Todos os artigos de José Mário Silva

Desta não estava à espera (2)

Já é oficial. O Gara anunciou a lista de personalidades internacionais que apoiam o processo de pacificação do país Basco e oferecem os seus préstimos para ajudar “em tudo o que seja humanamente possível”. Francesco Cossiga, Mário Soares, Gerry Adams, Kgalema Motlante, C. Cardenas e Pérez Esquivel.
Por algumas horas andou por aqui um pequeno exclusivo noticioso. Pode ser que nos dêem um “Prémio Gazeta” lá mais para o Natal.

Terror no Shopping

Estive hoje num dos aprazíveis templos de consumo do eng.º Belmiro. Por outras palavras, fui fazer compras ao Continente. A surpresa deu-se em casa, logo ao descarregar a tralha: no meio de alhos, douradas e enchidos variados, reluziam três T-shirts cor-de-rosa. Que não tínhamos, se bem me lembrava, colocado ali.
Ficámos largos minutos a mirar as clandestinas peças de roupa, como se nos tivesse surgido uma Virgem Maria na tosta mista matinal. Aquela aparição berrante seria um sinal do destino ou tão somente uma distracção de um outro consumidor matinal?
De súbito, hipótese mais sinistra subiu-me ao encéfalo: tratar-se-á de uma nova e insidiosa forma de terrorismo? Não contentes em infundir medo no nosso colectivo coração, os inimigos jurados do modo de vida português podem estar a querer modificá-lo do interior. E que melhor veículo para o totalitarismo behaviorista do que as nossas compras?
A quem obedecerá o insidioso sabotador, não sei. Só sei que amanhã as minhas Budweiser Budvar podem ser substituídas por botelhas do horrendo vinho kosher de Belmonte. Os meus bifes de mertolenga podem ver-se trocados por hambúrgueres. O belo chouriço de porco, substituído à má fila por posters de Maomé.
Hoje T-shirts cor-de-rosa, burqas cinzentas não tarda nada. Quando desse por mim, estaria convertido numa outra pessoa. Certamente mais ajuizada e com melhores hábitos de higiene. Mas mais aquiescente aos ditames dos nossos pérfidos e dissimulados inimigos.
Vigie bem o seu carrinho das compras, desconfiado leitor: pode ver-se em breve a empurrar uma arma de destruição massiva. Impérios já ruíram por muito menos.

O regresso do regedor

Jorge Coelho descobriu-se aterrorizado pelos projectos do seu partido para a área da Saúde. A ilustre eminência parda declarou mesmo “a maior das desconfianças dos tecnocratas a tratar de coisas que competem aos políticos”.
E tem toda a razão. Se começam a ouvir os técnicos acerca de questões tão claramente “políticas” como o número de maternidades necessárias a Portugal, onde é que isto vai parar? Não tarda nada, já um bom soba não pode distribuir mercês a bons amigos e clientelas úteis.
Evitar esse pesadelo é um imperativo de cidadania. Devolvam aos nossos excelentes políticos a inteireza das suas competências. Deixem-nos construir um hospital em cada paróquia, uma maternidade em cada freguesia. Mandem a co-incineração para o estrangeiro, plantem um apeadeiro do TGV de cem em cem metros, tragam aeroportos em barda. O país cor-de-rosa agradece.

Antes que os amigos das FARC me visitem

Aqui fica a atrasada boa-nova: como já por cá tinha sido anunciado, o Caderno de Verão fechou e do seu feio casulo saiu o borboleteante 5 Dias. Um blogue em que cada dia da semana é entregue a um escriba, que trata de convidar amigos, conhecidos e credores para animar os dias à malta. Não posso dizer muito mais pois a coisa é incompatível com o meu browser arcaico, não me permitindo grandes leituras. Mas, a ajuizar pelo naipe de artistas residentes — Nuno Ramos de Almeida, Rui Tavares, Ivan Nunes e António Figueira — aquilo promete. Ah; e a Joana Amaral Dias também por lá escreve.

