Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

“Austeridade dissimulada”

Desde o 25 de Abril, nunca a direita conseguiu apresentar orçamentos tão equilibrados como os de 2018 e 2019, apesar de alguns governos de direita até terem podido contar com melhores conjunturas económicas e maior crescimento do que os actuais.

Contudo, faça o governo socialista o que fizer em matéria de finanças, os tenores da direita e, às vezes, do PCP e do Bloco, arranjam sempre uma acusação. Se o governo abrir os cordões à bolsa, concedendo aumentos de salários e pensões, é “despesismo”, uma cedência irresponsável aos aliados de esquerda. Se isso acontecer a menos de um ano de eleições, é também “eleitoralismo”, rumo ao aumento da dívida e à bancarrota.

Se o governo persistir no equilíbrio orçamental, concedendo alguns aumentos, investindo em infraestruturas sociais, diminuindo a dívida pública e apostando no zero de déficit em 2019, pela primeira vez em 45 anos, então a direita berra que é “austeridade dissimulada” – como hoje voltou a dizer um pateta qualquer do CDS. Têm mesmo que acrescentar o adjectivo, porque austeridade descarada e ruinosa foi a deles e toda a gente que a sofreu a conhece.

Ora os déficits orçamentais e a dívida não aumentam só por via da despesa pública. Podem aumentar se a receita diminuir. O que a direita agora reivindica para 2019 é que se baixem os impostos sobre os rendimentos e sobre os combustíveis. Como a direita diz que é pelo equilíbrio orçamental, embora nunca o tenha conseguido, concluiu-se que a satisfação das reivindicações actuais da direita se deveria fazer à custa dos aumentos dos vencimentos e pensões, à custa dos investimentos na saúde, educação e transportes, etc. Não o dizem assim claramente, porque seria impopular, mas é exactamente isso o que dissimuladamente querem – a menos que dissimuladamente desejem a continuidade dos déficits e o aumento da dívida, o que também nunca dirão.

Quem são os dissimulados, afinal?

Bolsonaro vai em frente, tens aqui a tua gente!

Candidato à presidência do Brasil pelo Partido Social Liberal, Bolsonaro tem despertado a oposição de parte da sociedade brasileira que alega que este adotou, ao longo de sua carreira, discursos e posturas de cunho machista, homofóbico, racista, contra minorias e a favor do uso da violência indiscriminada para combater a criminalidade. Trata-se de uma figura controversa, pelo discurso a tocar a xenofobia, pela oposição aos direitos da comunidade LGBT, das minorias, das mulheres. André Ventura não se revê nessas posições, mas encontra naquele político ideias muito positivas, o que contraria a corrente. E por isso o autarca de Loures não se surpreende com a liderança nas sondagens do candidato do PSL. “Não me surpreende, honestamente”, diz, em declarações ao PT Jornal.

“É essa frescura de pensamento que os liberais ocidentais podiam aprender com Bolsonaro. E Portugal também, pois o politicamente correto está morto. E já só os que vivem à conta do regime é que acreditam nele”, assinala.


Fonte

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Uma das últimas grandes decisões políticas de Passos Coelho foi a de usar as eleições autárquicas de 2017 para fazer um teste em Loures. O teste consistiu em escolher, promover e defender um candidato cujo discurso apelasse às eventuais pulsões racistas, xenófobas e linchadoras de uma população residente num concelho dos subúrbios da Capital com histórico de violência associada a grupos étnicos ou com características discriminantes. Não sabemos que avaliação fez da experiência – embora o tratamento vexatório e calunioso dado ao primeiro-ministro e ao Presidente da República na sequência da escolha de Lucília Gago para PGR, posto que replica a mesma lógica populista, leve a admitir que gostou do resultado – mas sabemos que o seu candidato foi exímio no cumprimento do papel que lhe foi atribuído. Fez uma campanha no território do medo usando a chancela do partido e até conseguiu defender a pena de morte sem ter visto o presidente do PSD recuar meio milímetro no apoio à sua ignominiosa candidatura.

