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Descubra as diferenças

“Em planos distintos, a liberdade de expressão saiu maltratada no Iraque, onde soldados são pressionados para fecharem os seus blogues, e em Portugal, onde Miguel Sousa Tavares reage com excesso de legítima defesa aos abusadores anónimos.”

Início da crónica do Paulo Querido no Expresso Online.

“Em planos distintos, a liberdade de expressão saiu maltratada no Iraque, onde soldados são pressionados para fecharem os seus blogues, e em Portugal, onde Miguel Sousa Tavares defende os abusadores anónimos.”

Teaser (na verdadeira acepção da palavra) da Única (página 136) para a crónica do Paulo Querido no Expresso Online

Fucking pontos nos is

É só para dizer que não me encaixo nas três letrinhas colocadas na primeira linha deste post, entre as palavras “já” e “tirou”. De resto, até espero, a crer na bondade do raciocínio do Luis, que a Joana Amaral Dias tenha participação muito activa na campanha pelo “sim” à despenalização da IVG.

Fucking mas sem leite

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Ao longo de quinhentas e tal páginas, que parecem mais de mil, José Rodrigues dos Santos “escreveu” ora (bolas!) algo que, de tão inqualificável, merece um qualquer prémio. Ainda que se invente ad hoc, mas merece. Entre novas versões do giz a arranhar no quadro, como a repetição até à exaustão do termo “Puxa”, assim mesmo, e com ponto de exclamação e tudo, e a invenção de um tipo da CIA, que utiliza, até à dor (do leitor), a expressão “Você é um fucking génio” (o tipo fala em inglês, o autor traduz, mas, vá-se lá saber porquê, o fodendo mantém-se na língua mãe), o autor presenteia-nos com mais uma memorável cena de sexo, desta vez entre o sempre Noronha e uma iraniana chamada Ariana (Iraniana, Ariana, que os gajos não são árabes – o tipo sabe-a toda). Porém, lamentavelmente (tirai-os da chuva), sem leite, que desta o ambiente não é propício a sopas, e, certamente “derivado” à carestia, esta iraniana não parece dá-lo. Mas não temais, que a compra vale a pena da contrapartida pecuniária: na mesma cena do salto para a cueca, há por lá demais sucos com fartura.

Ide.
Ide ler.
(tem uma linda sobrecapa, de resto)

(Este post não foi inspirado em um qualquer esgalhado por esses fucking génios do Blasfémias, que não leio há dois dias. Se por lá houver algo semelhante, é mera coincidência. Cross My Heart…)

Ração para porcos

“Depois de as coisas acontecerem, é quase irresistível reflectir sobre o que teria sido a vida, se se tem feito diferente. Se soubesse o que o destino lhe reservava nos próximos tempos, talvez Luís Bernardo Valença nunca tivesse apanhado o comboio, naquela chuvosa manhã de Dezembro de 1905, na Estação do Barreiro.

Mas agora, recostado na confortável poltrona de veludo carmim da 1ª classe, Luís Bernardo via desfilar tranquilamente a paisagem através da janela, observando como aos poucos se instalava o terreno plano, semeado de sobreiros e azinheiras, tão característico do Alentejo, e como o céu de chuva que deixara em Lisboa ia timidamente abrindo clareiras pelas quais espreitava já um reconfortante sol de Inverno.”

É desta forma, e não desta, que se inicia o romance Equador, de Miguel Sousa Tavares.

É verdade que o abjecto rapazola que assina lapierre & collins não coloca aspas nos parágrafos que precedem a frase “Assim se iniciam os livros «Equador», de Miguel Sousa Tavares, e «Fredom at Midnight», de Dominique Lapierre e Larry Collins.” Mas também é verdade que a blogosfera já está a ficar apinhada de “citações” dos dois infames resumos como se os mesmos correspondessem, à letra, ao início dos supracitados romances.

Foi, exactamente esse, de resto, o objectivo do pusilânime animal, ao disfarçar de “início de romance” os ditos parágrafos. Tudo para que o Zé, exultando com a suposta desvelada desgraça alheia, cegasse e, à boa maneira portuguesa, tratasse de pôr a circular as ditas frases como se de verdadeiras citações (iguaizinhas, Maria, iguaizinhas!) se tratassem.