A Arrojada Parúsia II

Arrebatados pela Segunda Vinda de Mestre Arroja, os Blasfemos andam imparáveis. Agora, descobrimos que a proposta de cedência remunerada de votos não era um improvável exercício de ironia. Afinal, era apenas uma forma de dar “ainda mais encanto ao fascinante mundo da especulação financeira”.
Claro que o importante é mesmo jardinar os tais encantos, não impedir que o poder político fique apenas ao alcance de quem tem capital para investir. Afinal, a fazer fé nos Blasfemos, já toda a gente vende o seu voto a troco de promessas mirabolantes, portanto nem iríamos dar pela diferença. Já que suportamos o Valentim, podemos bem passar a fazer dessa chaga vergonhosa a regra oficial.
Presumo que a venda antecipada dos proventos laborais futuros de crianças e adolescentes não seja ideia a deitar fora sem cuidadosa ponderação pelos auto-nomeados cardeais do pensamento ultra-liberal (nada mais natural, depois das vénias e do beija-mão a quem já se entreteve a gabar as virtudes económicas da escravatura, fechando o olho míope ao pequeno pormenor da liberdade dos envolvidos). Tudo a bem dos “encantos” da especulação mobiliária; mas desde que não envolvesse os rebentos dos liberais, é bom de ver. Essas coisas da compra e venda da consciência são mesmo próprias do povinho: gente ilustrada fica de fora, a intermediar e dirigir tais transações cheias de encanto.

A Arrojada Parúsia

Nem vale muito a pena glosar pela milésima vez as fantasias alucinadas do regressado Professor Arroja, agora aclamado como santo padroeiro da Liberdade, nem mais. Do insigne combatente contra a tirania, recordo uma intervenção na TSF, já há um ror de anos, em que ele defendia o futebol como sendo a indústria de maior êxito, mesmo internacional, do nosso piolhoso país. Vai daí, bom, bom seria aplicar os seus métodos de gestão ao governo e convidar o supra-sumo dos empresários de sucesso, Pinto da Costa, para nos capitanear.
Não riam, que a coisa é verídica e séria. Para uma legião de académicos sem contacto com as realidades do nosso país, é mesmo boa ideia deixar os empresários lusos em roda livre. Que a coisa redunde quase sempre em conluios, cambalachos e outros arranjinhos limitadores da concorrência e da liberdade de escolha, é uma minudência sem qualquer interesse. Importa é o lindo mundo da teoria, onde o futebol joga com toda a lisura, sem fugas aos impostos nem corrupções, onde um pacote de sal tem o preço escolhido pelo mercado e onde figuras como Pinto da Costa e Valentim Loureiro são faróis a iluminar o nosso destino glorioso, entregues à Mão Invisível.
A liberdade de sermos dominados por quem pague mais. Eis o arrebatador programa destes génios incompreendidos.

Uma Aspirina para os pobres refugiados

Dos destroços do De Vagares, acabámos de resgatar duas pobres criaturas, oferecendo-lhes pernoita, uma sopita quente e exemplares do último disco da Marina Mota.
Fica assim explicada a ruidosa presença deste senhor por aqui. E ainda aguardamos que o outro refugiado se manifeste, assim lhe passe o trauma do naufrágio.
Peço desculpa por não ter anunciado a coisa com as trombetas exigidas pelo protocolo deste blogue (que, segundo um comentador, “ainda cheira a Daniel Oliveira” e de acordo com outro goza da supina glória de ser um dos “blogues emblemáticos de Daniel Oliveira”) mas estava em reunião com o camarada Guterres a negociar as contrapartidas.
Novos amiguinhos de folguedos: portem-se bem, não exibam as partes pudendas em público e não atirem cocó aos visitantes. De resto, estejam à vontade.

