Todos os artigos de José Mário Silva

«Acalmem-se»

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Hoje, no Público, um excelente comentário de Rui Ramos, historiador. Transcreve-se o final.

Quanto a Salazar e Cunhal, que dizem de nós? Divididos por muitas coisas, estiveram unidos por uma grande coisa: a recusa de que Portugal alguma vez pudesse ter um regime igual aos da Europa ocidental. Os seus votos traduzem qualquer incompatibilidade da nação profunda com a actual democracia europeísta? Não é preciso ir tão longe. A votação de Cunhal é provavelmente um esforço do partido que todos os anos faz a Festa do Avante!. Obviamente, nem o PSD nem o PS julgaram urgente colocar Sá Carneiro ou Soares na corrida. O PS e o PSD esperam ganhar eleições. Os militantes e simpatizantes do PCP já só podem ganhar concursos. Deixá-los. E Salazar? O defunto regime terá certamente as suas viúvas e órfãos. Mas suspeito do carácter genuíno deste salazarismo de concurso. A RTP, num lapso de zelo antifascista, omitira Salazar. Foi o que bastou para muita gente votar nele. A democracia vive também deste espírito de contradição e pirraça. De resto, Portugal é um dos poucos países da Europa onde a extrema-direita não conta. Conta na Itália, na Áustria, e nesses faróis da civilização que são os países nórdicos. O vencedor dos Grandes Holandeses foi Pim Fortuyn. Nem assim a Holanda é ainda uma ditadura. Enfim, caso Salazar ou Cunhal ganhem, tentem poupar-se às epilepsias de antifascismo, ou aos alarmes anticomunistas. Nenhum regime acabou por causa de um concurso. Acalmem-se. Nem Salazar nem Cunhal voltam para a semana. Tal como D. Sebastião nunca voltou.

Passeio bloguítico

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Não é Luís Carmelo o único a interrogar os blogueiros sobre que os move e espevita. Também João Ferreira Dias o faz, no seu Contrastes, e vai lançado. Veja-se aí, por exemplo, e é um exemplo bom, a recente entrevista (a número 51) a Hélder Guégués, de que sou assíduo leitor.

*

A quem for, como eu, fã do ‘Gato’ Ricardo Araújo Pereira (conheço, e admiro-o, já há bem dez anos), aconselha-se o apontamento de 14 de Janeiro sito aqui. Estarão os quatro valentes, como aí, se afirma, a pôr tão alta a fasquia que o resto, mesmo próximo, passa a vida ganindo? Quem sabe…

A poesia, agora de comboio

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Dois poetas holandeses, Hagar Peeters e (o bem mais conhecido) Simon Vinkenoog, leram ontem live poesia em comboios. Num comboio ao calhas, num comboio à sorte – e digamos que a sorte era real.

Que tal se hoje, por alturas de Pombal, lhe surgissem, nos fones, os graves de Manuel Alegre, ou por alturas de Vendas Novas, a carícia de Maria do Rosário Pedreira, viajando ali com você, claro?

Boa viagem.

Pelos olhos de Célia

Pelos olhos de Célia passa toda a profundidade e todo o silêncio dos caminhos do Sul, toda a solidão dos montes perdidos entre o vento e a luz, todo o longe das planícies secas neste Verão que parece não ter fim.

Emília, a dona da casa onde escuto e contemplo Célia, serve-nos um aromático café que se perfila na mesa ao lado de uma taça de arroz-doce e um prato com algumas batatas doces acabadas de assar no forno.

Pelos olhos de Célia passa uma paisagem povoada pela saudade: o arroz-doce lembra as alegres mondadeiras com lenço e chapéu que regressam a cantar do campo ao fim do dia e a batata doce lembra as jovens campaniças que passam a caminho de casa com o cesto dos mimos da horta fechando assim as portas da tarde.

O lugar onde Célia sorri e fala de mansinho tem o estuário do Tejo à esquerda e a Estrada de Pegões à direita. Entre a água e a terra, entre os pescadores e os camponeses, há neste lugar um intervalo onde apetece ficar. Como se o sal destas velhas salinas sugerisse o prolongamento deste encontro entre água e terra. Assim o encontro ficaria conservado numa espécie de arca onde o olhar de Célia – suas memórias e suas paisagens povoadas – não se iria perder na monotonia e no desgaste de todos os dias.

