Todos os artigos de Aspirina B

O assombro – A aspirina está a saber-me mal

Eu cá aguento de tudo. Aguento as odes a Marx, a iconografia soviética, as toupeiras e manteiga aos amigos, a explicação de que o Bush é responsável pela neve em Évora, pela fome no Sudão e pelo fim da carreira do 87 no Porto. Aguento discursos sobre o futuro do Bloco de Esquerda, polémicas com o Henrique Raposo para ver quem leu mais livros do Negri, e até as graçolas do Daniel Oliveira. Aguento tudo! Tudo o que quiserem, menos elogios ao Pacheco Pereira. Ò por amor de Deus!
RMD

Confissão

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Eu cá só critico os amigos. Não tenho paciência para perder muito tempo com disparates de gente que não conheço. E, como tenho só meia dúzia de amigos, isso poupa-me ter de fazer críticas a esmo. Recomendo por isso, vivamente, a minha última crítica, ao último livro do meu amigo António Figueira, saída no último número da revista Manifesto. Estou convencido que é uma crítica que ele próprio poderia ter escrito. Estou à espera de ganhar a comenda Pedro Rolo Duarte, a título póstumo.

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Betume da Judeia I

«Fotografia, s. f. Arte de fixar por meio de agentes químicos e com o auxílio da câmara escura, a imagem dos objectos exteriores, quer directamente sobre chapa, quer por uma reprodução da chapa sobre papel ou sobre outra chapa.»
ARTUR BIVAR, Dicionário Geral e Analógico da Língua Portuguesa, 1948

«Fotografia é uma técnica de gravação por meios químicos, mecânicos ou digitais, de uma imagem numa camada de material sensível à exposição luminosa.»
Wikipedia

Como se pode facilmente constatar, a definição de fotografia foi, ao longo dos anos, tornando-se cada vez mais lata à medida em que foram evoluindo as técnicas que estão associadas à sua produção. Poder-se-ia, inclusivamente, esboçar-se uma definição ainda mais ampla e actual do que a fornecida pela Wikipedia: Fotografia é uma técnica de gravação por meios químicos, mecânicos, digitais ou biológicos de uma imagem numa camada de material sensível à exposição luminosa.

O que é, então, uma fotografia?

Sendo a fotografia o resultado de um processo, tentarei desmontar as suas várias fases:

1. Gravação, fixação ou impressão (suporte que conserva a informação);

2. Imagem (fonte de luz directa, reflectida por objectos ou induzida por cargas eléctricas);

3. Sensibilização (suporte sensível à exposição luminosa, isto é, material que sofra alterações físicas e/ou químicas quando atingido por fotões).

Se virmos uma transparência pintada com uma tinta translúcida projectada numa tela, não poderemos, à partida, afirmar que estamos perante uma fotografia, na medida em que não existe um suporte fotossensível, nem um meio para a sua conservação. Contudo, se utilizarmos um digitalizador, a mesma imagem anteriormente projectada adquire, automaticamente, qualidades fotográficas…

Toupeiras e outros animais furiosos

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Ainda a propósito da polémica desencadeada pela famosa nota crítica do Zé Mário, o JPG volta ao ataque. Antes do mais, há que convir que esta sua luta não é de hoje: lembro-me, embora não consiga recuperar o respectivo url (mas dei com um ténue fantasma no Google, e com parte da resposta do “nosso” Fernando Venâncio), de pelo menos uma prosa georgiana antiga a vituperar o “amiguismo” circular do meio.
Agora, depois da polémica já ter dado várias voltas à blogo-aldeia, o JPG julga ter encontrado o testemunho perfeito para tornar a sentença inapelável e poder exarar a ordem de crucificação do Zé Mário: a posição do Pedro Mexia. Sobretudo quando ele reconhece “que não se deve escrever sobre um amigo próximo”. QED: andam por aí chuvas de “textos sebáceos que uns e outros ejaculam uns para os outros” e o Zé Mário terá caído na “asneira” de dar mostras de “de medievalismo e de oportunismo”.
Não vou esmiuçar isso do “medievalismo”; interessa-me mais o carácter “sebáceo” do texto em apreço. Pensar-se-ia que o tal “favor” com que o Zé Mário benzeu o livro do “amigo (hui! hui! hui!)”seria calculado para, sendo tão untuoso, lhe dar uma “exposição” tremendamente positiva; seria pela certa um panegírico acrítico e delirante.
Ora o que se lê na tal micro-recensão é tudo menos isso. É dada a notícia do nascimento de mais uma editora, do lançamento do livro e, em poucas palavras, feito um balanço do mesmo. Quando chega o momento do veredicto, este é frio: assim-assim. Poesia por vezes “rasa” e “ingénua” que, embora almejando objectivos meritórios e sabotadores, parece condenada a estiolar no gume assassino do “quase”.
É esta a tal “ejaculação” da fantasia do JPG? Talvez: ele desvaloriza o conteúdo do texto e concentra-se no seu suposto “programa”: incensar a todo o custo os amigos, dar-lhes doses cavalares da mirífica “exposição” (francamente, se fosse eu o autor, preferiria não a ter tido, neste caso). JPG, depois de se “esbandalhar a rir”, afirma não ter percebido “patavina” das ressalvas do Zé Mário. Eu, por mim, percebi-as sem dificuldade; e até começo a perceber melhor este encarniçamento contra os críticos instalados.
A posição do Pedro Mexia é louvável. Eu também preferiria não correr o risco de escrever sobre obras de amigos íntimos. Mas a atitude simétrica é igualmente virtuosa: criticar obras de autores próximos, sim, desde que com a liberdade necessária para poder apontar fraquezas quando é caso disso. Assegurado isto, como neste evento, o que haverá a censurar?
O resto, como a indignação de Pacheco Pereira, esse pobre ostracizado pelas diversas coteries, é mais do domínio da pequena história das embirrações pessoais.

