Jogos no Olimpo

Na fauna dos publicistas oficiais — esses que frequentam jornais, rádios e TV, trocando opiniões por dinheiro e/ou fama — há uns que se prestam com genuíno entusiasmo ao ridículo gabarola. São todos aqueles que botam faladura sobre política internacional. Dividem-se em dois grupos, e dois grupos apenas: os omniscientes e os lorpas. Os primeiros transmitem a ideia de estarem melhor informados do que os próprios agentes da situação em análise e conseguem antecipar o desfecho de qualquer berbicacho que lhes apareça à frente. Se discorrerem sobre o actual conflito na Geórgia, por exemplo, ficamos a acreditar que os EUA e a Rússia andam ali aos papéis e à espera do seu urgente conselho. Para o mesmo caso, os lorpas preferem citar enciclopédias e concluir pela impossibilidade da conclusão através de conclusões múltiplas. Ambos os grupos comungam de uma atitude nefelibata, condescendendo em lançar migalhas de superior intelecção para cima das audiências pasmadas.

Não tem mal, aborrece.

Cineterapia


Picnic_Joshua Logan

No meio da década de 50 fez-se um filme que alguns têm a sorte de amar. Não é o caso deste cromo, mas é o meu, e o de muitas alminhas boas como a minha. Convém lembrar que a década de 50 contém os melhores 12 anos da História do Ocidente (década de 50: 1949 a 1961, pelas minhas contas). Havia transportes rápidos e combustível quase dado, toda a gama de electrodomésticos, casas de dois andares com quintal e cão, Invernos invernosos, miúdas giras e honestas com algum peso a mais nas partes mais à mão, e ainda completa ausência de grafitos nas cidades e vilas. Pelo menos é isto que tenho visto em filmes americanos, e não acho que logo os americanos fossem gastar tanto dinheiro com actores careiros e película nada barata só para mentir ao pessoal. Portanto, acredito nestas cenas até filme em contrário.

Joshua Logan é um ser do teatro. Talvez por isso, ou talvez por se filiar na longa tradição cinéfila que começa em Homero, encosta a câmara ao coração das personagens. E os actores fazem bater forte esses músculos abrutalhados. Foi assim que Rosalind Russel terá sacado a melhor representação da sua carreira, tendo recusado concorrer ao Oscar de actriz secundária para assim nos conquistar desvairada admiração. Foi assim que Kim Novak passou pelo fio da navalha, equilibrando passividade exterior e ebulição interior como em raras ocasiões terá sido alcançado. Foi assim que William Holden errou ao aceitar o papel para que erradamente o convidaram — e só esse duplo erro conseguiu dar corpo à errância da personagem.

De repente, fugazmente, passa uma imagem gloriosa com dezenas de melancias; imagem cuja existência e conservação é uma credível justificação para a criação do Universo. Estamos num piquenique. E depois, lá para a noite, há uma dança onde se aprende a dançar. First, you’ve got to set the rhythm. Ele marca o ritmo. A menina não dança porque ainda não tem idade, só tempo. Mas a rapariga está na idade e no tempo. Entra no ritmo, descompassado. Surpresa. E nova surpresa. Estar no mesmo ritmo com alguém é surpreendente, mas muito mais surpreendente é estar na mesma falta de ritmo. Na mesma falta de ritmo. A mesma, o mesmo. Então, aproximam-se. Porque há para onde ir. Um centro, um vazio. Ele não tem nada a ganhar. Ela o que mais quer é perder. Luzeiros de papel. Aren’t they graceful?… You used to dance like that, Flo.

Flo, vem dançar.

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Dependência ou morte!

