Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Exactissimamente

Corrupções
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Alberto Gonçalves, mal, muito mal,

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Há uma deliciosa ironia nesta sugestão dupla de leitura, a qual pede que sejamos fãs do Plúvio (como é o meu caso) para ser devidamente desfrutada. É que ele adora o Alberto Gonçalves e passou, nos últimos dois ou três anos (para a minha percepção e memória), a embirrar com o Pedro Marques Lopes. No entanto, o Alberto Gonçalves é um pulha, como o Plúvio finalmente reconhece, e o Pedro Marques Lopes é um chafariz de decência, patriotismo e cívica bonomia. Melhor, e para irritar o Plúvio: o Pedro espalha salubridade na comunidade, o Alberto espalha veneno na comunidade.

O facto é este e ainda não encontrei qualquer análise ou reflexão a respeito no comentariado ou na academia: há uma indústria da calúnia à direita, mas não a encontramos à esquerda. Tal fenómeno não pode ser separado de certos condicionalismos antropológicos e cognitivos, talvez genéticos, que promovem na direita a fulanização, a paranóia e o recurso ao ódio palaciano como modo de assimilação e reacção ao devir político. Porém, igualmente tal indústria implica um poderio fáctico na comunicação social e na cultura dos actuais PSD e CDS. Por actuais, refiro-me ao PSD que começa com Cavaco e ao CDS que acaba com a saída de Freitas do Amaral em 1991. O mesmo poderemos dizer do poder da direita na cultura empresarial, nos maiores escritórios de advogados e no fundo católico que alimenta pulsões e proto-ideologias. Finalmente, as oligarquias são sempre de direita, no sentido em que se tornam conservadoras e temem perder o que conquistaram e sonham conquistar, pelo que influenciam estruturalmente a qualidade da vida social e política. Essa influência explica o poder de fogo que exibem.

A indústria da calúnia é uma arma política, não apenas um negócio. Mas, pelos vistos, a esquerda portuguesa está perfeitamente adaptada a esse status quo.

A tragédia de um oligarca ridículo

Esta entrevista de Jardim Gonçalves – “Governo de José Sócrates precisava de dominar o BCP” – dava um filme. No mínimo, merece um documentário, uma reportagem, uma coisa qualquer que dê a ver algo mais do que apenas o nevoeiro da guerra. E até podemos despachar com um bocejo a escolha que a jornalista (suponho que tenha vindo dela, mas também poderá ter vindo do David Dinis ou sei lá de quem) fez para o título, onde Sócrates volta a servir de gancho por razões que já nada devem ao jornalismo tal como ele se ensina na academia ou se inscreve na História. A tese de que Sócrates, de mão dada a Teixeira dos Santos, organizou um plano que passava primeiro por colocar Vara no topo da CGD, o tal mesmíssimo Vara que qualquer sucateiro corrompia com trocos de acordo com a Justiça portuguesa, para depois o conseguir meter no BCP e, assim, passar a ter mais um banco dominado porque “precisavam de ter um controlo mais fino do sistema financeiro para fazerem a colocação da dívida pública” é gira. E mais nada. Nem sequer mais nada no âmbito estrito desta entrevista, supostamente com alguém que poderia contar uma história válida a respeito desse tempo e desses acontecimentos se o quisesse fazer. Infelizmente, prefere lançar teorias da conspiração que ficam bem na ralé dedicada à baixa política mas que se tornam inaceitáveis para quem não abdica de pensar por si próprio.

A entrevista é fascinante por mostrar cruelmente uma figura que foi das mais importantes na oligarquia portuguesa, desconhecendo nós o poder que ainda conserva. Que vemos? A tragédia de um oligarca ridículo. Tragédia, porque se diz atraiçoado por tudo e por todos, desde logo pelo seu delfim, Paulo Teixeira Pinto, passando pelos accionistas do BCP e do BPI que lhe fizeram maldades, e chegando ao ponto de envolver o PSD e Cavaco na grande conspiração para lhe tirar o banco das mãos. Exactissimamente: de acordo com este pio ex-banqueiro, Cavaco também queria Vara no BCP para o manipular de acordo com os interesses de Sócrates. E isto merece um filme, não por causa do tal Sócrates, mas por causa deste ridículo Gonçalves capaz de estupidificar o ambiente nesta escala.

