Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Revolution through evolution

The changing reasons why women cheat on their husbands
.
Do mothers favor daughters and fathers favor sons?
.
To kickstart creativity, offer money, not plaudits, study finds
.
​Perpetrators of Genocide Say They’re ‘Good People’
.
Want To Help A Loved One Coping With Cancer? Stay Positive
.
Animals that play with objects learn how to use them as tools
.
The Why of Business
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Louçã confessional

O sectarismo é uma consumição

__

Quem te viu e quem te lê, Anacleto. Que é feito do valente guerreiro que saltou para a frente das câmaras a garantir que Sócrates, em carne e osso, lhe andava a tentar roubar uma garina? Era tanga, mas isso nunca te atrapalhou. E que é feito do generalíssimo que, na noite mais gloriosa da sua carreira política, largou em êxtase estas lindas palavras?

"Este é um novo dia para a esquerda portuguesa. Nada será como dantes. Teremos uma esquerda mais rigorosa, com mais capacidade de diálogo. Nenhum eleitor do Bloco de Esquerda terá qualquer dúvida de que todo o voto dado ao Bloco de Esquerda será gasto na defesa dos direitos fundamentais de uma resposta que possa transformar o país."

Fonte

Se bem o disseste melhor o despachaste. Um ano e meio depois estavas a doar a tua imparável “esquerda grande” ao compincha Passos Coelho, esse transformista que usou os votos do BE e do PCP para afundar o País e iniciar um ciclo de devastação. Realmente, nos idos de Março de 2011 a esquerda portuguesa conheceu um novo dia. Mas vergonhoso e triste de tão sectário. De tão estúpido e indefensável sectarismo.

Mas tu agora já consegues compreender, ou entender, ou perceber o que andaste a fazer com a esperança de centenas de milhares de cidadãos que acreditaram em ti em 2009, né? Já sabes que nem tudo vale a pena mesmo quando se tem uma alma como a tua, nada de nadinha pequena, certo? Ou talvez não, por seres tão grande. Porque o lixo do vizinho continua sempre a cheirar muito pior do que o nosso, e tu sentes que podes dar lições de antisectarismo aos comunas.

És grande, Louçã. Enorme. Para nosso azar.

Diz que a luta vai ser dura*

Neste momento, olhando para o único candidato que se propõe liderar o PSD, Rui Rio, não se vislumbra ninguém – nem Montenegro, nem Marco António, nem Rangel, nem Poiares Maduro – que avance como candidato para dar seguimento às “ideias” de Passos. E quais são essas ideias? Convém recordar.

1) Redução/degradação dos serviços públicos, entre os quais a saúde e a educação, de modo a abrir portas à actividade de privados que, ironia, estabeleceriam acordos altamente lucrativos com o Estado para receberem os cidadãos descontentes. A isto chamam “diminuição do peso do Estado”. Como é óbvio, tal não diminuiria, porém, o peso financeiro para este mesmo Estado e, no que respeita à educação, poria seriamente em causa a igualdade de acesso e a laicidade do ensino e deixaria o Estado com o papel de garantir os serviços mínimos para os pobrezinhos.

2) Privatização de tudo o que é empresa pública – as que ainda restam: TAP, transportes públicos, vertentes da Justiça e da segurança, etc. Nem que seja a empresas estatais estrangeiras.

3) Redução acentuada dos impostos para as empresas, alegando que se criariam mais empresas e mais empregos (de preferência mal pagos e não qualificados).

4) Redução concomitante da TSU para os patrões e concomitante privatização dos fundos de pensões, alegando que o fundo da segurança social está depauperado (claro que nada, para eles, teria a ver com o mau desempenho da economia).

5) Desregulamentação das leis do trabalho, fim do salário mínimo, fim dos contratos colectivos, liberalização dos despedimentos.

6) Entrega dos “casos sociais” e dos casos de pobreza a organizações de caridade, de preferência católicas.

7) Indiferença total pela ciência e a investigação financiadas pelo Estado. Idem aspas para a cultura. E por aí adiante.

Bom, o programa da Troica acolhia e acolheu mais do que bem todas estas ideias, como vimos, embora no início não fosse tão longe. Foi por isso que Passos não só não viu qualquer obrigação, fardo ou contrariedade no cumprimento daquilo que apelida agora, com gigantesco descaramento, de “imposições”, como também fez questão de ir ainda mais longe.

Não sei, nem ninguém sabe, qual o programa de Rui Rio. Assim como não sei se chegará sequer a ser candidato – não é de excluir que se desculpe com a falta de adversários e desista também, dando oportunidade a Passos de viver o seu momento “irrevogável”. Ao contrário do Pacheco Pereira, não me parece que, com excepção do André Ventura, os passistas estejam desesperados por barrar o caminho a Rio, que representa, pelo menos para ele, Pacheco, a social-democracia. Pensarão que o próximo líder é para queimar. Acresce que, de Passos, não se pode dizer que tenha sido um caso de sucesso perante os portugueses. Depois do que se viu nas últimas autárquicas (e durante) e dos afastamentos que provocou, a sua mediocridade já não deixa dúvidas. O que aconteceu foi que ele e o seu staff conseguiram convencer boa parte do eleitorado, em 2011, mentindo como nunca dantes se vira, a votarem neles e, posteriormente, de que não havia alternativa ao que andavam a fazer. Mas havia, é claro. E que alternativa! Será, por isso, difícil alguém que não tenha a “lábia” do André Ventura (mas esse é tão ligeiro que dificilmente poderia ser levado a sério para uma função de responsabilidade), apresentar-se com um programa do género do lá acima referido. A não ser que minta, mas aí penso que já pouca gente estará desprevenida.

Portanto, não sei que luta dura será essa que se prevê para o PSD. Rui Rio sozinho? Não há luta nenhuma. Rio contra Santana? Uma luta de salamaleques, logo, uma não luta. E, a bem do respeito pela política e por si próprio, espero que Santana tenha juízo e continue na Santa Casa. Só mesmo se o Passos voltar atrás para desafiar Rio. Não é de todo impossível, atendendo ao choro convulsivo que vai pelo Observador e atendendo a que ninguém mais aparece. Além de que era essa a intenção inicial de Passos. A não ser assim, digam-me qual a luta dura, por favor, que eu não vejo lutador nenhum.

