Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 391

Santos Fernando ou «Os grilos não cantam ao domingo»

O «Diário de Noticias» de hoje traz um texto sobre a Padaria do Povo em Campo de Ourique mas numa caixa sobre a sua biblioteca surge uma foto de Santos Fernando ao lado do nome de Bento de Jesus Caraça. Feliz mal-entendido este…

Lembrei-me logo dos velhos tempos (anos 60) em que eu atravessava Vila Franca de Xira para comprar o «Diário Popular» e ler a crónica de humor de domingo sob esse sugestivo título: Os grilos não cantam ao domingo. Uma dessas crónicas tinha a ver com um escritor muito estranho – já nos anos 60 os havia. Era um homenzinho que resmungava mais ou menos assim: «A arte de escrever foi a única, até hoje, que não sofreu alteração. Desde Rabelais para não ir mais para trás, até Bernard Shaw para não ir mais para a frente; desde Maquiavel e Erasmo até Eça de Queirós ou Charles Dickens e destes até aos nossos dias que não há uma pequena modificação! Os livros sempre estiveram sujeitos ao estilo, aos personagens, ao enredo criado por figuras fictícias, ao ambiente, ao melodrama, à comédia, ao amor, às palavras com sequência! Ora num tempo em que a vida moderna está atomizada o tal senhor queria escrever e lançar um romance atómico, um livro no qual não haveria nem princípio nem meio nem fim. Um livro no qual as personagens podiam ser um prego, uma bota furada, um pêndulo de relógio, um pedaço de sílex, um par de castanholas, uma argola de guardanapo. E a crónica terminava com o homenzinho a ameaçar: dentro de pouco tempo nas livrarias apenas subsistirão os romances atómicos…Esta troca de imagens no jornal de hoje fez-me recordar as saborosas crónicas dos anos 60 quando os grilos não cantavam ao domingo.

Vinte Linhas 390

«Um poeta recorda-se» de Armindo Rodrigues

Estas «Memórias» (Edições Cosmos) são a vida de Armindo Rodrigues (1904-1993) em 330 páginas. Nelas o poeta lembra o lugar onde nasceu («Nasci no Campo das Cebolas»), as viagens da infância («Custava oito tostões o bilhete») e as comidas: «Eu era um comilão capacíssimo de devorar a um almoço ou a um ceia três bifes de trezentos gramas». Recorda a mãe («Sonhava que eu me casasse rico») e as suas zangas com o pai («não cessavam e levaram o meu pai a sair de casa») além de aspectos do quotidiano: «Os muito asseados lavavam os pés todos os dias num alguidar de barro. Mesmo no Verão os banhos de mar não eram como hoje». Registou as aparições de Fátima («Em 13 de Outubro à roda das três da tarde houve um grande milagre em público na Cova da Iria») e recordou a sua vida de médico: «Levava eu pela consulta na Farmácia cinco escudos e por uma visita domiciliária trinta». As memórias são povoadas pelas figuras mais diversas: artistas plásticos como Bernardo Marques e Manuel Ribeiro de Pavia, políticos como Afonso Costa ou Sidónio Pais e tarrafalistas como Bento Gonçalves ou Alfredo Caldeira além de escritores, ensaístas e poetas: Manuel Mendes, José Gomes Ferreira., José Rodrigues Miguéis, Mário Beirão, Raul Proença, Afonso Lopes Vieira, Sebastião da Gama, Bento de Jesus Caraça, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Tomás de Figueiredo, David Mourão Ferreira, João Gaspar Simões e Aquilino Ribeiro – entre outros. E Salazar, sempre: «Aos opulentos protegia mas haviam de lhe comer à mão. Ao povo rasteiro de que provinha desprezava-o. Perante a Igreja comportou-se sempre como um Papa autocrático e ao Bispo do Porto expulsá-lo-ia do País».

Vinte Linhas 389

Toma e embrulha ou Thomas no alto dos seus 3 anos

Do alto dos seus 3 anos o meu neto Thomas Francisco revela um certo fascínio pelo uso correcto da língua – nada de coisas mal amanhadas, confusas ou pouco explícitas. Vejo-o brincar com um grupo de carrinhos em miniatura e pergunto: «Isto o que é? É uma corrida?». Ele responde: «Não. Não vês que é uma confusão de trânsito?» E avança na explicação: «Estes carros são comuns, não são carros de corrida.» (Toma e embrulha).

