Crónica triste para o pobre diabo que trata a neta por você

Quando te encontrei no Jardim da Estrela e me disseste que não tinhas tempo para falar comigo porque estavas a tomar conta da tua neta o que mais me revoltou não foi a tua negativa em continuar uma conversa que nem sequer tinha começado. Foi sim o facto de tratares a tua neta por você. Tu, um pobre diabo que veio um dia lá de uma terrinha perdida na Beira Alta onde não passa o comboio nem a camioneta da carreira nem verdadeiramente se passa nada. Tu que só chegaste a chefe de secção porque conheceste algumas pessoas na Comissão de Trabalhadores e aproveitaste esses conhecimentos para subires na tua carreira. Não sei como não és capaz de perceber que não tiveste berço para essas poses nem para essas falas. Não há na tua família nem vice-reis da Índia nem embaixadores plenipotenciários nem, muito menos, governadores mandados para o Brasil para acertar as contas das cobranças dos quintos do ouro. Tratares a tua neta por você é muito mais do que ridículo. Porque é, na verdade, absurdo e contra a tua natureza. Tu não és um aristocrata. Apenas fizeste uma carreira de burocrata no departamento comercial de um banco à custa do teu cartão partidário, saltaste da Comissão de Trabalhadores para um cargo de chefia mas não tiveste nisso nenhum mérito teu. Apenas aproveitaste a onda da rosa e da mãozinha. Depois vieram os outros e já lá estavas. Por isso ficaste. Tu não és um aristocrata mas sim um pobre diabo perdido numa cidade desconhecida e onde nem nasceste sequer. Não podes tratar a tua neta por você. Para a próxima vez que passares por mim no Jardim da Estrela não digas nada, finge que não me viste. Porque se disseres alguma coisa como a do outro dia eu atiro-te logo para dentro do lago dos patinhos.

José do Carmo Francisco

2 thoughts on “Crónica triste para o pobre diabo que trata a neta por você”

  1. JCF,

    Bem bolado como poema de costumes, mas um cínico qualquer poderá aventar que o homem teria vivido muitos anos no Brasil ou que vê muitas telenovelas dessa origem. Eu, por exemplo, aqui há muitos anos, quando tinha os meus dezoito, tive a audácia de tratar por você um senhor com idade de ser meu pai e levei uma imediata cotevelada com a explicação de que “você” equivale a tu, esqueçamos o vossa mercê das gramáticas de tratamentos.
    Enfim, engoli e respeitei a opinião do homem. De qualquer forma, crimes muito maiores e processos mais directos de criticar os que se encostaram ao bordão
    do poder de freguesia das classes trabalhadoras satisfeitas.

    TT

  2. Tratar alguém por você (usando expressamente o vocábulo “você”) é horrível, porque afectado e de um novo-riquismo provinciano. Bem dizem os espanhóis (relacionado com o tema) que nós somos o País do “Senhor Doutor” (outra pérola).

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