 

***********

*Ouvi e li, nos dois últimos dias, vários comentadores referirem-se assim à corrida para a liderança do PSD

Calma, Jerónimo. Acabou a autocrítica?

Quem irá compreender que o PCP “solte os cães” por ter obtido resultados decepcionantes nas autárquicas? O comité central não vê nenhum ridículo, ou pior, um enorme risco nessa hipótese de trabalho?

Jerónimo de Sousa, justificando a perda significativa de autarquias, está a enganar-se a si próprio e aos seus ouvintes, se acredita nisto que diz, e passo a citar (ver DN):

“Não se pode omitir o quadro de hostilização que acompanhou a intervenção do PCP e da CDU ao longo dos últimos meses e a sua negativa influência na afirmação do nosso trabalho, da nossa obra, da nossa intervenção e do nosso próprio projeto” .

Assim em retrospectiva, não dei por tamanha hostilização. Pelo contrário. António Costa trata o PCP com mais respeito do que a sua expressão eleitoral faria esperar. A não ser que Jerónimo se refira à Autoeuropa, onde, na ausência de comissão de trabalhadores, a influência do sindicato afecto à CGTP criou realmente um problema maior do que seria desejável. E toda a gente o percebeu. Embora só alguns comentadores o tenham dito. Acaso o PCP pretende convencer o pagode que não faz um feroz jogo político de auto-afirmação?.

«O líder comunista falou ainda de uma “campanha sistemática de ataque anticomunista que, com pretextos diversos, procurou avivar preconceitos, atribuir ao PCP posicionamentos e valores que não são seus” e de uma “ação persistente de desvalorização do papel do PCP na vida política nacional, silenciando a sua atividade e iniciativas, incluindo dando a terceiros e projetando noutros o que era o resultado da sua iniciativa e trabalho”.

Qual campanha, Jerónimo? Qual silenciamento? O que é que foi atribuído a outros, quando devia tê-lo sido ao PCP?

Mas há que concretizar os autores. É aqui, e não é bonito:

«Jerónimo de Sousa salientou que nesta “ação geral de ataque” e “desvalorização” do partido houve um “papel assumido pelos outros principais partidos”, nomeadamente PS e BE.

“Vimos uma intervenção do PS a desenvolver uma ação a partir dos seus candidatos e alguns dirigentes partidários, particularmente concentrada em municípios de maioria da CDU, de ataque à gestão da CDU baseada em argumentos falsos e muitas vezes ofensivos”, atirou o secretário-geral, criticando também a “opção do BE de fazer da redução da influência da CDU o seu objetivo principal, não olhando a meios para, por via da falsificação e mesmo da calúnia, denegrir a CDU e o poder local”.»

Bem, vamos por partes. Então, foram os candidatos. Foi durante a campanha. Jerónimo pretende que, em disputa eleitoral, os candidatos não procurem vencer apontando os erros e fraquezas dos adversários. Os candidatos do PCP não o fazem? Ou Jerónimo quer que acreditemos que em Beja, ou em Almada, ou em Castro Verde, os candidatos comunistas trataram os seus adversários com a delicadeza de um mordomo, nunca os acusando de nada, nem de “políticas de direita” e outras invenções convenientes que fazem parte do seu habitual vocabulário? Ou talvez devesse o PS não concorrer a câmaras “do PCP” para não “hostilizar”?

E que dizer do argumento de que o BE foi o culpado da perda de câmaras do PCP? Tenho reservas quanto ao Bloco, mas haja sentido da medida, camarada.

«Já sobre a derrota em 10 autarquias — nove municípios para o PS e uma para um movimento de independentes — o secretário-geral reiterou ser esta uma “perda, sobretudo para as populações, para o serviço público, para os direitos dos trabalhadores das autarquias”.

Paternalismo. O PCP arroga-se o exclusivo de defender “as populações” e “os trabalhadores”, pois mais ninguém o faz. Nem os eleitores o veem! Logo, quem não votou na CDU é burro. Empáfia.

«Ainda em análise aos resultados da noite de domingo, Jerónimo de Sousa assinalou o “falacioso argumento de combate a ‘maiorias absolutas’ concebido para retirar votos à CDU e que merecia uma mais ampla denúncia”. »

Eh, lá! Falácias? Como se o PCP nunca argumentasse contra as maiorias absolutas dos outros.

«Denunciou ainda como “muitas pessoas que dirigiam palavras de reconhecimento” pelo papel do PCP na derrota do governo de direita e que não “tinham tomado a consciência de que a possibilidade de assegurar que esse caminho prosseguisse, e se ampliasse, residia no reforço do PCP e do PEV, e não no PS”.

“E isso pesou no resultado eleitoral e ampliou-se à medida que o PS anunciava que precisava de mais força para prosseguir a sua ação governativa. Em certa medida, e para uma parte da população, as eleições locais foram transformadas em eleições de natureza nacional”, criticou.»

O PCP incompreendido. Jerónimo esquece o seu papel no derrube do governo PS em 2011 e a entrega do poder ao Passos. Jerónimo acha que o seu partido foi o grande autor das medidas do actual governo e que isso mereceria um reconhecimento, através do reforço do número de votantes. Não percebo. Está Jerónimo a dizer que o PS não queria melhorar a vida das pessoas? É que esse foi mesmo o ponto de partida para o entendimento a três! Ó Jerónimo, foram eleições locais, onde os dinossauros já estão fora de moda, homem. Mesmo os do PCP. Vai na volta, os candidatos do PS deveriam apelar ao voto no PCP. Era isso?

“aqueles que fazem o aproveitamento negativo dos resultados eleitorais contra o PCP, só podem esperar a nossa ainda mais decidida determinação na dinamização da ação política e do reforço do PCP para as batalhas futuras que aí estão”.

Não sei a quem se está a referir ou a que batalhas. Porém, se acha que é o PS que vai fazer “o aproveitamento negativo dos resultados eleitorais” e o PCP lhe faz uma declaração de guerra com os sindicatos, é melhor preparar-se para novas derrotas ainda piores. É que tudo estará clarinho como a água. «PCP furioso com derrota autárquica solta os sindicatos contra o Governo» dava um belo título de jornal. E verdadeiro. Para recuperar o eleitorado, não há melhor. Ou haverá?