Não se trata de um caso isolado, muito menos de um erro do fulano que trouxe a Troika para nos regenerar. Já em 2010 ele tinha avisado com que códigos e tropas iria preparar o ataque ao poder, sendo o primeiro e único líder partidário com presença na Assembleia da República a introduzir o tema da criminalização de políticos por “derrapagens” nas contas públicas (precisamente o modus operandi da golpada que afastou Dilma do poder no Brasil em 2016). Um dos seus mais fervorosos apoiantes, Duarte Marques, acumulando o ódio político que o define com o ser deputado por um partido assim definido, foi para o Facebook exultar de alegria quando um certo cidadão foi detido para prestar declarações no Ministério Público, tendo usado uma exclamação triplamente mista, religiosa (“aleluia”), bairrista e judicial (“a malta de Mação não perdoa”), para dar conta do êxtase em que se encontrava pela caçada triunfal da mítica presa. E nada mais, nada menos, do que Miguel Morgado, António Leitão Amaro, Duarte Marques, Miguel Poiares Maduro e José Eduardo Martins assinaram um texto no Expresso onde garantem que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa legitimaram “o branqueamento do sistema de corrupção e de abuso do poder do passado recente” e ficarão “irremediavelmente comprometidos com o regresso provável a um regime de impunidade que tantos danos causou a Portugal”. Ou seja, não se trata apenas da violência soberba de Passos e Cavaco contra as instituições e quem as representa ao mais alto nível da responsabilidade no Estado, há uma falange de jovens turcos no PSD prontos para dinamitarem os alicerces do Estado de direito democrático se lhes emprestarem uma caixa de fósforos. O dinamite que seguram na mão chama-se ora judicialização da política, ora politização da Justiça, e Joana Marques Vidal é a santa que ostentam brasonada nas armas.

De Cavaco e do seu “falar verdade aos portugueses” ao André Ventura e ao seu fascismo refrescante com sabor a caipirinha vão pouquíssimos anos e ainda menos vergonha na cara. Como a comunicação social é um vasto oceano alaranjado, prefere-se continuar a fazer pontaria ao ministro da Defesa em vez de soar os alarmes perante os sinais que se acumulam a respeito da radicalização da direita decadente. Continua profético, portanto, e actualizadíssimo, por tanto, o dito atribuído a Manuel Bandeira: “O Brasil é Portugal à solta”.

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Sexual Harassment and Sexual Assault Associated with Poorer Physical and Mental Health Among Midlife Women
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Interpersonal Psychotherapy Helps Depressed Women with Histories of Sexual Trauma
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Research affirms the power of ‘we’
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Mediterranean diet prevents a leading cause of blindness, study suggests
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Researchers have discovered how to slow aging
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Why venting at work just makes you angrier
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Community satisfaction demands interaction
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Tancos – uma farsa em vários actos

O famoso Memorando que o director da PJ Militar, Luís Vieira, supostamente entregou, ou mostrou, ao ex-chefe de gabinete de Azeredo Lopes, general António Martins Pereira, e que fora assinado pelo major Vasco Brazão, líder da investigação, efectivamente nada diz sobre uma encenação ou um encobrimento. Zero. Isso mesmo se pode ler nesta notícia do DN, hoje publicada.

Tem razão o ex-chefe de gabinete do ministro e ainda mais o ministro.

 

O único memorando que foi encontrado pela investigação à encenação da devolução do material de Tancos estava no gabinete do diretor da PJ Militar, coronel Luís Vieira, e foi assinado pelo líder da investigação, Vasco Brazão, mas não faz qualquer referência ao conhecimento da tutela ou do ministro da Defesa. Esta carta pede agradecimentos e louvores aos militares da GNR e da polícia que integraram a investigação.[… ]

 

[…] Segundo a versão dada em tribunal, a conversa e a suposta entrega do memorando no Ministério da Defesa teriam acontecido numa altura em que os militares da PJM começaram a sentir o cerco da PJ. Segundo terá explicado Brazão, sentiram necessidade de justificar a “encenação” e conseguir apoio ao mais alto nível. Nesta estratégia terão integrado também jornalistas – há transcrições de escutas no processo – para passar a mensagem da PJM sobre o “achamento”.