Toda a gente exultou com a morte e abate dos assaltantes à dependência bancária do BES, incluindo aqueles que fingiram estar preocupados com a sua morte e abate. Fizeram-se alarves piadas e piadinhas nos blogues; assinadas, ainda por cima. Declarações dementes e alucinadas — com origem nos computadores de dois reformados em Abrantes e de um alcoólico filiado no PNR — encheram as caixas de comentários do Público. Enfim, houve uma descompressão geral por contraponto aos pavores securitários quotidianos, o que revela o quanto gostámos da limpeza da acção policial: desde a rapidez do desenlace até aos felizes resultados (só se partiu um vidro), passando pelo filmezinho bacana dos bacanos. O facto de os bandidos serem brasileiros é secundário, pois também iríamos curtir se fossem facínoras portugueses a pagar um juro demasiado alto pelo empréstimo de reféns — embora nesta versão curtíssemos menos, claro, até porque haveria família a chorar nos telejornais, vindo logo o PCP e o BE acusar Sócrates de violência policial salazarista sobre duas vítimas do imperialismo americano e do novo Código Laboral, e as coisas acabariam por ser um bocadinho chatas derivado da portugalidade inibir as chalaças mais espontâneas do povoléu. O ideal era que os meliantes fossem pretos de segunda ou terceira geração, à volta dos 20 anos. Isso teria um gostinho especial. Só que pretos de segunda ou terceira geração, à volta dos 20 anos, é muito provável que não sejam tão imbecis como estes sambistas. Aliás, o ideal absoluto consistiria num duo constituído por um preto e um cigano, ambos da Quinta da Fonte. Par mais lindo e sociologicamente consensual não é possível imaginar. Terem saído na rifa brasileiros desperados é muito bom, impecável mesmo, sendo até melhores do que os robustos ucranianos ou manhosos romenos. Isto não se resumiu a ter as armas apontadas e já está, não não, também tivemos sorte com a raça dos alvos.

Só o CDS é que acaba por ter azar, pois desta vez não pode meter requerimento para que o ministro da Administração Interna vá ao Parlamento passar uma tarde na brincadeira. Pode é queixar-se informalmente de dano económico para o Estado, relativo às despesas hospitalares causadas pela sobrevivência do pistoleiro. E Portas terá ocasião para fazer mais um dos seus brilhantes brilharetes, vindo airoso falar-nos da pontariajacking.

Cantar a tesão – III

O nosso amigo Rui teve a gentileza, e o supino bom-gosto, de nos oferecer novo espancamento, frementes carícias:


NERVOS D’OIRO

Meus nervos, guizos de oiro a tilintar
Cantam-me n’alma a estranha sinfonia
Da volúpia, da mágoa e da alegria,
Que me faz rir e que me faz chorar!

Em meu corpo fremente, sem cessar,
Agito os guizos de oiro da folia!
A Quimera, a Loucura, a Fantasia,
Num rubro turbilhão sinto-As passar!

O coração, numa imperial oferta.
Ergo-o ao alto! E, sobre a minha mão,
É uma rosa de púrpura, entreaberta!

E em mim, dentro de mim, vibram dispersos,
Meus nervos de oiro, esplêndidos, que são
Toda a Arte suprema dos meus versos!

Cantar a tesão – II

De Florbela Espanca disse Pessoa ser sua alma gémea. O que poderá assinalar um Pessoa por descobrir, mesmo que esteja à vista de todos, nas alfombras dos caminhos selvagens e escuros onde se beija a unidade.

PASSEIO NO CAMPO

Meu amor! Meu amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina…
Pele doirada de alabastro antigo…
Frágeis mãos de madona florentina…
– Vamos correr e rir por entre o trigo! –

Há rendas de gramíneas pelos montes…
Papoilas rubras nos trigais maduros…
Água azulada a cintilar nas fontes…

E à volta, Amor… tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras…

Cantar a tesão

Quem, até agora, melhor cantou a tesão na poesia portuguesa foi Florbela Espanca. O que faz todo o santo sentido.