Passado um bocado vejo os 12 carrinhos em miniatura arrumados em quatro correctas filas de três viaturas e pergunto: «E isto é uma confusão de trânsito?» Resposta imediata da criança: «Não vês que isto é um estacionamento?» (Toma e embrulha).

Um passeio com paragem em Azeitão para compra de tortas respectivas e de vinho Moscatel – como não podia deixar de ser. Um olhar mais demorado para a serra da Arrábida e a pergunta: «O que é isto?» Respondo eu: «Isto é uma floresta.» Arrancamos pela serra acima e quando estamos a chegar ao Portinho da Arrábida pergunta a criança: «Se isto é uma floresta onde é que estão os dragões e os monstros?»

(De facto as histórias de florestas que ele conhece estão repletas de monstros e dragões. Falta de lógica é que a criança não tem…)

À noite ao colo do pai, prestes a adormecer, ouve pela centésima vez uma história de uma floresta com leões e de tigres acrescentando ele numa rigorosa adversativa «mas também monstros e dragões».

Oxalá ele possa continuar a ser assim rigoroso e atento a todos os pormenores da língua, da linguagem e da vida. Para eu poder dizer feliz de mim para mim «Toma e embrulha».

Balada de Mateus Queimado em 1913

Meu tio, juiz de Direito

Comarca da ilha de Goa

Veio reformado a preceito

Era a bondade em pessoa

Da Índia eu nada sabia

Com tigres e palmares

Na Ilha era outra alegria

Touros em vários lugares

Na venda do Cambadinho

Cravo, pimenta e canela

Faço um recado sozinho

Espero o meu tio à janela

Entre lágrimas da mãe

Um suspiro mal abafado

Saímos mas não a bem

Despejados no mandado

Uma loiça de tons quentes

Foi sair duns caixotões

Eram colchas diferentes

Estampas, leques, cadeirões

No Mandovi ele insistia

Nós só tínhamos ribeiras

Um caudal só de um dia

Com lamas amareleiras

Um telegrama cifrado

Meio da aula de francês

De Lausanne enviado

Levou meu tio de vez

Pediu-lhe ajuda a filha

Para a fúria da mulher

Ele disse adeus à Ilha

São Francisco Xavier

Conversa interrompida

Do meu tio aposentado

Assim Goa saiu da vida

Do moço Mateus Queimado

Vinte Linhas 388

«Casas do Espírito Santo» de Carlos Lobão (coordenação)

Carlos Lobão é o grande entusiasta das edições do Clube de Filatelia O Ilhéu da Escola Secundária Manuel de Arriaga na Horta. Este livro sobre o Espírito Santo é resultado desse labor. São 120 páginas com muitas fotografias e um título feliz – «Casas do Espírito Santo». Na verdade as casas do Espírito Santo em Santa Maria e São Miguel chamam-se teatros, na Graciosa e na Terceira são impérios, em São Jorge, Pico e Faial são ermidas ou capela e nas Flores e Corvo são casas. Muitos impérios têm anexos (local onde se preparam as sopas além de espaço onde se guardam as varas, os lampiões, os estandartes, as bandeiras e os utensílios de cozinha) que ganham nomes diferentes de Ilha para Ilha: casa das sopas (São Jorge), talho (Flores), copa (Faial), despensa (Terceira) e copeira (Santa Maria e Flores). Página a página cada fotografia com as suas cores e as suas mensagens («Deus é Caridade, União e Caridade») ou as suas abreviaturas (DES – Divino Espírito Santo) vai comovendo o leitor. Todas são especiais e diferentes entre si (há umas que até são amovíveis) mas o Império dos Outeiros na Agualva apresenta uma pauta musical gigante nas suas paredes. Convite óbvio a que das paredes saltem as notas para serem cantadas na alegria convocada dum encontro feliz. Em Santa Maria o Império do Santo Espírito tem a particularidade de o azulejo referir «Triato de Nossa Senhora da Piedade construído em 2002 pela Junta de Freguesia do Santo Espírito». Esta aliteração prova a ingénua diferença entre língua e linguagem, entre cânone e prática. Para fechar com chave de ouro fica a quadra da contracapa do livro: «Império é casa serena / Onde se entra por bem / Em tamanho a mais pequena / E a maior que o mundo tem».