Do que veio a público, e de acordo com o que o próprio declara, a decisão de abandonar o BCP e deixar Teixeira Pinto como sucessor foi tomada “com toda a independência”. Estávamos em 2004, governava Santana e António Mexia era seu ministro. Seguiu-se um período em que o BCP tentou, por várias vezes, adquirir o BPI, tendo fracassado de modo tão clamoroso que arrastou o antigo império financeiro da direita portuguesa para o caos, no mesmo passo expondo um conjunto de gravíssimas ilegalidades já devidamente investigadas e julgadas. Que, agora, Jardim Gonçalves prefira encontrar bodes expiatórios e manter a ilusão de impecabilidade é algo sem especial interesse. O que tem profundo interesse é o estudo do apogeu e queda dos oligarcas portugueses, pois uma parte fundamental do nosso destino comum está entrelaçada nas suas vidas.

“Don’t worry, be (very) happy” – gozar que nem um danado

 

Dá bem para perceber que Vladimir Putin anda radiante e muitíssimo descontraído com a palhaçada que ajudou a instalar na Casa Branca. Sempre pronto a desculpar Trump, como aliás este faz em relação a ele, Putin (e também Lavrov) não perde uma oportunidade para gozar “o pratinho” e mostrar-se acima das preocupações do resto do mundo civilizado.

Como é que esta inusitada “entente” entre o par de jarras mais grotesco e perverso da história política da humanidade pós-segunda grande guerra vai pacificar o mundo e torná-lo mais justo, próspero … e de preferência e literalmente mais respirável é o que está por demonstrar e provavelmente está-lo-á para a eternidade, e esperemos que esta não seja interrompida por uma trágica e fatal mudança de humor. Trump não bate bem da bola.

Para já, cheira-me apenas a grandes negócios em proveito próprio e de um círculo restrito de personagens na América, que representam o que de mais ignorante e retrógrado por lá existe entre os ricaços, a uma enorme e suspeita tranquilidade da parte do ditador russo, enquanto, a nível interno e como exemplo para o mundo, continuam a ser convenientemente eliminados, por fantasmas certamente, jornalistas e críticos diversos ou adversários políticos do sinistro Vladimir, ou seja, por lá continua a ser “Как обычно” (“business as usual“, diz-me o Google), e isto não pode deixar de lhe ser referido sem gozo.

A benevolência, o companheirismo:

“Eu não julgarei Trump, porque foi o Presidente (Barack) Obama quem tomou estas decisões. Talvez o atual Presidente considere que estas não foram devidamente pensadas. Talvez pense que não existam os recursos necessários”, declarou Putin no Fórum Económico Internacional de São Petersburgo (a propósito da decisão do presidente Trump de abandonar o acordo de Pais sobre o clima).

O gozo:

“Aliás, nós devemos ser gratos ao Presidente Trump. Hoje, dizem que inclusivamente nevou em Moscovo. Aqui (em São Petersburgo) está frio e está a chover. Agora podemos sempre culpá-lo (Trump) e ao imperialismo norte-americano, que sempre tem a culpa, mas não vamos fazê-lo”, brincou.

“Don’t worry, be happy”, disse o presidente russo em inglês no final da sua intervenção.