TOUPEIRICES & AMIGUISMOS

Na sexta-feira passada, o indómito e virginal João Pedro George, talvez à míngua de figuras para zurzir, pegou no suplemento do DN, viu-me a jeito nas páginas dedicadas aos livros, pensou “não é tarde nem é cedo” e vai de desancar-me à antiga portuguesa neste post, rapidamente comentado por Pacheco Pereira, que não perdeu tempo a ampliar a tese conspirativa («há hoje no mundo literato vários sistemas e subsistemas grupais competindo pelos mesmos “bens”, influência, artigos, colunas, programas de televisão, entrevistas, promoções, editoras, colóquios») e a apontar o dedo a esse grupo semi-maçónico, presume-se, que «ia do defunto DNA, para o grupo do “É a Cultura, Estúpido”, ou as Produções Fictícias». Com o Abrupto na liça, o que podia ser um mero post azedo do JPG transformou-se num verdadeiro caso que já se ramificou em várias direcções, numa trama de links que ainda não pude visitar na totalidade.
Se só respondo agora, é porque só agora voltei a ter alguns minutos (poucos) para dedicar aos blogues. A vida tem destas coisas: cai-te em cima uma polémica das boas precisamente numa fase em que o trabalho não dá tréguas e a internet desceu vertiginosamente na lista de prioridades. Mas isso pouco importa. Mesmo sem saber se conseguirei abordar as principais questões levantadas, queria voltar, se me permitem, ao princípio de tudo. Isto é, ao texto que motivou a indignação do JPG. Será que alguém o leu? Será que alguém foi ver o que havia ali de tão grave, de tão indecoroso, de tão amiguista? Não me parece.
Sendo assim, antes de focar outros aspectos deste «banzé escusado», como lhe chamou certeiramente um amigo, talvez seja melhor começar pela republicação dessa fatídica notinha que não chega, vejam bem, aos 2000 caracteres (nem sequer lhe consigo chamar recensão, quanto mais crítica):

Andar na rua com um pêlo na boca

Um homem cai para trás, fulminado por um raio. É este o símbolo da Livramento, uma editora recém-nascida que pretende marcar a diferença, no panorama sobrelotado das pequenas chancelas (quase sempre com dois sócios cheios de genica mas com pouco dinheiro), pelo arrojo do grafismo. Basta olhar para o rosa shock da capa do primeiro livro para perceber que é possível, afinal, encontrar volumes de poesia que prescindem, no frontispício, das cores neutras ou do inevitável quadro de Edward Hopper.
Estreia poética de Nuno Costa Santos, jornalista que já publicou uma colectânea de narrativas interligadas (Dez Regressos, Salamandra) e mantém um popular blogue de posts curtos (http://melancomico.blogspot.com), Os Dias Não Estão Para Isso diz ao que vem logo nas epígrafes: Fernando Assis Pacheco (“Peçam a grandiquolência a outros…”), Alexandre O’Neill (“…adoptemos o prosaico…”) e Raymond Carver (“Sentia-me esquisito, a andar pela rua com um pêlo dentro da boca”).
A partir destas três referências, NCS estrutura uma aproximação à poesia que é sempre uma forma de sabotagem da poesia (ou, pelo menos, sabotagem da sacralização do sublime que ainda é bastante notória em muita da produção contemporânea).
Nestes versos de um lirismo sempre irónico – e por vezes ingénuo – não há pose, não há verve, não há um rasto que seja de solenidade. Descrevendo aspectos da sua vida pessoal e da respiração do bairro onde vive, NCS assume como programa uma “tabela de ninharias”, onde o Fórum TSF, a fisioterapia das “veteranas senhoras”, a bica pingada e a sinusite coexistem com vislumbres da beleza escondida das coisas ou com a nostalgia da infância nas ilhas.
É uma escrita arriscada e desigual, no fio da navalha, por vezes excessivamente rasa. Quase poemas de um quase poeta capaz de versos completos. Como estes: “Lembra-te que na dúvida / as pessoas não amam.// Que antes da dúvida / há muitos territórios // e que nenhum deles é o amor”.

