Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Coisas que me intrigam

O Ministério Público decidiu arquivar o processo que resolveu instaurar ao Ministro das Finanças. Muito bem. Mas estou aqui com uma dúvida: o que está previsto na Lei relativamente ao material entretanto recolhido pelos Magistrados da 9.ª secção do Departamento de Investigação e Ação Penal nos computadores, mesas, gavetas e, muito provavelmente, atrás dos vasos espalhados por todo o Ministério das Finanças? Lembrar que o referido Ministério se relaciona com todos os outros e com toda a certeza com inúmeras entidades públicas e privadas, nacionais e internacionais.

A Lei prevê que se destruam os documentos ou que se arquivem? Na segunda hipótese (e também na primeira), pode a Procuradora-Geral da República garantir que não acabam por ir parar à redacção do Correio da Manhã? Que o mais certo é encarregar-se de os esmiuçar e decidir que certidões vale a pena extrair e escarrapachar nas suas primeiras páginas para gáudio dos restantes pasquins.

Revolution through evolution

British austerity policies lie at heart of soaring homelessness and related health harms, argue experts
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How can voters find a candidate “authentically appealing” even though to many that candidate appears to be a “lying demagogue”?
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Alumni From Britain’s Top Private Schools Are 94 Times More Likely to Reach Elite Positions
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We view ourselves and those we care about through ‘rose-tinted glasses’, study says
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Why do we trust, or not trust, strangers? The answer is Pavlovian
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Computer reads brain activity to find out the music each person is listening to
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Can your brain testify against you?
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Garcia Pereira nas muralhas da cidade

“É inaceitável esta batota de lançar elementos de processos para a praça pública”

“Segredo de justiça está transformado em arma de arremesso”

Crítica ao Ministério Público no âmbito da Operação Lex

“A instrução está reduzida a uma farsa”

Garcia Pereira compara este caso Lex à Operação Marquês

– * –

Infelizmente, a TVI24 não disponibiliza qualquer excerto da intervenção de António Ventinhas, actual presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, neste programa onde Garcia Pereira disse o que acima está exposto e muito mais. E bastaria vê-lo a responder à primeira pergunta colocada por Judite Sousa para contemplarmos um aspecto essencial do seu papel político e mediático, proteger criminosos. Vou repetir de uma forma que seja à prova de estúpidos: Ventinhas, presidente do SMMP e nesse papel, tenta proteger (e provavelmente protege mesmo) criminosos. Quais criminosos? Os que cometem o crime de violação do segredo de justiça.

Judite começa por lhe perguntar o que tinha a dizer sobre a violação do segredo de justiça, um assunto debatido nos 40 minutos que antecederam a sua entrada no programa. E Ventinhas coloca um ar enfastiado para dizer que a violação do segredo de justiça, se existiu, é para ser investigada (nunca nenhum inquérito à violação de um segredo de justiça alguma vez conseguiu descobrir um só responsável recorrendo à minha distraída memória, corrijam-me se estiver enganado) e tal, mas que esse assunto não deve ser discutido porque é usado para não se falar da corrupção e do combate à corrupção. E foi isso que de imediato começou a fazer, produzindo mais um tempo de antena a favor de Joana Marques Vidal, a heroína que, como escreveu um fanático no Expresso, anda a fazer tiro ao alvo aos “poderosos”=”corruptos” – Pim Pam Pum… não escapa um.

O sofisma funciona captando a cognição para uma poderosa armadilha social. Realmente, discutir a corrupção e louvar o seu combate parece infinitamente mais importante do que perder o nosso rico tempo com as violações ao segredo de justiça. E o instinto ligado à sobrevivência gregária e à coerção de grupo dispara imediata e toxicamente, levando a quase totalidade das vítimas desta armadilha para uma resposta protectiva onde não se quer arriscar sofrer a desaprovação dos outros por estarmos ligados a criminosos, estarmos a “defender corruptos”. Afinal, se pertencessem à classe da gente séria não estariam metidos numa alhada judicial, bichana o viscoso bom senso. É por causa desta dinâmica antropológica que o recurso à calúnia é uma arma tão eficaz há milhares de anos e em contextos políticos, culturais e tecnológicos tão diversos. Evidências, né? Mas este é apenas o terreno onde a armadilha se monta, ela depois ganha poder mais extenso e sofisticação.