Um livro por semana 130

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«A irresistível voz de Ionatos» de Vítor Oliveira Mateus

A irresistível voz a que se refere o título deste livro é a de Angélica Ionatos que canta a poderosa massa sonora de Mikis Theodorakis e de toda a música popular da Grécia.

O ponto de partida deste livro é a Ilha, seu tempo e seu espaço: «Azul que em azul te desdobras. / Cerco de baías. Moldura de espuma. / De penhascos afagados pelo vento. / É na linha do fogo que te desenho / ò insubmissa de vagas e fulgores! É em ti que me renovo, Cítera, / a dos amores. / E por ti diariamente renasço».

Numa ilha grega o poema revela que o Turismo nada tem a ver com a Poesia: «A mulher da loja em frente traz consigo / algo das antigas deusas. / Reforça a perigosidade dos poetas / sempre a infectar gentes, ilhas, rotas / ancestrais. E que o bem houvera sim / na ditadura dos generais, onde a ordem / fora ordem, sem abcessos a estorvar o destino».

O Turismo é um negócio e por isso o viajante é sempre visto como um invasor: «Nunca soube lançar o pião / como os rapazes do terreiro / entre os contentores: aprendizes / de ladrões, de proxenetas / arrumadores. Nunca soube lançar o pião. Lancei / a minha vida, os meus / anseios. E foi tudo.»

Entre a viagem («a viagem é uma cisão absoluta») e a rotina («com o seu debrum de gangas que nem conheço») o amor é a linha dum rosto e o rumor de uma voz: «Tenho saudades da tua voz / desse rendilhado de sílabas/ a desaguar lento no alvoroço / da tarde. Tenho saudades / da tua boca onde eu – náufrago / de antigas visões – todas / as noites ouvia a límpida melopeia / da ilha».

(Editora: Labirinto, Capa: Manuel Carneiro, Prefácio: Posfácio: Cláudio Neves, Nota de contracapa: Olga Savary)

Vinte Linhas 387

As décimas são uma roubalheira

Quando tinha cinco anos ouvia o meu avô dizer «as décimas são uma roubalheira». Elas vinham em postais das Finanças das Caldas da Rainha. Havia também uns postais do Banco Raposo de Magalhães de Alcobaça que tinham um selo de dois tostões. Eram avisos de reformas de letras de 500 escudos. Hoje, passados 53 anos, percebi o alcance da frase do meu avô. Uma jovem arquitecta paisagista iniciou a sua actividade em Outubro de 2008. Até Dezembro recebeu 1.225 euros mas na sua declaração das Finanças alteraram o valor para perto de 3 mil euros. Fui saber do caso a uma repartição e responderam-me que isto foi feito porque há mínimos. Ou seja: paga mínimos não por aquilo que efectivamente recebeu e declarou mas por um valor que alguém abusivamente resolveu colocar no documento por si assinado. Então uma pessoa inicia a sua actividade em Outubro e é como se tivesse começado em Janeiro. Mas se de Outubro a Dezembro são 3 meses então os chamados mínimos deveriam ser um quarto do tal valor. Tudo isto é uma mentira, tudo isto é um absurdo, tudo isto é uma vergonha. Custa acreditar que há gente que faz isto e depois deita-se e dorme como se não se passasse nada. Apetece dizer: «Meu rico Agostinho da Silva que conseguiu morrer sem ter tido número de contribuinte». Eu queria e não posso. Comecei a trabalhar em Setembro de 1966 e fui logo «filado» pelo sistema tributário. Por isso é que os portugueses que fogem ao fisco são admirados e muita gente os inveja e os venera. Eles são capazes de fazer o que nós não fazemos mas gostaríamos de fazer. Quem é que vai explicar isto a uma miúda de 24 anos a quem uns trambolhos sem rosto adulteraram a declaração de IRS?