Os destaques a negrito dispensam, parece-me, mais comentários. Às outras questões da polémica regressarei logo que possa.

[Este post foi igualmente publicado no blogue A Invenção de Morel.]

Balanço provisório do DN

SORAIA CHAVES E O MESTRE BULGAKOV
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Normalmente indigno os meus amigos ao afirmar, com convicção, que o jornal mais bem feito, em Portugal, é o Correio da Manhã (CM). Não se trata de gostar da imprensa popular. Não é por concordar com a linha editorial. Eu acho o CM bem editado: um texto nunca tem 7000 caracteres. Os assuntos importantes são tratados de várias maneiras com várias texturas: temos notícia principal, várias caixas, infografia, pequena entrevista, etc Nota-se que é um jornal pensado em que os editores fazem o seu trabalho. Aquilo que me irrita no Público, para além da existência do José Manuel Fernandes, e no Diário de Notícias (DN) é de ter a sensação que os editores não participam com os jornalistas na discussão da melhor forma de dar valor acrescentado a uma notícia.
A recente mudança no DN deu-me esperança que o jornal começava a ser melhor pensado e se estava a aproveitar decentemente a centena de profissionais que lá trabalham. Infelizmente, apesar do “fogacho” da cobertura eleitoral, parece-me que as coisas tendem a não melhorar. Parece não se perder tempo a pensar qual é a melhor maneira, a mais original, a mais motivante de contar uma história. E depois, há pouca definição dos produtos de apoio: não consigo perceber o que distingue a Notícias Sábado (NS) da Notícias Magazine, para além de na segunda revista, apesar do péssimo grafismo, se encontrar reportagens jornalísticas e na NS só haver lugar para futilidades. Os técnicos de marketing vão-me garantir que uma é masculina e outra feminina, mas isso, agora a sério, serve de pouco.
Apesar de ser jornalista há muitos anos, nunca consegui perceber um produto, dito, jornalístico que não tivesse um único assunto que fosse importante do ponto de vista informativo. Acho que a um jornalista se deve pedir que saiba interessar o leitor e que consiga contar histórias, mas uma revista não pode ser um simples amontoado de consumos e de vidas de famosos.
Houve um dono de um grupo de media que explicou que “as pessoas não queriam ver pretos, pobres e velhos e que para desgraças bastava a vida”. Um director-adjunto garantiu-me que as notícias a publicar eram aquelas que as pessoas desejavam comprar e elogiava um tablóide inglês, com enlevo, e garantia-me: “não tem uma única notícia!”
Lamento muito, não estou de acordo com o “ar do tempo”. Acho aliás que já estivemos muito melhor. A SIC já deu informação muito a sério. O Independente no tempo da Constança Cunha e Sá tinha um grande caderno de reportagem e o Público e a revista do Expresso já foram muito melhores.
Exemplo dessa nova ideologia bacoca, do jornalismo pensado para o que supostamente o público gosta, é a nova revista do DN, ao Sábado, a NS. Vejamos o cardápio: Perfil de Soraia Chaves, o serão do Ministro da Economia, o dono do Majestic, uns tipos que atiram discos na praia, os consumos e gostos do Francisco José Viegas e uma reportagem, que sendo jornalismo, devia lá estar por engano: os detectives privados. A única coisa verdadeiramente positiva que soube, foi que Soraia Chaves lê a “Margarida e o Mestre” de Bulgakov. É inteligente e ganha o seu tempo a ler um grande romance do século XX. Nós, infelizmente, perdemos tempo a ler a revista do DN…Para meu consolo, nesse número fiquei a saber que o jornalista Joel Neto esvaziou a estante para colocar uma consola de computador e que diabo, o bom do Joel merecia, até já tinha dado alegrias suficientes ao pai porque, passo a citar, “não virei drogado nem militante do Bloco de Esquerda”. Depois de ler tal crónica, descobri um herói do nosso tempo. Tive a curiosidade de ir à página pessoal do Joel, a qual aconselho vivamente. No perfil disponibilizado, pelo próprio, soube que « a dignidade de Joel Neto, neste mundo em que “ tudo se vende, tudo se compra”, está em ser um “outsider”. Para o jovem açoriano, a democracia falhou, mas apesar de “as pessoas viverem como penicos embrulhados em cetim” », além de ser autor de uma rica cosmogonia, Joel Neto ainda é um homem que acredita. E de onde lhe vem essa força transcendental? O próprio esclarece-nos de uma forma telúrica: “há uma mãe grávida em cada homem capaz de suportar o parto.” Grande matéria para um próximo número da NS seria uma ecografia deste jornalista prenho de ideias…
Apesar das potencialidades científicas da descoberta, eu cá acho que, para ele e para todos leitores, mais valia ser drogado.