se sigam até que ganhe, finalmente, o “Sim”.» Mas o melhor está para vir. Quando pensávamos nós que uma situação despótica é aquela em que o Estado, esse odiado monstro, decide pelas pessoas nestes assuntos de vida e de morte, eis que o arrojado profeta do Blasfémias nos esclarece, fulminante: «O referendo ao aborto é, provavelmente, uma das mais insidiosas manifestações do despotismo da multidão sobre a individualidade humana que Portugal conheceu desde que vive em democracia.» Qual o medo de Arroja? Simples: «não é senão de esperar que, com o decorrer do tempo, esse limite (para a realização da IVG) seja alargado, primeiro para doze semanas, depois para quinze, até chegar a nove meses.» Ou seja, o mal não é do referendo mas sim de imaginárias decisões futuras que só existem neste delírio acossado.
Mas «a questão seguinte, ainda ela eminentemente racional, será a de perguntar se certas vidas humanas (v.g., deficientes) valem a pena ser vividas.» Claro está que a resposta, para o profeta da desgraça será, «em muitos casos, não». Aqui, ele faz de conta que não é decidido, todos os dias, terminar vidas que persistem agarradas a máquinas, abortar fetos com deficiências profundas, desligar comas sem remissão. Isto sem que se ouça grande resistência nem da Igreja nem dos seus voluntariosos porta-vozes de ocasião. «Deliberar sobre o momento em que ela (a vida) termina» é hoje coisa corriqueira: a prolongada falta de actividade coerente num cérebro humano já basta para declarar alguém morto; só não entendo porque é que o mesmo critério não serve para definir o ponto do crescimento de um feto em que a vida humana tem real início.
Não adianta muito, como o próprio Arroja admite, discutir tais assuntos com quem os analisa com a Fé e não com a Razão; só estranho que gente tão amiga da liberdade não perceba quão despótico é tentar impor à vida dos outros os suas baias morais e religiosas.

PS: olhem que não estão em causa meros assuntos de “correntes políticas”, como Arroja insinua. Veja-se a excelente resposta do blasfemo Rui.

Por fim, um culpado de Portugal

neandertal.jpg

Há quanto tempo anda meio Portugal em busca de um responsável pelos nossos persistentes males colectivos? Culpados provisórios já foram recenseados nas elites, no sistema de ensino, nos fundadores do país, no clima luso — brando demais para suscitar temperamentos empreendedores, diz-se —, no excesso de vinho, nas ditaduras que nos assolaram, no 25 de Abril… sei lá.
Ontem, graças a uma dica do nosso leitor py, relembrei-me de uma suspeita antiga. Que aponta o dedo acusador ao mais remoto dos suspeitos: os patuscos mas obsoletos Neandertais.
Já leram, por certo, algum apontamento sobre o famoso “menino do Lapedo”, criatura falecida há uns 25.000 anos, em parte humano moderno mas com alguns traços de neandertal. Seria, de acordo com o vociferante “dono” da descoberta, João Zilhão, prova de grandes poucas-vergonhas entre as duas espécies, o que poderia indicar que toda a Humanidade era afinal produto de miscigenações manhosas.
Nada disso. Ao que parece, trata-se de hipótese improvável. Quando muito, só em locais seleccionados é que a funesta misturada poderá ter ocorrido. De acordo com tal hipótese, os únicos berços deste passo atrás na Evolução seriam a Roménia, a Morávia e… Portugal.
Está tudo explicado. Enquanto o Homem Moderno evoluiu alegre rumo à Civilização, à Cultura, à Arte, ao Progresso, os pobres mestiços permaneceram atolados na lama primeva, presos pelos seus toscos genes à mais pesada das heranças. Assim, lá ficámos nós, os tristes e isolados portugueses, entregues ao atraso, à acédia, à irresponsabilidade, à estupidez inata dos nossos cérebros atarracados e inviáveis.
Eu bem desconfiava que Portugal devia ter explicação.

Mais um momento Braz & Braz

mateusamostra.jpg

A Má Criação tem o prazer de vos apresentar “Dias Eléctricos”, uma obra de Banda Desenhada construída de acordo com um dispositivo algo original. Um só tema, um só argumentista, e sete desenhadores, entre veteranos como João Fazenda ou Jorge Mateus, jovens promessas e estreantes absolutos.
A electricidade é o ponto de partida para as oito histórias que preenchem estes dias; os traços e as formas de contar, radicalmente diversos entre si, representam algumas das rotas que a BD nacional hoje percorre. São 120 electrificantes páginas com capa dura e um preço quase ridículo: apenas 10 euricos!

Podem aqui aceder a uma página de cada desenhador, em PDF:
Armando Lopes
Daniel Lima
Susana Carvalhinhos
Jorge Mateus
Frederico Rogeiro
Tiago Albuquerque
João Fazenda

Contando com apoio da REN, “Dias Eléctricos” promete vir a ser o início de uma colecção de recolhas similares. Assim queira sua majestade, o Mercado (um pouco de graxa aos nossos abonados amigos liberais).

Miguel Sousa Tavares sem rede

Talvez escaldado pela confusão em redor do “colorido narrativo” que foi pescar a obra alheia, Sousa Tavares lançou-se, na sua crónica do “Expresso”, num arriscado voo a solo, sem consultar fontes. E, ao que parece, estatelou-se contra os factos.
Foi o Joaquim Vieira, no indispensável Observatório de Imprensa, que deu pela coisa:
«”A primeira vez que fui aos Estados Unidos foi em 1976, o ano do Bicentennial, estava o país inteiro eufórico com os seus duzentos anos de independência”, escreve hoje Miguel Sousa Tavares no “Expresso”, para acrescentar mais à frente: “E cheguei a tempo de assistir na televisão aos impiedosos interrogatórios da comissão parlamentar de inquérito ao Watergate – autêntica lição prática do que é o sistema de balança de poderes e que culminaria, meses mais tarde, com a renúncia do pantomineiro Richard Nixon”. Ora, o presidente Nixon resignou devido ao Watergate, é certo, mas em 1974, pelo que alguém do “Expresso” devia ter alertado o seu articulista em relação a uma memória algo confusa.»
Mais coisas que talvez uma consulta atempada ao Google tivesse esclarecido: «que não é “Ali Burton” mas sim “Halliburton”, que Rumsfeld não é (nem nunca foi) secretário de Estado mas sim da Defesa, que a Convenção de Genebra não é centenária mas sim cinquentenária e que os EUA não foram “o único país que votou nas Nações Unidas contra o comércio livre de armas de guerra”, mas sim o único que votou contra o controlo desse comércio (ou seja, a favor do tal comércio livre de armas de guerra).»
Como não li a coluna referida, não sei se chegava a acertar em alguma coisa.

PS: já li a coisa e posso confirmar que há alguns acertos. Julgo, por exemplo, que o nome do colunista saiu sem erros.

À êga!

Depois de horas às voltas com comentários em triplicado, entradas que não entram, ficheiros que não se actualizam e outras anomalias, declaro-me oficialmente farto. Alguém que me avise quando o weblog, com ou sem Balsemão, voltar a funcionar de forma decente. Até lá, estou em greve.