Arquivo da Categoria: Valupi

Não vale tudo, meus caros

A conclusão da fase de inquérito da “Operação Marquês” com um despacho de acusação, sem qualquer surpresa face ao que foi lançado na imprensa durante as investigações, oferece o pano de fundo apropriado para explicar por que razão não votei no PS para a presidência da Câmara de Lisboa.

Votei PS para a Junta de Freguesia e para a Assembleia Municipal. A quem mo perguntou, recomendei que votasse PS para continuar a gerir o município de Lisboa, fosse pela qualidade da gestão ou pela ausência de alternativas. Mas não quis votar no Fernando Medina.

O que penso do potencial de Medina não mudou desde que aqui opinei – 50 minutos preciosos – vendo nele um recurso dirigente altamente valioso para o PS e para Portugal. Transmite versatilidade intelectual, integridade moral e coragem política. A passagem pela câmara e o próximo ciclo eleitoral autárquico poderão dar-lhe a tarimba em falta para conseguir encontrar o registo que melhor sirva o seu carisma. Chegar a líder máximo do partido e de um Governo é muito mais fácil quando se domina, por intuição ou estudo, essa faceta da experiência política.

Porém, e no que ao meu poder soberano respeita, Medina escreveu no Correio da Manhã, no que imitou António Costa na mesma circunstância: enquanto presidente da autarquia de Lisboa. O seu último texto data do final de Maio deste ano, não fazendo ideia se interrompeu a colaboração por razões eleitorais nem se voltará a escrever de novo estando as eleições passadas. O problema já seria bicudo caso estivéssemos perante um vulgar pasquim que praticasse um vulgar sensacionalismo. A sua associação com tal órgão, e apenas por razões de popularidade do meio e/ou pecuniárias, já seria suficiente para questionar o seu discernimento. Só que o caso do CM é isso e uma outra coisa muito pior. Estamos perante um instrumento de uma direita do poder pelo poder, o qual não só viola sempre que lhe interessa o código deontológico dos jornalistas, como é cúmplice de crimes de violação do segredo de Justiça, e ainda propaga com estatuto institucional uma calúnia genérica contra dezenas, ou centenas, quiçá milhares, de cidadãos conotados com o PS, grupo onde Medina se encontra e logo nas primeiras filas: Sócrates usou o Governo para criar uma cleptocracia populista. Isto é, o CM, ao nível do seu director e accionista, acha que António Costa e Fernando Medina são cúmplices da roubalheira sistemática que denunciam capa sim, capa sim. A parte do “populista” tem graça pela imbecilidade e absurdo, há que reconhecer.

Donde, Costa e Medina não se importam de colaborar com esta propaganda caluniosa, dando o seu nome e prestígio para que ela continue e ainda recolhendo proveitos do negócio. Isto, para mim, é fonte de perplexidade. Perplexidade que atenuo através do voto. Só por cinismo ou anomia se pode, ao nível de Costa e Medina, legitimar tal prática que envenena o espaço público e conspurca a democracia.

Revolution through evolution

The changing reasons why women cheat on their husbands
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Do mothers favor daughters and fathers favor sons?
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To kickstart creativity, offer money, not plaudits, study finds
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​Perpetrators of Genocide Say They’re ‘Good People’
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Want To Help A Loved One Coping With Cancer? Stay Positive
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Animals that play with objects learn how to use them as tools
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The Why of Business
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Louçã confessional

O sectarismo é uma consumição

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Quem te viu e quem te lê, Anacleto. Que é feito do valente guerreiro que saltou para a frente das câmaras a garantir que Sócrates, em carne e osso, lhe andava a tentar roubar uma garina? Era tanga, mas isso nunca te atrapalhou. E que é feito do generalíssimo que, na noite mais gloriosa da sua carreira política, largou em êxtase estas lindas palavras?

"Este é um novo dia para a esquerda portuguesa. Nada será como dantes. Teremos uma esquerda mais rigorosa, com mais capacidade de diálogo. Nenhum eleitor do Bloco de Esquerda terá qualquer dúvida de que todo o voto dado ao Bloco de Esquerda será gasto na defesa dos direitos fundamentais de uma resposta que possa transformar o país."

Fonte

Se bem o disseste melhor o despachaste. Um ano e meio depois estavas a doar a tua imparável “esquerda grande” ao compincha Passos Coelho, esse transformista que usou os votos do BE e do PCP para afundar o País e iniciar um ciclo de devastação. Realmente, nos idos de Março de 2011 a esquerda portuguesa conheceu um novo dia. Mas vergonhoso e triste de tão sectário. De tão estúpido e indefensável sectarismo.

Mas tu agora já consegues compreender, ou entender, ou perceber o que andaste a fazer com a esperança de centenas de milhares de cidadãos que acreditaram em ti em 2009, né? Já sabes que nem tudo vale a pena mesmo quando se tem uma alma como a tua, nada de nadinha pequena, certo? Ou talvez não, por seres tão grande. Porque o lixo do vizinho continua sempre a cheirar muito pior do que o nosso, e tu sentes que podes dar lições de antisectarismo aos comunas.

És grande, Louçã. Enorme. Para nosso azar.

Perguntas simples

Em que parte deste planeta terá ocorrido o tal casamento que levou um ex-Presidente da República, ex-primeiro-ministro, ex-ministro, ex-presidente do PSD, líder máximo da direita portuguesa, o político com mais anos de actividade à conta do erário público, a não ter meia hora para ir votar numas eleições autárquicas a 4 dias da celebração da Implantação da República? Terá sido no Cavaquistão?