O que disse Vasco Brazão e já foi “categoricamente” desmentido pelo ministro da Defesa – só poderá ser corroborado pelas duas testemunhas que ele afirma terem presenciado o sucedido: o chefe de gabinete de Azeredo Lopes, o general do Exército António Martins Pereira, ou o próprio ex-diretor da PJM, coronel Luís Vieira, cuja defesa, contactada pelo DN, também não quis fazer declarações. Isto porque nas buscas não foi apreendido nenhum memorando – tão-pouco no computador de Brazão.

 

Ideia republicana para celebrar a República

No final da escolaridade mínima obrigatória, cada aluno teria de entregar um trabalho onde apresentasse a sua visão pessoal sobre estas questões:

– “Se pudesses alterar a Constituição da República Portuguesa, o que modificarias e porquê?”

– “Qual é a origem das desigualdades económicas e sociais numa república?”

– “A nossa liberdade seria maior se destruíssemos o Estado de direito democrático?”

Depois, não receberiam uma nota de 0 a 20. Receberiam uma carta assinada pelo presidente da Assembleia da República, o primeiro-ministro e o Presidente da República. Uma carta onde desafiavam cada aluno a ocupar os seus cargos e a fazerem muito mais e melhor do que eles fizeram ao serviço do Estado, da comunidade e do mistério de estarmos juntos.

Tiro ao ministro da Defesa

Desde que veio a público a notícia sobre o assalto ao paiol de Tancos que se lançou uma campanha para abater Azeredo Lopes. Primeiro, os editorais e colunistas da bronquite crónica berravam contra a ausência de bandidos pendurados em árvores nos dias, semanas e meses imediatamente a seguir. A culpa, garantiam, era do ministro da Defesa que não punia ninguém e se limitava a repetir que não era ele quem guardava os paióis nem ele quem investigava crimes no Ministério Público. Inadmissível e a merecer imediata demissão, regurgitavam fulanos que metem no bolso milhares de euros por mês para andarem a brincar aos jornalistas cheios de cagança contra os políticos que não gramam. Depois, o Expresso lembrou-se de inovar e serviu de trampolim para se lançar no espaço público um suposto relatório de supostos serviços de informação militar onde se fazem comentários extraordinariamente coloridos – “ligeireza, quase imprudente”, “arrogância quase cínica”, “declarações arriscadas e de intenções duvidosas” – sobre Azeredo Lopes. O magnífico jornalismo do mano Costa e do Guerreiro-Poeta assegurava que era tudo verdade verdadinha, com 63 páginas (sessenta e três, senhores ouvintes) de bota-abaixo no ministro da Defesa nascidas da inteligência de “militares no activo e também na reserva”. Este pessoal altamente qualificado, e talvez demasiado inteligente para a quantidade de papel desperdiçado, ofereceu ao pagode três cenários “muito prováveis” para o episódio de Tancos, sendo eles: Tráfico de armamento para África (em específico, para a Guiné-Bissau e Cabo Verde)/ Um assalto promovido por mercenários portugueses contratados / Envolvimento de jihadistas a operar na Península Ibérica. A hipótese de termos um maduro que gamou as armas sozinho para as guardar durante umas semanas no quintal da avó e depois ir arrependido entregá-las à PJM com a ajuda da boa e disponível GNR de Loulé terá escapado aos nossos especialistas em segurança militar e contraterrorismo por óbvia interferência maligna de Azeredo Lopes no trânsito eléctrico das suas rarefeitas sinapses. Depois de todos os organismos ligados aos serviços de informação militar terem desmentido existir oficialmente esse relatório, o tiro ao ministro passou para o Parlamento, onde Azeredo foi chamado repetidamente para repetir que não era ele quem tinha de investigar o crime e que talvez fosse assim uma beca erradex estar a inventar responsáveis fechado no seu gabinete antes de as investigações terminarem.

Eis, hoje, que demos um salto quântico no fogo de barragem contra o alvo. O major Vasco Brazão aparenta ter disparado um morteiro que aterrou em cheio na peitaça do ministro. Será mais uma variante daquela cena linda e tão decente de vermos a imprensa a explorar fontes “portadoras de informações que não conheciam na totalidade”? Logo mais para a tardinha ficaremos a saber quais os danos, pois consta que Marcelo reunirá com Costa para tomarem decisões a respeito. Entretanto, temos uma história que vai de rocambolesco em rocambolesco, parecendo só ter uma linha condutora. Afastar alguém que, isso é factual, mostrou ter força para meter o poder militar a respeitar a legalidade civil.

