Tradução simultânea

Ão-ão-ão-ão-ão, ão-ão-ão, ão ão-ão, ão-ão-ão-ão ão-ão-ão-ão-ão, ão-ão ão-ão-ão. Ão-ão-ão. ão-ão-ão-ão-ão, ão-ão ão-ão-ão-ão-ão, ão-ão-ão ão-ão-ão-ão-ão. Ão-ão-ão ão-ão ão-ão-ão-ão-ão. Ão-ão-ão. ão-ão-ão-ão-ão, ão-ão ão-ão-ão-ão-ão, ão-ão-ão ão-ão-ão-ão-ão. Ão-ão-ão ão-ão ão-ão-ão-ão-ão. Ão-ão-ão ão-ão ão-ão. Ão-ão-ão ão-ão ão-ão-ão-ão-ão, ão-ão ão ão-ão-ão.

[O verdadeiro discurso de agradecimento de Philip Seymour Hoffman, sem a voz off meticulosamente sincronizada que os produtores dos Óscares sobrepuseram, à má fila, durante o espectáculo transmitido esta madrugada para todo o mundo.]

Diogo Freitas do Amaral

Tem as suas incoerências, ai pois tem. Tem as suas peças de teatro com cheiro a naftalina, ai pois tem. Tem o rosto associado, na memória dos gajos de esquerda como eu, a um certo modelo de casaco verde escuro assustador, ai pois tem. Tem aquela vozinha professoral particularmente irritante, ai pois tem. Tem uma certa arrogância intrínseca que a recente “deriva esquerdista” (tão verberada pela direita) não apagou, ai pois tem. Tem no currículo a mais ridícula nota alguma vez emitida por um ministério, desde que Mohammed Saeed al-Sahaf (o genial ministro da Informação de Saddam Hussein) foi inexplicavelmente afastado do cargo por essa força obscura chamada realidade, ai pois tem. Mas caramba, não se pode dizer mal de um homem que utiliza em 2006, ainda por cima com propriedade, a palavra topete, um dos mais preciosos e esquecidos substantivos da nossa língua.

Lençóis americanos

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Sabia que 10% dos lençóis vendidos nos Estados Unidos são fabricados em Portugal? Eu também o ignorava, até lê-lo numa citação do «Expresso», que encima um conto de Paulo Kellerman (1974, Leiria).

O que você também não sabe (e, se sabe, pertence a um selectíssimo círculo) é que há magníficos contos portugueses, alguns topo de gama, que têm uma circulação discreta. Que ninguém se admire, pois, se lhe disserem que «As sirenes que tocam», esse conto de Paulo Kellerman que nos leva às camas americanas, é uma absoluta jóia. Apareceu publicado no volume Pequenas Nuvens Solitárias Perdidas no Imenso Azul do Céu, Leiria, Sem Editora, 2001. Não creio que você o tenha aí à mão.

Mas o que você tem à mão, e aqui mesmo, na coluna da direita neste seu ecrã, é o link para o blogue A Gaveta do Paulo, onde pode vasculhar tranquilamente.

Uma entrevista com Paulo Kellerman está aqui.

De resto, acabam de sair as suas estórias Gastar Palavras, na Deriva Editores. Ainda não li. Mas, e cito mestre Prado Coelho (não a propósito deste livro, mas num idêntico gesto de fé na humanidade), «terei de procurar».