Partido Sujo e Decadente

Passos Coelho e Pacheco Pereira. Duas figuras radicalmente diferentes, mesmo antagónicas, em vários aspectos das suas personalidades públicas, ideários, trajectos profissionais e responsabilidades políticas. Contudo, ambas representam o PSD dos últimos 20 anos, de modo pleno nos últimos 10. A uni-las para lá da diversidade aparente e substancial está a mesma ausência de escrúpulos, a mesma cumplicidade com os poderes fácticos desta direita apavorada que tem orquestrado uma luta política suja e decadente.

O Pacheco é um profissional da política-espectáculo e da indústria da calúnia. Foi um quadro partidário muito importante durante todo o cavaquismo, mas nunca ninguém lhe leu uma linha acerca desse tempo e da natureza moral, ética e legal das práticas partidárias e governativas que estão associadas ao fenómeno social e criminal do BPN. Do BPN, por exemplo; por ser, no mínimo, um exemplo incontornável no seu contexto biográfico, mas o cavaquismo foi muito mais do que isso no que diz respeito à apropriação do Estado para servir interesses particulares. Voltou desasado às lides políticas para ser o principal conselheiro, e estratega a mielas com Cavaco, da campanha de Ferreira Leite para as legislativas de 2009. Desse período, ficou o modo celerado como se entregou à promoção das golpadas judiciais e mediáticas contra Sócrates, com logística e patrocínio de grupos de comunicação social, magistrados e Belém. Arrastou esse ódio a outrance até ao seu limite, tendo conseguido enfiar o focinho nos cueiros de Sócrates dentro de um cubículo na Assembleia da República. Nunca nada explicitou do que leu, nunca nada provou do que caluniou, e viu-se desmentido sem margem para dúvidas por um deputado comunista que igualmente leu o resultado dessas escutas ilegais feitas e conservadas em Aveiro com o único intuito de criar um caso político que desse a vitória ao PSD nas eleições de 2009, ou que fragilizasse fatalmente o PS e seu Governo caso os socialistas as ganhassem. Em 2017, o Ministério Público continua a seguir esse plano, como nos informa em garridas capas o seu órgão oficial. E em 2017, o Pacheco continua igualmente a mentir ao serviço da sua obsessão, como inveterado narcisista agarrado à paixão funesta onde se sonhou herói. Ontem, no meio de banalidades e evidências acerca da decadência do PSD, largou esta oração “a crítica política solitária de Manuela Ferreira Leite ao caminho de Sócrates para a bancarrota.” Trata-se de uma recriação livre da História, pois a Manela nunca se referiu ao que estava quase a acontecer, a crise das dívidas soberanas que começou pela Grécia em 2010 e viria a arrastar vários países europeus para resgates de emergência e planos especiais de financiamento. Do que a seríssima e vera senhora falava era do custo que as “gerações futuras” teriam de pagar por causa de um aeroporto por decidir e uma linha de TGV por construir nas contas de um país que, em Setembro de 2009, estava com nota AA nas agências de notação financeira. Igualmente com Ferreira Leite aprendemos que a recessão mundial de 2008 tinha sido um “abalozinho”, assim exibindo os seus pergaminhos em matéria de honestidade intelectual, decência política e cara de pau. Nem ela nem o fogoso Pacheco sonhavam com o abismo para onde a Europa iria enviar alguns países e suas populações logo ali ao virar da esquina. Se tal imaginassem, teriam posto aí todo o poder de fogo. Em vez disso, desenharam uma campanha que consistia no assassinato de carácter, na pressão mediática caluniadora e nos crimes e abusos praticados impunemente por agentes da Justiça. Apesar disso tudo, apesar da gigantesca convulsão no eleitorado socialista provocada pela tentativa de avaliar os professores, Cavaco, Manela e Pacheco perderam essas eleições.

Passos Coelho é um político cujas principais características são o oportunismo e a vacuidade. Um Zelig que em 2008 elogiava Sócrates só para assim poder atacar Ferreira Leite, e que se fantasiou como “liberal” porque essa ala fanática e ressabiada da direita estava disponível para o apoiar num momento de pânico em que a oligarquia via ruir a sua estrutura de poder bancário. Provavelmente, e dando um exemplo ilustrativo do albergue espanhol que constituiu o suporte propagandístico da maior traição aos portugueses registada em democracia, Miguel Morgado não suporta conversar mais de 15 segundos com Passos, mas a sua parceria para fornecer munição ideológica fundamentalista exibe o que esteve em causa no assalto ao poder realizado em 2011. Um operativo para todo o serviço lobista, formado na escola de Ângelo Correia e que manobrava como parceiro comercial com Miguel Relvas, com a fotogenia que faltava a Ferreira Leite e sendo o que havia de mais parecido com Sócrates em poder de imagem para colocar frente às câmaras, ia ser lançado como testa-de-ferro de um plano de vida ou de morte gizado ao mais alto nível nacional e internacional – daí os papéis de António Borges, Vítor Gaspar e Maria Luís – onde iria valer tudo para derrotar o arqui-inimigo e recuperar as vantagens perdidas com a ruína do BCP, BPN e BPP. Nunca se mentiu tanto politicamente em Portugal, e tão às descaradas, como na campanha do PSD para as eleições de 2011. E nunca se violou tão gravemente o contrato eleitoral como no Governo de Passos e Portas, naquela que foi uma tentativa de reengenharia económica e social apenas contida pela manifestação de 15 de Setembro de 2012 e pelo Tribunal Constitucional. Presidente da República, António José Seguro e comunicação social foram cúmplices de um programa de achincalhamento e depauperação dos mais pobres, da classe média, das pequenas e médias empresas. Esta violência política, assumida no registo verbal tamanha a soberba e alucinação daquela gente, foi a eleições em 2015 em condições que são abafadas quando Passos e corte reclamam vitória. Primeiro, o PSD concorreu coligado. Só por isso, ninguém do PSD pode reclamar um triunfo que se individualize. Os votos dados à PAF não foram dados ao PSD, mas sim aos dois partidos por igual. Corolário: o PS foi o partido que teve mais votos e mais deputados, embora não tantos como os da coligação. Ora, onde está hoje essa coligação? Em lado algum, apenas temos o número de deputados estabelecido pelo acordo entre as duas forças. Logo, se a PAF desapareceu após as eleições por não ter maioria parlamentar, a solução de Governo actual era a única legal, racional e politicamente possível, assim consagrando a vitória do PS em 2015. Segundo, a forma como António Costa chega a secretário-geral do PS causou alguma erosão no eleitorado socialista. Costa, para além das suas fragilidades políticas no plano da exibição da liderança, teve muito pouco tempo para sarar as feridas causadas pelo processo eleitoral interno dos socialistas. Isso, e nada que tenha relação com a preferência dos eleitores por Passos, explica também a votação das últimas legislativas. Terceiro e último, a detenção de Sócrates, preparada para ser um espectáculo televisivo e mediático esmagador, e a sua prisão, sob pretextos ilegítimos e abusivos, condicionaram profundamente a afirmação de Costa, mais o ano e processo eleitoral com o qual se sincronizou. Junte-se a este ramalhete as irresponsáveis decisões sobre a banca só para se poder festejar a “saída limpa”, assim como a obscena mentira da promessa de devolução do IRS, amplamente divulgada pela imprensa laranja. Perante este quadro, ver Passos e restantes fanáticos moribundos a berrar contra o PS não dá vontade de rir nem de chorar. Dá vontade é de pegar na mangueira.