Se por cima espalharmos a ideia de que as violações ao segredo de justiça são inevitáveis e até bondosas, posto que os coitados dos jornalistas honésticos que têm o trabalho de concretizá-las na comunicação social igualmente dispõem dos sacrossantos direito e dever de “informar” a malta, então estaremos prontos para aceitar o corolário tácito – tantas vezes, e cada vez mais, explícito – de que é o que eles merecem, esses que a Joana e o bigodes apanham e vão logo meter no chilindró porque andam a roubar o povo. Todo o edifício do Estado de direito democrático, que custou a vida a milhões até ficar como fundamento da nossa liberdade individual e colectiva, desaba sob o vendaval emocional que se pretende atiçar. É mais uma vez a receita antiquíssima da demagogia e do charlatanismo a funcionar, só que agora com o recurso a meios de comunicação social, jornalistas, políticos, partidos, magistrados e altos responsáveis do Ministério Público. Acontece que, enquanto decorrem os sucessivos e sistemáticos auto-de-fé na indústria da calúnia, a violação do segredo de justiça continua a ser um crime que pode chegar a 2 anos de prisão. Ora, se um magistrado do Ministério Público for apanhado a 180 km/h na autoestrada, poderá invocar a sua profissão para se safar da multa? E se for apanhado a gamar um litro de leite num supermercado, terá imunidade por causa do seu estatuto judicial ou por causa do baixo valor do bem furtado? E se viola o segredo de justiça à fartazana, sabendo que o pode fazer as vezes que quiser sem qualquer penalização, que outros crimes muito menos exuberantes não estará também a cometer? Admitindo que os magistrados do MP estão sujeitos à Lei que vigora para os restantes cidadãos, segue-se que não só a violação do segredo de justiça é um crime passível de ser cometido inclusive por membros do SMMP como, caso tal aconteça, essa prática criminosa fica agravada por ser da responsabilidade de quem recebe do Estado poderes judiciais. Ventinhas, estás a prestar atenção? Muita concentração para o parágrafo que se segue, ó pá.

Os que se preocupam e indignam com as violações ao segredo de justiça não querem impedir o MP de investigar quem e o que quiser, desde que legitimamente. Tal como não querem interferir, como não interferem, em qualquer investigação que o MP tenha iniciado. E, acima e antes de tudo, ficarão igualmente aliviados e satisfeitos caso qualquer processo aberto pelo MP leve a condenações em tribunal que se realizem transitadas em julgado, pois tal significará que o MP, o Estado, a sociedade e a comunidade estão de parabéns e mais seguros, que os danos individuais e colectivos provocados pelos crimes em causa foram de alguma forma reparados na medida do possível. Só que, ao contrário dos pulhas, os que se preocupam e indignam com as violações ao segredo de justiça igualmente se regozijam quando um tribunal inocenta quem lhe apareceu à frente acusado pelo MP. Esse desfecho é exactamente igual, em valor judicial e como prova de boas práticas nas instituições da Justiça, ao de uma condenação – com a diferença de ser razão para um júbilo superior ao da prova de qualquer crime. Saber disto, e transformar esse assomo de dignidade em manifestação de cumplicidade com corruptos e criminosos de vária espécie, é o que intentam aqueles que deviam ser os primeiros a ficarem escandalizados e envergonhados por terem colegas e/ou superiores a cometerem crimes, seja por agenda corporativa, política ou marginal. A sua agressividade e hipocrisia no trato do tema é um indício de má formação cívica e profissional, e ainda de volubilidade moral inaceitável no seu âmbito de funções estatais ou de projecção psíquica indiciária de práticas ilegais.