Corre tudo bem na esquerda

O que melhor convém à esquerda, se a ideia for a de repetir o histórico sucesso desta legislatura, é vermos PS, PCP e BE chegarem ao domingo eleitoral antagonizados por questões identitárias e usando e abusando de uma retórica pessimista quanto a acordos futuros. É dessas diferenças que nascerá a legitimidade para repetirem a supina criatividade e responsabilidade democrática que constituiu no Parlamento uma maioria viabilizadora da única fórmula governativa possível face aos resultados e circunstâncias das eleições de 2015.

O PSD não teve mais votos do que o PS. Passos não derrotou Costa. O PSD teve de concorrer coligado para usar o método de Hondt a seu favor, pelo que não pode reclamar os votos da PAF como um exclusivo do PSD. E Passos chegou a ser indigitado primeiro-ministro, mas só para se esgotar a farsa da sua vitória de Pirro. Quem venceu as eleições legislativas de 2015 foi a esquerda, por isso a esquerda governou com o PS no Governo e uma maioria de esquerda no Parlamento nesta legislatura de boa memória e regeneração patriótica.

Se o PS tiver maioria absoluta, Costa mostrará que tipo de legado vai deixar na história política nacional. Irá desprezar os novíssimos amigos do (per)curso 15-19 ou provar-lhes que valeu a pena terem arriscado confundir os fanáticos nas bases de apoio respectivas? Se o PS não tiver maioria absoluta, as lições pragmáticas e os processos de comunicação e decisão na esquerda, nascidos nesta legislatura, terão tudo para se manterem e até serem consolidados, expandidos e melhorados.

A mais bela esperança é a de que o acordo de 2015 tenha quebrado para sempre o bloqueio do sistema partidário à esquerda que condicionou negativamente 40 anos de governação em Portugal. Aumentar a diversidade dos partidos que aceitem transportar às costas o madeiro do poder executivo é aumentar a liberdade de todos e de cada um.

Vamos lá a saber

O episódio das armas roubadas em Tancos e devolvidas na Chamusca com a cumplicidade de elementos da GNR e da PJM é um fenómeno caricato que serve tão-só para achincalhar na praça pública as instituições da República e seus representantes ou é a ponta do icebergue de uma disfunção generalizada com décadas nas Forças Armadas e a constituir-se como um dos mais escabrosos, ponderosos e urgentes problemas do regime?

Aprender com Passos e Cavaco

Na carta que Passos Coelho publicou utilizando Marques Vidal como pretexto – Um agradecimento a Joana Marques Vidal – podemos ler um ex-presidente do PSD, e ex-deputado, e ex-primeiro-ministro, e ex-conselheiro de Estado, a referir-se à liderança do órgão titular da acção penal em Portugal. Dificilmente se encontrará matéria mais grave para ser por si abordada, dada a sua responsabilidade pelos cargos ocupados e a complexidade e melindre das questões judiciais ao serem transportadas para o terreno político – só mesmo questões de segurança nacional envolvendo países e forças hostis ou de traição à Pátria a, quiçá, ultrapassarem em relevância o seu dever de reserva e zelo legal, institucional, constitucional e moral.

Registemos, então, o que de mais gravoso deixou assinado:

- «Não houve, infelizmente, a decência de assumir com transparência os motivos que conduziram à sua substituição. Em vez disso, preferiu-se a falácia da defesa de um mandato único e longo para justificar a decisão.»

- «[...] sobra claro que a vontade de a substituir resulta de outros motivos que ficaram escondidos.»

- «Num tempo em que, infelizmente, tantas vezes se suspeita, não sem fundadas razões, da efetiva realização da autonomia e independência de muitas instâncias dos poderes públicos, incluindo a área da justiça, a senhora procuradora inspirou confiança e representou uma grande lufada de ar fresco pelo modo como conseguiu conduzir a ação penal pelo corpo do Ministério Público.»

- «Poucos, até há alguns anos, acreditavam que realmente fosse possível garantir de facto, que não na letra da lei e nos discursos, uma ação penal que não distinguisse entre alguns privilegiados e os restantes portugueses.»