Perguntas simples

Em que parte deste planeta terá ocorrido o tal casamento que levou um ex-Presidente da República, ex-primeiro-ministro, ex-ministro, ex-presidente do PSD, líder máximo da direita portuguesa, o político com mais anos de actividade à conta do erário público, a não ter meia hora para ir votar numas eleições autárquicas a 4 dias da celebração da Implantação da República? Terá sido no Cavaquistão?

Partido Sujo e Decadente

Passos Coelho e Pacheco Pereira. Duas figuras radicalmente diferentes, mesmo antagónicas, em vários aspectos das suas personalidades públicas, ideários, trajectos profissionais e responsabilidades políticas. Contudo, ambas representam o PSD dos últimos 20 anos, de modo pleno nos últimos 10. A uni-las para lá da diversidade aparente e substancial está a mesma ausência de escrúpulos, a mesma cumplicidade com os poderes fácticos desta direita apavorada que tem orquestrado uma luta política suja e decadente.

O Pacheco é um profissional da política-espectáculo e da indústria da calúnia. Foi um quadro partidário muito importante durante todo o cavaquismo, mas nunca ninguém lhe leu uma linha acerca desse tempo e da natureza moral, ética e legal das práticas partidárias e governativas que estão associadas ao fenómeno social e criminal do BPN. Do BPN, por exemplo; por ser, no mínimo, um exemplo incontornável no seu contexto biográfico, mas o cavaquismo foi muito mais do que isso no que diz respeito à apropriação do Estado para servir interesses particulares. Voltou desasado às lides políticas para ser o principal conselheiro, e estratega a mielas com Cavaco, da campanha de Ferreira Leite para as legislativas de 2009. Desse período, ficou o modo celerado como se entregou à promoção das golpadas judiciais e mediáticas contra Sócrates, com logística e patrocínio de grupos de comunicação social, magistrados e Belém. Arrastou esse ódio a outrance até ao seu limite, tendo conseguido enfiar o focinho nos cueiros de Sócrates dentro de um cubículo na Assembleia da República. Nunca nada explicitou do que leu, nunca nada provou do que caluniou, e viu-se desmentido sem margem para dúvidas por um deputado comunista que igualmente leu o resultado dessas escutas ilegais feitas e conservadas em Aveiro com o único intuito de criar um caso político que desse a vitória ao PSD nas eleições de 2009, ou que fragilizasse fatalmente o PS e seu Governo caso os socialistas as ganhassem. Em 2017, o Ministério Público continua a seguir esse plano, como nos informa em garridas capas o seu órgão oficial. E em 2017, o Pacheco continua igualmente a mentir ao serviço da sua obsessão, como inveterado narcisista agarrado à paixão funesta onde se sonhou herói. Ontem, no meio de banalidades e evidências acerca da decadência do PSD, largou esta oração “a crítica política solitária de Manuela Ferreira Leite ao caminho de Sócrates para a bancarrota.” Trata-se de uma recriação livre da História, pois a Manela nunca se referiu ao que estava quase a acontecer, a crise das dívidas soberanas que começou pela Grécia em 2010 e viria a arrastar vários países europeus para resgates de emergência e planos especiais de financiamento. Do que a seríssima e vera senhora falava era do custo que as “gerações futuras” teriam de pagar por causa de um aeroporto por decidir e uma linha de TGV por construir nas contas de um país que, em Setembro de 2009, estava com nota AA nas agências de notação financeira. Igualmente com Ferreira Leite aprendemos que a recessão mundial de 2008 tinha sido um “abalozinho”, assim exibindo os seus pergaminhos em matéria de honestidade intelectual, decência política e cara de pau. Nem ela nem o fogoso Pacheco sonhavam com o abismo para onde a Europa iria enviar alguns países e suas populações logo ali ao virar da esquina. Se tal imaginassem, teriam posto aí todo o poder de fogo. Em vez disso, desenharam uma campanha que consistia no assassinato de carácter, na pressão mediática caluniadora e nos crimes e abusos praticados impunemente por agentes da Justiça. Apesar disso tudo, apesar da gigantesca convulsão no eleitorado socialista provocada pela tentativa de avaliar os professores, Cavaco, Manela e Pacheco perderam essas eleições.

Passos Coelho é um político cujas principais características são o oportunismo e a vacuidade. Um Zelig que em 2008 elogiava Sócrates só para assim poder atacar Ferreira Leite, e que se fantasiou como “liberal” porque essa ala fanática e ressabiada da direita estava disponível para o apoiar num momento de pânico em que a oligarquia via ruir a sua estrutura de poder bancário. Provavelmente, e dando um exemplo ilustrativo do albergue espanhol que constituiu o suporte propagandístico da maior traição aos portugueses registada em democracia, Miguel Morgado não suporta conversar mais de 15 segundos com Passos, mas a sua parceria para fornecer munição ideológica fundamentalista exibe o que esteve em causa no assalto ao poder realizado em 2011. Um operativo para todo o serviço lobista, formado na escola de Ângelo Correia e que manobrava como parceiro comercial com Miguel Relvas, com a fotogenia que faltava a Ferreira Leite e sendo o que havia de mais parecido com Sócrates em poder de imagem para colocar frente às câmaras, ia ser lançado como testa-de-ferro de um plano de vida ou de morte gizado ao mais alto nível nacional e internacional – daí os papéis de António Borges, Vítor Gaspar e Maria Luís – onde iria valer tudo para derrotar o arqui-inimigo e recuperar as vantagens perdidas com a ruína do BCP, BPN e BPP. Nunca se mentiu tanto politicamente em Portugal, e tão às descaradas, como na campanha do PSD para as eleições de 2011. E nunca se violou tão gravemente o contrato eleitoral como no Governo de Passos e Portas, naquela que foi uma tentativa de reengenharia económica e social apenas contida pela manifestação de 15 de Setembro de 2012 e pelo Tribunal Constitucional. Presidente da República, António José Seguro e comunicação social foram cúmplices de um programa de achincalhamento e depauperação dos mais pobres, da classe média, das pequenas e médias empresas. Esta violência política, assumida no registo verbal tamanha a soberba e alucinação daquela gente, foi a eleições em 2015 em condições que são abafadas quando Passos e corte reclamam vitória. Primeiro, o PSD concorreu coligado. Só por isso, ninguém do PSD pode reclamar um triunfo que se individualize. Os votos dados à PAF não foram dados ao PSD, mas sim aos dois partidos por igual. Corolário: o PS foi o partido que teve mais votos e mais deputados, embora não tantos como os da coligação. Ora, onde está hoje essa coligação? Em lado algum, apenas temos o número de deputados estabelecido pelo acordo entre as duas forças. Logo, se a PAF desapareceu após as eleições por não ter maioria parlamentar, a solução de Governo actual era a única legal, racional e politicamente possível, assim consagrando a vitória do PS em 2015. Segundo, a forma como António Costa chega a secretário-geral do PS causou alguma erosão no eleitorado socialista. Costa, para além das suas fragilidades políticas no plano da exibição da liderança, teve muito pouco tempo para sarar as feridas causadas pelo processo eleitoral interno dos socialistas. Isso, e nada que tenha relação com a preferência dos eleitores por Passos, explica também a votação das últimas legislativas. Terceiro e último, a detenção de Sócrates, preparada para ser um espectáculo televisivo e mediático esmagador, e a sua prisão, sob pretextos ilegítimos e abusivos, condicionaram profundamente a afirmação de Costa, mais o ano e processo eleitoral com o qual se sincronizou. Junte-se a este ramalhete as irresponsáveis decisões sobre a banca só para se poder festejar a “saída limpa”, assim como a obscena mentira da promessa de devolução do IRS, amplamente divulgada pela imprensa laranja. Perante este quadro, ver Passos e restantes fanáticos moribundos a berrar contra o PS não dá vontade de rir nem de chorar. Dá vontade é de pegar na mangueira.

