A direita, no seu deserto de talento político e de liderança, criou o mito da implacabilidade e superlativas capacidades oratórias, agonísticas, de Sócrates. Fizeram-no por retinto e justificado medo, por um lado, e por táctica insultuosa, pelo outro. Sócrates era o arrogante, o animal feroz, aquele que pervertia e desprezava as boas maneiras entre políticos sérios. Há uma parte real que substantiva estes apodos, os debates parlamentares. Aí, Sócrates saiu invariavelmente por cima no confronto com os melhores tribunos opositores, espadeirando a torto e a direito sem piedade, duas vezes por mês ao longo de 6 anos. Mas quanto aos debates televisivos, estamos no mundo da fantasia.
Em 2005, não há memória de Sócrates ter feito qualquer brilharete digno de registo na TV. Até pelo contrário. Embora se tenha considerado que venceu o debate com Santana, no qual se gastaram os 20 minutos iniciais a falar da campanha suja que o PSD então promoveu e Santana cavalgou, a sensação final foi de alguma frustração. Perante tão debilitado e indigno adversário, Sócrates tinha optado por se concentrar em transmitir competência técnica para governar e um sentimento de confiança para o futuro. Parecia pouco onde se esperava reparação e admitiria vingança. Em 2009, teve um retumbante sucesso frente a Louçã, mas foi só. Com Ferreira Leite, por exemplo, não se viu nenhum especial desequilíbrio no debate, mais uma vez assomando o sentimento de frustração por tão iníqua personagem ter sido poupada ao justo castigo. Nestas eleições, os debates que antecederam o confronto com Passos mostraram um Sócrates a repetir a sua fórmula de sempre: crítica pertinente, decisiva, das propostas do adversário (ou sua ausência) e transmissão clara, com impacto memorável, das suas propostas. Pelo meio, um genuíno gosto pela disputatio originada na espontaneidade das afirmações. Diríamos, portanto, que para fazer isto talvez não seja preciso cair no caldeirão da poção mágica em gaiato.
Sócrates nada apresenta de especial em matérias de retórica face aos outros líderes partidários, salvo uma característica que muito os aborrece: onde os outros parecem estar a representar, ele aparece genuíno, sanguíneo, inteiro. Pode parecer pouco, mas por pouco se ganha e perde. Por pouco tudo se pode perder ou tudo se pode ganhar.