Os que atacam quem se preocupa e indigna com as violações ao segredo de justiça estão cheios de pressa. Eles não querem esperar pelo eventual julgamento, sequer pelo apuramento das provas a favor ou contra uma qualquer acusação. Tentam sôfrega e febrilmente lambuzarem-se no festim das condenações instantâneas, da cobardia e animalidade dos linchamentos. É por isso que atacam quem lhes faça frente em nome dos valores da civilização onde queremos viver, seja difamando e caluniando quem ouse apelar à mais básica decência, seja espalhando a mentira de que somos impotentes para impedir a actividade criminosa no seio do Ministério Público. Podemos escutar e prender assassinos, traficantes de droga e até ex-primeiro-ministros, mas conseguir descobrir por que é que em certos processos, e não em outros, há violações do segredo de justiça que aparecem em certos órgão de comunicação, e não em outros, isso já parece ser difícil demais para as polícias e magistrados portugueses.

António Ventinhas, na senda dos seus antecessores no SMMP, anda cheio de bazófia a exibir o seu desprezo pelo Estado de direito e pela honra e direitos alheios. É o tal fulano que caluniou Sócrates e depois viu essa calúnia protegida por todo o edifício da Justiça portuguesa. Que pena tão grande a TVI24 não mostrar como Garcia Pereira o reduziu a uma figura patética que acabou a reconhecer que nem nos colegas confia. Este perigoso caluniador que tenta abafar os crimes sistemáticos ocorridos no Ministério Público é, por inerência, um corrupto.

Pobre Justiça quando não há distância alguma entre o MP e o Correio da Manhã

Nunca o miserável jornal alguma vez imaginou nos seus sonhos mais húmidos que comandaria o Ministério Público. Mas aconteceu. Está a acontecer. O que o CM diz, o MP toma por bom. Nem discute. Ainda se pensava que era o Ministério Público a utilizar o pasquim popularucho dos escândalos para fazer o seu jogo perverso. Ilusão. É mesmo o Octávio Ribeiro e o grupo Cofina que dão as ordens e que, pelos vistos, em todos os casos conhecidos, exigem informações em segredo de justiça e as publicam em conluio com certos e determinados procuradores. É esta a qualidade do Ministério Público?

 

Uma semana de enxovalho para Mário Centeno e nada acontece quando o principal órgão de investigação criminal vai atrás da primeira insinuação que possa vir à cabeça do Octávio Ribeiro.

 

MP arquiva inquérito que envolvia Centeno e Benfica.  Procuradoria-geral Distrital de Lisboa diz que nada aponta para “crime de obtenção de vantagem indevida”.

Manuel Carvalho a caminho de Damasco

Nesta peça, “Caso” Centeno, uma vitória do populismo, Manuel Carvalho faz uma meritória denúncia dos prejuízos políticos e sociais causados pelo lançamento judicial da suspeita de ser Centeno um governante que se deixa corromper por dois bilhetes para ir à bola. Prova do seu estado de conversão, neste jornalista que tem gastado os últimos largos anos a cultivar um populismo selectivo cujo alvo é invariavelmente o PS, chega a citar e elogiar a nossa Isabel, uma perigosíssima socrática.

Problema? Mais do que um. A ausência de juízo a respeito dos critérios e procedimentos do Ministério Público. A ausência de consciência sobre a voracidade instantânea do ciclo de notícias na era digital e suas consequências na percepção da actividade política. A ausência de controlo na sua perseguição contra os socialistas. E a presença de uma dissonância cognitiva corporativa e sectária que o leva para a diabolização das “redes sociais” em vez da denúncia da indústria da calúnia.