A decadência do PSD pode ter tido o seu início com as maiorias de Cavaco, numa típica deriva para abusos de poder por parte das maiorias quando as lideranças apenas procuram o poder pelo poder. A decadência do PSD teve um momento de exuberante manifestação com a traição de Durão Barroso ao País e ao seu juramento eleitoral. Mas esta sujidade onde a política fica reduzida a assassinatos de carácter, tabloidismo militante, caluniadores profissionais, golpismo judicial-mediático e retórica de vendedores da banha da cobra implica reconhecer que talvez ainda esteja por nascer quem consiga inventar uma direita decente, inteligente e corajosa.

Um chavão: a política tem muito de hipocrisia

Que desilusão, que hecatombe, que desgraça. Muito me divirto e também me espanto com o clamor de escândalo das pessoas ligadas ao PSD, e de vários comentadores, em relação ao resultado das autárquicas. Como se não estivessem nada à espera. Por favor, meus caros. Então a escolha de Teresa Leal Coelho para candidata à Câmara de Lisboa não era, desde o início, uma aposta perdida? A sério que não? Ainda por cima depois da antecipação de Assunção Cristas, feita carro de combate, e dos seus propósitos e discurso populistas impossíveis de bater por Teresa Leal Coelho? Alguém no seu perfeito juízo achou que Teresa poderia pontuar acima da Assunção, ela que desde o primeiro minuto e até durante a campanha não conseguiu disfarçar o cumprimento de um frete? E no Porto? Por acaso alguém tinha sequer ouvido falar no candidato do PSD? Ainda hoje apenas sei que tem Almeida no apelido. Por acaso é motivo para espanto a sua derrota com uma votação insignificante? E na Figueira, em Faro, em Oeiras, em Sintra, em Viana, em Gaia, em Coimbra, etc., etc., nunca ninguém imaginou que os candidatos do PSD pudessem ser atropelados? Claro que sim. Qual é então a grande derrocada, a grande hecatombe, a grande surpresa?

Não é, evidentemente, nenhuma. É farsa e simultaneamente um grito de impotência, que pode, ou não, ter consequências na liderança do partido. Não se sabe. A verdade é que há muito que o PSD de Passos está sem identidade e à procura de uma. É neoliberal ferrenho, como pretendia António Borges? É populista e demagógico como o CDS? É de extrema-direita? É como o André Ventura gostaria que fosse? É social-democrata, como desejam muitos dos seus mais destacados militantes, que também andarão às voltas com uma definição de social-democracia distinta da de António Costa? Neste momento, estamos sem saber. Certo é que todo este clamor não passa de um enorme charivari abstruso, a meus olhos. É impossível ninguém ter visto, até anteontem, o bom momento que o país atravessa e o quão mais importante seria, para o PSD, desenhar uma estratégia inteligente para contrapor à actual aliança governativa e sobretudo escolher candidatos fortes para derrotar os socialistas. É claro que toda a gente viu. O problema é que uns se recusaram a ver em Passos Coelho o bluff que sempre foi (os do Observador ainda não vêem e o João Miguel Tavares deseja-lhe, por hipocrisia ou insanidade, que faça a maratona do deserto e depois volte), se recusavam a ver que seria difícil ter do seu lado gente com qualidade, e outros precisaram de um motivo invocável para pressionar a saída de cena de um indivíduo que viveu sonhando que a maioria obtida em 2015 e o desastre que fatalmente se seguiria ao entendimento conseguido entre o PS e a extrema-esquerda o colocariam de novo no poder. Passos, pelo seu lado, não saiu porque não percebeu nada. Nada do que aconteceu ao PSD nestas autárquicas foi inesperado. É uma grande chatice, mas ou deixam lá o Passos, e para isso calam-se, ou pensam numa estratégia alternativa e mexem-se. Mas não se mexerem também é uma hipótese.

Revolution through evolution

Why Do People in New Democracies Stop Voting?
.
Are You Happy You Voted – or Didn’t?
.
People Think Harder and Produce Better Political Arguments When Their Views Are Challenged, Study Shows
.
Household chores: Women still do more
.
Do You Really Need That MRI?
.
Abusive Bosses Experience Short-Lived Benefits
.
The 10 Critical Job Skills of the Future, According to McKinsey’s Global Chief Learning Officer

.
Continuar a lerRevolution through evolution

Catalunha: “I say Yes, you say No”

Oh, como é bom estar a observar o que se passa em Espanha sentada num cadeirão. Aquele senhor do risco ao meio e óculos, Puidgemont, Carles, parece-me demasiado exaltado. Haverá motivos para tanto? Estariam os catalães tão oprimidos que ninguém, nem eu, deu por nada? Que mal lhe terão feito os de Castela? Ou a Andaluzia, que até lhes fornece mão de obra barata? Os cravos vermelhos também ficam ali muito mal. Não gosto. É usurpação abusiva.