Um livro por semana 129

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«As amantes de D. João V» de Alberto Pimentel

Este livro de Alberto Pimentel (1849-1925), não se limita ao universo do seu título. Muito para além das aventuras do Rei com Filipa de Noronha, Maria Ana de Áustria, Soror Paula, Margarida do Monte, A Flor da Murta e a actriz Petronilha, há nestas páginas a memória viva dum certo tempo português. A época e o tempo de D. João V: «Era ágil, desembaraçado e robusto. Dotado de uma certa viveza natural, de um certo engenho penetrante, tinha, para as mulheres a qualidade preciosa de as compreender sem hesitações e de se fazer compreender sem delongas». A rainha que veio da Áustria «falava latim, italiano, francês e espanhol, tinha muita piedade e muita religião e gostava de caçar». A propósito de um incidente em que a condessa de Vila Nova de Portimão, ao ser agarrada por D. João V, uma noite lhe deu um bofetão enquanto gritava «Que é isto! Pouca-vergonha!», comenta o autor: «Era forte e desembaraçada além de guapa. Devia ser pois deu cinco filhas ao marido e um bofetão ao Rei». O clima geral é dado numa frase: «Havia dois espectáculos predilectos da corte e do povo: eram os autos-de-fé e as touradas». Sobre o amor uma ideia: «Fidalgos, frades, poetas, velhos, moços, ardiam em incêndios de volúpia. O Rei, cônscio de sua elevada posição, não lhes queria ficar trás. Não foi outra coisa». Para o final da vida o Rei procurou cura nas Caldas da Rainha. Logo os frades de Alcobaça lhe enviaram 69 vitelas, 194 presuntos, 182 queijos, 210 perus, 692 galinhas, 12 cargas de fruta, 36 paios e 333 caixas com doce. D. João V quase morria de fartura mas repartiu o presente com a família dispersa na (hoje) cidade termal.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Vinte Linhas 386

«Caderno de areia» de Luís Maçarico

Os poemas deste livro de 50 páginas forma escritos na Tunísia entre 1991 e 2007 e poderiam estar reunidos sob o título de «Entre terra e mar». De facto no primeiro poema (Le Kef) o autor afirma «A terra canta» e no último (Amina) regista «O mar é uma incógnita…» Entre os dois discursos (inicial e final) fica o método: «E os dias derrama-se / no caderno de versos».

Mas os poemas, para o serem de facto, não podem ser apenas registos dum olhar («Entre dunas e olivais») sobre a Natureza. Há, na sua respiração, um diálogo com as História, o mesmo é dizer com a Cultura: «Escutarás o velho mar / onde Ulisses viu sereias / sozinho no areal / saboreando a divina carícia / do silêncio».

A autobiografia também é convocada; nascido em Évora (1952), o poeta exclama: «Tudo me diz que estou longe / mas não é verdade! / O deserto sempre foi o lugar / da minha infância!» Entretanto o poema é, acima de tudo o mais, o lugar dos outros: «Quem são? Gente onde a / terra em brasa crepita / para florir nos olhos de fogo / Passam como nuvens / parecem a impetuosa / corrente de um rio / ansioso por chegar à foz / mas que se perde / na aridez dos caminhos / da sede».

Entre o «eu» e o «Mundo», o poema liga de novo o que o «Tempo» separou: «Guardo o breve aroma / da efémera flor / do destino. Sei que o tempo / evapora jasmim e rosa. / Os passos no oásis / ainda há pouco já são / memória. Atravesso / nuvens. Transporto / visões, silêncios, sedes, / um deserto de afectos / e um chá de estrelas / para acordar sem mágoa…»

(Edição de autor, Design e grafismo: Marta Barata, Apresentação: Ana Machado)

Vinte Linhas 385

«Lábio cortado» de Rui Almeida

Sabe-se (Erich Fromm) que o homem é o único animal para quem a própria existência é um problema do qual não pode fugir e que só ele pode solucionar pois só ele pode aborrecer-se, ficar descontente e sentir-se expulso do Paraíso. Este livro de Rui Almeida venceu o Prémio Manuel Alegre 2008 da Câmara Municipal de Águeda e reflecte sobre essa circunstância: «O homem que se olha ao espelho sabe / que vai morrer. Não sabe quando ou como / mas reconhece a finitude da vida / – da sua vida, de cada vida.»