A decadência do PSD pode ter tido o seu início com as maiorias de Cavaco, numa típica deriva para abusos de poder por parte das maiorias quando as lideranças apenas procuram o poder pelo poder. A decadência do PSD teve um momento de exuberante manifestação com a traição de Durão Barroso ao País e ao seu juramento eleitoral. Mas esta sujidade onde a política fica reduzida a assassinatos de carácter, tabloidismo militante, caluniadores profissionais, golpismo judicial-mediático e retórica de vendedores da banha da cobra implica reconhecer que talvez ainda esteja por nascer quem consiga inventar uma direita decente, inteligente e corajosa.

Revolution through evolution

Why Do People in New Democracies Stop Voting?
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Are You Happy You Voted – or Didn’t?
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People Think Harder and Produce Better Political Arguments When Their Views Are Challenged, Study Shows
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Household chores: Women still do more
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Do You Really Need That MRI?
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Abusive Bosses Experience Short-Lived Benefits
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The 10 Critical Job Skills of the Future, According to McKinsey’s Global Chief Learning Officer

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Exactissimamente

«Como se pode perceber, o furor arrasante que soprou na primeira página do Expresso na semana passada (Relatório das secretas sobre Tancos arrasa ministro e militares) é um cliché do idioma jornalístico e nem se percebe como é que a metáfora congelada pelo uso gregário consegue provocar tanto ruído. Todos os que julgam poder dizer alguma coisa nesta língua morta deviam obedecer à injunção de um famoso crítico da “fraseologia” dos jornais: “Dêem um passo em frente e calem-se” (Karl Kraus). Tratemos então o verbo “arrasar”, nas suas declinações jornalísticas, como um facto linguístico. Ele não contém nenhuma informação, não descreve nada, mas realiza – ou pretende realizar — uma acção, isto é, tem uma intenção performativa. Sempre que num jornal se escreve “X arrasou Y” é o próprio jornal que pretende “arrasar” Y. Porque o uso de tal metáfora não indica uma constatação, implica uma tomada de posição de quem a profere e uma vontade de realizar a acção. Dizer “arrasou” não é o mesmo que dizer “criticou violentamente”. Enquanto que a segunda forma pode ser dita sem comprometer a neutralidade de quem a diz, a primeira faz o jogo da diminuição e da ridicularização do “arrasado”, diz que está a proferir sobre ele um juízo definitivo e nada nem ninguém o pode salvar. Ninguém é “arrasado” num dia e reaparece intacto no dia seguinte. Toda a crítica pode ser refutada; mas todo o “arraso” é irreversível. Há um gáudio indiscreto na sentença “X arrasa Y”. Não quer dizer que quem experimenta esse gáudio não sinta exactamente o mesmo se a situação se inverter de modo a poder dizer que “Y arrasa X”. Mais do que as determinações ideológicas ou políticas destes enunciados, é preciso ver neles a miséria da linguagem jornalística e uma ingenuidade semelhante àquela dos escritores que, como alguém disse, julgam que basta escrever “merda” para que os leitores sintam o mau cheiro.»


Vamos arrasá-los!

Sugestão para o “Expresso da Meia-Noite”

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"Temos de comprar o Expresso ao sábado para saber o que é que se passa no país, o que é que se passa com o Orçamento, o que é que se passa nas Forças Armadas e nos paióis militares?"

