
Um cartaz de cerveja San Miguel utilizou a imagem do Cristo do Corcovado. Em resposta, o Patriarcado de Lisboa emitiu uma nota, anuindo a “muitas dezenas de telefonemas”, em que esconjurava esta “completa e grosseira falta de respeito por coisas evidentemente sérias”. Tratar-se-ia de “um abuso intolerável, motivo de escândalo e ofensa para numerosos portugueses”. O assunto, como se vê, chegou às primeiras páginas dos jornais. E chegou mesmo, e esta é a parte pouco conhecida da história, às Filipinas, país ferozmente católico e local da sede mundial da cervejeira. O cartaz, entretanto, já tinha falecido de morte natural, mas a direcção da filial lusa não se livrou de um valente raspanete.
Por acaso, fui eu o autor do polémico outdoor. Uns meses depois, em conversa com um padre meu conhecido, ouvi isto: “e se fosse o teu pai, não te sentias ofendido por o ver assim na rua? Então, estás a ver a razão do nosso protesto”.
Na altura, o que me parecia mais importante era o “impacto”, causar sensação nem que fosse através de primeiras páginas assim. Hoje não o repetiria. Não pelo responso tonitruante do Patriarcado; sim pela consciência de que nem tudo vale a pena para dar nas vistas.



RMD