Poeta jovem (n. 1972, Lisboa) Rui Almeida sabe que o corte («É o lábio cortado que molha o ventre») pode ser lido em sentidos vários – desde um corte real provocado pela escaramuça de um quotidiano de luta e hostilidade ao corte figurado entre duas maneiras de fazer poesia. De um lado a canção; do outro a reflexão. Sem esquecer a filosofia à volta do poema enquanto objecto: «À pequena raiz do poema / chega a memória como um centro / Algo mais do que o ruído metódico das sílabas / e desaba paulatinamente na mão / que molda a frase, pousada na caligrafia.»

Num primeiro livro o poeta fala sempre de si: «Esta coisa de estar parado a assistir a nada / consciente da cor de cada objecto à minha frente / enquanto a visibilidade se fecha dentro de um candeeiro». Um poema regista a violência como banalidade («Quando o mundo nos entra com violência / para dentro do peito soluçamos») mas outro poema já advoga o encontro e o amor: «Tudo será dito sem memória nem futuro / Sujeito à solidão das vagas / Porque só as pessoas se amam».

(Editora: Livro do Dia, Capa: Inês Ramos)

Vinte Linhas 384

«Chave de ignição» de Ruy Ventura

«Chave de ignição» (Editora Labirinto) é o mais recente livro de Ruy Ventura (n. 1973) e organiza-se entre dois pólos – Natureza e Cultura.

O ponto de partida é a Natureza: «O cabelo recolhe a temperatura / da terra. Dissolve tudo / neste caminho virado a poente. / a mão segura as asas. / tenta encontrar o sono, a respiração – da montanha – e uma gota de água. / em silêncio, tenta encontrar uma gota de água / para dissolver este sal / que vai queimando a carne – e essa memória.»

A viagem faz-se num mapa de citações literárias: José Régio, C. Ronald, Maria Gabriela Llansol, Fiama Hasse Pais Brandão e um texto do evangelho de São Lucas. Se juntarmos as palavras de Fernando Guimarães e Pedro Sena-Lino na contracapa, o prólogo de Gonçalo M. Tavares e o óleo da capa de Nuno de Matos Duarte, temos a provável chave de ignição para viajar neste livro.

Trata-se de uma viagem entre a Morte («sem voz, sem terra, sem sombra – estes ossos e / estes músculos limitam-se a fotografar / um tráfego de sombras e revelá-lo entre os poros / enegrecendo a pele, tornando roxas as unhas, encanecendo o cabelo, / eliminando-se assim as poucas palavras / que permitiriam atravessar a fronteira») e o Amor: «desenho no poema os recantos / dessa casa que habitamos / abro a porta quando menos espero / entro com a sede de quem viu nessa noite / o fogo devorando o sol e a alma / morro e ressuscito / como quem visita um santuário.»

Entre a Morte e o Amor, a viagem da Vida: «a árvore estabelece o eixo e o caminho».

Vinte Linhas 382

«As palavras poupadas» de Maria Judite de Carvalho

Alguém no dia 17 de Maio de 1963 comprou este livro e escreveu a tinta azul «de 1962» ao lado das palavras impressas «Prémio Camilo Castelo Branco». Folheio devagar as suas páginas e recordo com emoção o dia (já lá vão uns anitos) em que fiz parte o júri do 1º Prémio Nacional de Crónica instituído pela Associação Portuguesa de Escritores e patrocinada pela Câmara Municipal de Beja. Os outros elementos do júri eram a escritora Maria Regina Louro e o Dr. Cortez (do Instituto do Livro) e o prémio foi entregue me Beja na Biblioteca Pública local.

É um belo livro ainda hoje, passados tantos anos, conforme já na altura Óscar Lopes, Álvaro Salema, João Gaspar Simões e José Palla e Carmo tinham afirmado.

Um exemplo: «Aos amigos… Mas a que amigos? Fora sempre um doente e as crianças e os jovens não gostam de doentes. Pelo menos durante muito tempo. Cansam-se, irritam-se. E são extremamente cruéis. Por isso os detestava a todos. A todos.»

Lembrei-me também da Ana Teresa Pereira, escritora hoje de nome firmado mas que há vinte anos eu ajudei com a minha teimosia a descobrir no prémio Caminho Policial. Claro que não se sabia «quem» era mas foi o texto que me prendeu a atenção. Bati-me por ele e houve mais bolos secos e licores do que o habitual até que por fim lá surgiu o consenso.