Maravilhas do laranjal

«Agora é tempo de desconstruir o país real: mostrar que há uma discrepância entre o que o Governo diz e o que se constata na rua, nas escolas e nos hospitais. Mostrar que o Governo tem “duas caras”, como disse o líder parlamentar, Luís Montenegro, e mostrar que a “retórica não cola com a realidade”, como disse o presidente do partido, Pedro Passos Coelho. Essa é a estratégia do PSD e é assim, com calma e paciência, que o partido tenciona chegar a 2019 a lutar pela “maioria absoluta”


Num blogue da cor (negritos de acordo com o original)

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Singelo e distraído comentário:

Lá a desconstruir é que eles são bons, craques. Força nisso, rapaziada. Desconstrução total até não ficar pedra sobre pedra. Quase que o conseguiram há tão pouco tempo com a vossa guarda troikana, pelo que devem aproveitar a experiência acumulada para regressarem ainda mais desconstrutivos. E, por favor, não se livrem do Passos nos próximos 20 anos ou, em alternativa, metam lá o Montenegro. Por favor, a radical desconstrução do “país real” assim o exige.

Aperta com eles, Macron

O episódio do aperto de mão entre Macron e Trump, para ser desfrutado no seu significado político, precisa de ficar devidamente enquadrado nos anteriores episódios de Trump com Mike Pence e Neil Gorsuch, entre outros que entraram para o anedotário do trumpismo. Macron já veio reclamar plena e prévia intencionalidade na ocorrência, pouco importando se está a ser sincero ou a aproveitar a fama obtida. O facto permanece: Macron deixou Trump a sofrer, mano a mano. É o que vemos nas imagens da mão e do rosto de Trump. Qual a importância política do que parece não ter absolutamente importância nenhuma?

Eis o que não significa: que Macron tenha saído como mais “viril”, mais “macho”, do que Trump; que Macron tenha querido passar por “homem forte”, “másculo”, à maneira caricatural de Putin; que Macron tenha dado algum sinal de que passará a usar os códigos de uma masculinidade estereotipada na expressão da força física para efeitos de imagem e retórica políticas. Nada de nada de nadinha disso.

Eis o que pode significar: que Trump se sentiu humilhado ao perder num jogo primário onde julgava não ter competição à altura; que os apoiantes de Trump definidos com precisão atómica por Hillary como “deplorables” igualmente se sentirão perdedores ao tropeçarem no falhanço do seu ídolo televisivo; que parte das audiências europeias, e parte das norte-americanas, reencontraram uma dimensão da política onde a expressão “o mundo é um palco” remete neste caso não para a estética da hipocrisia mas para o espectáculo da realização – Macron tornou real a ideia que o próprio Trump trazia como potencialidade, a de por um simples aperto de mão se simbolizar uma hierarquia de poder.

Pouco tempo depois, Merkel igualmente apertou os gasganetes a Trump, atingindo-o com força e pontaria. Para quem se queixava de andarmos a passar por uma longa crise de lideranças na Europa, podemos estar a assistir ao começo de uma belíssima amizade entre todos aqueles que não se importam de suportar estes 4 anos de profunda decadência norte-americana à conta de um fulano politicamente desvairado sem perderem o pé ou lhe darem a mão.

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O Pedro Tadeu é estúpido?

Pedro Tadeu aproveitou a polémica causada pela publicação de um vídeo no Correio da Manhã para fazer um exercício insuportavelmente ambíguo a respeito dos jornais de referência portugueses e do próprio CM – O Correio da Manhã é estúpido? Ambíguo porque não se sabe, no final da leitura, do que esteve a falar. Insuportável porque, quando se trata do CM, não saber exactamente o que dizer é estar a ser cúmplice desse projecto político. Ou melhor: ficámos a saber que o Tadeu dá o CM como o exemplo a seguir pela própria “imprensa de referência”.