Pedro, antigo especialista em aeródromos municipais da Região Centro que tinha o sonho lindo de um dia vir a chefiar o Governo para meter a classe média na ordem e acabar com os madraços e os estróinas dos subsídios

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É público que o império de Balsemão está a dar a berro e Pedro Santos Guerreiro e o mano Costa parecem andar a fazer os possíveis para acelerar o processo. A manchete que escolheram para ajudar o PSD a uma semana das eleições autárquicas podia ser usada nas escolas secundárias para ilustrar o conceito e prática do famigerado jornalismo de referência. Quando estas pessoas, no meio em causa, assumem que apenas se regem pelo sensacionalismo, pelo sectarismo e pelo eleitoralismo, então o círculo completa-se. A irrelevância onde chafurdam após desistirem de servir os seus compradores, leitores e comunidade em geral de uma forma isenta, e que respeite os mínimos deontológicos da profissão, torna desejável que desapareçam do mapa. Não precisamos de mais um pasquim – precisamos é, e cada vez mais, e como sempre e para sempre, de jornalismo corajoso e inteligente.

A forma como PSG tem defendido a sua opção editorial é de fazer corar as pedras da calçada. A miséria profissional da sua argumentação, contudo, não deve ser recebida em silêncio; como David Dinis e Paulo Baldaia fizeram, para dar dois exemplos corporativos e igualmente sectários na temática em causa que não botaram faladura sobre o episódio. A temática em causa é o tiro ao ministro da Defesa e, por extensão, ao Governo e ao PS, levando a que se esteja em pleno registo de comício por parte de jornalistas com responsabilidades editoriais. Nada contra se tal fosse assumido pelas direcções, mas o problema é que isto é feito sem a frontalidade, sem a força e beleza de carácter, de se declarar que não passam de opiniões para apoiar uma qualquer facção política ou para dar vazão a uma qualquer embirração pessoal nascida da pacóvia arrogância de se imaginarem moralmente superiores aos políticos.

Nada melhor do que usar o que os artistas andam a dizer para se expor a escabrosa tanga:

- "É um relatório que nós compreendemos que não fazia parte de uma das estruturas oficiais militares."
- "Nós checkámos [sic] a veracidade do texto e, portanto, constatámos que era um texto verídico, não era uma coisa forjada para o efeito de ser publicado no Expresso para fazer bum. E, por outro lado, checkámos [sick] também a credibilidade do que está na sua origem."
- "Não foi feito para ser plantado [no Expresso]."
- "A notícia nunca diz que se trata de um relatório oficial e final."
- "O primeiro-ministro veio dizer que é fabricado, o ministro da Defesa diz que é forjado, há uma insinuação, que vem através do PS, que foi o PSD que teria preparado o documento para o Expresso para depois o próprio PSD poder comentar. Enfim, são aqueles delírios habituais..."
- "Isto é um relatório que não é final."
- "Nenhum relatório de um organismo destes tem 63 páginas."
- "Isto é um relatório que contém muita informação que servirá, eventualmente, para afinar investigações em relação ao assunto principal que é Tancos."
- "Este ministro [Azeredo Lopes] ainda existe?"
- "- O que eu te pergunto é se ele [Azeredo Lopes] verá nesta polémica, que foi lançada pelo Governo na tentativa de descredibilizar esta notícia, uma tábua de salvação construindo uma teoria conspirativa para se vitimizar? - Nós percebemos que existe alguma coisa em curso nesse estilo, pelo que tem sido dito."

Filipe Santos Costa, um fanático com carteira da jornalista, atribui ao Governo o nascimento da polémica e imputa ao ministro da Defesa as porcarias que lhe atulham o bestunto. Admirável descaramento, já normalizado por Trump, onde temos um jornal, que se apregoa como modelo do melhor jornalismo português, a inventar um ataque político a uma semana de eleições autárquicas cujas bases, após ter sido desmentido por todas as entidades que o poderiam legitimar, são folhas soltas de um relatório afinal com palavreado a mais e inacabado e que, portanto, não sabemos como ficaria na suposta versão final nem sabemos qual seja a sua autoria e finalidade. É que dizer-se que a finalidade consiste em contribuir para as “investigações em relação ao assunto principal que é Tancos” – isto é, o relatório teria como objectivo promover a descoberta do que aconteceu ao armamento dito em falta – significa que já se perdeu qualquer respeito pela própria honestidade. Em que medida as citações venenosas de baixa política canalha, ou subjectivismo corporativo, contra o ministro da Defesa estão a facilitar as investigações judiciárias e militares ao assalto, ou desvio, ou falha, em Tancos?

Os responsáveis por mais este prego no caixão da credibilidade do Expresso podem guardar a identificação das fontes para eles próprios. O que não podem é esperar que a anomia circundante seja total. Haverá sempre alguém a olhar para o óbvio: a menos que seja hábito o Expresso estar a receber relatórios destas fontes e teor, então o acontecimento que consiste em terem acesso ao material neste calendário é, em si mesmo, um acontecimento político. E ainda mais óbvio: perante um documento que alegam saber que não é final, a opção de seleccionarem as partes que permitiam construir uma trapaça contra Azeredo Lopes e Governo é da exclusiva responsabilidade de quem quis lançar a atoarda. O destaque dado, parangona, e a sugestão de ser um relatório oficial das secretas militares, não tem defesa possível. Usaram excertos de declarações que extravasavam por completo o âmbito da investigação a Tancos para continuarem a fazer pressão no que julgam ser uma brecha política no Governo, a imagem de Azeredo Lopes e as reacções que está a causar em alguns elementos das Forças Armada que estão a querer guerrear na política.

Espero que nesta sexta-feira, ali por volta das 11 da noite e com a excelência do jornalismo de opinião praticado diariamente na SIC Notícias, se possa dilucidar ao pormenor este estupendo caso que une numa juliana reles a decadência da Impresa com a decadência do PSD.

