Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

O populista antipopulista

Pacheco Pereira alerta em “O grande abandono”, no Público de sábado, para uma possível irrupção do populismo em Portugal. Os ingredientes base estariam cá todos, ou quase. Os abandonados da política esperam apenas que surja o seu líder, de preferência fabricado pela televisão, para que o salto final para o populismo seja dado.

Eles sabem que o CDS, o PSD, o PS os abandonaram à sua sorte, estão-se literalmente borrifando para as ‘causas fracturantes’ do Bloco de Esquerda, e a ‘linguagem de pau’ do PCP não os mobiliza. Eles esperam no seu fel – até um dia.”

Observador aéreo e supostamente isento, planando a grande altura sobre a cena portuguesa, Pacheco culpa, pois, pelo iminente “salto” de Portugal para o populismo o abandono a que as classes desprotegidas estão alegadamente votadas por todos os principais partidos políticos e, com nuances, pelos outros também.

E em que é que Pacheco se baseia? Directamente na vox populi. No “restaurante popular” que frequenta, Pacheco ouviu o comentário de uma cozinheira à reportagem que a televisão estava a passar sobre a entrega de uma casa provisória a uma família de refugiados chegados da Síria. “Vão-lhes dar uma casa melhor do que minha. Eu trabalho toda a vida e a mim ninguém me dá nada” – queixou-se ela, achando-se talvez com mais direito à casa dos refugiados, que supostamente seriam mandriões –  além de não serem portugueses, parece implícito.

Pacheco aprova: “É verdade. E isto é algo que é sentido como uma enorme injustiça. E é uma injustiça. O bem-estar destas famílias e das pessoas como aquelas que estão ali a trabalhar duramente foi abandonado. E estamos assim a alimentar claramente o populismo.” Por isso avançaria o trumpismo, o lepenismo, etc., etc.

Ainda bem que o comentário da cozinheira e a claríssima aprovação do dito comentário por Pacheco se situam logo no início do artigo, porque assim já não nos deixamos enganar com o que se segue. Porque é completamente estúpido partir de um argumento tipicamente populista para um arrazoado que pretende ser antipopulista.

Ainda se compreende que uma cozinheira mal informada ou iletrada não saiba distinguir a sua situação pessoal, que talvez seja socialmente injusta, da situação desses desgraçados que são escorraçados por uma guerra sangrenta e aqui chegam aos baldões, após peripécias trágico-marítimas e estágios em campos de tendas. Mas como aceitar que o informado Pacheco ache injusto que a cozinheira tenha uma casa eventualmente menos boa do que o alojamento provisório desses desgraçados que fogem à morte?

Será injusto que Portugal, dentro das suas possibilidades, preste um acolhimento minimamente decente a um certo número de refugiados de guerra, sabendo-se embora que muitos portugueses vivem em condições socialmente injustas? Pacheco acha que sim, que é injusto. E nisso irmana-se com todos os populistas que acham o mesmo.

Revolution through evolution

Information avoidance: From health to politics, people select their own reality
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Are market bubbles caused by traders’ testosterone levels?
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Maintaining an active sex life may lead to improved job satisfaction, engagement in work
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Religious participation may serve to strengthen social bonds
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Caffeine boosts enzyme that could protect against dementia
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Brain is 10 times more active than previously measured, researchers find
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The Organization of the Future: 3 Essentials
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Exactissimamente

Da decência, desta vez

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Nota

Francisco Teixeira da Mota, o especialista jurídico do Público tão lesto e entusiasmado a celebrar todos os triunfos judiciais da “liberdade de expressão”, mesmo quando ela não passa de um exercício de calúnia sobre pessoas que ocupam cargos políticos – o que coloca este advogado/colunista como uma das vozes populistas na praça pública, em modo insidioso – ainda nada disse sobre este notável e incontornável caso. Dobrado contra singelo em como nada vai dizer, pois o silêncio é um recurso usual nos sectários de registo sonso.

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Entretanto, num Universo paralelo

O Supremo Tribunal de Justiça decidiu esta quinta-feira que o juiz Carlos Alexandre está impedido de continuar a intervir no processo que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates, a chamada “Operação Marquês”.

A deliberação do Supremo surge após um pedido nesse sentido por parte de José Sócrates, que entende “existir motivo sério e grave, adequado a gerar desconfiança sobre a imparcialidade” do magistrado do Tribunal Central de Investigação Criminal no DCIAP em Lisboa, responsável pela “Operação Marquês”.

O facto de o juiz de instrução se ter pronunciado obscena e manhosamente sobre o caso numa entrevista televisiva à SIC, em 2016, em tom insinuante e sarcástico, afirmando que “não tinha amigos, amigos no sentido de pródigos” nem “fortuna herdada dos meus pais ou de meus sogros”, e de não ter forma de obter dinheiro a não ser “através do trabalho honrado e sério”, pesou na decisão de afastamento do juiz.

Nas suas declarações estava implícita a recusa de respeitar o estatuto de inocente até trânsito em julgado de uma eventual condenação de Sócrates a partir deste processo, refere a defesa no seu pedido de afastamento: “Mesmo depois de se pronunciar publicamente sobre um processo em curso e de pôr em causa a objectividade e a adequação legal das suas decisões como juiz de instrução, o senhor juiz não se inibiu, intencionalmente, de fazer afirmações vexatórias da inocência e dignidade do arguido”. As objecções da defesa não se ficam por aqui: referem o facto de Carlos Alexandre e Cavaco terem uma relação de promiscuidade institucional, onde o primeiro vertia para o segundo teorias conspirativas acerca de Sócrates, o que significa que havia um relacionamento pessoal entre ambos que ultrapassava o mero conhecimento social.