Pelos olhos de Célia passa uma música suave cruzando, de maneira harmónica, as cantigas das mondadeiras e as melodias da viola campaniça. É essa música, essa mistura da voz das raparigas e da viola campaniça, é essa música que eu continuo a ouvir em todos os cruzamentos da estrada no caminho de regresso às convenções, às conveniências e às obrigações do quotidiano.

José do Carmo Francisco

As mulheres e os maridos

O presidente do Conselho de Administração da União de Leiria terá provocado um conjunto de sonoras gargalhadas nos jornalistas presentes na apresentação do novo treinador do seu clube ao referir-se à ausência de público nos jogos disputados pela sua equipa em Leiria com a seguinte frase: «Só falam de Leiria. Mas Leiria é como todas as outras cidades. Apenas os três grandes têm sócios fidelizados. Antigamente não havia centros comerciais, cinemas… Além disso as mulheres agora mandam nos maridos.»

Para além do aspecto anedótico desta conversa é preciso ver algo mais. O que o presidente da União de Leiria lamenta é que o tempo em que os homens iam para o futebol ao domingo à tarde e as mulheres ficavam a passar a ferro, a costurar ou a arrumar roupa nas gavetas tenha acabado. Como sou natural de uma aldeia da Estremadura que pertence ao distrito de Leiria, conheço perfeitamente o assunto. As coisas e as relações entre as pessoas levaram uma grande volta nos últimos anos e hoje as mulheres pura e simplesmente deixaram de cozinhar aos domingos. Basta ir ao Vimeiro, ao Acipreste, ao Peso, à Mata de Porto Mouro ou à Portela para ver as enormes filas de espera que se formam às portas dos respectivos restaurantes.

E não são só as mulheres mais novas, também as mais velhas. Claro que as refeições acabam tarde e depois a sugestão é para um passeio à praia da Foz do Arelho ou a São Martinho do Porto. Bebem a bica e passeiam à beira-mar. Por isso o futebol fica para trás. E vai ficando cada vez mais porque as mulheres já não aceitam uma situação de subalternas. Mas parece que o presidente da União de Leiria ainda não percebeu que tudo à sua volta mudou nos últimos anos.

José do Carmo Francisco

Pois é

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Pois é, há três anos que EDUARDO GUERRA CARNEIRO morreu. Hoje, como há três anos, o blogueiro Xatoo podia, num poemazinho meritório, chamar-lhe «o poeta / de que ninguém ouviu falar».

Pois é, as histórias da poesia portuguesa contemporânea citavam-no pouco. Ou nada. Ele não alinhava, o parvo. Era só um bom jornalista, só «um bom poeta», como Francisco José Viegas dele disse, lembrando aos desatentos que não são «bons» todos os poetas que desaparecem.

Aqui há mais a seu respeito. E vai um poema. Este, que é um espanto.

CLARA

Disse que se chamava Clara
e sentou-se na mesa, chamando
o criado para pedir um uísque irlandês.
Eles abriram mais espaços, cruzaram
as pernas, perguntaram se os charutos
a incomodavam. Clara disse: «Não!»
Pediu mesmo se lhe ofereciam um.
«Claro!», ofereceu o mais jovem,
emprestando-lhe a tesourinha
niquelada. Disseram banalidades,
Vieram mais bebidas. Clara traçava
o rumo da conversa, entre baforadas
azuladas. Quando ela saiu, descruzaram
as pernas e ficaram sem saber o que dizer.

Eduardo Guerra Carneiro

«O Rei do Cubango»

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No mais recente número, o 14, de Ficções, revista de contos dirigida pela Luísa Costa Gomes, vem um conto, «O Rei do Cubango», do escritor galego Xosé Martínez Oca. É um texto fenomenal. De partir o coco. Escolham entre o elogio sublime e o térreo, mas servem um e outro.

Está escrito na ortografia ‘normativa’ do galego, e com o vocabulário corrente na Galiza. Mas com uma ajudinha (no final do conto há um glossário mínimo) lê-se muito bem e diverte-se uma pessoa com uma história verdadeiramente delirante.

Vai aqui um trechozinho. As coisas passam-se na esplanada do Café Vianna. Quem conhecer Braga sabe de que falo.