Seria de rir alarvemente, mas será mais de chorar, tropeçarmos num jornalista com o traquejo do Tadeu – que, ainda por cima, se assume comunista – e constatarmos que ele consegue reduzir o CM à categoria purificada de “tablóide”. Ora, tablóides houve e há muitos pelo mundo fora e ao longo dos tempos, mas este tem uma característica essencial que o diferencia dentro do género para o que aqui nos importa: para além do sensacionalismo, para além da industrialização da calúnia, o grupo editorial onde se insere pratica uma defesa dos interesses da direita partidária e faz uma perseguição política ao PS. É a partir deste objectivo estratégico, o qual remonta logo à fundação do CM em 1979, que a utilização do arsenal tablóide envolto em populismo de direita atingiu – como reacção adversativa a Sócrates e exploração da sua privacidade – um extremo de violência nunca antes registado na comunicação social portuguesa. Esta violência nasce da parceria com agentes de Justiça que cometem crimes sucessivos no âmbito das investigações a políticos do PS a troco de promoção pessoal, blindagem política para decisões legal e moralmente questionáveis e, quiçá, proveitos monetários ou outros.

Os editoriais do CM, quando versam sobre qualquer aspecto que tenha relação com Sócrates e suas circunstâncias, juntam ao registo putanheiro e de taberna uma interpretação histórica em tudo igual à que PSD e CDS fizeram e fazem do período 2005-2011. Nela, o Estado foi tomado por um grupo de bandidos capitaneado por Sócrates, e tanto roubaram que o País foi levado à bancarrota. O CM também explica o fenómeno de tanta roubalheira, durante tanto tempo, não ter levado ninguém para o chilindró até agora: é que esses bandidos tinham a Justiça na mão, conseguindo corromper quase toda a gente e assustando os restantes. Foi preciso decapitar os mandantes na PGR e no Supremo Tribunal de Justiça para, finalmente, se começarem a investigar esses crimes. Daí o heroísmo de Carlos Alexandre, Rosário Teixeira e Joana Marques Vidal, e ainda de Paula Teixeira da Cruz e Passos Coelho. Sem eles, os socialistas criminosos continuariam à solta, têm repetido ao longo dos anos Octávio Ribeiro e Eduardo Dâmaso institucionalmente. Ora, no PSD e CDS a exploração deste discurso calunioso tem sido feita abertamente desde 2009, e até figuras que agora parecem tão decentes e razoáveis, como Ferreira Leite e Pacheco Pereira, mergulharam nele de cabeça quando estavam à frente do PSD e sua estratégia eleitoral. De igual modo, uma análise aos discursos e declarações públicas de Cavaco desde 2008 até às legislativas de 2011 exibe a mesma intenção de espalhar no espaço público a percepção de que o PS se apropriou do Estado para destruir a oligarquia da direita e substituí-la por uma outra máquina totalitária, com bancos e grupos de comunicação ao serviço do Rato para a sua perpetuação no poder, não esquecendo os espiões do Estado usados para descobrir o que andavam a pensar e a fazer os adversários políticos. Obviamente, o bom do Cavaco não podia ficar quieto e calado perante essa ameaça, pelo que defendeu os seus amigos, aqueles que dominavam a banca e a comunicação social há décadas, o melhor que pôde. Problemazinho com este modus operandi: ele requer, para se manter eficaz social e eleitoralmente, uma constante e alargada repetição no ecossistema mediático. Sem isso, reduz-se à irracionalidade donde nasceu. Em Portugal, juntando os órgãos de comunicação social alinhados à direita, e suas legiões de “comentadores”, há massa crítica para gerar na enorme maioria da população a distorção paranóide de ser possível cometer esses alegados super-crimes sem deixar quaisquer provas.

Não faltam estudos, documentação, memórias, inclusive obras de arte, acerca das formas como se manipula a opinião pública apelando ao medo, ao ódio e perseguindo bodes expiatórios. Invariavelmente, tal passa por criar um antagonismo moral que seja forte o suficiente para mobilizar a turbamulta. Não podendo real e fisicamente assassinar ou linchar Sócrates, no CM et alia tem-se feito um festim com a sempiterna acusação de que é um criminoso, um corrupto. Se com Péricles fizeram o mesmo, porque não a Sócrates, né? É tudo lixo da mesma cidade, por assim dizer. Todavia, este modo de conspurcar a democracia e intoxicar a comunidade não é uma fatalidade, antes uma escolha. Alguém, muita gente, considera ser esta a melhor forma de lutar pelo poder, e não há prurido ético nem cívico que os impeça de usarem todos os estratagemas que puderem, durante o tempo em que o conseguirem, para cometerem crimes e vilanias em nome do combate aos “maus”. Também nestes fenómenos os processos psicológicos que arrastam figuras moralistas como Cavaco para a obscenidade das golpadas escabrosas e atentatórias do Estado de direito não oferecem segredo algum. Quem se convence de que o estão a atacar, ou a preparar-se para atacar, encontra em si, no seu instinto de sobrevivência e no seu orgulho, a justificação moral para responder ou atacar primeiro com o triplo da força e da crueldade imaginada no inimigo. É o Tucídides, estúpido!