O Supremo Tribunal de Justiça vem agora dar razão a José Sócrates, ao concluir existir, de facto, “um risco real do não reconhecimento público da imparcialidade” de Carlos Alexandre. “Encontra-se afectada, de forma grave e séria, objectivamente, a confiança pública na administração da justiça e, em particular, a imparcialidade”, escrevem os conselheiros do Supremo. “É de admitir, a partir do senso e da experiência comuns, que qualquer cidadão de formação média da comunidade possa contestar a imparcialidade” do magistrado, prosseguem, invocando a máxima segundo a qual à mulher de César não basta ser séria, sendo também necessário parecê-lo. Um dos conselheiros aproveitou ainda para escrever nas margens do acórdão, com uma Futura azul emprestada por um jornalista na ocasião, o seguinte provérbio: “Tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta”, mas escusou-se a dar explicações.

Com base neste universo

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“Eu vejo-os todos entendidos e chateio-me, claro que me chateio!”

A Helena Garrido (aqui, no Observador), dando voz à direita em geral, continua sem compreender o porquê de terem perdido os seus aliados tradicionais no combate aos socialistas – o PCP e o Bloco. Está inconsolável. Vai daí, carrega nas hipérboles e diz que Costa tem mais poder do que qualquer outro anterior primeiro-ministro em democracia; chama, pasme-se, guardiões da democracia aos dois partidos – “críticos e escrutinadores da democracia, da liberdade, do cumprimento da lei e da ética” (ena!).

Lamenta-se da seguinte maneira trágica: “O que nos pode restar? Quem pode impedir que este Governo se transforme numa espécie de “o Estado sou eu”?

Ah, Helena, que triste, parte-se-nos o coração de a ver tão angustiada, como se, no governo anterior, aqueles dois partidos tivessem algum poder de fogo contra os abusos dos passistas e portistas!

Surpreende porém que, apesar do choro, mantenha ainda algum sentido de humor, como aqui:

“[…] quem acompanhava a economia lembra-se como era importante ouvir as análises dos comunistas aos Orçamentos e como se devia estar sempre atento ao que afirmava o Bloco, primeiro com Francisco Louçã e depois com Catarina Martins.” Ah, sua maluca. Danada para a brincadeira. Mas eles continuam a pronunciar-se!

Mas Helena acaba por tocar num ponto sensível e muito importante da actual situação: pelos vistos, o PSD e o CDS não podem fazer o papel que ela considerava atribuído aos comunistas e bloquistas, a saber, o de escrutinadores e guardiões das liberdades. Mas e não podem porquê? Ela responde: porque já foram poder. Ora bem, aqui é que bate o ponto. Se tivessem exercido bem esse poder, e sido um bom governo, a actual solução não teria tido sucesso. Se não tivessem feito figuras tristes no panorama europeu, por exemplo, ou na condução da governação, ou a nível da moral e da ética, estariam agora em muito boas condições para darem lições aos outros. É um facto, não estão. Choremos, portanto.

Engraçado é que, por muitos encómios que teça aos seus ex-chuchus da extrema-esquerda, Helena acaba por lhes dizer que eles estão bem é na contestação e no protesto. Nunca na assunção de responsabilidades. Para elogio não está mal.

 

Forte humor partidário e situação da oposição

Hoje de manhã, no carro, ouvi, na Antena 1, Luís Montenegro, do PSD, dizer que, em caso de rompimento definitivo do acordo que estabelece a base de apoio ao Governo PS, não era obrigatório irmos para eleições. “Em tese, não é?”, dizia a jornalista e ele corroborou, acrescentando que, como o PS é actualmente minoritário no Parlamento, poder-se-ia formar um governo de coligação PSD-CDS com o apoio do PS. É claro, ó Montenegro! Como é que ninguém vê tal evidência? (Esta anedota já se encontra relatada aqui)

Percebe-se que as eleições são a última coisa que lhes interessa, dadas as sondagens. Então, dedicam-se ao anedotário, procurando convencer-nos de que ainda vivem na ilusão de que a vitória obtida em 2011 lhes vale para mais alguma coisa do que para darem o lugar a outros.

A questão é a seguinte: a tropa passista continua a ser actualmente o PSD; não há outra gente. Com ela, continuaríamos com as mentiras, com a submissão à linha única de pensamento austeritária, com a destruição da escola pública, da Caixa pública, os esquemas esquisitos na banca, com o desprezo pelo Estado social, de regresso à caridade e à emigração, etc. Além de que é difícil descortinar quem, na direita, com um mínimo de credibilidade, gostaria de se lhes associar. A estes, aos mesmos.

Por mim, podem continuar a manter o Passos como líder do partido e, portanto, da oposição. É a melhor garantia de que não haverá desentendimento à esquerda. O PSD tem dificuldade em perceber isto. Ou talvez não, pelo menos o PSD que ainda disponha de algumas cabeças pensantes, pois é verdade que, neste tempo de vacas magras para eles, alguém tem que estar na liderança e agradecem que esta direcção aprecie o sacrifício. Mas esta tropa está convencida de que a táctica passada da pulhice, da chicana e da irresponsabilidade os há-de levar ao poder de novo. Já são conhecidos, é impossível.