- «No termo deste seu mandato, são sem dúvida mais os que acreditam que se pode fazer a diferença e marcar um reduto de integridade e independência, onde as influências partidárias ou as movimentações discretas de pessoas privilegiadas na sociedade esbarram e não logram sucesso.»

- «Tendo presente que esse ideal de justiça, associado à exigência de liberdade e de responsabilidade, se sobrepõe, sobremaneira, a muitos outros valores e aspetos práticos nas sociedades democráticas, parece reconfortante verificar que o seu contributo para a credibilização das instituições democráticas foi enorme e digno de apreço e de estima.»

- «Não era, de resto, a si que deveria ter cabido a ação de defesa e reconhecimento de que é inteiramente merecedora. Menos compreensível é que quem pode e deve ser consequente nesse reconhecimento não esteja interessado em fazê-lo, com benefício para Portugal.»

- «Como português quero sobretudo expressar a minha gratidão por ter elevado a ação da Procuradoria a um novo e relevante patamar de prestígio público.»

- «Como ex-primeiro-ministro que propôs a sua nomeação, quero prestar-lhe público reconhecimento pela ação extraordinária que desenvolveu no topo da hierarquia do Ministério Público.»

Comecemos pelo nível denotativo. Passou a existir neste rectângulo à beira-mar abandalhado um ex-presidente do PSD, e ex-deputado, e ex-primeiro-ministro, e ex-conselheiro de Estado, que declara publicamente ter tido conhecimento de “influências partidárias” e “movimentações discretas de pessoas privilegiadas” que conseguiram impedir a “autonomia e independência de muitas instâncias dos poderes públicos, incluindo a área da justiça”, levando a que a acção penal “distinguisse entre alguns privilegiados e os restantes portugueses” durante um período de tempo indeterminado (mas sempre de décadas, talvez a começar no 25 de Abril) anterior ao início do mandato de Joana Marques Vidal. Este ex-presidente do PSD, e ex-deputado, e ex-primeiro-ministro, e ex-conselheiro de Estado, aponta para António Costa, actual primeiro-ministro, e Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente da República, e declara que ambos prejudicaram Portugal por razões que não quiseram “assumir com transparência”, antes tendo recorrido a uma “falácia” para esconderem “outros motivos” contrários à “acção de defesa e reconhecimentos de que [JMV] é inteiramente merecedora.»

Passemos para o nível conotativo. Passos está a denunciar a cumplicidade de Costa e Marcelo com certas pessoas cujas intenções e influências visam a violação da lei e a inoperância e perversão das instâncias do poder judicial em Portugal ao mais alto nível e desse topo para baixo, apanhando tudo e todos numa teia mafiosa. Ao mesmo tempo, reclama politicamente o mandato de Joana Marques Vidal, transformado na prova de que é possível combater a corrupção (sob todas as formas e feitios) a partir da acção governativa. Basta escolher uma certa magistrada para o cargo de procurador-geral da República e as décadas de sujidade e crimes na Justiça nacional desaparecem imediatamente por obra e graça de um ser puro, incorruptível, único.

Algumas palavritas teremos de largar perante este maremoto de suspeições e calúnias, caso ainda não tenhamos desistido do respeito próprio como cidadãos. Até porque os alvos estão calados e o sistema partidário e as instituições judiciais intensificam esse silêncio. Por exemplo, tendo em conta que Passos entrou na vida política nos finais dos anos 70, saber em que altura é que terá descoberto que a Justiça portuguesa estava dominada por partidos (e quais?) e pessoas privilegiadas (e quais?) torna-se imprescindível. Tal como incontornável fica a interrogação acerca dos “poucos” que achavam “até há poucos anos” ser possível termos uma Justiça livre das manigâncias dos “privilegiados” – foi o Pedro um desses poucos ou um dos outros muitos? É que na campanha para as legislativas de 2011, as quais lhe permitiram exercer o cargo de primeiro-ministro, não há memória de ter feito tais denúncias – nem em nenhuma outra altura da sua carreira como político. Terá sido porque, até Junho de 2011, permanecia num estado de ignorância a respeito da devassa que ocorria na Procuradoria-Geral da República e nos tribunais? Porém, se de tal era ignorante ao tempo, como pôde encontrar a solução para o mal, a tal que declara ser a única solução possível? Terá sido Paula “Acabou a Impunidade” Teixeira da Cruz a indicar a santa Joana ou o Pedro escolheu à maluca e teve sorte? Mais importante do que satisfazer essa curiosidade é satisfazer esta: que nome devemos dar a um ex-presidente do PSD, e ex-deputado, e ex-primeiro-ministro, e ex-conselheiro de Estado, que vem para a rua garantir que testemunhou, ou que lhe provaram ter existido, crimes de uma gravidade inaudita na História de Portugal e que, apesar de estar na posse dessas informações, não se dirigiu ao Ministério Público para contar o que sabia às autoridades?