O comunista Tadeu não só meteu Marx na gaveta como lançou fogo ao quarto antes de se pirar em direcção aos “interesses do cidadão comum” que jura ver bem cuidados no CM. Será por isso que não consegue detectar a relação material e dialéctica entre um simulacro de jornalismo cujo móbil é o justicialismo mediático dirigido a certos alvos de uma exclusiva área política e a sua influência na degradação dos valores democráticos e no afastamento dos cidadãos da vida política e da cidadania. Tadeu, coitado, tendo chegado ontem à profissão, não encontra pretexto algum para recorrer aos marxistas conceitos de alienação e fetichismo ao ver um jornal que vende voyeurismo, objectificação da mulher, populismo antipolíticos, violação da privacidade e conluio com criminosos. Ou, então, consegue. E consegue tão cristalinamente que resolveu alinhar. Afinal, qual é o comuna que não curte ver um socialista a arder?

Revolution through evolution

The brain detects disease in others even before it breaks out
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10-12-years-olds can be taught how to think critically at school
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Amazingly flexible: Learning to read in your 30s profoundly transforms the brain
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Chance of colon cancer recurrence nearly cut in half in people who eat nuts
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High levels of exercise linked to nine years of less aging at the cellular level
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Reading may make us kinder, student’s research into fiction habits and personality types reveals
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Rethinking exercise: Replace punishing workouts with movement that makes you happy

. Continuar a lerRevolution through evolution

Entrevista a Yuval Noah Hariri

Este homem, historiador e professor na Universidade Hebraica de Jerusalém, escreveu um livro brilhante, do qual já aqui falei: SapiensHistória breve da humanidade. Devidamente consumido e saboreado este primeiro, claro que já comprei o segundo – Homo Deus, que é hoje motivo para esta entrevista no Diário de Notícias.

Tal como o entrevistador, isto foi o que pensei ao ler o livro, e ele confirma-o na entrevista:

Olho para o seu livro e imagino o autor como um drone dotado de inteligência artificial a sobrevoar o planeta Terra. Revê-se nesta imagem?

Até certo ponto. Eu tento ser realmente como um drone que voa a grande altitude e observa tudo o que acontece na Terra sem tomar partidos. No entanto, ao contrário de um drone ou de uma inteligência artificial, eu não me foco apenas nos acontecimentos materiais. Tento compreender como as pessoas se sentem e dou um lugar central no meu livro às questões éticas e filosóficas. Não vale a pena escrever História se nos esquecermos da dimensão ética.”

Convém frisar o facto extraordinário de este homem viver e ter sido educado (penso) no lugar da Terra onde há, provavelmente, a maior concentração de templos e locais de culto, símbolos, comunidades e excursões religiosas. Escapar imune a este habitat e conseguir ter uma visão completamente imparcial e distante das grandes questões da humanidade é obra.

Este país não é para sucateiros

Oliveira Costa, condenado a 14 anos de prisão em primeira instância por: falsificação de documentos, fraude fiscal qualificada, burla qualificada e branqueamento de capitais.

Manuel Godinho, condenado a 17 anos e meio de prisão em primeira instância por: associação criminosa, corrupção, tráfico de influência, furto qualificado, burla, falsificação e perturbação de arrematação pública.

Cálculo dos prejuízos públicos causados por Oliveira Costa: podem chegar aos nove mil milhões de euros.