Se fosse na América, enchíamos os bolsos à tua pala, Pacheco

Porquê dar importância ao Pacheco Pereira? Porque ele é importante. A sua voz no jornalismo de opinião e no comentário político dá-lhe um real poder de influência sobre espectadores e demais agentes de opinião nas mesmas águas, quiçá sobre políticos profissionais, tanto pelo histórico dessa presença (dura há décadas), como pelo estatuto dos variados órgãos de comunicação social onde se exibe (é pago pela Impresa, Sonae e Cofina, pelo menos).

Neste texto – O bom senso é o melhor instrumento para saber quando nos enganam – resolve botar faladura sobre uns certos ditos mentirosos que não grama. Nesse grupo inclui o blogue “Câmara Corporativa” e o bloguista Miguel Abrantes. A tese é a de que o nosso herói da Marmeleira percebe tudo a respeito dos certos ditos mentirosos que não grama, daí ter também acertado em tudo o que diz deles, seja qual for a data das suas afirmações. Na sua bazófia destravada, chega ao ponto de lançar o seguinte desafio:

Vão ver o que então escrevi e está tudo certo, até porque de há muito sou a favor de que deve haver fact-checking do que se diz para o espaço público e que a melhor prova do valor de um comentário é ter sentido muito tempo depois das circunstâncias que o originaram.

Pois bem, Pacheco, conta comigo para esse xeque ao facto. Bute lá:

COISAS DA SÁBADO: A FRENTE DA CALÚNIA

O Primeiro-ministro José Sócrates, ele próprio, suscita na blogosfera um apoio muito especial, sem equivalente no mundo exterior fora da Rede. Não sei se por desespero,- as coisas não tem corrido bem à persona tutelar, - se por simpatia, no sentido preciso do termo, se por imitação, os blogues socráticos desenvolveram um estilo agressivo de insulto e calúnia pessoalizada, que não tem paralelo com qualquer outra área política (se exceptuarmos algumas personagens passo-coelhistas como Nogueira Leite, conhecido por insultar tudo e todos no conforto do Twitter e do Facebook). Esses blogues, como o Câmara Corporativa, o Aspirina B, o Jugular, escritos muitas vezes sob o anonimato e onde pululam empregados do governo, e às vezes mais acima - o anonimato serve para ocultar os autores, mas o estilo denuncia-os –, representam um mundo aparte na blogosfera que revela as fontes do radicalismo que emana nos dias de hoje do centro do poder socialista à volta de Sócrates. Quem se mete com José Sócrates leva de imediato uma caterva de insultos, que inclui todos os clássicos e é sujeito a uma campanha ad hominem grosseira e, zanguem-se agora a sério, muito miguelista mas sem as qualidades de José Agostinho de Macedo.

A mecânica destes blogues está longe de ser a discussão política, mas uma regra típica dos aprendizes de feiticeiro: a destruição dos adversários a golpes de insultos e calúnias, já que não se pode prende-los, nem censurá-los. Os seus executores são gente mais à esquerda do que o PS, com pretensões intelectuais, mas com a pior das tentações intelectuais, a que vem da desenvoltura e do sentido de impunidade de quem acha que está no poder e tudo lhe é permitido.

Publicado na Sábado (a troco de dinheiro) e no Abrupto

Sendo o único dos fundadores deste blogue que se mantém como autor activo, tenho a acrescida autoridade de saber como é que os restantes autores vieram cá parar. Alguns conheci presencialmente, outros apenas à distância, e desde 2008 (ou lá perto) que todos os novos autores aceitaram entrar no blogue por meu convite. Logo, a sugestão de que o Pacheco sabe mais a respeito do Aspirina B do que eu levanta-me algumas dúvidas.

Comecemos por despachar a questão do anonimato. Por inerência, o Pacheco atribui essa condição a alguns dos autores deste blogue. Mas a quais ou qual? Não o revela, talvez por falta de tempo. Ora, não há um único autor anónimo na lista de autores activos e inactivos. Porque o anonimato é o estado em que não é possível atribuir uma identidade autoral. Logo, o anonimato não é equivalente à pseudonímia, nobre tradição tanto nas artes como na política, já para não falar da guerra. Quem usa um pseudónimo, que até pode ser uma alcunha de família, dos amigos, da escola, ou uma escolha simbólica, expressiva, ou simplesmente aleatória na sua génese, continua a querer responsabilizar-se pelas suas acções, não se furtando ao convívio social comum. Acaso o Pacheco entrou em contacto com algum desses autores com nomes nada católicos com a intenção de obter os seus dados de registo civil? Acaso também falaria de “anónimos” se os autores assinassem “Isabel Costa”, “António Silva” ou “Cristina Martins”? Se não, então vai para o caralho, Pacheco. Neste blogue há autores que escreveram e escrevem com pseudónimo, não há autores anónimos, eis o facto. O Pacheco mente a este respeito.

Passemos para a questão das calúnias. Este termo tem uma definição precisa no âmbito judicial e várias definições, cada uma mais vaga do que a outra, na linguagem corrente. A acusação pachequiana junta três blogues numa “frente da calúnia”, mas, curiosamente, não dá sequer meio exemplo de qualquer calúnia que tenha apanhado nesse caudal. Falando apenas pelo Aspirina B, pois não acompanhei exaustivamente os outros blogues do trio, adorava que o Pacheco indicasse onde estão as calúnias sem “paralelo com qualquer outra área política (se exceptuarmos algumas personagens passo-coelhistas como Nogueira Leite, conhecido por insultar tudo e todos no conforto do Twitter e do Facebook)” – quanto mais não fosse para aprender a detectar calúnias e a poder apagá-las. É que se dá o caso de abominar calúnias, pelo que toda a ajuda é preciosa para o seu extermínio. O Pacheco mente a este respeito.