O local estaba repleto de xente baixo a protección dos toldos. Con aspecto de turistas uns, os menos. Outros deixando adiviñar na solemnidade da súa roupa o labrego [lavrador, camponês] acomodado que baixara da aldea ós seus asuntos e, despois de resoltos estes, cumpría co ritual da sobremesa, cheo da seriedade do petrucio [mandão] campesiño. Sen faltar tampouco os emigrantes en vacacións, coa súa inxenua necesidade de aparentar por riba dos costumes ancestrais de que foran arrincados, tantas veces en contra da propia vontade.

Dunhas noutras, entre a observación distraída dos clientes máis próximos, o ruído das súas conversas e a somnolencia da sobremesa, acabara por derivar nese estado de beatitude anfibia en que a pesar de ter os ollos abertos non se ve nada, non se oe [ouve] nada, non se pensa en nada. Somnolencia da que me quitou a irrupción no meu campo visual dun preto de proporcións descomunais, embutido nunha sahariana gris e uns pantalóns claros que parecían incapaces de coutar por moito tempo a avalancha de carne que teimaba por estoupar en cada costura do tecido.

– Desculpe o señor – dirixiuse a min con esa voz de cantante de blues, feita de lixa e melaza, que teñen os negros – pódome sentar un bocadiño?

Espetei os ollos nel cunha curiosidade indisimulada e inclinei a cabeza en sinal de asentimento.

Sobre Martínez Oca leia-se isto.

Um doce real para Eduardo Guerra Carneiro

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A vida é breve, o amor é incerto, a alegria é escassa. São os pequenos gestos quotidianos que nos salvam do desespero. Faz agora um ano que «partiu» o poeta Eduardo Guerra Carneiro. Tinha um lugar cativo na pastelaria «Doce Real» ali entre o fim do Príncipe Real e o princípio da Rua D. Pedro V. Tinha, tal como eu, uma paixão pelos pastéis de nata ali fabricados.

Escrevi o poema abaixo e a proprietária resolveu colocar uma moldura com as palavras do poema na parede por cima da mesa do poeta transmontano. Aqui fica para todos vós este poema de circunstância – como, afinal, são todos os poemas.

Louvor do pastel de nata «Doce Real»

Como no pódio em lugar cimeiro
Acima do queque e do croissant
O pastel de nata é o primeiro
Da mais bela fornada da manhã

O forno cozeu pão de madrugada
Não esgotou o calor e a doçura
O pão mata uma fome já esperada
A nata adoça o sal da amargura

Quem chega e se dirige ao balcão
Zangado com notícias e jornais
Recebe prazer da boca ao coração
E fica com vontade de pedir mais

No ritual da manhã de cada dia
Tem lugar ao balcão e à mesa
O pastel de nata dá a energia
Para combater a nossa tristeza

José do Carmo Francisco

Ele e o Lord

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A história começa assim:

tendo eu nascido numa pequena aldeia no centro de portugal, não imaginava que teria um dia a suprema honra de partilhar a minha namorada com um lorde inglês.

Não sei, leitora, leitor, se – tendo lido essa primeira frase – você é ainda capaz de parar. Prossiga, pois. O conto está em Nada Niente (também na lista aqui à direita), o blogue do contista (e muita coisa mais) João Camilo, que A Fenda edita.

What happened to… Rute Monteiro?

Leio com estupefacção as dúvidas do Zé Mário acerca do rapto da jornalista portuguesa Rute Monteiro no Líbano. Nelas insistia ele num «post» aqui abaixo.

Compreendo – e, até certo ponto, louvo – que o profissional no ZM se alvoroce com um ou outro pormenor menos rotundo num conjunto, ele mesmo, longe de nítido. Mas tenho de lembrar-lhe que essa sua – noutros assuntos, saudável – reticência apenas ajuda a criar pretextos para o silêncio dos nossos média acerca deste pequeno desastre português. Sem o querer, decididamente sem o procurar, o ZM veste a pele do provocador.

O facto é que, noutros países, a notícia já circulou, sem espalhafato, mas com naturalidade. No sábado passado, o vespertino holandês, Het Avond Nieuws («As Notícias da Noite»), publicado em Delft mas de expansão nacional, citava fontes árabes assim como o seu correspondente no Médio-Oriente, Oswald Poets.