Porém, e essa é que é a merda, no antro em que esta espécie de país está feito, é também isso que fica para a posteridade. As duas frases. Os dois abusivos resumos. Iguais. Que não são início de romance nenhum. Por certo que, metade da malta que leu a coisa, parou à primeira frase em inglês, ficando-se pelos fajutos inícios de romance. O desprezível insecto contou com isso – com a sua imbecilidade e com a estupidez natural do populacho.

E o resto? Não há absolutamente mais nada digno de registo. Trata-se, tão só, da simples menção a factos históricos. Semelhantes, claro. E por isso mesmo – porque são factos. Como diz o João Miranda, em referência a Sir Buphinder Sing, “Dizer que ele era rico, tinha um metro e noventa de altura e cento e quarenta quilos de peso é plagiar a realidade. Ele era mesmo rico e provavelmente tinha mesmo um metro e noventa de altura e cento e quarenta quilos de peso.”

Uma última coisa. Passou-vos mesmo pelas cabecitas que o MST se desse ao luxo de plagiar e de aludir, ao mesmo tempo, no livro produto do suposto plágio, ao livro objecto do suposto plágio? Que fita métrica estão a usar? A mesma com que medem as pilinhas?

Acalmai, pois, a vossa sede de sangue, que esta tontaria é menos que nada.

Punhetas a grilos reloaded

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Era uma promessa que lhe tinha feito. Havia de escrever um livro. Chegou a pôr um alarme no telemóvel: 2ª feira, 15 horas, avisar 10 minutos antes (era um nokia): “Escrever”. Assim mesmo. “Escrever”. Como se estas coisas de escrever pudessem ser programadas. Levanta-se pela manhã, toma um duche, engole os cereais e vai à bolina no seu carro que “pelo menos é seguro” e que “já não é a primeira pessoa que me diz, e até já li num livro: tem mais 28 cavalos do que diz o livro – sabes como é que é! Questões fiscais”.
E vai asinha porque não pode chegar atrasado ao seu novo emprego de escritor. O patrão é severo. Tem prazos a cumprir. Agora é um romance. Uma história de tragédia. Dois irmãos que se apaixonam um pelo outro e são obrigados a terminar a relação quando descobrem que, afinal, não são irmãos. Depois chega a hora de almoço e à tarde tem de se embrenhar numa comédia.
Há que arranjar um herói. Pode ser o terceiro irmão dos atrás avindos – e que hão-de deixar de o ser.
Que nome lhe havemos de dar? Passa este escriba pelas mesmas agruras dos pais que lhe escolheram o nome, assim como “uma espécie de pai sem o ser”.
Martim. Pronto. Pelo menos aqui não tenho quem discorde. Martim será e pouco me importa que lhe chamem Martins. Afinal as crianças são cruéis e os adultos são medíocres. Quase todos. Não podem ser todos. O próprio conceito e o simples facto de existir, como tal o impõe. Se o oposto da mediocridade, qualquer que ele seja, como de resto tudo o que é ou não é, não existisse, ou não fosse reconhecido, a própria mediocridade não existiria.

Mas já chega de conversa fiada. Vamos a coisas sérias.

Falava-vos do nosso herói! Lindo! Bela tirada: “o nosso herói”. Livro que o queira ser, deste escritor de empreitada (que não sou eu, atenção, não se esqueçam da promessa), tem de ter um princípio, um meio e um fim e, mais que tudo, tem de ter um narrador – aqui posso ser eu – que possa dizer coisas como: “o nosso herói”.

Martim. Irmão do Fulano e da Beltrana – assumi o “Beltrana”. Irmã borralheira da Fulana, a preferida, e da Sicrana, irmã do meio a quem pouco falta. Não é a sério, não se esqueçam, porque irmãos são mesmo só três – recapitulando, Martim, Fulano e Beltrana. Nesta história, sempre que não se quiser nomear alguém, Beltrana será. E assim no feminino, que fica giro. E o raio do corrector ortográfico automático quer à força mudar-lhe o género. Pois que aguente. Não é Beltrano. Nesta estória não há paneleirices, se o outro é fulano, esta tem de ser Beltrana. Bem bonda o incesto que afinal não era.