A civilização onde queremos viver

Na semana passada, os advogados de Sócrates deram uma conferência de imprensa a protestar contra a anexação à “Operação Marquês” de conteúdos e arguidos de outros processos. João Araújo e Pedro Delille expuseram as suas razões, denunciaram a existência de ilegalidades e apresentaram aquelas que, no seu entender, serão as intenções e consequências de se estar a aumentar – a complicar? – a já homérica complexidade do processo. Peço ajuda às almas caridosas: quem souber, e excluindo os casos dos caluniadores profissionais, que deixe na caixa de comentários a referência a algum comentador de rádio, jornal ou TV que se tenha pronunciado sobre estas declarações dos advogados de Sócrates e questões inerentes. Por mim, flanador displicente da comunicação social, conto zero.

Só há uma hipótese para explicar o silêncio que este episódio causou. A hipótese de que o julgamento de Sócrates já ocorreu e passámos, desde que foi detido em 2014, à fase de aplicação da pena. A sociedade observa complacente ou em júbilo, de acordo com as filiações políticas e com o sentido de cidadania e honra de cada um, a obsessiva devassa e humilhação de uma pessoa que está a ser investigada desde 2004. Não há pedra que não tenha sido revirada, percurso escolar ou profissional que não tenha merecido equipas de investigadores, grandes decisões políticas que não ocupem dezenas de magistrados. A sua privacidade é usada para vender papel, vender anúncios, promover a fruição de vinganças e bebedeiras de ódio. O resultado dos processos encerrados está arquivado e à disposição de quem os quiser consultar, o resultado dos processos em curso é vertido copiosa e criminosamente na praça pública na versão dos acusadores. Nunca aconteceu nada assim na História de Portugal, sequer o período fascista compara. Sócrates é o político mais investigado de sempre neste jardim à beira-mar abandalhado, não havendo outro caso comparável mesmo que à distância. Quantos recursos humanos, quantas horas, quanto dinheiro já foi gasto na perseguição a Sócrates pelo Estado português e por privados em Portugal?

Fazem-se editoriais e comentários esganiçados e ridículos a protestar contra os três meses, os dois meses, a semana, o dia que passa sem que o Governo apresente versões definitivas sobre o que aconteceu em Pedrógão e Tancos. Nessa pateada, ignora-se propositadamente que a investigação não está a cargo do Governo, apaga-se o óbvio interesse público de se terem investigações à prova de qualquer influência governativa ou institucional. E mente-se debochadamente em registo de pura chicana. Tal é absurdo, é esquizóide, é estúpido e é a imprensa “de referência” nacional a ser ela própria, um antro de publicistas com alergia ao jornalismo. Porém, todavia, contudo, este rancho de inteligências folclóricas não se importa nada que o Ministério Público leve o tempo que lhe apetecer com um arguido nas mãos. A elite do nosso comentariado aplaude secretamente um juiz que viola a sua missão de garante das liberdades e direitos fundamentais dos arguidos, um juiz que é promovido na indústria da calúnia como o Torquemada de Mação. A violação dos prazos de inquérito, as declarações públicas em que assume não ser isento face à inocência até prova em contrário de Sócrates e o culto que faz às abertas de uma pose justiceira contra certos políticos e certos empresários não suscitam sobressaltos nos directores dos jornais, estações de televisão e rádios. Os crimes de violação do segredo de Justiça que são cometidos sistematicamente no Ministério Público idem idem, aspas aspas. É giro. Aliás, dá jeito. Muito jeito. Venham mais 5 anos de “Operação Marquês”.

A desculpa que remete para a dificuldade de se investigarem crimes de corrupção tem sido a hipocrisia suprema que embrulha os abusos e ilegalidades do Estado contra Sócrates e restantes arguidos. Como se sabe, se há coisa difícil de investigar é a corrupção de primeiros-ministros. Como as suas acções são quase sempre ocultas, como não estão rodeados por dezenas, centenas e milhares de olhos e ouvidos, como não há entidades fiscalizadoras a constantemente avaliarem e aferirem as suas decisões, como os deputados da oposição andam todos a dormir e os do PS não passam de cúmplices do corrupto-mor, isto de se apanhar um primeiro-ministro socialista e corrupto dá uma trabalheira do caralho. Claro, ajuda muito saber logo à partida que ele é criminoso. Quanto a isso, vai sem discussão. Imaginemos que o Ministério Público se limitava a investigar Sócrates numa atitude de perfeita neutralidade ao serviço da perfeita objectividade e procurando o perfeito rigor. Quer dizer… isso… enfim… era coisa para demorar 100 anos! Pelo que toda a gente compreende que, se é mesmo para investigar este gajo, a primeira coisa a ficar estabelecida é a de que ele é culpado. Se é culpado, então chilindró com ele. Se bem o pensaram, melhor o executaram na “Operação Marquês”. Daí terem começado por não sei quê ali em Leiria, depois foram para a Venezuela, depois para o Algarve e depois para Cascais, entre outros poisos cheios de corruptos à espera de serem engavetados. O método tem a beleza da simplicidade e justifica o número de páginas no processo. Resta só descobrir os crimes. E ele há tanto para escarafunchar. O plano é despejar camionetes de caixas com papelada à porta do tribunal, ou talvez só um saco com os discos rígidos suficientes para guardarem um yottabyte de escutas, interrogatórios e documentação descritiva de todas as decisões tomadas por Sócrates enquanto primeiro-ministro mais a documentação de todas as decisões tomadas pelas empresas envolvidas no processo. Os juízes que tratem depois de ler com cuidado o trabalhinho. No entretanto, o cabrão continuará pendurado no cadafalso.

