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Há uma dúzia de anos, a blasfémia morava em Portugal

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Um cartaz de cerveja San Miguel utilizou a imagem do Cristo do Corcovado. Em resposta, o Patriarcado de Lisboa emitiu uma nota, anuindo a “muitas dezenas de telefonemas”, em que esconjurava esta “completa e grosseira falta de respeito por coisas evidentemente sérias”. Tratar-se-ia de “um abuso intolerável, motivo de escândalo e ofensa para numerosos portugueses”. O assunto, como se vê, chegou às primeiras páginas dos jornais. E chegou mesmo, e esta é a parte pouco conhecida da história, às Filipinas, país ferozmente católico e local da sede mundial da cervejeira. O cartaz, entretanto, já tinha falecido de morte natural, mas a direcção da filial lusa não se livrou de um valente raspanete.
Por acaso, fui eu o autor do polémico outdoor. Uns meses depois, em conversa com um padre meu conhecido, ouvi isto: “e se fosse o teu pai, não te sentias ofendido por o ver assim na rua? Então, estás a ver a razão do nosso protesto”.
Na altura, o que me parecia mais importante era o “impacto”, causar sensação nem que fosse através de primeiras páginas assim. Hoje não o repetiria. Não pelo responso tonitruante do Patriarcado; sim pela consciência de que nem tudo vale a pena para dar nas vistas.

Uma guerra entre gémeos

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A guerra já começou mesmo. Mas, por enquanto, não é entre civilizações ou sequer entre religiões. É coisa mais rasteira e feia: um simples confito entre reflexos da mesma ignorância, da mesma mesquinhez fundamental.
De um lado, os imãs que acreditam piamente que a deles é a única visão certa; que quem ousa entender o mundo de forma diferente é apenas um blasfemo a pedir conversão urgente. Do lado de “cá”, lemos comentários como os que o Daniel respigou. Obras de gente igualmente solipsista, para quem o Outro é fonte de todos os males, para quem só “nós” é que somos, evidentemente, civilizados e tão superiores.
Para quem se entretém hoje a acirrar multidões — acrecentando quando necessário caricaturas ainda mais ofensivas às originais — a provocação de um jornal manhoso é bastante para decretar que todo um continente deve agora limpar-se de um novo pecado original. Para os “nossos” comentadores, sempre tão irredutíveis na perfeição das suas certezas, a liberdade de expressão passou de súbito a absoluto sem fronteiras que não deve ser limitado por qualquer susceptibilidade ou valor do tal “outro”.
Uns vêem do lado de lá turbas selvagens que nada respeitam, bárbaros às portas do império da decência e da justiça. Os outros idem. Todos berram o seu ultraje com este caso. Todos apontam o dedo às abjectas criaturas que se empilham do outro lado, incapazes de decência, sentimentos nobres ou de fazer “sonhar” seja quem for. Todos causam asco.

PS: Será que alguém já se lembrou de perguntar àquela opinião com pernas que sabe tudo sobre tudo como se chamava o homem que, de calcanhar, deu uma Taça dos Campeões ao FCP? Com tanto ardor que os assuntos da bola lhe provocam, se calhar o senhor esquecia esta exibição da sua ignorância mesquinha e passava a admitir que os muçulmanos até podem ser gente admirável.

O meu gadget é mais esquisito que o teu

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Era uma vez o iPod. Um leitor de ficheiros Mp3 pequeno, estiloso e com montes de capacidade. Um objecto de desejo, ainda por cima com a maçãzinha mágica: I gotta have one! Depois, começaram a chegar os acessórios, os adereços, os complementos: capas, colunas dedicadas, emissores de FM, etc, etc, etc. E o pequeno iPod lá foi sendo soterrado por quilos de tralha bizantina, cada vez mais longe da simplicidade móvel com que nasceu. Agora, surge o desenlace inevitável: o comando à distância para iPods. Já pode deixar o seu estimado leitor de Mp3 emaranhado numa bateria de cabos, ou preso a uma qualquer consola indispensável. Com este simpático gadget, por sinal do tamanho do próprio iPod, pode escolher a música que quer ouvir, onde quer que esteja.
Mas não era isso o que já fazia antes?

This Way Up #3

Assim, como quem não quer a coisa, desapareceu recentemente a voz feminina mais importante da minha blogosfera. Quando digo «minha blogosfera», digo-o não apenas para relativizar a afirmação, mas sobretudo para transmitir essa sensação de posse: senti inúmeras vezes que os posts da Catarina eram meus e só meus, que apenas eu entendia a genialidade e o refinado sentido de humor dos seus escritos. Palermices, eu sei, mas quem nunca foi fã de ninguém, que me atire o primeiro hyperlink.