O Martim, como não pode deixar de ser, é aprendiz de feiticeiro. Genericamente: bruxo – como se intitula. Num mundo de medíocres ninguém quer ser aprendiz de nada. Vamos todos fazer de conta. Fazer de conta que somos felizes. Fazer de conta que somos experimentados. Fazer de conta que temos dinheiro. Fazer de conta que não são os nossos papás que nos sustentam. Fazer de conta que nos esfalfamos a trabalhar. Sábados, Domingos e feriados. E dizer mal do vizinho que é um calão e não trabalha nos dias de descanso – deve-lhe vir da droga. Mesmo que estejamos conscientes, e alguns não fogem a esse estado, o que só lhes deve aumentar a agrura, mesmo que estejamos conscientes que não fazemos a ponta de um corno, que é só para inglês ver e, pior que tudo, que somos, na maior parte das vezes, o nosso próprio inglês. O que interessa é que o nosso vulto apareça na fotografia, que os movimentos mecânicos do trabalho se possam vislumbrar. Mesmo que o produto de toda essa presença no local da ilusória faina não passe dum enorme flato, dado bem alto e ao vento para que ninguém possa ouvir nem cheirar.
Mesmo assim. Como num enorme auto de fé de bruxas vaidosas. E um bruxo não dorme, um bruxo não come, um bruxo não bebe, um bruxo não fode. Pois bem, este aprendiz de feiticeiro faz isso tudo e mais uma botas que sejam precisas para algum pobre ucraniano que por ai ande de pata ao léu.
E lá vai então o Martim para o escritório. Chegou. As estórias misturam-se, a do criador e da criatura. Está quase a tocar o alarme das 10 para as 10. Ele espera, pacientemente. Escrever. Tá bem, tá. Escreve tu que tens bom vagar. Eu tenho muito com que me entreter – afinal, sou o vosso herói, o protagonista desta história. Embora não me desagrade de todo a ideia de tão tonta corrente literária, não gabo a sorte de quem a quiser aproveitar. Demasiado trabalhoso e, tecnicamente, não passa de uma bela dor de cabeça. Ah, e não vende.

Tocou o alarme, toca a escrever.
“Era uma vez um cabrito montês”

Quem as não tem?

“Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.”

F.P. (A.C.)

Sobre o tema, e para além de poder asseverar que tem razão o heterónimo, cujo criador, de resto, era perito no magnífico rídiculo das ditas (pobre Ophelinha, “Meu amorzinho, meu Bébé querido”), dei hoje por mim a tresler o D’este viver aqui neste papel descripto.

Entre as já usuais “minha gazelinha adorada, meu diamante querido, minha pérola e minha estrela”, dei com esta, à laia de despedida.

“Coloco o meu pénis na forquilha do teu corpo.
António”

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(Todas as cartas de amor são
Ridículas)

Esta malta (que escreve de escrever) também fode.

“Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.”

F.P. (A.C.)

PS – Por falar em cartas de amor, recebi esta agora mesmo.

Sapo reloaded

Aos 44 anos, o João era já um homem.
(pelo menos, ao sentido da visão assim se demonstrava)
E, como todos os homens, tinha uma ideia para a vida – não ter nenhuma ideia basta.
Dizia-se um panteísta puro.
(Sou daqueles, dizia, que empurra para a terra as folhas caídas no passeio de cimento – não vá perder-se a unidade e a substância)
O João acreditava (também) que a morte é um princípio e, no caso de algumas pessoas, um bom princípio.
Passa agora a Adão, o João.
(é cá comigo)
Avançava Adão pela rua (ainda não o tinha dito), pode ser a da Saudade, quando tropeçou num sapo (macho) que lhe interpelou o andar e o pensar.
(nesta história, os sapos falam, e com sotaque de quem a língua mãe deve ser o espanhol platense)

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(cloroplasto gentilmente “googlado” por py)

