Toma e embrulha ou Thomas no alto dos seus 3 anos
Do alto dos seus 3 anos o meu neto Thomas Francisco revela um certo fascínio pelo uso correcto da língua – nada de coisas mal amanhadas, confusas ou pouco explícitas. Vejo-o brincar com um grupo de carrinhos em miniatura e pergunto: «Isto o que é? É uma corrida?». Ele responde: «Não. Não vês que é uma confusão de trânsito?» E avança na explicação: «Estes carros são comuns, não são carros de corrida.» (Toma e embrulha).
Passado um bocado vejo os 12 carrinhos em miniatura arrumados em quatro correctas filas de três viaturas e pergunto: «E isto é uma confusão de trânsito?» Resposta imediata da criança: «Não vês que isto é um estacionamento?» (Toma e embrulha).
Um passeio com paragem em Azeitão para compra de tortas respectivas e de vinho Moscatel – como não podia deixar de ser. Um olhar mais demorado para a serra da Arrábida e a pergunta: «O que é isto?» Respondo eu: «Isto é uma floresta.» Arrancamos pela serra acima e quando estamos a chegar ao Portinho da Arrábida pergunta a criança: «Se isto é uma floresta onde é que estão os dragões e os monstros?»
(De facto as histórias de florestas que ele conhece estão repletas de monstros e dragões. Falta de lógica é que a criança não tem…)
À noite ao colo do pai, prestes a adormecer, ouve pela centésima vez uma história de uma floresta com leões e de tigres acrescentando ele numa rigorosa adversativa «mas também monstros e dragões».
Oxalá ele possa continuar a ser assim rigoroso e atento a todos os pormenores da língua, da linguagem e da vida. Para eu poder dizer feliz de mim para mim «Toma e embrulha».