Finalmente, a alucinação dos “empregados do governo, e às vezes mais acima”; os quais, tristes coelhos fora da toca, são de imediato caçados pela inteligência aquilina do Pacheco que os apanha pelo “estilo”. Neste caso, pagava para que o Pacheco se dignasse nomear um dos autores deste blogue com o estatuto assim definido. Pessoalmente, tenho a secreta esperança de que pelo menos um ministro socrático tenha vinho aqui estilizar pela calada, não sendo esquisito na preferência. Um qualquer, mas ministro, foda-se, que este é um blogue “com pretensões intelectuais”! Enfim, e para minha frustração, o Pacheco mente a este respeito.

Resumindo e concluindo, este passarão que saca uma fortuna por mês a tagarelar e a escrevinhar, e por vezes com mérito e utilidade comunitária para a ignomínia ser maior, projectou nestes três blogues e seus autores o perfil que descreve com exactidão a sua prática profissional. Só porque padece de uma obsessão com Sócrates desde 2006 e acreditou que o poderia derrotar ao lado da Manela e de Cavaco. O Pacheco que recebe dinheiro para, entre outras coisas, insultar, caluniar, mentir é que se sabe absolutamente blindado na impunidade. São estes os factos. E o que eles significam remete para a estrutura industrial, e respectiva cultura, onde uma figura patética e sórdida como o Pacheco pode ser uma estrela da política-espectáculo.

Pacheco, meu merdas, nunca irás responder a estas palavras, embora leias tudo a teu respeito com a sofreguidão de Tântalo. Até blogues tu lês, grande infeliz.

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Cineterapia


20th Century Women_Mike Mills

Se o cinema pode funcionar como terapia, e pode, Mike Mills está a poupar uma fortuna em psicólogos, psiquiatras ou psicanalistas por ganhar aquilo com que se compram os melões sendo realizador. Este filme é, explicitamente, um estudo sobre a sua mãe, e o anterior, Beginners, foi explicitamente um estudo sobre o seu pai. Logo, dois estudos acerca de si próprio através de duas personagens maiores do que a vida, no sentido em que a sua versão cinematográfica é outra coisa ontologicamente diferente das biografias na sua origem. É que o cinema não pretende imitar a realidade, o cinema é uma das realidades onde podemos habitar.

Será fácil dizer que esta obra elabora, na sua essência e intenção, um manifesto feminista. Aliás, tal fica como rótulo inevitável. O eixo central da narrativa consiste na exposição de uma única mulher matricial clonada por três identidades que correspondem a três idades, e a três modos, do ser mulher. E que mulher é essa? Em registo desvairadamente redutor, aquela que na adolescência se adapta ao desejo masculino, mesmo que não goste de metade das experiências sexuais. Que ao entrar na idade adulta se torna conhecedora do seu corpo e dos direitos políticos que tal anatomia e fisiologia lhe concedem. E que na maturidade atinge a liberdade possível, individualista, simbolizada no cliché do voo de rosto descoberto na imensidão das alturas.

Esta obra é uma brisa, mas daquelas veterotestamentárias. A sua imparável força nasce de não nos pretender convencer de nada. Não há lições, nem moral, nem ideologias a quererem saltar do ecrã para os incautos sentados no escurinho. Em vez disso, temos o olhar de um homem que gosta de mulheres. Como elas são e quiserem ser.

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Jaime Nogueira Pinto, esta é a tua grande oportunidade

Jaime, os taralhoucos que te ofereceram a magnífica oportunidade de fazeres cabeçalhos e dares entrevistas, para mais gerando um consenso unânime a teu favor e contra as alimárias sectárias, ficarão para sempre no teu coração, sabemos. Mas venho pedir-te para que não desperdices a belíssima oportunidade de dares uma lição de liberalismo ao País (que bem precisa, como tão bem sabes). Para tal, basta que agradeças aos partidos, universidades e quem mais ofereceu instalações e lhes digas que já escolheste: irás dizer o que não disseste na Nova dentro da Associação 25 de Abril. E aproveitarás para acrescentar uns rasgados e sentidos elogios ao que os portugueses alcançaram, em festa, no 25 de Abril de 1974. Porque esse dia está na nossa História, talvez, como o dia em que o espírito liberal mais se fez corpo e alma de Portugal.

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Uma ideia revolucionária para os tempos que correm: direito à privacidade

O TRL considera que o livro "viola o direito à reserva íntima e privada".

"Na verdade se o fim de quem escreve ou informa não extravasa o simples domínio do privado, sem qualquer dimensão pública, o direito à reserva da vida privada não pode ser sacrificado para salvaguarda da liberdade de expressão e de informação", refere o acórdão.

O Tribunal da Relação de Lisboa sustenta também que se trata da "vida pessoal e íntima, sem qualquer relevância social", sendo "a ela e não a outrem que compete decidir o que torna público ou o que quer manter em segredo".

Para os juízes do TRL, Isoleta Almeida Costa, Octávia Viegas e Rui Ponte Gomes, a descrição feita no livro é "uma evidente invasão da zona da vida privada da requerente, e nesta, parcialmente, na sua esfera íntima".