Por outro lado, o Rajoy onde pensa que vai a fazer-lhes o favor de pôr umas pessoas a sangrar? Não há diplomacia entre as autonomias? Devia haver.

Irónico que o “sangue quente” típico dos nosso vizinhos abranja afinal também os catalães. Vejam lá isso. Nós, sim, estamos de fora, “hermanos”. Ventos do Atlântico, estão a ver?

Bom, visto daqui, não me parece que a declaração unilateral de independência sobreviva às contas que teriam que ser saldadas (em desfavor da Catalunha), às purgas que teriam que ser feitas, às transferências de populações, ao imbróglio com a UE, à exclusão do FC Barcelona do campeonato espanhol, às eleições locais (enfim, nacionais). Uma coisa é criar um inimigo externo para criar unanimismo (vd. Coreia do Norte, Putin), outra bem diferente é haver-se com o que há, sem mais sacos para bater. Mas, ó gentes, admito estar enganada. Temos o exemplo do Brexit a lembrar-nos que o passo para a irreversibilidade não custa a dar.

E, no entanto, um dizer Sim e outro dizer Não não pode senão conduzir a uma mesa de negociações, que é por onde se devia ter começado, digo eu aqui do cadeirão. Arranja-se um mediador ou a mesa é para partir?

Os resultados vistos da colmeia passista

Há mais abelhinhas e vespas no Observador, cujas ressentidas e elaboradas análises aguardaremos com expectativa, mas estas foram, para já, as convidadas a tecerem um rápido comentário sobre as eleições autárquicas de Domingo.

 

Maria João Avillez: O meu PSD! Oh, como estou triste! Não, não pode ser. O PSD é eterno. O que aconteceu foi que o partido foi escolhido para bombo da festa, havia que o destruir, desse por onde desse. A culpa não foi da Teresa Leal Coelho nem de Passos nem das suas escolhas. O PSD era o alvo a abater, meus queridos. Houve uma “tentativa de destruição maciça do PSD”. Sem razão nenhuma, estão a ver! São os tempos.  Olhem lá para fora. O mundo está a ruir. A culpa é dos maus.

Alberto Gonçalves: O futebol. Porto! Porto! E aquele do aeroporto em Coimbra, ah, ah. Pensava que ganhava. E nunca mais recomeça o jogo?

Helena Matos: PCP, por favor, não acham que chegou a altura de soltar a Ana Avoila e o Mário Nogueira? Então? Não querem vingança? Vá lá, ajudem-me aqui, por favor. Dêem-me cabo da Geringonça e do Costa que eu já não posso mais.

Rui Ramos: Calma, o PSD, sozinho e em coligação, não ficou assim tão distante do PS a nível nacional. No Porto, a culpa do insucesso do PSD até foi do Rui Rio e do Paulo Rangel, ouçam o Rui Moreira. Mas os críticos no PSD que avancem, se tiverem coragem. Passos, I love you! Até marcaste conselho nacional e congresso antecipadamente, mais sério e honesto do que tu não há. Vais ganhar em 2019.

José Manuel Fernandes: O PSD perdeu. Uma derrota pesada. Há que dizê-lo. Estou de luto. Mas em 2013 também perdeu e nas legislativas de 2015 ganhou. Por isso, há esperança. No fundo, a culpa foi dos candidatos escolhidos, muitas vezes não da responsabilidade do Passos. Enfim, também, olhando para o país em geral, “os melhores” decidiram candidatar-se como independentes. Assim não admira!

Em Lisboa, Cristas provou ser muito diferente de Portas (!), mas pensa bem, Passos, se virmos bem, o CDS e o PSD somados têm maior percentagem de votos do que em 2013 e prova-se assim que um discurso popularucho-demagógico, pronunciado com mais convicção, como o de Assunção, pode levar a PàF de novo ao poder. Estás a ouvir, Passos? Tens que ser assim esganiçado, descarado, ousar propor 30 estações de metro, riscar da memória das pessoas, com frescura, tudo o que fizeste antes e descer de botas de safari até aos bairros populares. Ela é que a sabe toda.

+++++++++++

Passos, fica! (eu também quero)

Exactissimamente

«Como se pode perceber, o furor arrasante que soprou na primeira página do Expresso na semana passada (Relatório das secretas sobre Tancos arrasa ministro e militares) é um cliché do idioma jornalístico e nem se percebe como é que a metáfora congelada pelo uso gregário consegue provocar tanto ruído. Todos os que julgam poder dizer alguma coisa nesta língua morta deviam obedecer à injunção de um famoso crítico da “fraseologia” dos jornais: “Dêem um passo em frente e calem-se” (Karl Kraus). Tratemos então o verbo “arrasar”, nas suas declinações jornalísticas, como um facto linguístico. Ele não contém nenhuma informação, não descreve nada, mas realiza – ou pretende realizar — uma acção, isto é, tem uma intenção performativa. Sempre que num jornal se escreve “X arrasou Y” é o próprio jornal que pretende “arrasar” Y. Porque o uso de tal metáfora não indica uma constatação, implica uma tomada de posição de quem a profere e uma vontade de realizar a acção. Dizer “arrasou” não é o mesmo que dizer “criticou violentamente”. Enquanto que a segunda forma pode ser dita sem comprometer a neutralidade de quem a diz, a primeira faz o jogo da diminuição e da ridicularização do “arrasado”, diz que está a proferir sobre ele um juízo definitivo e nada nem ninguém o pode salvar. Ninguém é “arrasado” num dia e reaparece intacto no dia seguinte. Toda a crítica pode ser refutada; mas todo o “arraso” é irreversível. Há um gáudio indiscreto na sentença “X arrasa Y”. Não quer dizer que quem experimenta esse gáudio não sinta exactamente o mesmo se a situação se inverter de modo a poder dizer que “Y arrasa X”. Mais do que as determinações ideológicas ou políticas destes enunciados, é preciso ver neles a miséria da linguagem jornalística e uma ingenuidade semelhante àquela dos escritores que, como alguém disse, julgam que basta escrever “merda” para que os leitores sintam o mau cheiro.»