A notícia confirmava o essencial do afirmado no blogue «Freelance» no dia anterior. E não é habitual jornais holandeses lerem, menos ainda reproduzirem, blogues portugueses… Em suma, tudo indica que o nosso compatriota blogueiro andou bem informado.

Aguardam-se desenvolvimentos. Uma onda de solidariedade nacional estaria – parece evidente – entre os mais desejáveis.

«Transumantes, nómadas»

Copia-se aqui a nossa resposta ao inquérito do Miniscente. Isto é, pode comentar-se também aqui.

O que lhe diz a palavra «blogosfera»?

Vejo a blogosfera como uma multidão informe, aloucada, saudavelmente contentinha de si, passeando descontraída pelos rebordos dum abismo que dá para o mundo físico. Ela é, assim, um universo paralelo, em que tudo é real, também. Reais são os seus prazeres, dores e desvarios, reais os seus sonhos, triunfos, frustrações. Só que a realidade é doutro tipo: impalpável, fugidia, insatisfeita. Os habitantes dela são, por sina assumida, transumantes, desenraizados, nómadas. Nesse sentido, esse habitáculo galáctico em que se entra teclando, e donde teclando se sai, pode revelar-se mais inóspito do que o suporíamos, e portanto, a prazo, rejeitável. Mas podem seguir-se-lhe universos menos habitáveis ainda. Só uma coisa parece certa: a intranquilidade veio para ficar.

Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu através dos blogues?

Foi o observar da descoberta, alheia e própria, da inaudita versatilidade deste brinquedo, o «blogue», que consegue produzir coisas tão humanas como a admiração e o enamoramento, mas também a irritação, a suspeita e o enxovalho. Tudo público, claro.

Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?

Criar-me mais um gastadoiro de tempo, onde ele já era tão escasso. Mas a queda compulsiva para intervir vinha já de longe. Ninguém foge ao fado.

Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?

É, decerto. E o controle social, em que a blogosfera é exemplar, evitará que o mundo exterior, repressivo, ponha tão cedo as botifarras aqui dentro.

«Estou sempre a bordo de uma deriva»

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Não sei se costumam ler o Luís Carmelo, bem conhecido do Miniscente (está na lista aqui à direita), mas actualmente também cronista no Expresso digital. Pois comecem por aqui. E fiquem atentos.

Bom. Agora, com o risco de se me achar oportunista, informo que, na série de entrevistas a blogueiros que desde há meses o Miniscente publica, aproxima-se a de um colaborador do Aspirina. Estamos mortinhos de curiosidade.

As guerras de Py

Em 2003, o «nosso» Py escreveu isto no Público. Depois, diz ele, calou-se. Uma pena, tem que assentir-se. Mais nos diz ele que, passado um ano, foi despedido. Uma pena maior ainda.

Desconhecemos a identidade de Py. Mas conhecemos o Público como um excelente jornal. Qualquer coisa aqui não bateu certo. Achamos nós.

A sombra do abismo

Se há coisa que me parece que normalmente as pessoas esquecem é que vivemos todos alimentados pela energia do sol – que faz o clima e a fotossíntese e a vida – e é gratuita. Este postulado deveria fazer-nos desconfiar da legitimidade ética das formas de apropriação da energia. Porque é de apropriação de energia que se trata na guerra do Iraque.

Na interpretação do professor Said Barbosa Dib a guerra é antes do mais uma guerra do dólar contra o euro, a partir do momento em que em Novembro de 2000 o ditador Saddam tomou a decisão de indexar as exportações petrolíferas do Iraque ao euro, abandonando o padrão-dólar e assim criando um facto e abrindo um precedente. Se a OPEP adoptasse essa política a desvalorização (já nítida) do dólar criaria um buraco enorme na economia dos EUA a que se seguiria um período de caos e depressão. Esse é o pânico da administração e da Reserva Federal e o sr. Bush faz o que pode para alimentar um sistema viciado em adrenalina e serotoninas: promete um grandioso espectáculo de guerra onde os EUA serão os maiores. E além disso promete substituir Saddam por outro que revogue aquela decisão, restituindo a soberania do dólar nas transações petrolíferas e na economia do mundo.

