Há uma dúzia de anos, a blasfémia morava em Portugal

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Um cartaz de cerveja San Miguel utilizou a imagem do Cristo do Corcovado. Em resposta, o Patriarcado de Lisboa emitiu uma nota, anuindo a “muitas dezenas de telefonemas”, em que esconjurava esta “completa e grosseira falta de respeito por coisas evidentemente sérias”. Tratar-se-ia de “um abuso intolerável, motivo de escândalo e ofensa para numerosos portugueses”. O assunto, como se vê, chegou às primeiras páginas dos jornais. E chegou mesmo, e esta é a parte pouco conhecida da história, às Filipinas, país ferozmente católico e local da sede mundial da cervejeira. O cartaz, entretanto, já tinha falecido de morte natural, mas a direcção da filial lusa não se livrou de um valente raspanete.
Por acaso, fui eu o autor do polémico outdoor. Uns meses depois, em conversa com um padre meu conhecido, ouvi isto: “e se fosse o teu pai, não te sentias ofendido por o ver assim na rua? Então, estás a ver a razão do nosso protesto”.
Na altura, o que me parecia mais importante era o “impacto”, causar sensação nem que fosse através de primeiras páginas assim. Hoje não o repetiria. Não pelo responso tonitruante do Patriarcado; sim pela consciência de que nem tudo vale a pena para dar nas vistas.

16 thoughts on “Há uma dúzia de anos, a blasfémia morava em Portugal”

  1. Caro Luís,
    A ideia é pôr ao mesmo nível a reacção dos católicos e dos muçulmanos em face de ofensas religiosas ou para fazer um mea culpa pelo “acto irreflectido” do passado?

  2. Rui,

    Infelizmente para a argumentação que está a engatilhar, não se pode “pôr ao mesmo nível” coisas incomparáveis: escrever um protesto ou organizar umas vigílias nada tem de similar com o que temos andado a ver por estes dias no mundo islâmico.
    Quanto ao “mea culpa”, olhe que o meu acto nada teve de irreflectido: o cartaz teve o seu quê de provocação calculada e a reacção, além de esperada foi mesmo bem-vinda…

  3. Felizmente hoje pode andar tranquilamente na rua ou assumir publicamente a autoria do projecto sem receio de uma qualquer fatwa!

  4. Mário,

    Pode crer que se vivesse em semelhantes paragens, nunca me passaria pela ideia dar à estampa este cartaz. Provocador, talvez, agora maluco é que não!

  5. Respeito muito a sua opção de não o voltar a fazer. Terá também que respeitar a opção daqueles que o queiram fazer no futuro. Acho imbecil que se queira colocar a questão em torno do direito à blasfémia. Esse existe e não nos deve ser nunca tirado. A questão neste caso dos cartoons deve ser colocada na reacção extremista à nossa liberdade de expressão e aqui não deve haver posições de direita ou de esquerda, nem os dois lados devem estar envergonhados de, desta vez, ficarem juntos numa luta.

  6. Delicioso, Luís. Ainda bem que trouxeste esta recordação e nos deixaste saber que é uma peça tua. Já agora, eu nunca faria peças com temas religiosos, fossem eles (os clichés e as religiões envolvidas, mesmo que tão pacíficas como o Budismo) quais fossem (incluindo os inevitáveis abades gulosos, etc.), mas não censuro quem os faça. Enfim, mariquices…

  7. Karloos,

    Não sei se o direito à blasfémia existe assim com essa liberdade toda, mas enfim. Por exemplo, este exemplo que aqui trouxe seria hoje muito provavelmente ilícito se atendêssemos ao espírito do artigo 7º do código da publicidade. E em muitos outros casos a nossa liberdade de expressão é restringida: felizmente, o insulto a terceiros é proibido, a divulgação de ideias fascistas idem, o incitamento à violência também.
    Não me passa pela cabeça pugnar pela proibição de cartoons; mas talvez fosse de exigir aos editores alguma atenção à sensibilidade dos crentes. Só que neste caso a provocação parece ter sido deliberada. E isso já me parece pouco defensável.

  8. Este post levanta uma nova questão, será igual a criação satírica para promoção de um bem de consumo da criação de uma mensagem utilizando sátira.

  9. Júlio,

    Igual nao será. Por isso a publicidade tem regras legais próprias. Mas olha que o efeito não deve ser assim muito diferente: lembras-te quando surgiram aí umas sapatilhas com uns arabescos aparentemente muito parecidos com a palavra árabe para “Alá”?

  10. Mais confuso ainda é quando (quase sempre) a imprensa finge informar a fim de vender o seu produto e o que lá é publicitado.

  11. Luís,

    espero que tenhas a casa segurada contra vandalismo: está-me a apetecer incendiar algo… Então foste tu o velhaco que se lembrou de colocar na mão do Cristo em Glória tão reles amostra de cerveja?! Se ainda fosse uma St. Bernardus Abt 12!

  12. A “Nota” do patriarcado é um protesto. Legítimo. Quando não se gosta lamenta-se o acto. Por telefone. Por carta. Até pessoalmente se for caso disso.
    Julgo que o autor não foi ameaçado, nem a sua família, nem despedido, nem perseguido.

    Comparar com a “crise dos cartoons” é uma analogia impossível. Felizmente.

    CAA

  13. Como sempre estou com o Gibel. Verdadeiramente blasfemo, pior do que qualquer caricatura, foi pores o nosso senhor a beber uma mistela daquelas. Valha-nos a nossa Super Bock que é tão boa!

  14. A diferença está no tipo de reacções desencadeado. Num caso, notas, conversas, lamentos, noutro violência.
    Além do mais, não percebo porque é que a religião deve estra protegida da sátira. O direito a fé num Deus qualquer de qualquer pessoa é igual ao direito à minha “fé” noutra coisa qualquer, por exemplo, um clube de futebol (sei que é um extremismo). Em boa verdade, não existe qualquer aegumento racional para que consideremos a a religião acima de tudo o resto. Quando o Benfica perde tb não gosto que me dêem “tanga” mas lá tem que ser. Quando ganha dou eu aos outros. Isto é democracia e a religião é uma realidade, que entre nós, está em democracia portanto tem que respeitar essa democracia e a consequente liberdade de expressão.

  15. Não sei se adiferença está tanto na reacção das entidades religiosas se na facilidade com que as multidões se inflamam, cá e lá. “Motivo de escândalo e ofensa para numerosos portugueses”; isto noutras paragens dava um belo rastilho.

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