Leia-se o seu último parágrafo. Nem sequer no espaço vazio entre as letras alude aos mecanismos e dinâmicas pelos quais as “redes sociais” fazem não sei o quê. As tais “redes sociais” que talvez não passem de dois reformados, um chavalo de 13 anitos e uma acamada sob o efeito de psicofármacos, todos a teclar algures furiosamente antes do jantar. O valente jornalista não quer nem pode saber a que correspondem na demografia, psicografia e sociologia as “redes sociais” tão úteis para lhe esconder a desonestidade intelectual. Para esta figura grada da nossa “imprensa de referência”, as “redes sociais” são entidades demoníacas que estão sempre com os olhos postos nos políticos e que espalham o seu ódio insano de forma espontânea, autónoma, sobrenatural. Os jornalistas, coitados, assistem a isto tudo impotentes, eles cuja missão é a de velar pela saúde do regime. Se ao menos os políticos não fossem tão maus, cantarola este bandido a caminho da santidade…

A grande investigação à utilização dos cartões de crédito pelos ministros de Sócrates

(Repetindo um bocado o Valupi)

 

Um primeiro-ministro assim tão corrupto como o Sócrates só podia estar rodeado de ministros corruptos, insinuou-se aqui há uns anos, no tempo de Paula Teixeira da Cruz. Ele não agia sozinho. Aquilo era um bando de vigaristas muito bem orquestrado. Embora lá vasculhar os cartões de crédito daquela malta, disseram os magistrados do MP.

Pronto. Então não é que é verdade? Andaram a mamar e bem à conta do Estado.

Soube-se hoje, após prolongada e competente investigação, que um dos membros do governo de Sócrates (secretário de Estado) se excedeu nos gastos (14 000 euros, lê-se) … em livros e um outro utilizou o cartão para comprar … o quê, o quê? Revistas, lá está, no valor de 400 euros.  Quatrocentos. Com um chefe assim, não admira. Corruptos!

Ó Sócrates, pá, menos mal que não é droga. Vá lá.

Ministério Público 451

«Nessa nota, pode ler-se que “o Ministério Público requereu” o “julgamento, em tribunal colectivo, de dois arguidos, pela prática de crimes de peculato”. Justificando que “no essencial ficou suficientemente indiciado que os arguidos, que exerceram funções de secretários de Estado do Governo em causa, utilizaram os cartões de crédito que lhes foram atribuídos para fins públicos em benefício próprio”.

Especifica a nota da PGDL que esse uso consistiu na aquisição de “bens para uso pessoal, nomeadamente adquiriram livros e revistas”, compras que “não se enquadravam no âmbito funcional ou de serviço, quer pela sua temática, quer pela sua natureza”. A nota conclui assim que estas compras “não reverteram a favor do Estado, produzindo no erário público prejuízo pecuniário”.»

Secretários de Estado de Sócrates arguidos em processo sobre cartões de crédito

Qual foi o partido mais votado nas legislativas de 2015?

Foi o PS, com 1.747.685 votos. O segundo mais votado foi o BE, com 550.892 votos. E o terceiro foi o PSD, com 81.054 votos. Porém, nessas eleições uma coligação conseguiu ter mais votos do que o partido mais votado, a PAF com 1.993.921 votos. Os votos numa coligação não são para uma das partes, são para o todo da coligação. A forma como depois cada coligação distribui os lugares nas listas entre as partes é algo sem conexão com o valor dos boletins contados nas urnas. Daí resultou ter o PSD o maior grupo parlamentar, com 89 deputados, mas a coligação que se formou entre o PSD e o CDS desapareceu no acto mesmo de se fechar a contagem dos votos. A sua existência não passava de um artifício para conseguirem mais deputados do que aqueles que obteriam caso concorressem separados. Tudo se jogava, portanto, nesta lógica: PSD e CDS formavam uma coligação para validarem a sua governação obtendo uma maioria parlamentar que lhes permitisse ter o poder na legislatura seguinte – não obterem a maioria, independentemente do número de votos e deputados que cada força com representação no Parlamento registasse, significava que o eleitorado não queria que continuassem a governar. Isto é simples.