Deu que falar, em 2008, a alusão a uma “suspensão da democracia” que Ferreira Leite sugeriu como o remédio a aplicar aos indígenas que não se sabem comportar em liberdade. Na “Operação Marquês” somos testemunhas da suspensão da Constituição para permitir ao Ministério Público de Joana Marques Vidal, à indústria da calúnia e à actual direita partidária irem alcançando diversos objectivos que estilhaçam impunemente os princípios e lógica do Estado de direito. Veja-se como se convive com os crimes de magistrados e como os juízes distorcem a lei escrita para favorecer uma das partes, o Ministério Público, e prejudicarem as outras, o arguido, o cidadão e a pessoa. A ideia de que a suspeita de crime, qualquer crime, justifica a violência de se tratar como culpado quem tem direito a ser tratado como inocente é a manifestação típica da barbárie. Foi contra essa prática que, no essencial, se desenvolveu a civilização onde queremos viver.

Do nefando e do execrável

São José Almeida tem o duvidoso mérito de ter sido das poucas figuras, quiçá a única, com banca no comentariado a pronunciar-se sobre a entrevista de Sócrates ao La Voz de Galicia. O solitário ponto do seu interesse, entre todas as declarações passíveis de análise e reflexão política ou outra, foi o do relacionamento com Costa.

Aproveitando-se de uma exposição pessoal cujo contexto é de violentação da sua privacidade, bom nome e direitos enquanto arguido, a articulista parte para um exercício de reforço dessa violência. Carimba as declarações de Sócrates como “vitimização”, uma forma usual de se achincalharem as queixas ou lamentos de alguém sem se perder tempo a justificar porquê, e recorre ao cardápio do culto do ódio a Sócrates para compor o texto do princípio ao fim – onde se inclui a utilização de supostas escutas de conversas privadas publicadas pelo Sol, o uso da expressão “aos olhos de uma pessoa normal” que remete para a lógica invocada nos recursos judiciais onde Sócrates viu negadas as suas pretensões, e a convocação de António Barreto:

«Como António Barreto já explicou, melhor que ninguém, a 11 de Junho no Diário de Notícias, “A obra-prima de António Costa” foi precisamente a distanciação que conseguiu não apenas em relação ao processo Operação Marquês, mas também, “sem criticar os seus feitos, sem partilhar os erros de Sócrates, sem assumir responsabilidades relativamente aos piores anos de governo de Portugal, António Costa e seus ministros conseguiram, sem nunca o ter feito explicitamente, distanciar-se daquele nefando governo e daquele execrável período”».

Barreto andou anos a despachar textos de estouvada fúria persecutória contra Sócrates. Não é conhecido por mais nada, por mais nenhum contributo, na cena política nacional dos últimos 20 anos. Mas representa paradigmaticamente uma facção da sociedade portuguesa que encontrou na imagem pública de “Sócrates” um buraco negro onde a sua honestidade intelectual e inteligência se afundam para nunca mais voltarem. São José Almeida cola-se ao senhor para assinar por baixo a denúncia de termos tido com o PS, entre 2005 e 2011, um “nefando governo” num “execrável período”, escusando-se assim a ter de explicar o que tal queira dizer. Nefando, porquê? Execrável, porquê? Não explica, porquê? Falta de tempo ou de caracteres disponíveis?

Se excluirmos a banalidade de o terreno político ser, por excelência, um palco de ódios fulanizados nascidos do medo e da inveja, o que fica é fascinante. Se alguém obrigasse a senhora Almeida a justificar as suas convicções, a que se iria agarrar? Achará nefando o que os Governos de Sócrates fizeram no campo do investimento em ciência e tecnologia, na política de exportações, na simplificação da máquina Estatal, no campo dos direitos das minorias e da população em geral, no apoio aos segmentos mais pobres e desfavorecidos, nos programas de educação e requalificação de adultos, na redução do défice, no acesso ao Interior e entre as suas regiões, na aposta nas energias renováveis, no prestígio do País? Achará execrável ver um Governo a enfrentar danos eleitorais consideráveis por tentar até ao limite das suas forças introduzir um verdadeiro sistema de avaliação de professores em vez da farsa vigente há décadas e décadas? Terá visto como coisa execrável o espectáculo de um Governo minoritário, boicotado pelo Presidente da República, a lutar até ao fim para evitar um resgate de emergência que apenas servia os interesses de Passos, Relvas e Portas, e que causou inaudita devastação económica e social ao serviço de oportunistas traidores e de fanáticos lunáticos? Ou ela só consegue avaliar o período em causa adentro do universo das capas que CM e Sol publicaram a respeito?

Nunca o saberemos. Este tipo de prosa não pretende mais do que espalhar a sua aversão, a sua repulsa, o seu nojo. Por ser “opinião” paira nas páginas do órgão “de referência” como se deixasse de pertencer ao “jornalismo”, ficando como mais um esgoto onde se vai bolçar o prato que não caiu bem. É um estilo, e São José Almeida acha-se no direito de encher o seu espaço no Público com sórdida e básica intriga politiqueira, com o gozo de se imaginar a atingir um alvo da sua predilecção afectiva. Muito provavelmente, o semipasquim para que escreve estará igualmente agradado com o resultado.

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Sex and Aggression Controlled Separately in Female Animal Brains, but Overlap in Male Brains
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O armamento não terá sido fanado pelos ciganos?

Segundo o Público, que cita o Expresso, o qual afirma ter tido acesso ao relatório, os serviços de informação militares têm das boas para dizer do ministro da Defesa: “[acção] de ligeireza, quase imprudente”, “declarações arriscadas e de intenções duvidosas”, “atitude de arrogância cínica”.

Realmente, dá que pensar. Por exemplo, fico a pensar que a ligeireza pode ser o resultado da habilidade e da elegância, que uma acção quase imprudente continua a ser uma acção prudente, que por vezes o maior risco é nada arriscar e que as intenções são sempre duvidosas até que deixem de ser.