Mestre Yoda encontra Mr. Spock

Não percam, pelas alminhas, a crónica de hoje do inultrapassável João César das Neves. Ali, o nosso profeta preferido entretém-se a perorar sobre as obsessões dos fãs da série Star Trek. Tudo para nos explicar, bem devagarinho, como é triste entregarmos as nossas vidas, os nossos anseios e desideratos a ficções patentemente mal amanhadas. Ideia com que concordo, aliás.
O problema é que ele escreve coisas como “erigir um mundo de ficção como orientação para a vida, que muitos consideram alienação ou manipulação de massas, está longe de ser exclusivo do Star Trek” e “em vez de entregarem a vida a um princípio abstracto ou um propósito pragmático, dedicam-se ao que sabem ser mentira, um mundo de ficção em que realmente não acreditam”, sem reparar na acuradíssima descrição que está a fazer da religião em geral e da sua em particular.
Só por exemplo, se tivesse de escolher entre o Império Klingon e Fátima, elegendo a trama mais bem urdida e a ficção mais convincente, não hesitaria em optar pelos domínios do Chanceler Martok. E entre o corrente Papa e Mr. Spock, como fonte de sabedoria e bom senso, ficaria na dúvida.
Mas tudo bem; live long and prosper, como dizem os meus amigos vulcanos, entre outros. A cada um a sua ficção preferida. Mesmo que inclua disparates patentemente absurdos como “liberdade, justiça, humanidade, raça, classe, ciência, progresso, natureza, prazer”, algumas das “propostas de filosofias, partidos e movimentos para substituir as religiões”, segundo o visionário colunista do DN.
Pelo caminho, César das Neves ainda refere um divertido e famoso sketch com William Shatner, embora não fique claro se percebeu que se trata de uma ficção humorística. Nada de surpreendente, afinal.

Oxímoro do dia: Miguel Sousa Tavares fala de Arte

Há uns sábados, no “Expresso”, Miguel Sousa Tavares dedicou-se, mais uma vez, ao seu entretém preferido: falar daquilo que desconhece. Desta vez, o alvo foi o negócio estatal com a Colecção Berardo. Teorizava o popular omni-especialista que, no mirífico “estrangeiro”, quem quer expor uma colecção de Arte ou cria um museu privado ou oferece as suas obras e pronto. Assim: «se alguém tem uma colecção de pintura com milhares de quadros, tem obviamente um problema entre mãos: onde os guardar, como os expor. Nos países mais “normais”, o problema resolve-se habitualmente com a doação da colecção ao Estado ou com a criação de um museu privado. Mas em Portugal as coisas não se passam assim».
É bom de ver que em Portugal as “coisas” passam-se sempre em obediência a sinistras cabalas: Berardo locupletou-se com um montão de massa, a ministra delapidou aquela entidade multiusos convenientemente chamada “os nossos impostos”, etc. O costume, portanto.
A bem da verdade, o BE e o PCP trataram de imitar os MSTs, as Zitas Seabras e similares que por aí pululam: todos denunciaram o contrato “leonino”, a negociata “chocante”, etc. Tratar-se-ia de «um aluguer caríssimo, inédito em qualquer parte do mundo»; a deputada Seabra nem sequer conhecia «outros exemplos em que isto tenha sido feito assim».
Não conhece porque não dava mesmo jeito nenhum procurar. Basta ir a Espanha para se dar com um paralelo bem aproximado: o que deu origem ao Museu Thyssen-Bornemisza, em Madrid. Vejam o historial da coisa. Está lá quase tudo: um vultuoso pagamento anual do Estado aos donos da colecção, a permanência do Barão Thyssen como presidente honorário da Fundação criada para o efeito, a posterior compra a preços actualizados, etc. Mais: no caso espanhol, os 5 milhões de dólares anuais acordados nem sequer se destinavam a enriquecer a colecção; apenas a pagar aos seus proprietários. Ainda por cima, o palácio Villahermosa teve de ser remodelado, a expensas do Estado espanhol.
Mas o que interessam os factos a quem quer mandar umas bocas? (A bem da verdade, só encontrei uma análise serena e clara do contrato.) Os museus espanhóis são giros para visitar; mas investigar as suas origens é uma seca. Ainda por cima, MST nem sequer “recomenda” por aí além que se conheça a Colecção Berardo, algo natural para alguém que tem como ideia perceptível de Arte cerâmicas com retratos de Pinto da Costa.

10.000

Que é que pensavam? Acabamos de passar mais um marco no Aspirina. E isto sem termos feito nada, nós os autores. Pois é. Ninguém reparou, eu também não, mas o comentário número 10.000 foi recentemente colocado aqui.

Concedendo: nesse sector, há um vaivém razoável, já que somos imensamente queridos pelos semeadores de spam. Eles põem, nós apagamos. Mas lá se vai conseguindo uma seara limpa.

É essa seara, que um dia a História lerá (às vezes, um mestrando aflito chama-se «a História»), é a ela que os nossos comentadores andam fazendo. Para nosso prazer e nossa instrução. Mandem sempre.

