Aspirina M #3 (If snow won’t change your mind, let it fall)

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Depois de ter posto meia blogosfera em estado de choque com os Pet Shop Boys, chegou agora a vez da mais profícua incarnação de Stephin Merritt: THE MAGNETIC FIELDS.

Apesar de não será por este disco (I, 2004) que os infiéis deverão iniciar a sua conversão à superlativa arte deste compositor americano (para isto nada melhor que magnífico triplo 69 LOVE SONGS de 2000), resolvi escolher este disco pelo facto da maioria desta coisa pegajosa que é a crítica musical ter desconsiderado imenso esse seu último trabalho – o que me parece uma absoluta palermice. Stephin Merritt é talvez o único herdeiro verdadeiramente relevante que resta de uma casta sublime de compositores norte-americanos que remonta a Cole Porter e que parecia ter terminado com Randy Newman. Contudo, Merritt será tudo aquilo que quiserem menos um anacronismo: na textura das música é possível detectar uma «différence» absolutamente sublime – não é por acaso que anda por aí meio mundo a dizer que «Ask Me Anything» do novo álbum dos THE STROKES é um pastiche da sua cartilha.

O tema que vos deixo aqui tem aquela característica que apenas as grandes canções possuem: está permanentemente numa corda bamba, parecendo hesitar entre a absoluta pirosice e a mais ímpar genialidade. Não conheço, de resto, nenhuma canção capaz de aguentar tão bem o peso de uma frase como «Marry me» (por favor, não me venham falar de Morrissey). A verdade é que, pelo menos para mim, «It’s Only Time» é uma das mais belas canções de amor de todos os tempos, uma genial inversão do princípio da relatividade aplicada aos desmandos do coração sobre uma delicada filigrana repleta de quase inaudíveis promenores nos arranjos (reparem, a título de exemplo, no feedback da guitarra).

Como é óbvio, os tinhosos do costume podem sempre deixar as suas reclamações na caixa de comentários. Ai.

IT’S ONLY TIME (Stephin Merritt, 2004)

Why would I stop loving you
a hundred years from now?
It’s only time.

What could stop this beating heart
once it’s made a vow?
It’s only time.

If rain won’t change your mind, let it fall.
The rain won’t change my heart at all.

Lock this chain around my hand,
throw away the key.
It’s only time.

Years falling like grains of sand
mean nothing to me.
It’s only time.

If snow won’t change your mind, let it fall.
The snow won’t change my heart, not at all.

(I’ll walk your lands) I’ll walk your lands
(And swim your sea) And swim your sea
Marry me.
(Then in your hands) Then in your hands
(I will be free) I will be free
Marry me.

Why would I stop loving you
a hundred years from now?

19 thoughts on “Aspirina M #3 (If snow won’t change your mind, let it fall)”

  1. Albúm comprado há já us tempos e digerido de imediato. Ainda assim, mesmo que seja uma refeição mais pesada, continuo a preferir o 69 Love Songs, com 3 momentos preferenciais, todos do primeiro volume: “All my little words”, “Chicken with the head cut off” e o sublime “The luckiest guy on the loewr east side”.

    Seja como for, Merritt é actualmente essencialmente único. E devo dizer que a forma como salta entre estilos, tenham a idade que tiverem, me faz lembrar (ai heresia…) o Chico Buarque.

  2. e ó joão, meia blogosfera em estado de choque é uma afirmação ligeiramente exagerada, o que não te é nada característico.

  3. Meia blogosfera ficaria em estado de choque se se soubesse dos meus gostos musicais… (On m’a déjà dit que j’avais des goûts de chiotte.)

  4. De facto, toda a gente sabe (e refiro-me igualmente aos aliens que consultam via inter-galáctica este blogue) que não sou nada mas mesmo nada nada nada exagerado.

    João André: o 69 love songs é genial. Mas e o «Bottle of gin»? E o «Washington DC»? E o «The One You Really Love»? E o «The Book of Love»? E o «Zebra»? E o «King Of The Boudoir»? E… etc… O 69 é um disco de digestão lenta. Lembro-me de gravar MiniDiscs com a selecção das minhas músicas favoritas: comecei com 12, depois passei para 25, depois para 40 e resolvi gravar o álbum todo quando cheguei às 52.

    E compreendo perfeitamente onde queres chegar com essa comparação com o Chico.

  5. João Pedro, escolhi essas como seria com outras. No meu caso, a descoberta do albúm foi semelhante, comecei por fazer o download de duas ou três músicas, depois mais umas quantas, por fim o albúm. Mais tarde cheguei à conclusão que o que precisava mesmo de ter era o original e agora lá está, na prateleira e é daquelas caixas de CD que nunca ganha pó, só dedadas.

  6. Ai, não falem todos ao mesmo tempo.
    Claudia, tenho de ir ver o que é irrefragável e já te respondo.
    João, podes. O coração já está acorrentado.

  7. (Por falar em torno, tenho de devolver as ferramentas ao vizinho do 4º esquerdo.)

    João, amorzinho, tens a certeza que era o meu corpo? Morno?

    Claudia, já sei o que é irrefragável. Acho que desde 1951 que ninguém utilizava o termo.

  8. lol. Oh Fred, estás maluco? Saramago usa esse termo nos books dele! É uma reminiscência ou seja lá o que for. Eu só acho é que o JP é um atiradiço de primeira. TU ÉS MEU, FRED! Nunca vi ponta do corpo do Fred, mas estou louca pelo cérebro abandalhado que ele tem.

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