Cálculo dos prejuízos públicos causados por Manuel Godinho: ninguém sabe, e ninguém se importa com isso tão irrisórios serão esses valores.

Barbies viúvas

 

Porquê de preto e porquê de véu?

As mulheres nas religiões monoteístas do Livro são realmente umas Evas. A não ser cobertas de preto, só desencaminham. Deixar o pescoço e os tornozelos à vista parece-me perigoso. (E não me venham dizer que é o protocolo, pois justamente o protocolo tem muito que se lhe diga)

Comédia no semipasquim

«Mas, no momento da proximidade do caos, ele [Passos Coelho] teve coragem, energia e determinação para traçar um rumo. Governou o país na mais terrível conjuntura em décadas e deixou-o melhor para o primeiro-ministro que lhe sucedeu. Deixou-o com um défice controlável e, principalmente, liberto da sensação de que o Estado estava capturado por figuras como Ricardo Espírito Santo ou empresas como a Ongoing. Só assim se explica que o PSD tenha sido o partido mais votado em 2015.»


Manuel Carvalho

Não há cobardia na loucura

Trump fez um raciocínio interessante na sequência do atentado em Manchester. Disse que não iria chamar “monsters” aos autores do ataque, e seus apoiantes, porque esse vocábulo os deixaria contentes, pelo que passava a tratá-los por “losers”. O interesse está na análise semântica ter vindo de alguém manifestamente incapaz de reflectir sobre o que está em causa no seu involuntário lampejo de relevância. Porque se no domínio psicológico se percebe o infantilismo de Trump, permanentemente reduzindo o mundo exterior a si próprio e aos seus códigos culturais, no domínio da gestão política e social dos atentados terroristas sobre civis importa pensar no vocabulário usado pelas autoridades que assumem os discursos públicos e institucionais na gestão e rescaldo das violências. Aqui, reina o chavão do conceito de “cobardia”. Uma “cobardia” inerente a qualquer ataque sobre civis, e que aumenta à medida que aumentar a fragilidade das vítimas de acordo com a sua idade.

Dá que pensar. Porque, nesta lógica, a “cobardia” ficaria atenuada se os terroristas escolhessem como alvos apenas indivíduos acima dos 65 anos, ou 70, ou 80, ou qualquer idade equivalente à velhice. Quão mais velho menos cobarde ficaria esse modo de matar alguém, de acordo com o pressuposto que remete para uma tabela, uma taxonomia da cobardia terrorista. Num outro plano, a escolha pelo conceito de cobardia surge como um refúgio consensual para evitar contaminações religiosas e clínicas. O cobarde não é necessária nem provavelmente alguém possuído pelo “mal”, tal como não é provável nem necessariamente alguém a precisar de diagnóstico e terapia psiquiátrica. Será outra coisa, aparentemente normal da Silva: um cobarde. E, portanto, como cobarde que é fez o que fez – matou-se para matar ou apenas matou quem pôde sem saber quem iria apanhar e estando preocupado somente com o grau de destruição e mediatização obtidos.

Creio que teríamos vantagem em mudar o automatismo de usarmos o conceito de cobardia como principal doador de sentido para os ataques terroristas sobre civis. Para começar, ele é absolutamente inútil como eventual prevenção para futuros assassinos nessa categoria. Depois, porque espalha nas comunidades atingidas um sentimento de impotência que acrescenta dano ao dano sofrido. De facto, se for a “cobardia” a explicação mais funda para o ódio alucinado que gera esses desastres, que se pode fazer? Vamos iniciar um programa de detecção e correcção de “cobardes”? Quando ouvimos e lemos os nossos chefes políticos, policiais e militares a tratarem como “cobardes” quem, do outro lado da barricada, é tratado como “mártir”, algo de perverso se espalha. A perversão de não querermos entender os processos mentais em acção naqueles que planeiam e executam este tipo de guerra sem linhas da frente nem retaguardas.