Puta que pariu, que me magoaste. Porque vais tão desatento?
Porque me apetece!
Se vais sem motivo, sabeis ao menos porque não tens motivo?
Ó criatura de circo, por que me incomodas? De resto, sapos a falar já vi muitos, mas que merda de sotaque é esse? E não me venhas com a conversa de que és um príncipe, que não levas beijo. Pernas de rã são boas, que tal serão as de sapo?
Tantas perguntas. É próprio de ti, Adão.
Conheces-me, espécie de lagarto anafado?
Se te conheço?
Foi isso que perguntei, se me conheces!
(retorcer de olhos, como quem indica o óbvio)
Conta-me lá então a tua história, mas entremos neste centro comercial (vamos àquele café), que de doido já vou tendo fama e seriam penosas as consequências de me verem a falar, em plena rua, com um sapo.
(dois cafés, um é pingado)
É curta e simples, a fábula que te cabe, Adão. Não nasci girino. Outrora, fui homem como tu. E apaixonado por uma mulher. Apostei com uma bruxa, por cujos encantos me devo ter perdido (vejo-o agora com clareza), que jamais amaria uma mulher que não fosse a minha. E que, pela bruxa e outras mulheres, não nutriria mais do que desejos de ocasião.
E então?
A bruxa picou-me o dedo no fuso, rectius (estou a brincar), disse-me que em sapo me transformaria se por ela viesse a sofrer de amores.
Em sapo te transformaria ou transformar-te-ia em sapo?
(semicerrar de olhos)
E aqui estou eu: obeso anuro, sem nunca ter sido girino!
E que porra tenho eu a ver com isso?
Pensei que, como caminhavas, tão desatento, pela Rua da Saudade (sabias ao menos o nome da rua?), tivesses visto o raio da bruxa. Daí querer saber porque seguias assim, aos pontapés aos sapos!
Deixa-me, então, que te conte a minha história. Nasci girino, um dia perdi-me de encantos por um sapo (fêmea, que não sou maricas), mas apostei que jamais a amaria. Que, se assim não fosse, disse ela, desinchava-me e punha-me em homem. Eis porque, nascendo girino, sou hoje filho de Eva.
Isso é mesmo verdade?
O quê? Eva? Darwin diz que não. Não, sapo filho da puta, `tou só a gozar contigo! Não acredito em sapos!

Era assim o Adão, um tipo sem pitada de magia. E olhem que nem todos merecemos que um sapo nos dirija a palavra. É coisa de predestinados. Não acontece todos os dias.
Sem apelo nem agravo, não deixou lembrança, o João (afinal, vai ser João).
De actos valorosos, o único que deixou marca (sem chegar para o libertar da morte) foi ter caído de um 4º andar, com a cornadura no cimento do passeio (faltaram-lhe folhas que lhe amparassem a queda) e não ter morrido (pelo menos no mesmo dia).
Disse mais tarde, à senhora da limpeza (enquanto esta se esforçava por apagar a marca – de sangue no passeio), que ripostava a um pombo quando perdeu o equilíbrio.
Morreu de velho, com um cancro de fumador passivo. Solitário, entrevado (da queda desfolhada), sem mulher, nem primos afastados.
Eis, pois, a história do João que foi girino.
Baseia-se em factos reais, mas os nomes foram alterados.
Não tem moral, esta que vos conto.
E este é o meu receio.

Aos do alecrim e da manjerona – um remake feito recado

Para os do normal-em-blogue-que-se-quer-político, os da sintonia recorrente na modorra e na chatice.

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Continuem, pois, a discutir a que banda pertencem, a dizer que Abel é que matou Caim, a inventar demais frases bombásticas, sonoras mas sem sentido, para alimentar os vossos saracoteios, continuem a reagir não em face da substância das acções, mas dos sujeitos das mesmas, e, quando menos esperarem, a serem sinceros com o vosso reflexo, hão-de verificar que a serpente da vossa tão amada (e gasta) dialéctica esquerda-direita vos está a morder o rabo.

De resto, sensíveis como parecem ser, já o hão-de ter sentido amiúde.

A cartilha por onde aprenderam a pensar, leva-vos, de uma forma geral, a discernir (apenas) o despiciendo, na vã esperança de que a brasa feita cinza se chegue mais rapidamente à vossa sempre crua sardinha.