Vamos arrasá-los!

O homem que queria voltar a ser primeiro-ministro

Podia Passos Coelho escolher candidatos de jeito para estas eleições autárquicas? Não só não podia como também não era essa a sua prioridade. Explico: com o actual governo a pôr o país na rota do crescimento, da criação de empregos e do desafogo para milhares de famílias e de empresas, seria difícil a qualquer candidato do PSD, por mais qualidades que tivesse, disputar a presidência das principais câmaras do país e até das restantes. Acresce a isto a inegável qualidade do trabalho do executivo da câmara de Lisboa (e do Porto).

Com o PS no poder, não só não aconteceu nenhum dos cataclismos vaticinados, como também, a nível local, o exemplo do governo central leva os eleitores a olharem para os candidatos consonantes ou pelo menos não hostis ao actual governo com “olhos de ver”, ou seja, alheios à propaganda dos anos em que “não havia alternativa”. Passos não podia, pois, fazer boas escolhas, inclusivamente porque os melhores não se identificam com ele  e muito menos ao ponto de “campanearem” alegremente ao seu lado para as autárquicas.

 

Mas também não era essa a sua prioridade, como a cada dia que passa se vê. As suas intervenções nos diversos pontos do país por onde andou (ai de mim, tenho ouvido a Antena 1)  puxaram sempre o tema das legislativas, que ganhou (esquece que este é um galão sem brilho), e das sementes que diz ter lançado à terra para que o PS colhesse os frutos. O incómodo é que, quanto às legislativas, a vitória de nada lhe serviu por não dispor de uma maioria na Assembleia que lhe aprovasse as políticas, começando desde logo pelo orçamento, pelo que estaria na rua muito antes de o diabo esfregar um olho, aí, sim, criando uma instabilidade perigosa para o país. Quanto às sementes, o próprio disse, durante meses a fio, que o actual governo estava a “estragar tudo o que fora feito” e que, não tardaria, estaríamos na bancarrota e a braços com novo resgate. Logo, deduz-se que, se fosse ele, teria feito muito diferente, o que equivale a dizer que continuaria tudo na mesma como nos anos dos cortes, das ordens para emigrar, da degradação e do subfinanciamento dos serviços públicos – a pagarem-se caro agora-, etc., etc.

 

A par da sua vacuidade, o problema de Passos é que é politicamente um mentiroso. Sempre foi e continua a ser. Não só não havia bancarrota nenhuma em 2011, pelo contrário, tinha-se conseguido um acordo com as principais instâncias europeias para evitar um resgate nos moldes dos da Grécia e da Irlanda, como também se comprometeu a respeitá-lo em reunião com Sócrates. Reunião que foi por ele ocultada, mas, como se fosse preciso para nos lembrar o seu recurso fácil à mentira, mais tarde confirmada e bem confirmada. Também o penoso que foi, para ele, tomar as medidas drásticas que tomou ao assumir o poder, é mentira, tendo o próprio confessado na altura que o FMI era uma oportunidade para pôr o país na ordem e que o radicalismo das suas políticas (dele e do Gaspar) não era nenhuma cruz que carregasse, porque acreditava que só os salários baixos tornavam o país competitivo e o Estado tinha mesmo que reduzir a despesa cortando nas pensões e nos subsídios, e nos direitos em geral, ao mesmo tempo que aumentava colossalmente os impostos. Dizia ele, então, que a classe média estava mal habituada, gastara acima das suas possibilidades e outras pérolas do género. Dizer que foi “obrigado” a alguma coisa pela Troica é, portanto, palhaçada de quem inventou aeródromos movimentadíssimos no interior do país para gamar uns cobres à Europa. Ainda hoje, para além das suas, uma mentira de outros que lhe dê jeito, ele agarra. Em Pedrógão, com os suicídios, foi o que se viu. O “relatório das secretas militares” sobre Tancos, plantado no Expresso, e que se provou ser uma falsidade com intenção, ele agarrou e bem cedinho.

 

Neste contexto, não é difícil perceber que o personagem deu tanta importância às autárquicas como a Voyager ao lixo cósmico. O homem mais não tem feito, à boleia dos seus candidatos, do que campanha para as próximas legislativas, ou o próximo congresso, vá lá. Por enquanto, pode até ser reeleito líder da agremiação PSD. Mas só porque o tempo é de vacas magras para a oposição. Não admira, como aqui já disse, que, em desespero, o André Ventura, no mínimo, lhe dê ideias e, no máximo, seja elevado à categoria de seu alter ego. Mais desenvolto ainda na charlatanice.

Passos não se inibe de afirmar e reafirmar que gostaria de voltar a ser primeiro-ministro. Chegará lá quando o André Ventura tiver mais audiência, mas, se for o caso, o Ventura estará mais fresco.

 

Sugestão para o “Expresso da Meia-Noite”

*

"Temos de comprar o Expresso ao sábado para saber o que é que se passa no país, o que é que se passa com o Orçamento, o que é que se passa nas Forças Armadas e nos paióis militares?"

Pedro, antigo especialista em aeródromos municipais da Região Centro que tinha o sonho lindo de um dia vir a chefiar o Governo para meter a classe média na ordem e acabar com os madraços e os estróinas dos subsídios

__

É público que o império de Balsemão está a dar a berro e Pedro Santos Guerreiro e o mano Costa parecem andar a fazer os possíveis para acelerar o processo. A manchete que escolheram para ajudar o PSD a uma semana das eleições autárquicas podia ser usada nas escolas secundárias para ilustrar o conceito e prática do famigerado jornalismo de referência. Quando estas pessoas, no meio em causa, assumem que apenas se regem pelo sensacionalismo, pelo sectarismo e pelo eleitoralismo, então o círculo completa-se. A irrelevância onde chafurdam após desistirem de servir os seus compradores, leitores e comunidade em geral de uma forma isenta, e que respeite os mínimos deontológicos da profissão, torna desejável que desapareçam do mapa. Não precisamos de mais um pasquim – precisamos é, e cada vez mais, e como sempre e para sempre, de jornalismo corajoso e inteligente.