As minhas intuições não me costumam deixar ficar mal. Ana Teresa Pereira pertence a uma geração diferente mas a verdade é que são dois casos aos quais estou ligado: num deles outorguei um prémio de consagração, noutro ajudei a descobrir um talento guardado numa gaveta de uma casa num Rua do Funchal.

Vinte Linhas 381

Os trambolhos do Centro Comercial

A incrível sucessão de comportamentos insólitos, absurdos e estúpidos para com duas jornalistas da «Gazeta das Caldas» num centro comercial da cidade termal, veio recordar-me uma cena parecida que me aconteceu em Santarém. Tratava-se de uma reportagem do jornal «O Mirante» sobre o facto de as pessoas nem sempre lerem os conteúdos dos rótulos das embalagens dos produtos alimentares e do perigo real que constituem os organismos geneticamente modificados. Estava eu com o meu camarada Fernando Vacas a falar com os clientes santarenos de um supermercado (ou centro comercial – já não recordo bem) enquanto estes guardavam o conteúdo dos sacos na bagageira do automóvel quando um «segurança» nos disse, algo alterado e nervoso, que «tinha ordens superiores» para nos afastar dali. Ao que respondemos que nada tínhamos com isso. Éramos pessoas livres a falar com pessoas livres no parque de estacionamento de uma superfície comercial. A sua «ordem» não nos dizia respeito. Foi a correr chamar um polícia de trânsito que, honra lhe seja feita, lhe virou as costas ostensivamente.

Outra coisa não merecia (merece) a estupidez assim elevada à quarta casa (arrogância, prepotência, delírio, alucinação).

O meu episódio aconteceu em 1998 à porta de um supermercado (ou centro comercial, não me lembro bem) em Santarém. Este episódio infeliz com as jornalistas da «Gazeta das Caldas» veio avivar uma memória já com onze anos. A vida dá muita volta mas só para os outros; para os trambolhos está sempre tudo na mesma. Os de Santarém que atacaram «O Mirante» voltaram a renascer nos que atacaram a «Gazeta das Caldas».

Vinte Linhas 380

Polícia Municipal – as patrulhas do vazio

Acabo de dar um pequeno passeio pelo Miradouro de São Pedro de Alcântara, seguramente um dos mais belos do Mundo. Nem Edimburgo, que tem um parecido, tem um panorama assim – com castelo, rio e cidade. Nem Bolonha, Veneza, Paris, Madrid, Bruxelas, Amesterdão, Londres ou Roterdão, cidades que recordo de imediato, se podem orgulhar de ter um miradouro assim. Duas turistas espanholas, expressivas e faladoras, salpicam os filhos com pingos de água da fonte enquanto a brisa de Lisboa ajuda à festa.

De repente surgem dois guardas da Polícia Municipal que formam a dois (parece o filme «A Quadrilha Selvagem» de Samuel Peckimpah) e avançam para o lado mais escuro do miradouro, o espaço onde não está a esplanada. Dito de outra maneira: os dois homens avançam para o esplendor do vazio. Eles patrulham uma ausência, um buraco escuro, uma não-coisa.

António Costa anunciou a sua candidatura à Câmara neste lugar. Com o café fechado e as cadeiras empilhadas e guardadas a cadeado, prova cabal e perfeita da incompetência da Câmara de Lisboa. Exigir 2.500 euros de renda num espaço onde isso é impossível de obter a vender cafés e pastéis de nata, só pode ser delírio, maldade ou incompetência. Aqueles dois homens a patrulharem o vazio nesta noite de domingo arrepiam-me. Vivo aqui desde Dezembro de 1976 e já sou mais do Bairro Alto do que da minha terra. Muitas vezes assobio a marcha «O Bairro Alto / Fidalgo e fanfarrão». Aqueles dois homens no vazio causado pela estupidez de alguém na Câmara dizem-me que em qualquer país civilizado um miradouro destes teria a sua esplanada sempre cheia de turistas.