Quanto à “atitude de arrogância cínica”, temos aqui um prato cheio de pensamento. Ficamos a pensar que Azeredo Lopes poderia ter evitado este responso dos militares secretos caso tivesse optado por ser apenas arrogante ou apenas cínico. Mas não, tinha de fazer uma misturada desses dois ingredientes manifestamente indigestos para os delicados estômagos da soldadesca. Também dá para ficar a pensar no que teria acontecido caso o ministro invertesse os termos da equação e se tivesse antes apresentado com um cinismo arrogante em vez da arrogância cínica. Às tantas, teria feito toda a diferença. Talvez na cultura castrense não se admita que os civis se passeiem junto da tropa em poses de arrogância cínica, exclusivo da malta dos quartéis, mas já se tolere o cinismo arrogante por implicar mais respeitinho e bola baixa frente aos galões.

Parece que o relatório avança com três hipóteses para explicar o suposto furto: tráfico de armas para África, gamanço de mercenários portugueses ou assalto de jiadistas. É uma tripla. Agora, faites vos jeux. E terem sido só três as hipóteses foi uma sorte, poderiam ter apresentado 30, cada uma tão arbitrária com a anterior e a seguinte. As secretas militares, como se vê, não se dedicam à investigação. Aquilo funciona mais como clube inglês sem os ingleses. É um grupo de pessoas fardadas, todas devidamente munidas de tempo com fartura para gastar a ler as notícias correntes, que parecem especialmente vocacionadas para manter os ministros da Defesa em sentido.

O Expresso e o DN, secundados pelo CM e apoiados pelo Público, lideram uma campanha para demitir o cinicamente arrogante ministro. À luz deste relatório e dos comentários de militares aquando da polémica por causa do título da entrevista, é muito provável que Azeredo Lopes esteja a fazer alguma coisa verdadeiramente excepcional em favor da democratização das Forças Armadas.

O ministro da Defesa não especulou

Futebóis à parte, é raro, raríssimo, discordar da opinião política do Pedro Adão e Silva. Mesmo quando calha não concordar, tal não implica que esteja em desacordo. Posso, não concordando, reconhecer o mérito de uma divergência ou oposição. E devo, e mais ainda nas vezes tantas em que se trata de dados e referências que desconhecia, apreciar e agradecer a informação relevante que traga para as análises. Isto porque a forma como fundamenta os seus raciocínios exibe os traços essenciais da cultura académica, onde é obrigatório justificar com o máximo de honestidade intelectual possível os fundamentos donde se parte e as conclusões a que se chega num qualquer exercício pensante. Pensar, na tradição académica cuja origem é o legado da Filosofia Grega, não se confunde com o fluxo mental e verbal que perpassa espontânea ou intencionalmente por uma consciência humana sem necessária coerência nem necessário sentido. Pensar, sendo característica comum às ciências naturais e humanas, empíricas e teóricas, mais matemáticas ou menos, consiste em elaborar demonstrações que ambicionam um qualquer grau ou tipo de universalidade. Com esta ressalva: a universalidade não é um equivalente da “verdade”, antes um núcleo conceptual documentado que fica como património intelectual comum da humanidade se for habitado por outras consciências que lá cheguem através do mesmo caminho pensante. Esta tipologia argumentativa ainda é uma minúscula minoria no comentário político, sendo usual tropeçarmos na tradição litigante e tribunícia cultivada pelos profissionais de Direito, onde os sofismas são a munição corrente, ou na tradição propagandista ubíqua na imprensa, onde a retórica inflamatória e as distorções factuais são a convenção que preenche e extravasa as secções de opinião.

Fazer comentário político na comunicação social, porém, é algo muito diferente de fazer investigação e exposições na academia. O Pedro Adão e Silva comentador está perfeitamente adaptado aos limites e condicionalismos das intervenções que faz na TV, rádio e jornais, conseguindo comunicar com eficácia seja qual for o constrangimento do meio e situação em causa. Na terça-feira da semana passada gastou pouco mais de 1 minuto para comentar a entrevista de Azeredo Lopes e respectiva polémica. E despachou o assunto dizendo isto:

"O caso da Defesa é um episódio bastante insólito. Porque as responsabilidades de um ministro da Defesa não são iguais às responsabilidades de um ministro da Educação, da Saúde ou da Segurança Social, e foi o ministro que se colocou numa posição de ter mais responsabilidades políticas. Devo dizer que li com estupefacção a entrevista do ministro neste fim-de-semana ao Diário de Notícias e à TSF, porque acho que o ministro da Defesa tem como dever apurar as responsabilidades e proteger a instituição militar, e tem de dar garantias sobre a segurança nacional. Foram tudo coisas que ao longo destes meses o ministro não foi capaz de fazer. E o que é que fez? Dúvida metódica; quer dizer, faz da dúvida metódica o alfa e o ómega das suas intervenções sobre este tema. E isso não é o papel de um ministro, e muito menos da Defesa. O ministro da Defesa não especula, e o que o ministro da Defesa voltou a fazer foi especular. E eu devo dizer que isso é uma coisa que me surpreende bastante."

