Impressionar os vizinhos, brilhar nos cafés, seduzir os credores

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One thought on “Impressionar os vizinhos, brilhar nos cafés, seduzir os credores”

  1. sim, de acordo. mas afecta muito mais do que isso: afecta mesmo antes de ser concebido. Uma vez escrevi isto:

    v
    livre
    (e oxigenado)
    .

    o corpo, morto, era o da sua mãe. e a mão, com sangue e pistola, era a sua. era sim. sentia-se orgulhoso e confortável (quase, até, um polícia federal brasileiro) com a sua glock 34, de cano e ferrolho de aço, chegada directamente da austrália, quatro meses antes, concebida – em miniatura – especialmente para si. e foram quatro, os meses de minucioso treino; de habilidade e de traquejo com aquela maravilha.
    todo ele era sangue. e ela também. o sangue da mãe era, porém, contrariamente ao seu, garrido e misturado com carne. cheirava a doce.

    pareces um iogurte, de morango ,magro, com pedaços, mãezinha.

    ao mesmo tempo que ria com rouquidão (era, de facto, a primeira vez que verbalizava a fala) imaginou-se a ser congratulado, em cannes, pela curta metragem “o creme da liberdade” e ria mais e mais.
    o sangue que lhe banhava as mãos – e a pistola – era o mesmo que lhe cobria o corpo nu: rosado, viscoso, pegajoso. assemelhava-se (parece-me perfeita a analogia) a um tamboril, inteiro, antes de esquartejado para a fantástica sintonia com o arroz.

    agora sim, agora respiro. estava, já, fartinho de ouvir o eco da tua voz – sou novo demais para ter enxaquecas – lá dentro. além disso, esta coisa de estar a eliminar e aspirar mecónio tem o que se lhe diga: andar em rotações de treino é uma merda.

    sereno, agora, procurou a parte mais cremosa da mãezinha para se deitar um pouco – depois de arrotar, com prazer, a bílis e muco – e adormecer.

    i
    formosa
    (e tesuda)
    .

    tem de ser hoje. hoje prometo não tomar valium. quero engravidar e ter um filho saudável. e vou escolher o futuro pai – não a dedo – mas pelo dedo: o homem que, hoje, me tocar e me fizer sentir algo especial será o escolhido.

    a mãezinha é uma mulher jovem e atraente: tem trinta e um (quase trinta e dois) anos e é ruiva – de tez e de carácter. pinta, sempre, as unhas de castanho dourado (para condizer com as sardas, diz) e usa saltos de cunha para não danificar a coluna que é, bem visto, a grande responsável pela sua postura erecta – apesar da copa 90b -, tesuda e tranquila.
    mas hoje é um dia especial.

    vou usar salto fino e bicudo.

    o sol, quentinho, do meio dia – mal bateu a porta para a rua – desapareceu. o sorriso dela é que não: estava virado do avesso à procura de uma saída para a sua decisão.

    hoje vai ser o lugar, mais seguro, do resto da minha vida. quero ouvir-te respirar, meu menino. quero que sejas menino.

    primeira paragem: a do autocarro, claro.

    a única coisa que sinto é ardor nos pés. mas também não vou começar a desesperar; tenho muito – por onde andar – para sentir.

    ruas, lugares e a fome aperta. (ou dá de si?) o batido – de iogurte, leite magro e chocolate – que mastiliu antes de sair de casa já não ocupa espaço no seu estômago e pára, então, no café – de nome sugestivo – bemquesabe.

    hum… este fulano, aqui da mesa ao lado, com ares de chulo, parece-me forte como um touro. se são, como dizem, os opostos que se atraem, será que vai fazer-me sentir algo especial? gosto do jeito com que marca as cruzes do euro milhões e, igualmente, como se coça. vou – quando sair – atrás dele.

    talvez a sua vida matreira o faça perceber, antes de qualquer outro, quem o persegue e repara, poucos minutos depois de sair do bemquesabe, na mãezinha que, apesar de surpresa, fica, de igual forma, agradavelmente estremecida quando sente, de rompante, a mão, semi-limpa, do homem-touro. sente uma espécie de choque eléctrico sem electricidade; sente um choque de cheiro a queimado sem ser a torrado; sente um choque de sangue sem ser coalhado. e sente-se húmida sem estar encharcada – mas de suor.
    (viu, uma vez, num filme, uma mulher ser arrastada para uma rua sem saída por um desconhecido que, em vez de – ao que tudo levava a crer – a violar, sentou-a num caixote do lixo e contou-lhe uma história, linda, de nuvens que dançavam e anjos que saltavam à corda.)