Vida de cão

As nossas relações nem eram más. Seguiam a lógica duma rotina antiga, que se foi instalando, depois de tomarmos juízo e derrubarmos os muros da nossa guerra fria. Que também a tivemos.
Ele acampava no terraço, eu tinha aposentos na marquise. Sentindo a dona fora, montávamos arraial na sala das visitas e trocávamos gentilezas. Ele inventava-me petiscos. Eu deixava-o lamber-me a tigela do leite e dançava-lhe às vezes no lombo o crazy-horse.
Não era fácil a partilha da dona, mas lá nos arranjávamos. E, quando ela o levava ao jardim, cheguei a ter saudades dele.
Há dias a patroa saiu, a uma noite de canasta. Eu fiquei a dormir, mas ela deixou ao menino a televisão ligada, para ver as notícias. A estúpida!
Eu bem que o estranhei quando ela regressou. Pareceu-me altivo, ensoberbado, a olhar-me lá do alto, nas suas tamanquinhas. Roçou-se, sem pudor, nas pernas da patroa, e acho que lhe impôs dormir no quarto dela. No tapete, estou eu a supor!
Gastei o dia seguinte a observá-lo. E, sempre que o olhava, era um tipo com direitos o que via. Eu seja cão se não era! E quanto mais eu olhava, mais direitos me exibia. Recusou passar a tarde no salão, desdenhou-me a tigela… E à noite, quando me viu ir às meninas, foi logo delatar-me à dona. O acusa-cristos! Não dormi toda a noite.
Na manhã seguinte exigi um conselho. E ela, muito dengosa, a fingir-me hipocrisias nos bigodes, enquanto me sugeria hierarquias, regras de precedência, protocolos… Acabou a confessar-me que ele tinha uma comenda, um dia nacional só para ele. Que finalmente alguém lhe fizera justiça.
Eu fui à minha vida, não me dei por achado, tirei informações no bairro. E, quando ela saiu, ofereci ao menino uma trela. Na coleira da trela ia o pescoço do justiceiro, um deputado qualquer, pelos vistos conhecido. Ficou insuportável, de vaidoso, e quem o queria ver era na rua, a levar o político ao jardim.
Soube-se ontem que afinal a comenda era falsa, e ele teve que soltar o benfeitor. Voltou a casa sozinho e devolveu-me a trela, acabrunhado. Metia dó, coitado! Quando um tipo se fia em certos gajos, é raro acabar bem.
Vai ser um rebuliço cá em casa, mas deixei de falar ao parvalhão.

Jorge Carvalheira

Sena, Sophia, Pacheco e quem os vê

De um amigo meu, magnífico poeta, seguríssimo ficcionista, excelente ensaísta, recebi um e-mail. Era a propósito do meu post de há dias, «As gavetas lá fora», que comentava um post do Abrupto. Porque eu não sou digno de ser o único a ler os juízos do meu amigo, e porque eles podem não ser desastrados de todo, e porque seguramente haverá quem não condivida os seus pontos de vista e saiba dizê-lo, aqui vai o que eu li esta manhã.

«Fernando…. E então as Três Marias não publicaram o livro delas durante a ditadura? E a Natália Correia, se não erro, uma antologia de poesia erótica que também foi apreendida? E não havia putas no país, coisa indecente?

«O tipo de conversa do P Pacheco pode reduzir-se a: este ano, por causa do frio, a natureza não fabricou boa fruta… Só que a perspectiva que ele adopta é no fundo a neo-realista e perfeitamente antiga e inútil e despropositada, hoje já não tem sentido falar-se assim… O que é uma obra-prima, aliás? Para o Pacheco e para nós são as mesmas? O Pacheco simplifica tudo, pensa que é um político clássico culto, o incorrupto inteligente… Mas tudo o que ele diz é inútil… só teria interesse eventualmente há 30 anos… O P Pacheco acredita que está a fazer história e que é personagem importante dela, por isso convém-lhe acreditar que a correspondência do Sena e da Breyner, tão líricos e revolucionários que eles eram, é que conta a história secreta do fascismo e retrata o país… E se conta só a mitomania de cada um dos autores, seres de eleição e narcisos na pátria miserável e miseravelmente habitada por gente que nunca ia à Grécia nem tinha uma visão metafísica da pátria? Nisso o P Pacheco e eles coincidem: dá-lhes jeito a todos que exista um espaço geográfico e imaginário onde eles podem situar-se como pensadores e heróis subjectivos, onde eles poderiam ser admirados se o povo fosse mais fino, onde eles apesar de tudo são figuras de excepção incompreendidas e exiladas… quando tudo o resto é vil… Sabes que mais, Fernando? Puta que os pariu a todos sem excepção… :-) ».