Neste último sábado, Cavaco Silva declarou “saber muito bem o que se passa na política”. Dias antes, tinha aparecido a ofender o Presidente da República, insinuando ser um títere do Governo, e a insultar o primeiro-ministro, difamando como “estranhíssima” a substituição da PGR. Noutras ocasiões, Cavaco tem reclamado ser uma entidade superior aos políticos, não se deixando enganar por ninguém e podendo dar lições de probidade a esta e às gerações vindouras. Pelo que não arriscaremos muito se concluirmos que a sua intervenção no dia 26 de Setembro, a lançar mais gasolina na fogueira das calúnias usando JMV como arma de arremesso político, tenha sido feita tendo plena consciência do que tinha dito Passos seis dias antes. A ser assim, ficamos com os dois responsáveis institucionais pela nomeação de uma certa procuradora-geral da República – aclamada e incensada por ter conseguido prender e acusar o maior ódio político dessa dupla – a urrarem com os bofes de fora contra um regime que tomou a decisão de substituir democrática, regular e bondosamente a procuradora-geral da República no final do seu mandato. Mentes que tentem imitar os critérios invocados por Passos e Cavaco ao tratarem Marcelo e Costa como criminosos acharão inevitavelmente que a sua escolha de Joana Marques Vidal para PGR em 2012 não foi democrática, nem regular, nem bondosa.

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Want to restore faith in Congress? Elect more women
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Psychologists define the ‘dark core of personality’
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People Can Die From Giving Up the Fight
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We are predisposed to forgive, new research suggests
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Who believes in conspiracies? New research offers a theory
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Ethics of lying: When loyalty trumps honesty
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Toma lá e embrulha

Cavaco – Sou levado a pensar que esta decisão política de não recondução de Joana Marques Vidal é talvez a mais estranha tomada no mandato do governo que geralmente é reconhecido como geringonça.

Marcelo – O presidente Cavaco Silva, no fundo, disse que era a mais estranha decisão do meu mandato. Todos sabemos que quem nomeia as procuradoras-gerais da República são os presidentes, não são os governos. Portanto, a nomeação da procuradora-geral da República foi minha e de mais ninguém. Perante isso, tenho sempre o mesmo comportamento: entendo que, desde que exerço estas funções, não devo comentar nem ex-presidentes, nem amanhã, quando o deixar de o ser, futuros presidentes, por uma questão de cortesia e de sentido de Estado, e não me vou afastar dessa orientação.

Registe-se e arquive-se.

Ivo Rosa, promessa de isenção

Felizmente, Carlos Alexandre, uma vergonha ambulante para a Justiça portuguesa, não vai continuar a perverter a função que lhe foi atribuída pelo Estado no processo onde já se declarou incapaz de julgar sem preconceito e deturpação moral. Com Ivo Rosa, há a esperança de se introduzir decência e racionalidade na “Operação Marquês”. A sorte protegeu a Justiça neste processo que é uma questão de regime.