Triste civilização esta que afinal não ultrapassou a barbárie. A tecno-barbárie, variando entre o cirúrgico e a mãe de todas as bombas, aí está. Quantos milhares de civis serão vítimas da guerra?

Já faz mais de 20 anos que li a trilogia da Fundação de Isaac Asimov. Relata o livro que, no auge do esplendor do Império, o psico-historiador Hari Seldom descobre que se está à beira do abismo; com as suas projecções matemáticas calcula nuvens de probabilidades que indiciem as sequências prováveis de acontecimentos. E assim conclui que é necessário construir duas fundações secretas que reunam o conhecimento da humanidade, para que pelo menos uma sobreviva ao longo período de trevas que adviria da guerra.

Na decada de sessenta, o professor René Thom lança as bases para um novo paradigma que veio a chamar-se a Teoria das Catástrofes. Nessa teoria, as catástrofes acontecem de súbito, quando ocorre uma dobra no campo potencial. Só na estrita vizinhança do abismo é que se pode vê-lo, para quem esteja dentro do campo. Fora dele, sim, sempre se poderá ver à distância a sombra do abismo.

E é assim que não desculpo a Durão Barroso a miopia política. A partir do momento que é anfitrião dos senhores da guerra tornou-se seu cúmplice e comprometeu-nos a nós, os portugueses que estamos contra a guerra, com a própria guerra.

Fernanda e a árvore dos livros

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Numa segunda-feira à tarde, de modo totalmente inesperado e insólito, descubro os olhos luminosos de Fernanda entre uma árvore gigante do Jardim do Príncipe Real e um tabuleiro de madeira com dezenas e dezenas de livros. Entre a Natureza e a Cultura, entre o mundo vegetal e o mundo das palavras, entre a Terra e o Firmamento, este sorriso aberto de Fernanda é uma ponte a ligar duas realidades diferentes e opostas. Ela trouxe, da sua livraria simpática e acolhedora, uma amostra dos seus diferentes livros. Uns raros, outros antigos, outros apenas usados e em segunda mão. Atrás do olhar luminoso de Fernanda e do seu sorriso aberto, esta árvore surge como algo mais que uma árvore. A sua sombra dá, nesta segunda-feira à tarde no Jardim do Príncipe Real, a ilusão de que estamos numa casa. Mesmo sem paredes nem janelas, há uma casa nesta sombra projectada contra o sol inclemente de Junho. Fernanda sorri de novo neste breve e inesperado encontro. Compro-lhe então um livro, como não podia deixar de ser. Levo nele a memória deste lugar que já se chamou em tempos sítio da Patriarcal Queimada. Porque um incêndio criminoso fez arder uma Sé Patriarcal toda construída em madeira no tempo do rei D. João V. Levo nele a voz de Fernanda, um ponto de encontro entre o olhar e o sorriso, entre a serenidade e o alvoroço. Uma voz onde se misturam todo o frio das manhãs e todo o calor das tardes, a força das grandes pedras da serra e a carícia das ondas da praia mais ocidental. A mesma praia de onde partiram todas as caravelas e aonde regressaram, muitos séculos depois, os destroços de todos os sonhos. E tudo isso está guardado nas páginas dos livros que Fernanda arruma nos caixotes de papelão.

José do Carmo Francisco

«O louco global» de Paulo Moura

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Não sei se repararam em Paulo Moura, se repararam já. É um jornalista do Público, e de há uns meses que não o dispenso. Já lia reportagens suas na «Pública», mas convenceu-me definitivamente o seu contributo na Antologia Grande Reportagem (Oficina do Livro), organizada por José Manuel Barata-Feyo.

Paulo Moura, se é um repórter vigoroso, não é menos um interessantíssimo cronista. Aqui abaixo, a sua crónica no Público de hoje (vai assim mesmo, não permite link).

Além disso, publicou há pouco um romance, 1147, O Tesouro de Lisboa (A Esfera dos Livros), que ando a ler, que não é de deitar fora (há muito e muito pior), mas ainda não me entusiasmou. Possivelmente, a narrativa longa e ficcionada não é a exacta ‘medida’ deste, de resto, grande escritor.