Para além de, dessa forma, o mundo não pular, deve ser triste e cansativo viver assim.

“Sempre de bibe amarelo”.

das falácias e seus desmandos

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Em Maio do ano passado, tive oportunidade de me pronunciar, algures por aqui, e mais ou menos nos termos que se seguem, sobre a questão da redução das férias judiciais.

“A redução das férias judiciais de 2 meses para 1 mês não passa de um projecto puramente demagógico, com o óbvio desiderato de levar a pouco esclarecida plebe (a que nem está para se esclarecer, nem convém que se esclareça) a “pensar” que os tais dois meses de férias se traduzem num ataque à produtividade, sustentado por um qualquer estatuto especial garante da improficuidade dos funcionários públicos judiciais (juízes, procuradores e oficiais de justiça), isto, quando os demais funcionários públicos têm direito a apenas 22 dias úteis (mais coisa menos coisa) de férias.
Nada mais errado!
As férias judicias são, basicamente, férias dos prazos judiciais, em que estes estão parados, sendo que, nem os tribunais encerram portas, nem, ó ceus, os magistrados têm dois meses de férias do serviço.
Em qualquer serviço público, os funcionários têm um período bastante alargado, e de todas as formas superior a dois meses, dentro do qual podem “escolher” o período de férias de 22 dias úteis a que têm direito.
Nesses serviços, não há uma necessidade de todos os funcionários estarem ao serviço na mesma altura.
Não é assim no caso dos tribunais, em que tem que se contar, para que um tribunal funcione na plenitude, com a total disponibilidade para o serviço, e ao mesmo tempo, de Juízes, Procuradores e Oficiais de Justiça.
A implementação da anunciada medida de um mês de férias judiciais, sem mais, obrigaria ao impossível, ou seja, a que toda a gente tirasse férias ao mesmo tempo, o que, a concretizar-se, para além de se traduzir numa diminuição de garantias dos funcionários judiciais em relação aos demais funcionários públicos, equivaleria a que o Tribunal, naquele período, vamos supor que no mês de Agosto, pura e simplesmente não funcionasse, nem sequer para processos urgentes, porque nunca haveria juízes ou procuradores de turno, nem funcionários para os assistir, uma vez que todos estariam a gozar as férias a que têm direito, sem possibilidade de o fazerem noutra altura (com os prazos judiciais a correr).
Os 2 meses de férias judiciais não caíram do céu aos trambolhões e sem qualquer razão de ser.
O motivo tem exactamente a ver com a coordenação das férias dos diversos operadores judiciais, entre si e, mais que tudo, com a restante sociedade (imagino a quantidade de testemunhas que, em férias será, doravante, chamada a depor), por forma a, desde logo, garantir que, para processos urgentes, o tribunal nunca esteja fechado, o que passa pela garantia de haver sempre juízes, procuradores e oficiais de justiça ao serviço.
Num único mês, como é bom dever, não é possível proporcionar a necessária rotatividade, sendo que um juiz que esteja de turno numa semana de Agosto, terá que ter direito a essa semana mais tarde, o que acabaria por significar que toda uma secção ou juízo acabaria por estar parada nessoutro período (e nem me falem da bolsa de juízes substitutos porque é absolutamente impraticável destacar, de forma eficaz e profícua, um juiz para, durante uma semana ou quinze dias, substituir um colega que está de férias).
Há pois que reflectir e atacar os verdadeiros problemas da Justiça que não passam, isso é certo, pelos dois meses de férias judiciais, ns quais, de resto e verdadeiramente, a disponibilidade judicial, e esta é a pedra de toque, nunca se reduz a zero.
Neste sentido, uma boa ideia seria lançar meios eficazes de verificação da efectiva produtividade e assiduidade dos diversos operadores judiciais, designadamente juízes e procuradores, durante o período de férias judiciais em que não se encontram de férias.”

