Argumentação às direitas

O Nuno Gouveia, em mais um post laboriosamente trabalhado no 31 da Armada, diz mais ou menos o seguinte:

A Isabel Moreira foi a uma exposição que eu não gosto e não entendo, feita por uma gente esquisita. Está aqui a foto que prova o delito. Logo, só posso concluir que o PS não está preparado para governar. Ah, tenho que dizer Artur Baptista da Silva, porque agora é moda. E Zorrinho, porque sim. E Sócrates. Porra, não podia faltar que a culpa é do Sócrates. Pronto, está o post feito.

Da minha parte, depois de tão cabal demonstração das capacidades intelectuais do autor, só posso mesmo acrescentar: Lindo casaco, Isabel. Acho que está a resposta dada.

A canga que merecemos

Cavaco foi reeleito após uma campanha onde pintou o seu principal adversário, Alegre, como uma figura sem as condições adequadas ao tempo de gravíssima crise que então se vivia. Só o homem de Boliqueime era garante da tão necessária estabilidade política, afiançava a sua candidatura, tendo o próprio chegado ao ponto de alertar a Nação para as consequências de uma eventual 2ª volta: imediato castigo dos mercados com subida dos juros e contenção do crédito.

Alguns dos seus mais notáveis apoiantes, como Freitas do Amaral, não acreditaram no que viram e ouviram no discurso da vitória eleitoral, onde Cavaco fez algo nunca antes registado em Portugal: atacou e insultou os candidatos derrotados. O episódio era especialmente relevante pelo descontrolo emocional – portanto, cognitivo e volitivo – que exibia, fazendo temer o pior por ser absurda e infame aquela explosão de raiva. Freitas previu, instigado a comentar o sucedido, que na tomada de posse a responsabilidade e o espírito institucionais estariam de volta e Cavaco faria o discurso da união que a sua função e o momento do País exigiam.

Esse discurso, de facto, estava destinado a entrar para a História. Há pelo menos três aspectos nele que são extraordinários; e sob variegados pontos de vista da análise política, da investigação jornalística e mesmo da reflexão em ciências humanas. O primeiro consiste no seu teor populista, onde Cavaco se representa como uma entidade acima da política e, por isso, mandatada para julgar os políticos em nome de uma isenção e impecabilidade cuja autoridade radica na própria audiência a que se dirige. Daí a exortação directa e explícita à população para se manifestar e revoltar na rua contra o Governo e contra os deputados. O segundo consiste na ausência de qualquer referência à conjuntura internacional, nem sequer a uma União Europeia afundada na maior crise da sua existência. O apagamento desses factores servia o intento de diabolizar o poder executivo, dessa forma alimentando as dinâmicas que levariam a uma crise política no mais curto espaço de tempo. Tendo em conta que Cavaco tinha passado o mês de Fevereiro a falar com os principais agentes políticos e económicos nacionais e da Comissão Europeia, ele seria um dos gabirus com mais e melhor informação acerca da influência do exterior nas dificuldades nacionais. A exclusão dessa parte maior da realidade revela um cinismo que se sabe absolutamente inimputável. O terceiro aspecto surpreendente, e chocante, é também uma ausência: não se encontra naquele texto um só caracter, vírgula ou espaço entre letras que faça referência às Forças Armadas Portuguesas, muito menos aos militares que arriscam a sua vida em diferentes palcos de guerra e de conflitos no estrangeiro. O Comandante Supremo, na solenidade da tomada de posse, nem se lembrou de deixar uma palavrita de circunstância para os seus homens e mulheres tamanha era a tontura do ódio contra os socialistas. O que isto nos diz da miserável direita portuguesa vai sem comentário.

Cavaco quis uma crise política em Março de 2011 e foi um dos principais causadores dela. Ele sabia qual seria o custo dessa opção para os portugueses. Ele queria vingança e a cabeça de Sócrates servida numa bandeja. A desgraça que se iria abater sobre milhões de portugueses seria apenas um dano colateral numa guerra onde ele era o intocável generalíssimo. É por isso de espantar que estas palavras abaixo não tenham causado – e não venham a causar – qualquer manifestação de indignação. A direita putrefacta subsiste, afinal, por ser o simétrico de uma esquerda fanática que prefere a indigência à liberdade. Dois terços de Portugal merecem, e até agradecem, esta canga:

Precisamos de recuperar a confiança dos Portugueses. Não basta recuperar a confiança
externa dos nossos credores. Temos de trabalhar para unir os Portugueses e não dividi-los.

Na situação em que o País se encontra, os agentes políticos e sociais têm de atuar com
grande sentido de responsabilidade.

A resolução dos problemas nacionais pressupõe diálogo e consenso, entendimentos feitos a pensar nos Portugueses e no País como um todo.

O País não está em condições de se permitir juntar uma grave crise política à crise económica, financeira e social em que está mergulhado.

Iríamos regredir para uma situação mais penosa do que aquela em que nos encontramos. Devemos, pois, trabalhar em conjunto e unir esforços para encontrar as soluções que melhor sirvam o povo português.

O povo português tem dado mostras de um sentido de responsabilidade que deveria servir de exemplo para os nossos agentes políticos.

Mas será que não existe um jornalista capaz de lhe perguntar se entende o que lê?

Discurso de Matos Rosa dura mais do que o do presidente

É verdade que isto se passa apenas na televisão por cabo, mas não deixa de ser escandaloso. Pede-se aos partidos que comentem o discurso de Cavaco e o PSD faz um discurso alternativo, possivelmente mais longo ainda e igualmente “solene”. Tempo de antena puro e duro. Sem perguntas dos jornalistas. Que lata!

Quanto ao discurso do Sr. Silva: estas políticas são insustentáveis, mas assinámos o MEMORANDO (onde ele já vai); entrámos numa espiral recessiva e isso é mau porque agrava a dívida, mas não há nada a fazer. Tem medo da UE, dos mercados, do Relvas e sabe-se lá de que mais, mas acha que Portugal devia pressionar mais lá fora e traduz a coisa para os 90% de deputados que representam partidos que assinaram e negociaram o MEMORANDO, logo, os socialistas devem unir-se aos esforços do Gaspar para sermos bem vistos. Compreenderam?

Foi forçado a pedir a fiscalização sucessiva, mas já devia ter pedido era a fiscalização preventiva.

Está dado o mote


Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós…

Alexandre O’Neill