Divirtam-se, e reflictam, com

O LOUCO GLOBAL

O homem entrou no metro mas não começou logo. Esperou que pensassem que era um utente normal. Então lançou, aos gritos: “Mais 20 mil soldados para o Iraque? Vão regressar todos em sacos de plástico. Todos!” Estava a falar com alguém? Não. Gritava para quem quisesse ouvir. “Acabaremos também por ir lá parar!” E continuou, sem baixar o volume, num discurso ininterrupto, como se se dirigisse a uma plateia interessada. E talvez fosse o caso.

O homem tinha a barba por fazer e vestia roupas sujas e rotas. Levou escassos segundos a que os passageiros o classificassem mentalmente como um “louco do metro”. Como tantos outros do género, no metro de Lisboa. Entram numa estação, fazem um discurso e saem na seguinte. Ninguém reage, obviamente. Ninguém o interrompe para dizer “desculpe, não concordo inteiramente com esse ponto…”. Também ninguém diz: “Cale-se, que me está a incomodar”. As pessoas evitam até cruzar o olhar com o dele. Se identificasse um interlocutor, o homem poderia desatar a falar para ele, a fazer-lhe perguntas, ou a insultá-lo, o que seria muito embaraçoso. Ou poderia mesmo desferir-lhe um murro certeiro no nariz, caso lhe ocorresse interpretar o silêncio aflito do transeúnte como prova irrefutável da sua conivência com a política de Bush para o Iraque.

Era um louco do metro e portanto o melhor era não ligar. Falou mais um pouco sobre o Iraque e depois passou para a reforma da administração pública em Portugal, não sem antes se deter brevemente no problema do nuclear do Irão. Podia ser maluco, mas não havia dúvidas de que estava muito bem informado. Mais do que as pessoas normais.

Lembrei-me de entrevistas que ouvi do Gato Fedorento ou dos redactores do Contra-Informação, em que descrevem o seu método de trabalho: sentam-se todas as manhãs a uma mesa, com a imprensa do dia, e estudam as notícias e os temas sobre os quais vão depois construir o discurso humorístico. Será que o maluco do metro faz o mesmo? Começa a manhã com uma pesquisa exaustiva em jornais e revistas, na internet, em livros especializados, sublinhando, tirando notas, para depois elaborar o seu discurso louco do dia?

Tenho pensado muito nesta questão. Porque andam os loucos hoje tão bem informados? Por serem loucos? Ou foi a informação que os enlouqueceu? Uma coisa é certa: a demência não impede um discurso articulado e crítico sobre o mundo. Impedi-lo-á a sanidade?

Será a imposição de limites ao horizonte uma condição para a nossa saúde mental?
Ninguém sobreviveria se soubesse de tudo o que se passa no mundo. Hoje, as informações estão disponíveis em doses capazes de nos destruir. Não é possível compreender a sociedade global sem o recurso a teorias da conspiração, projectos terroristas, filosofias paranóicas. O nosso modelo axiológico apenas está preparado para o universo do indivíduo e do seu reduzido ângulo de visão. Não mais. Em todas as épocas há lendas sobre homens que subiram ao topo de uma montanha e enlouqueceram.

Talvez a ignorância seja, portanto, um recurso dos mais aptos. Fechamo-nos, por instinto de sobrevivência. A liberdade tornou-se um handicap evolutivo. Privilégio dos loucos, que só têm a perder uma audiência muda de curiosidade. “Cambada de estúpidos”, rosnou entre dentes o louco do metro antes de se apear na estação seguinte.

Mais informação sobre Paulo Moura aqui.

A açoriana de Grândola e os fundamentalistas do Norte

Entre 1979 e 1989 organizei a antologia O Desporto na Poesia Portuguesa, editada pelos Sindicatos Bancários – Norte, Centro, Sul e Ilhas. Um dos poemas antologiados é de Ivone Chinita e está na página 101. Pois no livro História Natural do futebol de Álvaro Magalhães (Assírio & Alvim) aparece nas páginas 228 e 229 a citação parcial desse poema. Sem qualquer indicação de onde foi retirado e com um erro. O autor chama-lhe escritora açoriana, mas Ivone Chinita nasceu em Grândola, onde está sepultada desde 1983. Na página 235 surge uma nova citação do mesmo poema, mas desta vez nem sequer aparece o nome da autora.

