10.000

Que é que pensavam? Acabamos de passar mais um marco no Aspirina. E isto sem termos feito nada, nós os autores. Pois é. Ninguém reparou, eu também não, mas o comentário número 10.000 foi recentemente colocado aqui.

Concedendo: nesse sector, há um vaivém razoável, já que somos imensamente queridos pelos semeadores de spam. Eles põem, nós apagamos. Mas lá se vai conseguindo uma seara limpa.

É essa seara, que um dia a História lerá (às vezes, um mestrando aflito chama-se «a História»), é a ela que os nossos comentadores andam fazendo. Para nosso prazer e nossa instrução. Mandem sempre.

Vida de cão

As nossas relações nem eram más. Seguiam a lógica duma rotina antiga, que se foi instalando, depois de tomarmos juízo e derrubarmos os muros da nossa guerra fria. Que também a tivemos.
Ele acampava no terraço, eu tinha aposentos na marquise. Sentindo a dona fora, montávamos arraial na sala das visitas e trocávamos gentilezas. Ele inventava-me petiscos. Eu deixava-o lamber-me a tigela do leite e dançava-lhe às vezes no lombo o crazy-horse.
Não era fácil a partilha da dona, mas lá nos arranjávamos. E, quando ela o levava ao jardim, cheguei a ter saudades dele.
Há dias a patroa saiu, a uma noite de canasta. Eu fiquei a dormir, mas ela deixou ao menino a televisão ligada, para ver as notícias. A estúpida!
Eu bem que o estranhei quando ela regressou. Pareceu-me altivo, ensoberbado, a olhar-me lá do alto, nas suas tamanquinhas. Roçou-se, sem pudor, nas pernas da patroa, e acho que lhe impôs dormir no quarto dela. No tapete, estou eu a supor!
Gastei o dia seguinte a observá-lo. E, sempre que o olhava, era um tipo com direitos o que via. Eu seja cão se não era! E quanto mais eu olhava, mais direitos me exibia. Recusou passar a tarde no salão, desdenhou-me a tigela… E à noite, quando me viu ir às meninas, foi logo delatar-me à dona. O acusa-cristos! Não dormi toda a noite.
Na manhã seguinte exigi um conselho. E ela, muito dengosa, a fingir-me hipocrisias nos bigodes, enquanto me sugeria hierarquias, regras de precedência, protocolos… Acabou a confessar-me que ele tinha uma comenda, um dia nacional só para ele. Que finalmente alguém lhe fizera justiça.
Eu fui à minha vida, não me dei por achado, tirei informações no bairro. E, quando ela saiu, ofereci ao menino uma trela. Na coleira da trela ia o pescoço do justiceiro, um deputado qualquer, pelos vistos conhecido. Ficou insuportável, de vaidoso, e quem o queria ver era na rua, a levar o político ao jardim.
Soube-se ontem que afinal a comenda era falsa, e ele teve que soltar o benfeitor. Voltou a casa sozinho e devolveu-me a trela, acabrunhado. Metia dó, coitado! Quando um tipo se fia em certos gajos, é raro acabar bem.
Vai ser um rebuliço cá em casa, mas deixei de falar ao parvalhão.

Jorge Carvalheira

Arte e imitação

Jorge Carvalheira, que conhecemos de judiciosos comentários neste blogue, autor dos excitantes contos O Mensário do Corvo , que a Quasi editou em 2002, vai agora colaborar no Aspirina B. Este é o seu primeiro texto.

Gastei anos e anos em escolas, em universidades técnicas, a esgrimir contra fórmulas, a analisar impedâncias, a dissecar circuitos integrados e a sondar estados de alma em micro-chips. Tive uma bolsa na América, pos-graduei-me em sistemas, fui mestre em micro-correntes e acabei autoridade na selva oscura da robótica.

Quando me aventurei no mercado, e fui procurar emprego, rejeitou-me o tecido empresarial por ter currículo a mais. Reduzi expectativas, quis ir dar aulas, em vão, perdi concursos a jardineiro camarário. E acabei a retrair-me em casa dos meus pais, cheio de medo dum país que odiava a ciência, pensava eu. Após anos de depressão, descobri que toda a arte estava na iniciativa própria, na ousadia privada. Pois se assim era, não havia mais dúvidas, o caminho era a arte.