É simples e tem importância não só política, tendo dado origem a uma mudança de Executivo, como social, mostrando algo que se foi confirmando nas sondagens ao longo de 2016 e 2017. Apesar do domínio mediático de que Passos e Portas usufruíram, apesar das manipulações patifes (como foram a irresponsabilidade com que se lidou com a crise da banca para garantir a propaganda da “saída limpa” ou a canalhice da tanga a respeito da devolução da sobretaxa do IRS, por exemplo), apesar do lançamento público da “Operação Marquês” em exacta sincronia com a chegada de Costa à liderança do PS e com a entrada num ano eleitoral, aqueles que nos afundaram no resgate de emergência para tomarem o poder custasse o que custasse (ao Zé), e que usaram a invasão estrangeira para uma tentativa de reengenharia económica e social que esconderam do eleitorado em 2011 e que só foi travada pelo Tribunal Constitucional, perderam as condições para governarem mais 4 anos sem eventuais acordos com partidos terceiros. Ou seja, perderam as eleições – e com isso perderam a razão. Isto também é simples.

Também é simples e leva-nos para um exercício mental. Imaginemos que a PAF tinha obtido a maioria parlamentar. Provavelmente, muitas decisões que PSD e CDS tomariam a partir daí seriam semelhantes, se não exactamente as mesmas, das que foram e serão tomadas pelo actual Governo. Teríamos, à mesma, uma qualquer recuperação da economia, dada a conjuntura internacional, o crescimento gigante do turismo e a continuação do renovo no tecido económico com ganhos de produtividade, inovação e exportação. Só que, diferente e fatalmente, seríamos bombardeados com a cassete (ou o MP3) da TINA, da sacralização da austeridade salvífica, da violência fanática sobre a população, os mais pobres, a classe média e as pequenas e médias empresas como resultado da culpa dos socialistas, esses demónios corruptos e estróinas. Seria alucinante, pois não haveria forma de saltar para este universo paralelo e constatar como estamos tão bem ou muito melhor economicamente do que estaríamos com mais 4 anos de Passos e restantes traidores. Quem nos afundou em 2011 chegaria a 2019 no poder e com um discurso feito de sórdidas mentiras impossíveis de desmontar. Isso seria muito complicado – e trágico num grau que até neste palco da imaginação fica como avantesma tenebroso.

Revolution through evolution

Artificial intelligence predicts corruption
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Civic Engagement Can Help Teens Thrive Later in Life
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Inherited IQ can increase in early childhood
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Incoming Journalists Are Tech Savvy but Lack ‘the Basics,’ Finds CU Boulder Study
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Flourishing Under an Abusive Boss? You May Be a Psychopath, Study Shows
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Curcumin improves memory and mood
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Delicioso

Ferreira Leite considerou que o processo “Face Oculta” já ultrapassou a mera dimensão jurídica, tornando-se também numa questão política, porque «existem certidões sobre escutas que envolvem o primeiro-ministro».

Ferreira Leite considerou ainda inadmissível que os responsáveis máximos pela Justiça em Portugal, ou seja, a Procuradoria-Geral da República e o Conselho Superior da Magistratura, estejam a "empurrar" responsabilidades sobre o destino a dar a essas escutas.


Manela, 2009

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Então eu já tenho medo de ouvir o telemóvel com medo de estar a ser escutada, agora ainda vou ter medo de sair de casa com medo de ser seguida?


Manela, 2009

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Considero esta situação inconcebível”. Assim começou por falar Manuela Ferreira de Leite sobre o Bloco de Esquerda contestar a recondução de Miguel Frasquilho como chairman da TAP e sobre as acusações feitas ao antigo deputado do PSD por ter recebido dinheiro do saco azul do GES através de uma conta offshore na Suíça. “Existe um clima de suspeição inaceitável na nossa democracia e não podem dar uma machadada tão grande sobre uma pessoa que não fez absolutamente nada por causa de suspeições. Ele já explicou o que havia para explicar, não há ninguém nesta vida que saiba qual a origem do dinheiro quando nos pagam o ordenado.”

E continuou, dizendo que antes de ser concretizada qualquer acusação, Frasquilho “já foi punido”. “Já o punem em plena Assembleia da República? É uma alimentação terrível por parte dos deputados por causa desta desconfiança que se está a instalar no país. Ele é um homem muito trabalhador e muito honesto e, como o conheço, acho que é uma suspeição inacreditável”, clarificou.