Exactissimamente

«São demasiado optimistas as manifestações públicas de regozijo por Portugal permanecer até agora impermeável ao populismo. Há um ambiente populista na nossa sociedade, alimentado e amplificado pelos actuais dispositivos desenvolvidos pelos media televisivos, radiofónicos e, cada vez mais, também pela imprensa escrita (um populismo onde os políticos se sentem investidos na condição de jornalistas e os jornalistas assumem a condição de políticos). Há um clima deletério que os media atiçam sempre que há uma ocasião favorável, recorrendo à teatralização e à dramatização que solicitam os afectos e criam clivagens irracionais, pessoalizações passionais, dilatações demagógicas. O último pico de calor neste ambiente de populismo difuso foi a substituição da Procuradora Geral de República, Joana Marques Vidal. Como pudemos verificar, o resultado do processo, como é próprio do populismo, acaba por ser a despolitização — a despolitização generalizada da matéria política. Quem tomar atenção aos pequenos e grande sinais, com olhar de analista, descobre facilmente que a escrita jornalística, mesmo nos jornais que gostam de se reclamar como “de referência” (algo hoje tão inexistente como o unicórnio), se inclina cada vez mais — num gesto que se vai naturalizando e tornando-se mimético — perante este ambiente, induzindo uma audiência e afastando progressivamente o público mais exigente. Experimentemos olhar para três títulos de artigos recentes: “Oh Joana, pensar que estivemos tão perto” (Pedro Candeias, Expresso), “Aprende, Joana: em Portugal quem manda é o PS” (João Miguel Tavares, PÚBLICO), “Joana e Lucília” (editorial do PÚBLICO, por Ana Sá Lopes,). Quem é esta Joana, nomeada com a mesma familiaridade (pelo menos nos dois primeiros artigos, o de Ana Sá Lopes é, quanto a este aspecto, de mais baixa intensidade) com que se nomeia a colega de turma? É a PGR. De repente, passa-se da função-PGR para a pessoa que a exerce, na sua identidade civil. Ou seja, passa-se da entidade pública para a pessoa privada. O jornalista expõe a pessoa enquanto tal, na sua nudez, como se tivesse a prerrogativa da objectivação e do tu cá, tu lá, criando uma proximidade artificial e arrogante que, na sua lógica extrema, vai dar ao “oh palhaço!” da invectiva popular. Se verificarmos com atenção, este tipo de títulos está hoje disseminado na nossa imprensa, mesmo quando depois nem correspondem ao tom mais sóbrio dos artigos. Mas não são apenas os títulos “sexy” que caracterizam este regime populista da escrita jornalística. Para fazer subir a temperatura populista, esta escrita jornalística recorre ao artifício da teatralidade, da tirada lúdica ou humorística: o jornalista ocupa o lugar da “vox doxa”, faz falar uma improvável “sociedade civil”. Tudo isto é servido por uma linguagem simples, por um vocabulário e uma sintaxe que são a forma necessária e consubstancial dos conteúdos simples, das ideias elementares. O editorialismo difuso e primário deste “building journalism”, que é um jornalismo sentado (aquele a que pertence hoje toda oligarquia instalada nos jornais), contaminou a escrita jornalística. E é fácil perceber que esta escrita se empenha, consciente ou inconscientemente, em imitar o modelo retórico e teatral das redes. Não se trata, aqui, de demonizar as redes. Mas a escrita jornalística (compreendo, com esta designação, também as secções de opinião) deveria ser outra coisa diferente. Não deveria, sobretudo, contribuir para as ondas de gritaria, tagarelice e teatralização enfática que emergem constantemente no espaço público. Essa escrita está destinada a falar apenas para o público que ela cria. É suicidária.»


O populismo jornalístico

Mistérios de Tancos

O caso de Tancos, pelo que se vai sabendo, tem bastantes ingredientes do clássico conflito entre polícias civis e militares. A tropa não gosta da justiça civil e considera-a intrometida em matérias reguladas pelo Código de Justiça Militar; a polícia civil e os órgãos que a tutelam desconfiam da corporação militar, imaginando que ela cerra fileiras para proteger os seus ou para ficar impune. Em consequência, civis e militares não passam informações uns aos outros e até se pregam partidas.

No caso vertente, o DCIAP tinha sido informado pela PJ, “vários meses antes” do roubo de Tancos, de que “estava a ser preparado um assalto a instalações militares no distrito de Leiria”, mas não só o DCIAP e a PJ não comunicaram esse facto às Forças Armadas e à PJM como parece que até o tentaram ocultar destas, segundo afirmou um antigo subdirector da PJM, o coronel Vítor Gil Prata, no site Operacional em 12 de Novembro de 2017, hoje citado no Público online, mas não no jornal de papel. Trata-se de uma acusação gravíssima, embora pouca atenção tenha despertado entre os fãs políticos do Ministério Público e da santa Joana Vidal.