Passado um ano, eis o maldito boomerang da razão a bater-me, com força, nas trombas:

“O novo ano judicial arrancou hoje sem juízes no tribunal de Castelo Branco. Os magistrados foram colocados noutros tribunais, dentro da normal rotatividade de lugares. Permaneceram apenas o Juiz Presidente e o juiz do Tribunal de Trabalho. Contudo, nenhum dos juízes que foram colocados em Castelo Branco se apresentou ao serviço. De qualquer forma, se se tivessem apresentado não havia ninguém para lhes dar posse, dado que o Juiz Presidente e o juiz do Tribunal de Trabalho ainda estão de… férias! Assim, ficaram parados os processos urgentes no tribunal da capital de distrito. Perante a gravidade da situação, o Tribunal da Relação de Coimbra nomeou uma juíza que estava a prestar serviço no fundão para ir de urgência para Castelo Branco. Acontece que no Fundão existiam apenas duas magistradas. Uma delas já tinha ido para o Sabugal a assegurar os serviços do juiz que estava em férias. Com a saída de mais uma magistrada para Castelo Branco, o Tribunal do Fundão ficou sem juízes. Ou seja, no distrito, a justiça destapou os pés para tapar a cabeça. Aguardam-se as reacções. [Kaminhos]

téleios afixe (#1)

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Estou farto disto.
(não te armes em vítima)
Afinal, apenas lhe arranquei a vida do corpo.
Desembainhei a faca de cozinha (foi a minha sogra que a fez, a bainha) e dei-lhe com o cabo na tola.
Era um gajo insuportável.
Seguia-me por todo o lado.
E espirrava!
Às segundas-feiras, espirrava.
Dava-me para ali.
Sôtor? Atchim!
Atchim a porra, meu grande cabrão.
E às terças era comichão!
Ora no cotovelo, ora no calcanhar.
Na semana passada, os espirros passaram para sábado.
E a sarna chega-lhe(me) agora à falangeta do dedo do pé grande (um dos pés era visivelmente maior que o outro).
Cada um é como é, como dizia o outro.
“O outro”, como é consabido, costuma ser ser diáfano.
Mas este acorda de manha – e não, não falta a vogal nasalada.
Feito para dormir, acordava por saber que não era para acordar, o finório.
De longe em longe, despertava.
Mune-se do revólver e avança pela calada, a da noite (que a outra não é literária).
Dá cabo da cabeça ao irmão gémeo, em cujo corpo teve a natura de vir à luz.
Retirado (ainda petiz) do cérebro do mano (era um cancro), avançou intacto pela vida.
Escapuliu-se(-lhe), sub bisturi, para os pulmões e passou a viver dos cigarros que o seu saco vitelino (assim o via) queimava.
E a seguir a cada cigarro, voltava às suas origens (o cérebro).
E faz(ia) dele o que quer(ia).
Come do que o outro come, bebe o que o outro bebe, fode quem o outro fode.
E assim satisfazia as necessidades básicas (no fraterno hospedeiro).
Por saco ou sem ele, o que lhe interessava mesmo era a rotina semanal.
Tudo o que acontecia durante a semana, e não estava agendado, era motivo de preocupação.
Num destes dias, cerca das 11h43, constatou que um dos olhos estava mais acima que o outro, e que o que estava menos abaixo lacrimejava 3 vezes (mais coisa menos coisa) mais que outro.
Olhou-se num espelho normal (e a seguir num que aumentava 10 vezes).
Apontou uma lanterna para ver como reagia a íris.
E até chegou a tirar uma foto (com flash).
Mas não pôde vislumbrar resposta para o diferenciado volume lacrimal.
E assim, às 11h50, enquanto bebia café, (ZÁS!), o cão saltou-lhe em cima, como a síndroma de Estocolmo num raptado (nem gemeste, que a bainha da sogra era azada e facilitava o uso).
E fecharam-me (fechei-o).
Deram-lhe aquela cadeira com mesa (a primeira vem primeiro, que é onde o cu se senta), aquela loira desbotada (espécie de menino das lágrimas do fado caseiro nacional), um lápis e uma manta de retalhos unidos por pontes de hidrogénio.
Três vasos (que há um lá atrás).
E daqui vos escreverei.
Desta história!
Atrás destas grades.
Publicarei apenas o que não se perceba.
Porque estou farto!
(o meu fim aparente)