Manela, 2018

Bela merda, ó Financial Times

O que aconteceu no Presidents Club é tragicamente hilariante. Durante 33 anos, um grupo de maduros com dinheiro para esbanjar doar passava uma noite num hotel de luxo onde se realizava uma angariação de fundos para causas sociais. Aquilo metia comezaina, bebedeira e a mistura de homens poderosos e influentes com mulheres atraentes e simpáticas. Toda a minha gente sabia ao que ia, a rapaziada para se divertir com amigos passados ou futuros em ambiente de bacanal, as raparigas para trabalharem naquele ambiente, com ou sem gosto pela função contratada ou funções outras que quisessem desempenhar (não sabemos nem temos de saber nada a respeito desta parte que extravasava o acordo com a entidade que lhes pagava pela sua presença). Caso as senhoras não gostassem do alvoroço, podiam ir embora quando quisessem e roubar uns croquetes para se vingarem. Em 32 anos ninguém se queixou, aparentemente, nenhuma lei foi infringida, supõe-se, e muito dinheiro foi assim conseguido para fins socialmente valiosos. Neste ano, o Financial Times resolveu dar cabo da reinação.

O relato que a jornalista infiltrada faz é vexante, concordo, só que não para os homens assim retratados. Os apalpões, as mãos por dentro da roupa, os convites ou pedidos para se enfiarem numa cama e até a exibição de um pénis por algum taralhouco são comportamentos e atitudes correctos, esperados e bondosos naquela situação. Porque a situação tinha essa razão de ser: o seu sucesso, a angariação de fundos, dependia do seu método, motivarem os convidados com álcool e mulheres sexualmente apelativas e disponíveis num qualquer grau para se consumar a manipulação dos machos presentes e suas contas bancárias. A reunião dos desinibidores químicos e hormonais com a pulsão competitiva para fins beneméritos parece-me uma fórmula irrepreensível seja qual for o critério de avaliação. O que fica como vexante é a consequência mais importante deste oportunismo jornalístico: muito dinheiro que era assim desviado dos ricos para acudir aos pobres irá parar a outros ricos. Ou seja, aquela mesma rapaziada não vai deixar de ser quem é, não vai deixar de fazer o que sempre fez, vai é mudar de poiso. E não consta que seja difícil voltarem a frequentar hotéis de luxo com comidinha da boa e boas prontas a serem comidas, com copos cheios e quartos vazios. Deixam é de ter a chatice, quiçá o supino gozo, de brincar aos filantropos no 53 Park Ln, Mayfair, Londres.

Garoupa na claque da Joana

Nuno Garoupa, por mérito próprio e ecossistema propício, vem conquistando um lugar de crescente relevância no exíguo grupo que se dedica a pensar a política portuguesa. Prova maior disso, pondo de parte as suas obras e intervenções de outro fôlego nas áreas do Direito e da Economia, os recentes artigos onde analisa a deriva decadente do laranjal: A crise do PSD (I): o sorpasso | A crise do PSD (II): a implosão | A crise do PSD (III): a sociologia eleitoral do “passismo”. O tríptico é um ensaio de recorte académico, onde a argumentação convoca a realidade para sustentar as conclusões. Tem factos, tem números, tem matéria suficiente para se concordar ou discordar sabendo-se do que se está a falar.

Passemos para outro bicho: Mandato único. Estamos perante um panfleto. O primeiro parágrafo podia ser dado a estudantes universitários como exemplo do que é um registo falacioso, propagandista e sonso num autor que se concebe sofisticado na expressão e na pose. A intenção desse parágrafo, como do restante texto, é o de se inscrever no caudal de expressões mediáticas a favor da continuação da Joana Marques Vidal como procuradora-geral da República por mais seis anos. E porquê ou para quê? O texto não o revela, pois é um chorrilho de vacuidades, distorções, juízos subjectivos e intriguistas.