A forma como PSG tem defendido a sua opção editorial é de fazer corar as pedras da calçada. A miséria profissional da sua argumentação, contudo, não deve ser recebida em silêncio; como David Dinis e Paulo Baldaia fizeram, para dar dois exemplos corporativos e igualmente sectários na temática em causa que não botaram faladura sobre o episódio. A temática em causa é o tiro ao ministro da Defesa e, por extensão, ao Governo e ao PS, levando a que se esteja em pleno registo de comício por parte de jornalistas com responsabilidades editoriais. Nada contra se tal fosse assumido pelas direcções, mas o problema é que isto é feito sem a frontalidade, sem a força e beleza de carácter, de se declarar que não passam de opiniões para apoiar uma qualquer facção política ou para dar vazão a uma qualquer embirração pessoal nascida da pacóvia arrogância de se imaginarem moralmente superiores aos políticos.

Nada melhor do que usar o que os artistas andam a dizer para se expor a escabrosa tanga:

– “É um relatório que nós compreendemos que não fazia parte de uma das estruturas oficiais militares.”
– “Nós checkámos [sic] a veracidade do texto e, portanto, constatámos que era um texto verídico, não era uma coisa forjada para o efeito de ser publicado no Expresso para fazer bum. E, por outro lado, checkámos [sick] também a credibilidade do que está na sua origem.”
– “Não foi feito para ser plantado [no Expresso].”
– “A notícia nunca diz que se trata de um relatório oficial e final.”
– “O primeiro-ministro veio dizer que é fabricado, o ministro da Defesa diz que é forjado, há uma insinuação, que vem através do PS, que foi o PSD que teria preparado o documento para o Expresso para depois o próprio PSD poder comentar. Enfim, são aqueles delírios habituais…”
– “Isto é um relatório que não é final.”
– “Nenhum relatório de um organismo destes tem 63 páginas.”
– “Isto é um relatório que contém muita informação que servirá, eventualmente, para afinar investigações em relação ao assunto principal que é Tancos.”
– “Este ministro [Azeredo Lopes] ainda existe?”
– “- O que eu te pergunto é se ele [Azeredo Lopes] verá nesta polémica, que foi lançada pelo Governo na tentativa de descredibilizar esta notícia, uma tábua de salvação construindo uma teoria conspirativa para se vitimizar? – Nós percebemos que existe alguma coisa em curso nesse estilo, pelo que tem sido dito.”

Filipe Santos Costa, um fanático com carteira da jornalista, atribui ao Governo o nascimento da polémica e imputa ao ministro da Defesa as porcarias que lhe atulham o bestunto. Admirável descaramento, já normalizado por Trump, onde temos um jornal, que se apregoa como modelo do melhor jornalismo português, a inventar um ataque político a uma semana de eleições autárquicas cujas bases, após ter sido desmentido por todas as entidades que o poderiam legitimar, são folhas soltas de um relatório afinal com palavreado a mais e inacabado e que, portanto, não sabemos como ficaria na suposta versão final nem sabemos qual seja a sua autoria e finalidade. É que dizer-se que a finalidade consiste em contribuir para as “investigações em relação ao assunto principal que é Tancos” – isto é, o relatório teria como objectivo promover a descoberta do que aconteceu ao armamento dito em falta – significa que já se perdeu qualquer respeito pela própria honestidade. Em que medida as citações venenosas de baixa política canalha, ou subjectivismo corporativo, contra o ministro da Defesa estão a facilitar as investigações judiciárias e militares ao assalto, ou desvio, ou falha, em Tancos?

Os responsáveis por mais este prego no caixão da credibilidade do Expresso podem guardar a identificação das fontes para eles próprios. O que não podem é esperar que a anomia circundante seja total. Haverá sempre alguém a olhar para o óbvio: a menos que seja hábito o Expresso estar a receber relatórios destas fontes e teor, então o acontecimento que consiste em terem acesso ao material neste calendário é, em si mesmo, um acontecimento político. E ainda mais óbvio: perante um documento que alegam saber que não é final, a opção de seleccionarem as partes que permitiam construir uma trapaça contra Azeredo Lopes e Governo é da exclusiva responsabilidade de quem quis lançar a atoarda. O destaque dado, parangona, e a sugestão de ser um relatório oficial das secretas militares, não tem defesa possível. Usaram excertos de declarações que extravasavam por completo o âmbito da investigação a Tancos para continuarem a fazer pressão no que julgam ser uma brecha política no Governo, a imagem de Azeredo Lopes e as reacções que está a causar em alguns elementos das Forças Armada que estão a querer guerrear na política.

Espero que nesta sexta-feira, ali por volta das 11 da noite e com a excelência do jornalismo de opinião praticado diariamente na SIC Notícias, se possa dilucidar ao pormenor este estupendo caso que une numa juliana reles a decadência da Impresa com a decadência do PSD.

A civilização onde queremos viver

Na semana passada, os advogados de Sócrates deram uma conferência de imprensa a protestar contra a anexação à “Operação Marquês” de conteúdos e arguidos de outros processos. João Araújo e Pedro Delille expuseram as suas razões, denunciaram a existência de ilegalidades e apresentaram aquelas que, no seu entender, serão as intenções e consequências de se estar a aumentar – a complicar? – a já homérica complexidade do processo. Peço ajuda às almas caridosas: quem souber, e excluindo os casos dos caluniadores profissionais, que deixe na caixa de comentários a referência a algum comentador de rádio, jornal ou TV que se tenha pronunciado sobre estas declarações dos advogados de Sócrates e questões inerentes. Por mim, flanador displicente da comunicação social, conto zero.