Arco de pedra

Ao terceiro arco de pedra o teu olhar

É um volume nas estantes da livraria

Livro por abrir a tua idade é um lugar

A convocar um clarim que te anuncia

Aos trinta e sete anos a idade só existe

Para quem vive de costas para os dias

O teu tempo não é um relógio triste

A marcar uma sucessão de nostalgias

O tempo é o teu olhar, o teu sorriso

Que dá títulos a livros numa estante

O tempo é o teu perfil, belo e preciso

Definido pelo teu olhar de viajante

Viagens sem sair do mesmo espaço

Livraria que é também para navegar

Ao fim do dia não mostras o cansaço

Cada livro recebe a luz do teu olhar

Um livro por semana 127

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«Álbum de caricaturas» de Rafael Bordalo Pinheiro

Rafael Bordalo Pinheiro começou a fazer caricaturas no Calcanhar de Aquiles. Seguiu-se A Berlinda, O Binóculo, A Lanterna mágica, a Ilustración de Madrid, a Ilustración Española y Americana e a Illustrated London News. Este seu álbum intitulado «Frases e anexins da língua portuguesa» tem um prefácio de Júlio César Machado, escrito em 1876 no preciso tempo em que Bordalo estava no Brasil: «Correu um dia o boato de que ele era fraco em desenho e, não se fazendo nunca reparo disso a outros que nem desenho nem talento tinham, fizeram-no pagar amargamente a ele o que tinha em talento pelo que pudesse faltar-lhe um pouco em desenho. A insistência e obstinação desses boatos deriva quase sempre da vontade de inventar pretexto para rebaixar os créditos e abalar a estimação em que um homem de aptidão principia a ser tido. A inveja é talvez o único sentimento engenhoso dos portugueses: frouxos de imaginação para tudo mais, são, nesse ramos da sagacidade humana, vivos, espertos e intrépidos.» E conclui: «O caso é que o homem passava por ser aí muito querido e ninguém tratou de o auxiliar quando veio a ocasião disso. Fazem-se conselheiros, fazem-se deputados, fazem-se desta comissão e daquela e da outra, fazem-se medalhas mas não se fazem Rafaéis Bordalos».

(Editora Frenesi, Paginação e grafismo: Paulo da Costa Domingos e Telma Rodrigues)

Vinte Linhas 379

Ladrões de bicicletas ou O mais velho atleta dum pelotão triste

Encontrei por acaso na Ericeira a banhos o doutor Artur Lopes, médico e grande apaixonado do ciclismo – foi presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo. Falámos logo de Joaquim Agostinho e deste poema que vem também a propósito da Volta à França em bicicleta:

«O mais velho atleta dum pelotão triste

Escapa para além dos limites do poema

Um olhar profundo que teima e que resiste

Ladrões de bicicletas eram os do cinema

Como num filme ao contrário se revela

Na mesa vinte e quatro vezes por segundo

Espaço no armário para a camisola amarela

Que já não podes vestir neste outro mundo

E nas pistas do céu da nossa Estremadura

Há-de haver corridas muito bem organizadas

Para venceres com um sorriso de amargura

Longe do país, longe dos cães e das estradas»

Gazeta 190

ESTRADA DE MACADAME

CXC – «As cavacas do Gato Preto estão na minha vida há mais de 50 anos»

Desde o tempo da «estrada de macadame» que me habituei a ver o meu avô ou a minha avó de Santa Catarina a chegarem das Caldas com um embrulho de cavacas do Gato Preto. Se o calor as fazia duras derramava-se um cálice de vinho abafado ou, em alternativa, do vinho comum. Quando fiz os exames da terceira e da quarta classe na Escola Primária ali ao pé do Parque em Abril e em Julho de 1961, tive um fato do Chiado como prenda mas as cavacas do Gato Preto nem foram prenda porque já estavam destinadas ao aluno que «ficou bem», ainda antes de o exame começar. No dia do Pai de 2009 fui às Caldas, passei pela Livraria 107 e pelo Gato Preto, passei pela redacção da Gazeta e fui almoçar com o meu pai às Cruzes. O dia estava correr bem. Falei com os meus três filhos e ao fim da tarde a ASAE estragou-me o dia. Parei na Associação Cultural e Recreativa de São Salvador e Espinheira para tomar um café e vi as pessoas muito tristes. Tinha sido a ASAE que os tinha multado por não terem livro de reclamações. Repare-se que nem sequer puseram a hipótese de dar 8 dias ou 15 para eles procurarem arranjar um livro de reclamações. Foi logo multa para cima do pessoal. Ora a ASAE, que é uma coisa assim como os fogos florestais (queima tudo à sua volta) nem sequer considerou que aquele café pertence a uma associação (fundada em 1-5-1974) que ajuda os idosos e as crianças numa povoação que tem 180 habitantes. Além do mais, tratando-se de um associação cultural e recreativa, está sempre presente um elemento da direcção da colectividade o que faz com que qualquer possível problema seja resolvido in loco e em pouco tempo. A minha revolta foi tal que de imediato escrevi um texto que coloquei na Internet (www.aspirinab.com) e as Câmaras Municipais da Azambuja e do Cadaval souberam do caso e ajudaram a direcção da colectividade a pagar a multa.