SE TU VIESSES VER-ME…

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

A indústria da paisagem

Os portugueses não são estúpidos, precisam é que alguém lhes explique as coisas. Qualquer português emigrante é um estandarte da asserção anterior, juntamente com os sortudos empregados da Autoeuropa. Faltando quem explique, os nativos comportam-se como imbecis. É o caso com a paisagem. Ninguém nos anos 60 e 70 teve visão para proteger o Algarve da boçalidade dos patos-bravos. Nos anos 80 já estava tudo escavacado e as escavadoras começavam a virar-se para a Costa Alentejana. Ainda hoje, se deixados à solta, construtores e autarcas começam em Tróia a criar um novo Portimão e só param na pontinha de Sagres. Que filhos da puta. Mas que filhos da puta. Alteram ou desrespeitam os PDM, compram fiscais e amanuenses às sacadas para levantar tijolo onde quiserem e como quiserem para as suas casas e quintas, mais as da família, amigos e de quem lhes der uns trocos. E por nenhuma outra razão que não seja o dinheiro, constroem em cima do litoral marítimo e margens fluviais, envenenam santuários biológicos, destroem cenários prístinos, aviltam memórias de séculos, extinguem heranças ainda vivas da génese do povo e da cultura. A costa alterada depois dos anos 50, as urbes do interior a partir dos anos 70, e os edifícios da classe média desde sempre, são exercícios de fealdade. Portugal é feio porque é pobre, e é pobre porque não pensa.

Mas os locais de beleza natural abundam, claro, e outros poderiam ficar belos sem grande esforço ou custo. E abundam as pessoas que querem beleza, e que precisam dela com urgência e sempre. Porque é isso que a beleza faz, dá saúde e alegria. Tanto para crianças, como para criançolas, a paisagem é um assunto de coração, fazendo com que ele dure mais tempo e nos dê um tempo melhor.

Os portugueses não são estúpidos. Mas comportam-se como imbecis quando deixam que alguns pulhas façam 30 dinheiros com a destruição da paisagem. Ironicamente, é a paisagem — tanto a natural como a cultivada, se preservada e restituída à sua memória ancestral — que mais riqueza pode criar para indivíduos, populações e Estado. Há uma indústria da paisagem que consiste em a salvar e aumentar. Até quando durará a estupidez colectiva?

in-tempestivos_Julho

Toda a gente sabe quando começaram estas conversas, mas ninguém sabe quando vão acabar:

Será que os pedintes lêem blogues?30 de Novembro de 2005, 6 comentáriosJosé Mário Silva

Uma excelente ideia6 de Fevereiro de 2006, 50 comentáriosRui Tavares

Contas do Embaixador do Irão15 de Fevereiro de 2006, 35 comentáriosNuno Ramos de Almeida

Portugal: queremos ‘isto’?19 de Abril de 2006, 150 comentáriosFernando Venâncio

Ibéricos e levianos27 de Abril de 2006, 37 comentáriosFernando Venâncio

Campo pequeno
18 de Maio de 2006, 36 comentáriosFernando Venâncio

Um new look para o empresário português
9 de Agosto de 2006, 49 comentáriosLuis Rainha

AU REVOIR, MONSIEUR PASTEUR
31 de Dezembro de 2006, 18 comentáriosTT

Coisas infelizes numa revista chamada Happy
10 de Março de 2007, 27 comentáriosJosé do Carmo Francisco

UM JORNALISTA DESASTRADO12 de Maio de 2007, 29 comentáriosSoledade Martinho Costa

Tomb Raider: Underworld_trailer

Foi preciso esperar dois anos para surgir quem superasse Gears of War_Cinematic; o qual já vinha com o balanço de outro clássico, tendo-se ido lá roubar a canção e o lirismo. A singular fama do trailer Gears of War até deu origem a paródia pela concorrência, no Bad World do jogo Battlefield: Bad Company. Pois, este é o feérico, e cada vez mais valioso, reino dos joguinhos de computador (uma consola também é um computador, tá?). Tão valioso e criativo que o melhor talento do cinema, vídeo e televisão está a entrar nesta indústria aos magotes e aos pinotes.

E de fazer o pino, e começar a bater palmas, é a primeira mini-curta de promoção ao jogo Tomb Raider: Underworld (ver em HD, não esquecer). Estamos perante um exercício de pura geometria que nos apresenta dois finais concomitantes, separados pela acção que os revela como dois pontos de vista do mesmo acontecimento. Dessa forma, cria-se uma circularidade onde o tempo é desdobrado para se constituir como eterno retorno: no começo está o final, no final está o começo — e a energia deste movimento vem de uma mulher, a qual se retira de cena deixando tudo em chamas. É pouco? Então, toma lá a Lacrimosa, do Requiem de Mozart. Ninguém terá feito tanto pela promoção da música clássica junto de centenas de milhões de adolescentes como o cabrão que se lembrou de escolher essa peça para o filme.

Brilhante. E nunca visto antes.