Só há uma hipótese para explicar o silêncio que este episódio causou. A hipótese de que o julgamento de Sócrates já ocorreu e passámos, desde que foi detido em 2014, à fase de aplicação da pena. A sociedade observa complacente ou em júbilo, de acordo com as filiações políticas e com o sentido de cidadania e honra de cada um, a obsessiva devassa e humilhação de uma pessoa que está a ser investigada desde 2004. Não há pedra que não tenha sido revirada, percurso escolar ou profissional que não tenha merecido equipas de investigadores, grandes decisões políticas que não ocupem dezenas de magistrados. A sua privacidade é usada para vender papel, vender anúncios, promover a fruição de vinganças e bebedeiras de ódio. O resultado dos processos encerrados está arquivado e à disposição de quem os quiser consultar, o resultado dos processos em curso é vertido copiosa e criminosamente na praça pública na versão dos acusadores. Nunca aconteceu nada assim na História de Portugal, sequer o período fascista compara. Sócrates é o político mais investigado de sempre neste jardim à beira-mar abandalhado, não havendo outro caso comparável mesmo que à distância. Quantos recursos humanos, quantas horas, quanto dinheiro já foi gasto na perseguição a Sócrates pelo Estado português e por privados em Portugal?

Fazem-se editoriais e comentários esganiçados e ridículos a protestar contra os três meses, os dois meses, a semana, o dia que passa sem que o Governo apresente versões definitivas sobre o que aconteceu em Pedrógão e Tancos. Nessa pateada, ignora-se propositadamente que a investigação não está a cargo do Governo, apaga-se o óbvio interesse público de se terem investigações à prova de qualquer influência governativa ou institucional. E mente-se debochadamente em registo de pura chicana. Tal é absurdo, é esquizóide, é estúpido e é a imprensa “de referência” nacional a ser ela própria, um antro de publicistas com alergia ao jornalismo. Porém, todavia, contudo, este rancho de inteligências folclóricas não se importa nada que o Ministério Público leve o tempo que lhe apetecer com um arguido nas mãos. A elite do nosso comentariado aplaude secretamente um juiz que viola a sua missão de garante das liberdades e direitos fundamentais dos arguidos, um juiz que é promovido na indústria da calúnia como o Torquemada de Mação. A violação dos prazos de inquérito, as declarações públicas em que assume não ser isento face à inocência até prova em contrário de Sócrates e o culto que faz às abertas de uma pose justiceira contra certos políticos e certos empresários não suscitam sobressaltos nos directores dos jornais, estações de televisão e rádios. Os crimes de violação do segredo de Justiça que são cometidos sistematicamente no Ministério Público idem idem, aspas aspas. É giro. Aliás, dá jeito. Muito jeito. Venham mais 5 anos de “Operação Marquês”.

A desculpa que remete para a dificuldade de se investigarem crimes de corrupção tem sido a hipocrisia suprema que embrulha os abusos e ilegalidades do Estado contra Sócrates e restantes arguidos. Como se sabe, se há coisa difícil de investigar é a corrupção de primeiros-ministros. Como as suas acções são quase sempre ocultas, como não estão rodeados por dezenas, centenas e milhares de olhos e ouvidos, como não há entidades fiscalizadoras a constantemente avaliarem e aferirem as suas decisões, como os deputados da oposição andam todos a dormir e os do PS não passam de cúmplices do corrupto-mor, isto de se apanhar um primeiro-ministro socialista e corrupto dá uma trabalheira do caralho. Claro, ajuda muito saber logo à partida que ele é criminoso. Quanto a isso, vai sem discussão. Imaginemos que o Ministério Público se limitava a investigar Sócrates numa atitude de perfeita neutralidade ao serviço da perfeita objectividade e procurando o perfeito rigor. Quer dizer… isso… enfim… era coisa para demorar 100 anos! Pelo que toda a gente compreende que, se é mesmo para investigar este gajo, a primeira coisa a ficar estabelecida é a de que ele é culpado. Se é culpado, então chilindró com ele. Se bem o pensaram, melhor o executaram na “Operação Marquês”. Daí terem começado por não sei quê ali em Leiria, depois foram para a Venezuela, depois para o Algarve e depois para Cascais, entre outros poisos cheios de corruptos à espera de serem engavetados. O método tem a beleza da simplicidade e justifica o número de páginas no processo. Resta só descobrir os crimes. E ele há tanto para escarafunchar. O plano é despejar camionetes de caixas com papelada à porta do tribunal, ou talvez só um saco com os discos rígidos suficientes para guardarem um yottabyte de escutas, interrogatórios e documentação descritiva de todas as decisões tomadas por Sócrates enquanto primeiro-ministro mais a documentação de todas as decisões tomadas pelas empresas envolvidas no processo. Os juízes que tratem depois de ler com cuidado o trabalhinho. No entretanto, o cabrão continuará pendurado no cadafalso.

Deu que falar, em 2008, a alusão a uma “suspensão da democracia” que Ferreira Leite sugeriu como o remédio a aplicar aos indígenas que não se sabem comportar em liberdade. Na “Operação Marquês” somos testemunhas da suspensão da Constituição para permitir ao Ministério Público de Joana Marques Vidal, à indústria da calúnia e à actual direita partidária irem alcançando diversos objectivos que estilhaçam impunemente os princípios e lógica do Estado de direito. Veja-se como se convive com os crimes de magistrados e como os juízes distorcem a lei escrita para favorecer uma das partes, o Ministério Público, e prejudicarem as outras, o arguido, o cidadão e a pessoa. A ideia de que a suspeita de crime, qualquer crime, justifica a violência de se tratar como culpado quem tem direito a ser tratado como inocente é a manifestação típica da barbárie. Foi contra essa prática que, no essencial, se desenvolveu a civilização onde queremos viver.

Ena! Perigo de “colapso da família saudita”

Parece que as mulheres na Arábia Saudita vão ser autorizadas a conduzir.

Vejo, porém, um problema grave de redução do campo de visão, se a indumentária continuar a ser a que se vê na foto. Quem sabe as seguradoras irão forçar a libertação da cabeça? O primeiro passo está dado (embora a medida só comece a vigorar em Junho do próximo ano, que isto não pode ser assim).

Será também preciso uma carta de condução e, para isso, aulas e um exame. Se as aulas só puderem ser ministradas por mulheres, dado o horror e o perigo que é ter um homem instrutor sentado ao lado de uma mulher, o processo poderá atrasar-se ou ser fatalmente impedido. Espero sinceramente que não. Mas há quem antecipe o fim do mundo:

 

Some said that it was inappropriate in Saudi culture for women to drive, or that male drivers would not know how to handle women in cars next to them. Others argued that allowing women to drive would lead to promiscuity and the collapse of the Saudi family. One cleric claimed — with no evidence — that driving harmed women’s ovaries.