Tribunal da Relação de Lisboa ordena recolha de livros de José António Saraiva

À polícia o que é desta Justiça

Joana Marques Vidal anunciou a abertura de um inquérito por “eventual violação do segredo de justiça” resultante da publicação de supostas declarações de Ricardo Salgado e Hélder Bataglia ao serem interrogados pelas autoridades. Que se irá passar a seguir? Se o passado servir para prever o futuro, nada de nadinha de nada. Ocasião para fazer perguntas:

– Quantos inquéritos já foram abertos por violação do segredo de justiça na história do Procuradoria-Geral da República?
– Onde é que se podem consultar os resultados? Existe tratamento estatístico dos resultados?
– Quantos inquéritos conseguiram identificar os responsáveis pelas violações?
– Se algum inquérito alguma vez conseguiu identificar algum responsável, ele chegou a ser punido? Se sim, de que forma?

Esta problemática não tem no sistema político, na arena partidária e na comunicação social qualquer paladino, apesar dos fogachos deste e daquela. A sociedade portuguesa convive amansada e risonha com este tipo de crimes. Aliás, esta particular actividade criminosa está institucionalmente aceite como vantajosa para os poderes fácticos, pois algumas das violações são de imediato integradas – ou seja, lavadas, como se faz ao dinheiro ilegal – no ecossistema mediático. É assim que vemos o Ricardo Araújo Pereira ou o Paulo Baldaia, para dar dois exemplos que chegam e sobram, a usar o resultado dos crimes alheios nas suas actividades profissionais, sancionando-os como social e culturalmente legítimos. Ou seja, há muita gente a ganhar dinheiro com a actividade criminosa dos criminosos que pertencem aos quadros da Justiça portuguesa.

Quando calha falar-se do assunto e na conversa aparece um representante dos magistrados do Ministério Público, ouvimos sempre a cassete onde a culpa é dos arguidos, através dos malandros dos advogados, e onde os procuradores é que ficam a sofrer, coitadinhos, por causa desses segredos derramados na via pública. Claro que tal também pode acontecer, mas o problema não está aí seja pela quantidade ou relevância. O que está em causa é uma prática onde aqueles a quem pagamos para defender e aplicar a Lei a estarem a infringir impunemente. Isto é, não só os crimes são cometidos por agentes de Justiça mas ainda por cima acabamos a ser gozados por quem devia estar na linha da frente do combate ao que é um escândalo que põe em causa o Estado de direito. Porque é simples: se os crimes de violação do segredo de justiça se repetem sistematicamente – como a “Operação Marquês” é disso o exemplo supremo – então os criminosos em causa sabem-se completamente protegidos para repetir quando e como quiserem as acções ilegais. E se cometem estes crimes tão públicos, os quais igualmente envolvem a cumplicidade de jornalistas, sem o mínimo receio de serem apanhados, que outros crimes não cometerão lá onde nem sequer precisam de ajuda de colaboradores externos e a coberto dos holofotes mediáticos?

Perante esta realidade, que talvez até tenha repercussões em matérias de segurança nacional, assistir ao silêncio dos nossos representantes políticos, da chamada “imprensa de referência” e da sociedade em geral resulta numa lucidez implacável onde todos os poderes estruturantes da vida comunitária surgem unidos numa coreografia farsante e torpe.

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Revolution through evolution

Living with Children May Mean Less Sleep for Women, but Not for Men
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Dietary prebiotics improve sleep, buffer impacts of stress, says study
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Watching birds near your home is good for your mental health
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Lessons From Innovation Catalysts: Can They Help Us Thrive in Uncertain Times?
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The making of music
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Do you look like your name? People can match names to faces of strangers with surprising accuracy
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Study finds participants feel moral outrage toward those who decide to not have children
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Milagre na oposição, precisa-se

Em relação à perspectiva taumatúrgica de Teodora Cardoso, o relatório impiedoso de Louçã faz doutrina: Do milagre segundo Teodora Cardoso aos offshores. Porém, a Nicolau Santos deve-se o mérito de chamar a atenção para a pulhice em curso: Em defesa de Teodora Cardoso.

A pulhice consistiu em retirar do contexto o uso da palavra milagre, a um ponto tal em que a responsabilidade pela introdução do termo na situação mediática que o regista, o qual surgiu pela iniciativa de um jornalista, se transfere para Teodora Cardoso, esta limitando-se a corresponder de boa-fé ao sentido da pergunta e sua conotação metafórica e/ou irónica. A pulhice ganhou peso com os comentários sarcásticos do Presidente da República e do primeiro-ministro, os quais tiveram graça num assunto onde ela não cabe, a deturpação das palavras, da imagem e do nome de alguém, seja essa pessoa quem for e, por maioria de razão, tendo responsabilidades públicas.

Isto recorda-me de um caso similar ocorrido com Maria de Lurdes Rodrigues, o qual se inscreveu na cultura política da pulhice a que a nossa decadente direita recorre por vocação e miséria. Numa comissão parlamentar, um deputado do PSD (se não me falha a memória) referiu-se às obras da Parque Escolar usando a expressão “foram uma festa”. Ali, o referente era irónico e negativo, intencionando ser uma provocação e uma ofensa. Na resposta, a ministra da Educação ao tempo deixou-se tomar pela emoção, indignada com a postura de baixa política do deputado, e pegou na mesma expressão para virar a arma para o atacante, dizendo algo como “Sim, foi uma festa” e de seguida elencando os benefícios que, na sua opinião, tais investimentos tinham trazido para as escolas, para os alunos e para o País.