Eu tinha construído, no silêncio do quarto, meia dúzia de autómatos que jogavam à bola. Fiz umas adaptações e pu-los a deambular sobre uma tela. Um deles reproduzia na perfeição os tiques do urso enjaulado. Um outro era mestre a fingir o pânico do polvo acossado, a disparar borrões negros. O mais sofisticado simulava orgasmos de coelho, e rematava a obra com o final toque do mestre. As galerias não me davam sossego, ninguém calava os conselhos de administração, sedentos de arte não figurativa. Os meus robôs dilataram horários de trabalho, nos picos da estação trabalhavam em simultâneo, vinte e quatro horas porque o relógio mais não tinha.

Um dia preparei-lhes o terreno, liguei os circuitos automáticos, deixei o atelier mergulhado em luz febril e fui-me à cama, tomado de stress. Na manhã seguinte cheguei tarde ao trabalho, e encontrei, estendido no chão, um retrato da Mona Lisa, carregado de mistérios.

Antes que eu visse uma dinheirama a arder, fui-me logo aos robôs e arranquei-lhes as tripas. Era o que mais faltava, após tantas conquistas da modernidade, voltarmos agora à arte como imitação da natureza!

Jorge Carvalheira

Acima de nós, só Deus

É daquelas palavras na moda, que acabam por irritar pela profusão desnecessária, eu sei. Mas quem ouviu as declarações do bastonário da Ordem dos Médicos à TSF, a propósito da coima atribuída pela Autoridade da Concorrência, ficou a conhecer o verdadeiro significado de “pesporrência”.
A pesada penalização surgiu a propósito de uma prática aparentemente normal aos olhos do Dr. Pedro Nunes: tabelar preços dos actos médicos. O valente bastonário, julgando talvez que vive na Itália corporativista de Mussolini, “não reconhece qualquer competência para sequer interpelar a Ordem” à AdC, e não lhe “passa pela cabeça” que aquela “tenha o atrevimento” de a multar. Mesmo prometendo recorrer aos tribunais, a Ordem sabe já que “não pagará a multa jamais”. Pior ainda: o homem declara-se “estupefacto pela AdC se ter lembrado de emitir um comunicado público, quando a Ordem tinha requerido expressamente para que não houvesse comunicado público.” Isto apesar de a AdC a tanto ser obrigada por lei… mas essas minudências não se aplicam aos assuntos da classe médica, pois não? Claro que o Sr. Dr. não acabou a sua prédica corporativista sem agitar o álibi do costume: eles andam a “pôr interesses de doentes em causa”.
Em resumo: a Ordem sabe-se totalmente imune a qualquer espécie de fiscalização da sua actividade. Voga centenas de metros acima do atoleiro onde labutam as criaturas comuns e nunca se rebaixará a pagar uma multa. Tem uma legitimidade que a coloca num pedestal fora do alcance dos reles órgãos fiscalizadores que emanam dos poderes eleitos.

A ministra e a comissão das bexigas

A ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, pode não ter grande experiência política. Mas aprende depressa. Hoje, deu provas de já dominar duas complexas artes do ramo: dar uma no cravo e outra na ferradura e colocar-se de cócoras ante os Grandes Vultos.
José Saramago resolveu apoucar a actividade de uma comissão de honra dedicada ao estímulo à leitura, de que até faz parte. «Não vale a pena o voluntarismo, é inútil, ler sempre foi e sempre será coisa de uma minoria. Não vamos exigir a todo o mundo a paixão pela leitura». A ministra, confrontada com estas pícaras declarações de Saramago, “estranhou”. Mas não tratou de lhe sugerir de imediato a saída de um organismo a que ele admite só pertencer por uma «fatalidade, como as bexigas». Quando lhe perguntaram se o escritor deveria sair da tal comissão, a senhora ministra soltou um grito de alma: «Meu Deus! Nada disso!»
Deve ter imaginado, num momento de susto, a sua carreira governamental num jazigo ao lado da de Sousa Lara. Temos política.