Seria preferível uma destas duas respostas, por exemplo: “Não sabemos porque nos atacam assim, mas queremos ouvir as vossas razões, ‘bora aí falar” ou “Alá, deus do amor, também foi atacado neste atentado”. Por exemplo. E, no entretanto, continuar a fazer os possíveis e os impossíveis para anular quem nos vai mesmo atacar apesar da sua tão infinitamente grande “cobardia”.

Caro director,

David Dinis escreveu uma carta ao mercado dos compradores de jornais – Caro leitor, – onde se apresenta em modo intimista. A retórica simula uma conversa olhos nos olhos, voz ora grave ora aguda, com vista à apresentação de um pedido da maior importância. No caso, trata-se de pedir dinheiro. Pouquíssimo dinheiro, aliás, tão pouco que até os pobres o poderiam gastar sem por isso ficarem mais pobres.

Irá resultar? Adorava conhecer os resultados da sua epístola aos ex-pagantes-por-notícias-e-opiniões. Daqui deste canto na sala, diria que o exercício é patético. No forma e no conteúdo. Na forma, pelo artificialismo de uma proximidade moral sonsa, exibida apenas para efeitos de cravanço imediato, de pedido de esmola. No conteúdo, porque não se consegue identificar sequer um benefício concreto que resulte da existência de um Público dirigido pelo David Dinis. Repito: o seu texto não identifica (não aponta, descreve, ilustra) sequer um (1) benefício concreto (tangível, discutível, aplicável) que resulte da existência (graças ao nosso dinheirinho) de um Público dirigido pelo David Dinis (um jornalista com um percurso de altíssima volatilidade ao serviço do mesmo posicionamento: não grama socialistas).

E o texto leva-nos para a gargalhada quando se permite estes atrevimentos: “Há uma diferença grande entre manter rigorosos princípios éticos (e humildade em reconhecer os erros) ou prescindir deles para ganhar um click fácil.” Este é um director que despediu o Malheiros e a Lucas Coelho enquanto se declara fã do João Miguel Tavares; este último, no meio da sua continuada actividade caluniosa, tendo arranjado um tempinho no jornal do Dinis para dizer-se fã do Correio da Manhã por causa do combate contra a “corrupção”. Que dizer? Que seria deste miserável país sem a coragem do CM a denunciar e meter na choldra as dezenas, centenas e milhares de corruptos apanhados graças à excelência do seu jornalismo? Aliás, dentro dos propalados “rigorosos princípios éticos” em vigor na actual linha editorial, o melhor seria promover o JMT à direcção e começarem a ajudar de forma mais assumida o CM contra esses corruptos todos que ainda permanecem escondidos ali para os lados do Rato.

Se o Público quer sobreviver, um outro tipo de inteligência, que ainda ninguém viu o David Dinis expressar, terá de ser introduzida na questão. Ironicamente, tal passaria pela actualização do projecto original – agora, adaptado às drásticas mudanças tecnológicas e comportamentais dos últimos 30 anos. Por exemplo, a introdução de inteligência artificial para começar a prestar um serviço personalizado como agregador e analista do excesso de informação disponível. Tradicionalmente, o jornalismo foi concebido como uma actividade que tinha de explorar e escavar a realidade à procura da informação relevante. Quando os meios de transmissão de informações crescem exponencialmente em quantidade e tipologias e se tornam ubíquos, o problema passa a ser o inverso: filtrar, separar, afastar o que na realidade está a mais para o seu aproveitamento prático e teórico, utilitário e significativo, de acordo com os segmentos do mercado dos “leitores”. Obviamente, o jornalismo continuará a ser sempre, e também, essa aventura da caçada, esse heroísmo em nome da cidade e da liberdade. Mas tornar um jornal merecedor de um pagamento, uma assinatura, uma taxa, requer uma radical transformação do serviço onde cada leitor passará a ser concebido como um mercado singularizado. A tecnologia disponível e o desenho de novas funções jornalísticas permitem o começo dessa mudança gradual já no imediato.

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