A PJM, por seu turno, depois da casa roubada, decidiu fazer as coisas à sua maneira, sem passar cartão à PJ. As armas roubadas acabaram por aparecer graças à PJM, mas não o ladrão, que obviamente não actuou sozinho. A PJ e o DCIAP deitaram agora a mão ao ladrão e parecem ter concluído que houve conluio dos militares com o ladrão para este entregar as armas e escapar à justiça. Vai daí, a PJ e o DCIAP prenderam o director da PJM e outros militares, lançando sobre a instituição uma nuvem de suspeitas graves, ainda não bem especificadas. Falta apurar exactamente o que é que a PJM fez para recuperar o armamento, se agiu de modo legal ou ilegal e porque é que o ladrão só agora foi preso, quando há muito que era conhecido da PJM… se não também da PJ e do DCIAP.

Entretanto, o MP/DCIAP deveria ter respondido, mas não respondeu à gravíssima acusação feita por Vítor Gil Prata em Novembro de 2017. Ora, se detiveram o director da PJM, não seria também caso para mandar prender algum alto responsável do Ministério Público, sob suspeita de ter deliberadamente ocultado dos militares informações sobre o assalto iminente a uma unidade militar? Não seria mesmo caso para a procuradora-geral da República ser ouvida? Não haverá, aliás, no caso de Tancos também o habitual dedinho conspirativo do MP? Nada me admiraria!

Como é que os referidos conflitos entre civis e militares se resolvem ou previnem? Aqui têm certamente de entrar o governo e o parlamento, legislando para impor colaboração entre a justiça militar e a justiça civil. Uma solução, a fusão da PJM na PJ, foi avançada há anos por um ministro da Justiça, António Costa. Não sei se a solução era boa, mas a sua proposta foi, como é hábito, ignorada e nada mais se fez.

Para além do clássico conflito entre polícias civis e militares, no caso de Tancos meteu-se também a política, por obra da oposição de direita e da sua obsessão patológica de politizar a justiça e judicializar a política, apontando em tudo o que vai acontecendo a culpa criminosa do governo. Nunca souberam bem explicar porquê, mas logo após a notícia do roubo de Tancos os habituais vocalistas da direita começaram a exigir a cabeça do ministro da Defesa (Rui Rio é quase única excepção nesse coro). Também querem a demissão do chefe de Estado Maior do Exército, o que significa que a direita quer tomar partido no referido conflito corporativo, a saber, pelos polícias civis contra os militares – o que é mais uma imbecilidade épica desta direita desnorteada.

10 euros para quem conseguir explicar esta explicação

«Esse artigo não foi escrito tendo por base apenas uma fonte — foi escrito com recurso a várias, judiciais e políticas, todas elas bem colocadas. E essas fontes falaram ao Observador de boa fé. Simplesmente, julgavam ser portadoras de informações que não conheciam na totalidade. E aí está a origem do erro que cometemos — e que vamos trabalhar para que não se repita no futuro.»


Nova PGR: o Observador errou

Santa Joana faz o pleno entre a sua gente

PNR também agradece a Joana Marques Vidal o trabalho de equipa:

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«O PNR gostaria de ter visto a actual Procuradora Geral da República, Dra. Joana Marques Vidal, reconduzida no cargo, já que foi uma pedra no charco em que se encontrava a nossa Justiça. Como se costuma dizer, “em equipa vencedora não se mexe” e, como tal, não aceitamos a falácia do argumento pouco transparente de um só mandato. Quem dá provas de um bom trabalho deve ser reconduzido, porque nestes casos o que tem sido “costume” não pode prevalecer sobre a eficácia.

Sabemos que Joana Marques Vidal mexeu com muitos lóbis, teve a coragem de enfrentar os poderosos habituados à impunidade e que essas forças de pressão tudo fizeram para a afastar. Também sabemos que este caso serviu para que os políticos do sistema se digladiassem entre si, não porque estivessem preocupados com a nobre função da nossa Justiça, mas apenas para representarem a habitual guerrinha do faz-de-conta de pluralidade e contraditório.

O PNR agradece à Dra. Joana Marques Vidal pelo bom trabalho desempenhado e por ter conseguido, corajosamente, que a Justiça começasse a funcionar, libertando-a das teias dos interesses e influências de poder político.»