Eis o que o autor quer que consumamos acriticamente: que (i) “Joana Marques Vidal foi a melhor PGR da democracia” e Pinto Monteiro foi um “absoluto desastre“, e que (ii) a não recondução da PGR ficará como uma “punição” do Governo por causa do processo Sócrates. O embrulho destas sectárias e torpes mensagens torna-se a única razão para a existência do artigo naquela extensão, não passando os acrescentos de banalidades para trocar os olhinhos ao patego. Contrariamente ao que fez nos textos sobre a crise no PSD, neste discurso sobre JMV e a questão do seu mandato não apresenta dados de espécie alguma. Dizer que JMV foi a melhor PGR da democracia ou ter dito que JMV foi a melhor trapezista da história do circo equivale-se em veracidade na economia da sua retórica. Não há forma de sabermos a que se refere factualmente, nem mesmo quando usa manipulações como “Chegou num momento em que a PGR estava completamente descredibilizada e deu-lhe nova vida com um combate mais efetivo à criminalidade de colarinho branco e à corrupção.” visto ignorarmos quais sejam os pressupostos dessa conclusão. Especialmente no caso de Pinto Monteiro, a ênfase adjectiva obrigava-o, se a honestidade intelectual e o brio cívico tivessem no Garoupa regimento constante, a fundamentar e explicitar a que se refere. Estamos a falar de alguém que se assume como especialista em questões de Justiça, não de um barrasco qualquer cuja impotência e iliteracia só alcançam o insulto. De que desastre está a falar? Queria que ele tivesse pressionado os procuradores? Se sim, quais? Se sim, para quê? Ou pretende, no seu modo sonso, sugerir que Pinto Monteiro influenciou o desfecho de algum processo de forma incorrecta? Se sim, qual? Se sim, como? Ou pretende, nesse modo irresponsável, sugerir que Pinto Monteiro cometeu alguma ilegalidade, que foi corrompido ou corruptor?

Esta figura quer que Joana Marques Vidal se mantenha mais seis anos à frente da PGR como prémio por ter enjaulado Sócrates e como garante de que o Ministério Público está nas mãos da “gente séria”. Isto não é paleio de académico. E apenas académico é algo que o Nuno Garoupa está muito longe de ser.

Sugestão de novo programa para a SIC

Em vez do Supernanny, que se revelou demasiado sick para a sensibilidade portuguesa, a estação de Carnaxide poderá evitar prejuízos de maior pegando na mesma equipa de produção, quiçá na mesma psicóloga, e mudando o alvo: de crianças com problemas para casais de adultos onde haja violência doméstica.

A vertente pedagógica está assegurada com igual ou até maior relevância, o intento de alargar à sociedade o debate respectivo idem, o objectivo de ajudar os casais a melhorarem a relação entre si e com os seus familiares, amigos, colegas e vizinhos, ajudando-os a estabelecer regras e limites e melhorando a comunicação entre todos, criando assim uma dinâmica familiar mais saudável, aspas.

E que dizer da vertente do espectáculo? É fácil prever que o bom público ficaria colado ao ecrã a babar-se de excitação ao ver aquelas sessões de caralhadas, loiça partida, telemóveis devassados, portas arrombadas, murraças no focinho, humilhações na via pública e no emprego, abusos sexuais, tortura psicológica e física, idas ao hospital e à polícia. Tudo acompanhado “in louco” pela psicóloga a tirar notas e a dar excelentes conselhos.

Fica a ideia, absolutamente gratuita.

Entender parte do essencial do que se passou no nosso país

A 16 de Outubro do ano passado, Costa fez uma declaração ao país na sequência da vaga de incêndios começada no dia anterior. Não há nada nessa prestação que se possa considerar errado se a objectividade guiar a análise. O registo foi natural perante as circunstâncias, com uma gravidade na pose, etiqueta nos pêsames e determinação no discurso que não teriam causado qualquer reacção negativa caso o contexto fosse de normalidade institucional. Só que não o era, como o dia seguinte iria provar explosivamente quando o Presidente da República fez a sua muito própria declaração ao País usando o mesmo pretexto, os incêndios do dia 15. Nela exigiu a demissão da ministra da Administração Interna, simulou haver espaço para uma crise parlamentar e tomou posse monopolista da exploração emocional e populista do número de mortos em incêndios até aí. Passavam a ser para seu uso exclusivo, um trunfo ou guilhotina que se reservava o direito a usar no futuro contra o Governo e o PS como bem lhe aprouvesse. Bastaria ficar algo desgostado com qualquer uma das medidas que o Executivo iria tomar nos meses e anos seguintes, jurou. No discurso de Ano Novo voltou a agitar essa carta.