Na direita, na esquerda, no Parlamento, nos jornais, nas televisões, nas rádios, na Internet, nos táxis, em qualquer recanto onde dois broncos trocassem perdigotos, a ideia de que Lurdes Rodrigues se tinha lembrado de descrever as obras nas escolas como uma festa foi repetida alarvemente milhares de milhões de vezes. Podemos reconhecer que o fenómeno é normal e inevitável do ponto de vista sociológico, psicológico e antropológico. A política é um terreno onde, excepções confirmando a regra, as emoções dominam as cognições e onde a pulsão para destruir o adversário se sobrepõe ao bem comum e à defesa da civilização. Logo, será banal constatar que as oposições jamais deixariam de aproveitar o flanco deixado imprudentemente a descoberto de uma ministra tão fácil de diabolizar precisamente por ser politicamente tão corajosa e tão representativa da coragem de Sócrates como chefe do Governo. Igualmente o ataque a algo incontestavelmente benéfico para a comunidade, a melhoria das instalações escolares no sistema de ensino público, ficava servido de uma munição para a qual não havia defesas pois permitia o berreiro animalesco que destruía qualquer possibilidade de racionalização, aferição e discussão sobre o que estava em causa.

Nestes últimos meses em que a direita decadente tem explorado o caso inconsequente e despachado de um administrador bancário que tentou garantir certas condições pessoais na CGD e viu as suas pretensões goradas por causa do poder da Lei, vários comentadores têm divulgado a posição de que tal, apesar de não passar de baixa política que nenhum benefício traz para os cidadãos e suas preocupações, era inevitável. PSD e CDS estavam a fazer o que tinham de fazer, garantia a elite da opinião publicada, porque a política não passava disso, de uma constante guerra civil onde valia tudo para enfraquecer os adversários e conquistar o poder, inclusive formar uma comissão de inquérito para espiolhar SMS relativos a um assunto já metamorfoseado numa comédia do absurdo. Será que estes cromos, actualmente à frente dos jornais que restam ou com assento nos estúdios de rádio e televisão, têm razão? Não. Zero. Eles são parte do problema, eles e o seu cristalizado cinismo nascido da falta de magnanimidade e da defesa feroz do estatuto e privilégios adquiridos, posto que não combatem pelo fim deste modo disfuncional de usarmos a democracia.

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Pouca uva

Quinta-feira, 2 de Março. Pelos alertas da véspera, o dia previa-se carregado, com ameaça de cataclismo. A Operação Marquês, qual Etna, entraria novamente em erupção, cuspindo desta vez o BES, a PT, o Sócrates; um magma amalgamado de ligações e verdades irrefutáveis, acusações assassinas, guilhotinas escorreriam pelo Marquês abaixo perante o nosso olhar incrédulo. Atingira-se a cabeça do polvo, que, antes de estrebuchar, falara e confessara.

Confessara? Calma. Fomos ler. Não foi exatamente assim. Por alguma razão já não muito estranha, é-nos divulgado, com certeza parcialmente, o interrogatório feito em Janeiro a Ricardo Salgado no DCIAP. Visão, Sábado e Observador (?) foram os veículos utilizados pelo Ministério Público para nos “escandalizar”. Pensei francamente ir encontrar um prenúncio sério de acusação. Enganei-me. Salgado classifica a narrativa do Ministério Público, que lhe foi laboriosamente lida, como um rol de mentiras e dispõe-se a dar aos senhores procuradores um curso acelerado de banca e estratégias de crescimento. E sim, por meios e através de relacionamentos muito pouco ortodoxos.

Mas prosseguindo, se o objectivo do MP é o efeito dos títulos e do tamanho dos mesmos na opinião pública, o Correio da Manhã quase teve substitutos à altura. Porém, lendo os conteúdos, o caso muda de figura. Deixo de fora a revista Sábado, que não li. Li a Visão e o “site” Observador. A Visão resolve gastar a maior parte do espaço disponível a transmitir a versão do Ministério Público. Três euros e tal, o equivalente a uma posta de salmão assado, deitados ao lixo. O Observador (não sei se baseando-se na Sábado se também no correio  directo do MP) desenvolve mais a parte do depoimento de Salgado, o que torna a coisa mais interessante. De facto, pelo que nos é dito, a procissão deve estar no adro, de onde provavelmente não irá sair, pelo menos do adro daquela igreja. Talvez mudando de igreja. Ou de diácono. Ou de culto. E já que das coisas publicadas, por regra, se espera uma opinião, aqui está a minha: o Ministério Público elabora demasiado e precipita-se sobre teses em domínios que aparentemente não compreende ou com os quais não está familiarizado. Tudo lhe parece um deslumbramento. Mas está a aprender muito, talvez para um próximo processo que envolva a banca e grandes empresas. No que respeita a Ricardo Salgado, isto parece-me óbvio. Estou em crer que, se os investigados fossem os administradores de outros bancos, sobretudo numa altura de crise financeira grave, as operações e os esquemas identificados não seriam muito diferentes. O que não quer dizer que sejam lícitos. E é pena que as descobertas do MP se façam à custa da destruição na praça pública de pessoas que podem não ter cometido crime algum. Podem ter, mas também podem não ter. Se não tiverem, o dano é irremediável. Nunca este efeito é tido em conta.