As gavetas lá fora

José Pacheco Pereira republica no Abrupto a sua crónica de ontem no «Público» sobre as gavetas literárias vazias. É um texto interessantíssimo, onde se comenta a correspondência, recentemente publicada, entre Sena e Sophia. Mas é a segunda vez (pelo menos) que JPP aborda o tema das gavetas. Quando o fez anteriormente, a 13.2.2003, no mesmo diário, escrevi no suplemento literário (dirigido por Vamberto Freitas) da revista «Saber Açores» a crónica abaixo. Parece-me, de novo, actual.

***

O texto de José Pacheco Pereira, «Revisitando a censura em tempos de selvajaria», no Público de 13 de Fevereiro passado [2003], era um apontamento excelente. Sobre os nossos medos. Sobre as nossas ilusões. Sobre o nosso pouco remédio. Tudo autêntico, tudo triste. Mas havia, no meio de tanto acerto, uma afirmação algo desatenta. Era a propósito de obras ‘na gaveta’, por receio da Censura. O cronista escrevia:

«A verdade é que, depois do 25 de Abril, essas gavetas estavam vazias e não se conhece praticamente nenhum livro (com excepção do “Até Amanhã Camaradas”… de Cunhal), nenhum ensaio político ou filosófico, que tenha saído dessas gavetas».

Essas reticências são já problemáticas (não se sabe aonde apontam), e rasam mesmo o inconcebível na pena de um biógrafo do autor.

Mas a questão importante ficou naquele «não se conhece praticamente nenhum livro», e constatemos que essa precisão, «praticamente», é nítido favor. Só que, do ponto de vista da história literária, está aí uma afirmação leviana. E por isto: pelo menos quatro romances importantes estiveram realmente na gaveta, aguardando melhores dias.

Um foi O Milagre Segundo Salomé, de José Rodrigues Miguéis, pronto para publicação desde 1970, mas arrastando-se na editora por alguma (de resto justificadíssima) inoportunidade política. Apareceu no Verão de 1975, no auge da confusão, passando quase despercebido. Um segundo foi Directa, de Nuno Bragança, romance que chegou a adiantados planos de impressão em Paris, para ser depois contrabandeado para Portugal, por mala diplomática. A revolução veio para esse livro cedo de mais. Quando finalmente surgiu, em 1977, poucos já conseguiam interessar-se por mais uma história da clandestinidade, e menos eram ainda a dar-se conta de que esta era a melhor de todas. O terceiro livro saído da gaveta foi Espingardas e Música Clássica, de Alexandre Pinheiro Torres, esplêndido romance, só aparecido em 1987 mas escrito em 1962, quase contemporâneo dos factos a que se reporta. Seria vítima, ele também, da saturação que atingiu as histórias da resistência. Só o romance póstumo Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, de 1980, mas redigido nos anos 60, persistiu na memória dos leitores, possivelmente sensíveis aos excessos sexuais aí descritos, que sempre ajudam a salvar uma obra-prima exigente.

Que todas as quatro obras (ou as cinco, com a de Cunhal) tenham sido escritas e mantidas no estrangeiro, aí está o que pode, e deve, servir de estupefacção e humildade para os filhos que não deixaram a pátria. Porque a verdade acaba sendo esta: se havia coisas verdadeiramente importantes por publicar, era lá fora que estavam.

10.00 h

José Pacheco Pereira acaba de fazer uma nota com link para este post.

Rua José Afonso

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Foto do blogue galego Chiscando un ollo.

Os galegos têm mais uma excelente iniciativa: dar a uma rua de Santiago o nome de José Afonso. Lembram que ele foi sempre um grande amigo da Galiza. E que – facto talvez largamente ignorado – foi em Santiago de Compostela que em Maio de 1972, em estreia mundial, cantou «Grândola Vila Morena».

Encontram-se tais informações aqui, onde, para mais, se pode assinar uma petição em apoio da iniciativa.