A rapidez, retórica teatral e instinto assassino de Marcelo na ocasião foram aplaudidos por uma sociedade que vinha desde o incêndio de Pedrógão a ser intoxicada com a politização demagógica e sensacionalista que a direita e certos jornalistas fizeram intensa e ininterruptamente numa dinâmica sórdida que misturava as eleições autárquicas, Tancos e a caudalosa soberba da imprensa e sua leviandade irresponsável. A ideia de que o Governo devia “pedir desculpa”, demitir ministros e vermos Costa de baraço ao pescoço a chorar convulsivamente espalhou-se também incendiária. Marcelo, ao castigar Costa e a ministra malvada, estaria assim a fazer justiça, a representar o povo contra os malandros dos políticos que nem sequer nos conseguem proteger dos fogos em Outubro. Pelo caminho, Marcelo igualmente dava energia à direita ao atingir tão violentamente o Governo e a imagem de Costa. Vendo o episódio a partir de uma varanda do Palácio de Belém, havia fogo-de-artifício jubilatório debaixo do céu e fogo de barragem em cima de S. Bento.

Estamos em Janeiro. No sábado passado foi divulgado que se descobriu terem sido os dois incêndios no Pinhal de Leiria de origem criminosa, cujas chocantes imagens ficaram como símbolo internacional dos incêndios de Outubro em Portugal. Num deles foi usado um engenho artesanal para atear o fogo. Ou seja, o autor ou autores do crime que destruiu 86% do pinhal contaram com as condições meteorológicas especiais e completamente anómalas previstas para esse dia, onde o vento forte provocado pelo furacão Ophelia em cima da seca prolongada e das altíssimas temperaturas iria levar a incêndios incontroláveis. Noutros casos foram as queimadas a provocar a multiplicação dos incêndios em diferentes pontos do País. E no incêndio da Lousã terá sido a queda de uma árvore sobre uma linha de média tensão a espalhar fagulhas que acabaram por levar à destruição de 43.941 hectares de arvoredo e vegetação. Também neste dia houve grandes incêndios na Galiza.

Uma das expressões usadas por Marcelo no seu número de Outubro que mais impacto tiveram no estado de estupefacção e impotência, dor e revolta, da comunidade está nesta frase: “Quem não entenda isto, humildade cívica e rutura com o que não provou ou não convenceu, não entendeu nada do essencial do que se passou no nosso país.” A potência da frase estava em relação directa com a sua ausência de significado. Era por nada poder dizer que podia ser espelho para justificar o que se quisesse. Que se tinha passado, afinal? O Estado tinha falhado? Mas em quê e quando? Falhou porque Costa não montou um espectáculo de hipocrisia e cinismo para acudir à voragem mediática e ao desamparo inevitável numa tragédia impossível de evitar? Hoje sabemos que a exploração política e comercial dos incêndios de 2017 e das suas vítimas não beliscou a integridade do actual primeiro-ministro, pois o seu exemplo foi exactamente o oposto. O mesmo não se pode dizer de muita gente que usou a devastação para uma literal política da terra queimada. A mesma gente que atacou Marcelo por causa do que declarou emocionado em Pedrógão, quando quis consolar quem o rodeava já madrugada adentro e disse “o que se fez foi o máximo que se podia fazer“. Reflectir sobre o efeito que essa perseguição teve no Presidente da República, gerando um provável incómodo ou até sentimento de culpa face ao que se veio a apurar nos meses seguintes, corresponde a entender parte do essencial do que se passou em Portugal a partir de 17 de Outubro à noitinha.