No que respeita a Sócrates, nada do que li me demonstra minimamente, quanto mais claramente, que o GES ou o BES, ou lá quem seja a entidade desse universo, lhe andou a pagar luvas. Até porque não se consegue perceber o que ganhava ou ganhou o BES com esse alegado acto de corrupção. Neste momento, não percebemos. Salgado afirma que nada lhe pagou (é um facto que nunca foi mencionada até à data qualquer conta em nome de Sócrates em lado nenhum), muito menos a Santos Silva, que não conhece. Mas admitamos que conhece e que pagou: foi para quê exatamente?  Salgado remete para Helder Bataglia o envio dos hipotéticos milhões para Carlos Santos Silva (que acontece não ser Sócrates), mas isso pode ter milhentas explicações. Santos Silva era um homem de negócios e é um facto que Salgado pôs nas mãos de Bataglia, além de exagerada confiança, avultadas quantias. Aqui, nada está esclarecido, apesar das “denúncias” de Bataglia, feitas, tanto quanto podemos deduzir, para salvar a pele. Qual a ligação de Bataglia a Santos Silva? Não sabemos. Aliás, de Santos Silva nunca se ouviu nem leu uma palavra. Qual o interesse de Bataglia em subornar Sócrates? Ricardo Salgado mente? Mas a relação com Bataglia, tal como descrita por Salgado, parece-me verosímil, e ninguém terá muitas dúvidas de que os negócios em Angola sejam todo um mundo de regras ainda mais próprias do que por cá. Tudo no adro.

Portanto, eu faço o meu julgamento com base no que leio, e penso ser essa a ideia de quem põe cá fora estas informações. Eventualmente não estarei a fazer a leitura que se pretendia, mas tive o cuidado de não me ficar pelos títulos. Até à data, não vejo qualquer tese irrefutável da parte do Ministério Público.

Sem acusação, este processo que envolve Sócrates, assim como os métodos de actuação do MP, de que estas ofertas de conteúdos a certa comunicação social são um exemplo, são muito duvidosos. Ou seja, por mais que libertem dados da investigação que as defesas não conhecem, as dúvidas e o cepticismo iniciais não são dissipados. Não digo que mandem mais porque isto não chega. Digo que parem com as fugas (que aliás, ironicamente, nunca arrasam o principal arguido), acusem e se deixem de tácticas.

Jacuzzi, uma carta para o Pacheco

Na minha também longa vida, e não só politica, sempre achei que se alguma dúvida existisse sobre o sr. ex presidente, entre outros, ela nunca seria objecto de grande atenção, investigação ou propagação pela comunicação social. Aliás sempre pensei que seria exactamente ao contrário. Nesse aspecto, também eu, não me enganei. Nem um bocadinho.


Sócrates

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Em 2009, em cima das eleições legislativas e autárquicas, foi lançada uma golpada político-mediática que tinha como finalidade prejudicar o PS nessas votações. Essa golpada, ainda durante o período oficial da campanha eleitoral para as legislativas, foi exposta através de provas documentais que permanecem incontestáveis. A origem do estratagema era a Casa Civil da Presidência da República, a única dúvida que permanecia dizia apenas respeito ao grau de responsabilidade do próprio Presidente da República. Após o discurso de 29 de Setembro desse ano, supostamente para esclarecer a posição presidencial a respeito dos acontecimentos e que acabou por ser um dos momentos mais inenarráveis, degradantes e sonsos na carreira política de Cavaco Silva, qualquer interessado na questão encontrava uma solitária conclusão ao dispor da sua inteligência: o Presidente da República tinha participado na golpada eleitoral.

Este é um caso em que, até sem o recurso ao que foi revelado a respeito dos mandantes e agentes do embuste, somos conduzidos pela lógica para a solução do enigma. A 18 de Agosto uma inaudita bomba é lançada pelo Público: o Presidente da República suspeita que está a ser vigiado e escutado pelo Governo. Que se seguiu a uma suspeita que punha em causa os alicerces do Regime e era combustível para um clima de guerra civil? Pois nada. Não aconteceu rigorosamente nada durante 10 dias, excepção para a imediata exploração que PSD e CDS fizeram da calúnia. Só então Cavaco resolveu abrir a boca, mas não para extinguir o caso, antes para o manter na agenda. Ao dizer que acompanhava a situação mas fingindo desvalorizar o episódio, e chutando para depois das eleições o seu esclarecimento, Cavaco transmitia a exacta ideia de que estávamos perante uma invenção ao serviço da perversão da campanha eleitoral e da votação, daí não ser necessário actuar adentro dos seus poderes constitucionais como seria obrigatório que actuasse sendo o boato fundado em qualquer laivo de realidade. Três semanas depois, a poucos dias da votação, o DN publicou um relato baseado em provas que expunha a cabala. Que fez então Cavaco no confronto público com a verdade? Continuou a mentir, dizendo que estava realmente preocupado com questões de segurança, queimando Fernando Lima de forma a que não se queimasse a si, e deixando ir o eleitorado às urnas com essa grotesca suspeita tendo feito o seu caminho mediático e social sem nunca ter sido desmentida e continuando a pairar como avantesma que foi explorada ao máximo.