É raro, raríssimo, discordar da opinião política do Pedro. Daí não querer perder esta oportunidade de discordar com toda a cagança e toda a pujança que conseguir reunir neste HTML. Começo por admitir que o factor tempo, isso de o moderador ter colocado o tema em discussão quando estavam em cima do final do programa, terá influenciado a sua mensagem. Talvez sabendo que teria à sua disposição 10 minutos de paleio ele tivesse, pelo menos, conseguido justificar as suas reacções e carimbos. Mas não foi o caso, e nada sabemos, de forma aferível, acerca do que o levou para a opinião que assumiu. Nesta, tropeçamos num discurso voluntariamente emocional, onde quem fala pretende anunciar uma grande perturbação, um choque: “episódio insólito“, “li com estupefacção“, “que me surpreende bastante“. Pelo meio, alega que o ministro está a ser irresponsável, mas não diz porquê nem em quê. Limita-se a fazer variações redundantes da ideia de falha funcional do ministro. Finalmente, e esta é a parte tangível que permite ligar a sua intervenção à fonte e dinâmica da polémica, alega que o ministro da Defesa fez especulações; portanto, que fez algo que não pode fazer sob pena de ser veementemente denunciado pelo Pedro. Por aqui, estamos na dimensão em que o título da entrevista, uma invenção perversa dos jornalistas que não corresponde ao que foi declarado pelo ministro, se constitui como a matéria-prima da polémica. Curiosidade: não tratou o ministro pelo nome.

Esta patarata mas relevante questão dos efeitos causados pelas opções editoriais do DN começa e acaba no título dado à entrevista: «“Não sei se alguém entrou em Tancos. No limite, pode não ter havido furto”». As aspas fazem crer que estamos perante uma citação integral, mas não estamos. Em parte alguma da entrevista o ministro afirma o que o título lhe atribui. Os jornalistas colaram e alteraram partes de duas respostas para criarem uma manipulação sem defesa possível (pun intended).

Para a primeira parte do título, foram buscar o começo da resposta dada a “…Esteve alguém dentro das instalações que não era suposto estar?“. A pergunta é cavilosa, ou tão-só parva, porque pressupõe que o ministro, naquela entrevista, pode dar uma resposta satisfatória; isto é, definitiva ao se basear nas conclusões dos inquéritos. Só que não pode, pois a investigação está em curso, daí a forma como inicia a fala, com uma expressão exclamatória, de impaciência. Quem se der ao trabalho de ler a resposta do Azeredo encontra uma posição imaculada em defesa da separação de poderes, adversa a qualquer tipo de especulação. Atente-se na ironia: é exactamente por não pretender fazer sequer um esboço de especulação que o ministro refere – no contexto dessa pergunta – que não sabe se alguém entrou nas instalações. Qual é a alternativa desta posição? É a contrária, pois estamos num binómio, a de o ministro enquanto ministro saber ou ter um qualquer palpite a respeito do que factualmente aconteceu e achar que o deve divulgar.

Para a segunda parte, foram buscar o final da resposta dada a “Falou numa concentração deste tipo de instalações. Já está escolhido o sítio?“. Quem se der ao trabalho de ler o texto completo constata que o ministro está a expor precisamente aquilo que está ao seu alcance mudar no imediato, e o que já começou a mudar. A lógica dessas alterações levaram-no a querer ilustrar o seu alcance dando um exemplo que nomeia o acontecimento de Tancos em investigação. Ele não está, neste passo, a fazer qualquer especulação, ao contrário. Volta a ironia: ao pretender mostrar que se podem evitar especulações como aquelas que circulam actualmente, daí as decisões que refere que visam alterar aspectos estruturais e funcionais na forma como se guarda o armamento militar, Azeredo forneceu aos jornalistas um conjunto de palavras que podia ser usado para se criar uma mentira que quebrou a patilha de segurança posta no uso da expressão “por absurdo“. Na resposta à armadilhada pergunta seguinte – “Mas está convencido de que houve furto?” – chega a invocar a sua honra para garantir que não quer fazer especulação alguma, que o seu estado é de ignorância absoluta até que as autoridades respectivas apresentem as suas conclusões.

Todas as respostas que deu, inclusive aquelas relacionadas com as declarações de Marcelo, são apropriadas, coerentes, sensatas e convencionais. Aparece a dar conta do que fez e a fazer pressão, ao lado de Marcelo, para que os agentes judiciários sejam o mais rápidos que conseguirem nas investigações dado o que está em causa: a segurança nacional e o prestígio e organização das Forças Armadas. Só que à sua frente estavam dois jornalistas que, em secções de editorial e opinião, tinham-se exibido nas semanas e meses anteriores furiosos contra o Governo por causa dos acontecimentos em Pedrógão e Tancos. As posições que nesses textos exploraram com retóricas sensacionalistas são a origem daquele título, num mecanismo psicológico de confirmação e reforço das críticas negativas que assinaram. Optaram por lançar para o espaço público um título traiçoeiro, vingativo. Uma verdadeira notícia falsa.

Quem é académico tem essa acrescida responsabilidade de cultivar uma independência intelectual que não se deixe atrofiar pelos laços afectivos e afinidades de grupo. Quem é investigador nas áreas das ciências sociais e políticas não pode alegar incapacidade cognitiva para entender o processo que leva à criação daquele título e de como ele induz em erro a sua audiência e promove uma deturpação no espaço mediático ao serviço de agendas políticas e pessoais. Neste tempo em que o fenómeno Trump corresponde – nas origens sociológicas, no calendário e nos efeitos – à maior ameaça que alguma vez a imprensa livre de todo o mundo enfrentou, ver Pedro Adão e Silva a não ter o discernimento crítico para interpretar, na esfera das técnicas de comunicação e dos modelos psicossociais, o que Paulo Tavares e Anselmo Crespo fizeram configura “um episódio insólito”. Mas ver o Pedro a violentar caricaturalmente o discurso de Azeredo Lopes, de uma forma que até ofende a inteligência do público a quem se dirige, é algo que “me surpreende bastante” e que registo com “estupefacção”.