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Vinte Linhas 378

Um livro de pedra no Museu de Odrinhas

Por um acaso feliz fui visitar uma destas tardes o Museu de Odrinhas – algures entre Sintra e a Ericeira. Comprei uma «T Shirt» com um dragão para o meu neto Tomás (que adora histórias com dragões e monstros) e tive direito a uma visita guiada por uma jovem licenciada em história de arte mas, para além da justeza, precisão e rigor dos seus elementos históricos, maravilhou-me o facto de as pedras do Museu falarem quase como as páginas de um livro. Um livro de pedra, páginas pesadas pelo peso do tempo.

Porque as pedras de facto falam, tanto nos desenhos como nas inscrições. Nobres e cidadãos, pessoas importantes do Império Romano, são hoje quase anónimas memórias nas pedras de um Museu. Um jovem de quem muito se esperava morreu aos 33 anos e a pedra regista a espantosa dimensão da dor da sua mãe. Ao lado um vaso funerário de pedra serviu no século XIX para um ferreiro de uma aldeia vizinha mergulhar na água da têmpera as enxadas e os podões, as forquilhas e os sachos que saíam vermelhos da fornalha mantida acesa pelo fole. Cruzes e sinais, restos de entradas de villas, de jardins, pedras tumulares e outras pedras que a erosão do tempo quase apagou – no Museu de Odrinhas um livro de pedra espera o viajante para lhe explicar que a posteridade é vagarosa. Tal como a vida é breve. E o amor é escasso.

Ao lado uma bem conservada capela dá acesso a um velho cemitério com as mais variadas cruzes. Prefiro olhar para o cemitério como uma longa adversativa, uma vírgula na alegria diária de quem não pensa no amanhã. Uma visita ao Museu de Odrinhas ajuda a perceber melhor a gramática do tempo – porque toda a posteridade é relativa.

Um livro por semana 128

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«As mulheres de Henry James» de Carlos Céu e Silva

Daisy Miller é uma das personagens mais famosas da obra de Henry James (1843-1916) mas este livro envolve diálogos imaginados não só com esta mas também com outras figuras: Catherine, Mary Bartram, Eugénia, Nona Vincent, Isabel e a preceptora de Henry James. As conversas entre o autor e Henry James giram à volta das mulheres («Uma mulher feliz não é estimulante») e da escrita («As histórias são mais importantes que a vida») mas desaguam no Mundo: «A Humanidade não pára, renova-se a cada suspiro, a cada perda, a cada partida. O que adoece e morre são as pessoas, não a Humanidade».

Noutras conversa Henry James defronta as suas personagens em diálogo:

Catherine: «No meu tempo não éramos nós que sofríamos demais. Eram os senhores, homens pomposos, que fumavam charutos e bebiam xerez mas faltava-lhe sempre alguma coisa. Uma companhia feminina inteligente, por exemplo».

Henry James: «Não concordo consigo. O que um homem procurava numa mulher não era propriamente a inteligência».

Catherine: «Por isso é que nunca me concedeu tais virtudes, iria ficar mal visto. O senhor e todos os homens que, como o senhor, estão habituados ao exercício do poder e à superioridade». (Fica uma ideia da aventura que é ler este livro escrito por um psicólogo sobre um autor que inundou de psicologia os seus romances).

(Editora: Coisas de Ler, Capa: Pedro Salvador Mendes)