Na altura, pensei que Cavaco iria ficar com a reputação tão estraçalhada que não iria concorrer para o segundo mandato. Achava que nós, portugueses em Portugal com direito de voto, tínhamos um mínimo de respeito próprio e que, portanto, mesmo que Cavaco concorresse a sua derrota estava garantida. Fosse contra quem fosse. Isto porque a coisa era simples: ter um Presidente da República a cometer um crime de atentado contra o Estado de direito – é disso que se trata, senhores ouvintes – corresponde àquele limite que separa as repúblicas onde vigora a lei democrática das repúblicas das bananas. Só que basta olhar para os nomes que constituíram a comissão de apoio eleitoral de Cavaco nas eleições de 2011 para nos sabermos numa entidade colectiva onde a gana do poder pelo poder sobrepõe-se ao discernimento e à decência. Todas aquelas pessoas, sem excepção, tomaram conhecimento da real conspiração presidencial e, apesar disso, foram cúmplices da reeleição de alguém absolutamente indigno para ocupar o mais alto posto do Estado (ou qualquer outro, pelo menos sem que primeiro tivesse sido julgado e condenado pelo crime em causa).

Nós, os ingénuos, sofremos muito mais do que os cínicos, calafetados estes pela miséria moral onde se embrulham e a que passam a chamar mundo. Mas os ingénuos têm uma vantagem, ou que seja tão-só um penacho, que justifica todas as agruras a que ficam condenados: estão sempre a aprender – como dizia Sólon de si próprio, um dos venerandos patriarcas para todos os apaixonados pelo Estado de direito. E é preciso ser-se mesmo um grande ingénuo para elevar a lei abstracta e comunitária acima da fúria ideológica e tribal.

Ninguém no sistema partidário, à esquerda ou à direita, quis assumir as dores e o vexame da República na “Inventona de Belém”. A Procuradoria-Geral da República não viu motivo para intervir, até porque teria de ser o Parlamento a fazer a denúncia dado tratar-se do Presidente da República. A imprensa estabeleceu uma omertà que dura até ao dia de hoje, sete anos e meio passados. Os governantes e dirigentes socialistas ao tempo nada podiam fazer, pois estavam em cima das eleições e eram a parte fraca, o saco da porrada. E assim continuaram, indo para um Governo minoritário que foi queimado por Cavaco até às eleições presidenciais em 2011. Logo que foi reeleito, e no acto solene da tomada de posse na Assembleia da República, Cavaco apelou ao derrube dos socialistas por todos os meios, inclusive pela rua. A aliança negativa que chumbou o PEC IV fez-lhe a vontade. Foi a conclusão do mesmíssimo plano do qual a golpada de 2009 faz parte.

Cavaco podia ter continuado sem nada dizer a respeito do assunto, um assunto onde o País é cúmplice do crime ocorrido, mas como o seu sentimento de impunidade é total veio mentir mais uma vez. Nem sequer a confissão, também em livro, de Fernando Lima o travou. O desplante alucinado do que fez explica a reacção acabrunhada da direita, onde só os mais sordidamente fanáticos aparecem a louvar Cavaco pela desgraça ética onde está enterrado. Para piorar, um dos principais envolvidos na inventona, José Manuel Fernandes, também mente desbragada e impunemente, nem sequer sabendo o que o seu jornal realmente publicou e deu a publicar. Mentiras dos dois que não só rivalizam como chegam mesmo a superar as de Trump.

Ao ter vindo falar do caso, e ao fazê-lo do modo como o fez, Cavaco deu a Sócrates uma das melhores presenças mediáticas dos últimos anos. Essa exposição, frente a uma Judite de Sousa sem condições deontológicas e cognitivas para o papel de entrevistadora daquela figura a respeito deste caso, foi anulada mediaticamente nas horas e dias seguintes dado que nenhum dos fazedores de opinião, seja em jornais ou televisões, quer tocar no assunto. E não querem porque o que Sócrates disse é à prova de estúpidos.

Quando Vasco Pulido Valente, que não tinha de espetar essa lâmina para continuar a zurzir no seu ódio de estimação, escreveu “ele não gosta de escândalos como o escândalo das “escutas”, que vários peritos dizem que ele próprio inventou.” foi ultrapassado o Rubicão. O crime de Cavaco foi oficialmente proclamado como uma evidência, e as provas foram fornecidas pelo próprio. Só que nada lhe vai acontecer, porque o País prefere continuar a proteger Cavaco mesmo quando o que fez nos conspurca a todos.

Pacheco Pereira foi um dos mais activos e poderosos cúmplices de Cavaco na “Inventona das Escutas” e não só. Em cima das eleições de 2009, Pacheco andava desaustinado a dizer aos jornalistas que a seguir à votação se iriam descobrir os monstruosos crimes de Sócrates, e que se Cavaco não dizia mais a respeito disso era só porque não o podia dizer naquela altura, a poucos dias do escrutínio. O Pacheco continuaria nos meses seguintes a repetir essa cassete, e conseguiu fazer-se deputado para se enfiar numa saleta e escutar o que a espionagem a Sócrates nas conversas com Vara tinha recolhido. Saiu de lá a cuspir umas inanidades de imediato desmentidas pelo deputado comunista João Oliveira que se tinha prestado a exercício igual. De lá para cá, o Pacheco vestiu a toga de juiz do Regime e da sociedade, enchendo a boca com tiradas moralistas e morigeradoras a bem da Nação e seus costumes, mantendo a sua obsessão por Sócrates bem anafada e rosadinha. Pois bem, Pacheco, conta lá: não tens nem meio pingo de vergonha nessas barbas e nessa pose de cagão chico-esperto, pois não?

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