Quando se cita um poema deve referir-se sempre qual o livro do qual esse poema foi retirado. O autor enche sete páginas de notas, mas aqui saltou como gato em telhado de zinco quente.

Noutro livro, com o ambicioso título de A paixão do Povo – História do futebol em Portugal, publicado pela Editora Afrontamento e da autoria de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro, acontece algo parecido. O meu nome foi rasurado na bibliografia, pois sou um dos três co-autores do livro Glória e vida de 3 gigantes, editado em 1995 por «A Bola». Mas na página 692 deste volume aparecem só os nomes de António Simões e Homero Serpa.

Sobre o S. L. e Benfica escrevem os autores: «Decidiu bem quem decidiu pela data oficial referindo-se a 1904 por oposição à de 1908 que essa sim é verdadeira. Só há história com documentos, e não há nenhum documento com data de 1904 a referir-se ao S. L. Benfica». Escrevi uma carta, mas não obtive resposta.

Mas nem tudo é mau. O meu exemplar está autografado pelo Toni e pelo Humberto Coelho. Um com amizade, outro com admiração. E isso tem muito valor.

José do Carmo Francisco

José Cid canta JCF

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Café contigo

Misturas no café os teus sabores
A campo, celeiro e a pomares
Na verdade, vás onde fores
Tudo se modifica ao chegares.

Dispensas o açúcar que te dão
E fica abandonado sobre a mesa
Tens doses de doçura em tua mão
E nos olhos a espuma da beleza.

Mas não dispensas a colher pequena
Capaz de equilibrar a mistura
Entre a força africana tão serena
E a luz tão doce da Estremadura.

Misturas no café o teu sorriso
Que trazes na pele do teu dia
Beber café contigo é o paraíso
E estar na capital da alegria.

José do Carmo Francisco

O jornalista e poeta vem reforçar as hostes aspirínicas. Bem-vindo, Zé do Carmo.

Prazeres da língua – 1

Aqui em casa, no Aspirina, não há ninguém com o periúdo. Somos um blogue masculino. Exorbitantemente masculino.

Mas não somos mediúcres, julgo eu. Haverá, no máximo, quem nos ache miúpes.

A sério. Se souber de mais retorcimentos vocabulares deste tipo, informe o pessoal. Fazemos colecção. Mais: se achar que a nossa língua é «mesmo assim», diga também. Um gajo já está por tudo. Mesmo rilhando os dentes.

Crónica triste para o pobre diabo que trata a neta por você

Quando te encontrei no Jardim da Estrela e me disseste que não tinhas tempo para falar comigo porque estavas a tomar conta da tua neta o que mais me revoltou não foi a tua negativa em continuar uma conversa que nem sequer tinha começado. Foi sim o facto de tratares a tua neta por você. Tu, um pobre diabo que veio um dia lá de uma terrinha perdida na Beira Alta onde não passa o comboio nem a camioneta da carreira nem verdadeiramente se passa nada. Tu que só chegaste a chefe de secção porque conheceste algumas pessoas na Comissão de Trabalhadores e aproveitaste esses conhecimentos para subires na tua carreira. Não sei como não és capaz de perceber que não tiveste berço para essas poses nem para essas falas. Não há na tua família nem vice-reis da Índia nem embaixadores plenipotenciários nem, muito menos, governadores mandados para o Brasil para acertar as contas das cobranças dos quintos do ouro. Tratares a tua neta por você é muito mais do que ridículo. Porque é, na verdade, absurdo e contra a tua natureza. Tu não és um aristocrata. Apenas fizeste uma carreira de burocrata no departamento comercial de um banco à custa do teu cartão partidário, saltaste da Comissão de Trabalhadores para um cargo de chefia mas não tiveste nisso nenhum mérito teu. Apenas aproveitaste a onda da rosa e da mãozinha. Depois vieram os outros e já lá estavas. Por isso ficaste. Tu não és um aristocrata mas sim um pobre diabo perdido numa cidade desconhecida e onde nem nasceste sequer. Não podes tratar a tua neta por você. Para a próxima vez que passares por mim no Jardim da Estrela não digas nada, finge que não me viste. Porque se disseres alguma coisa como a do outro dia eu atiro-te logo para dentro do lago dos patinhos.

José do Carmo Francisco