    porque não pode ser, este homem-touro, assim?

    está, agora mesmo, a ser arrastada para um beco feio e imundo (curiosamente, ouve-se – trazida pelo vento – a música agitada do billy idol e os gritos, secos, e de arrependimento, da mãezinha), rasgada e violada.
    a única coisa que, de facto, a faz sorrir é a possibilidade de ter engravidado. (isso e a verruga, cómica, do pénis desconhecido.)
    em casa, esticada e feliz, quer que o tempo passe, a correr, para saber.

    agora já posso tomar dois ou três valium para comemorar. eu sei que vens a caminho meu filho. eu sinto que vens. e és um menino; eu sei que és um menino.

    ii
    barriga a crescer
    (e a morrer)
    .

    sabes, meu querido, a senhora doutora disse-me que este mês é especialmente crítico para o teu desenvolvimento mas eu sei que é o valium que, tal como a mim, te faz ser forte e audaz.

    no final do segundo mês, prematuramente, todos os principais órgãos e sistemas – incluindo cérebro, pulmões, fígado, e estômago – estão, já formados. um orgulho para a mãezinha que ri, sem parar, cada vez que a doutora diz que tem de abortar; que está a ver uma criatura monstruosa, até no órgão genital. e a mãezinha faz, sempre, questão de, com alegria, repetir.

    curioso o pénis do meu menino: tem uma verruga.

    as 28 gramas (de gente?) que estão dentro da sua barriga são autoritárias. com a particularidade de o pequeno coração bater trezentas vezes por minuto (a criatura, como diz a doutora que acaba, nesta consulta – dado o incumprimento da mãezinha à sua recomendação, uma vez mais, de aborto – , de comunicar que está fora; não a segue mais), já tem dentes. e fala.

    não ouças o ela diz, mãezinha. eu estou forte e sadio e quero um brinquedo. quero que mandes fazer uma pistola, de encomenda, para eu ficar, ainda, mais feliz. gosto, bastante, de ti mãezinha. minha, mãezinha, criadora.

    a mãezinha é uma mulher que faz jus ao seu tempo: trata, quase tudo, pela internet e encomenda, de imediato, a pistola, em miniatura, para o menino que – com a alegria da novidade – avisa-a que a dor que está a sentir é causada por uns golpes que está, agora, a fazer – com a tampa de uma caneta que lhe pedira para engolir – na placenta.

    iii
    amor
    (armado)
    .

    estou tão feliz, meu menino. acabou de chegar o brinquedo (e que mimosinho que é) que me pediste. mas olha que deve pesar aí umas cento e cinquenta gramas: quase tanto como tu.

    de cabeça para baixo, e a desdenhar da acidez da sua própria urina, a novidade da chegada da encomenda traz-lhe uma imensa alegria. pode, finalmente, começar a aprimorar o manuseamento da pistola;

    começa a ler-me tudo o que encontres sobre o meu brinquedo, sim? mas antes o teu menino precisa que lhe faças mais um mimo: engole-o. já!

    a mãezinha sente, sempre, todos os pedidos do seu menino como ordens. não gosta de contrariá-lo; tampouco de provocar-lhe irritação e eventual – por um fracasso seu – decepção. está a tentar engolir a pistola. (a coisa demorou, aí, uma meia hora – não por falta de vontade – devido à forma, irregular, que causava dor, muita dor, na passagem pelas amígdalas, do brinquedo. experimentou de tudo para conseguir que escorregasse: mergulhou-a em manteiga – provocou-lhe vómitos; envolveu-a num saco, plástico, aonde veio o último relógio que lhe ofereceram – provocou-lhe tosse.)
    está, agora, a descansar do esforço, enorme, de resistência à dor: forrou – de pastilha elástica, de mentol, e empurrou, pela goela, com a ajuda do cabo da escova de dentes e dois copos de anis com gelo – a arma. está tonta. na boca sente o sabor, azedo, do álcool misturado com sangue: um hálito nauseabundo; podre.

    em baixo, o menino rejubila-se com a, ainda quente, encomenda. e zanga-se: não consegue, de imediato, como quer, ver o brilho do aço.

    cabra. mãezinha, não leves a mal mas apetece-me chamar-te cabra. cabra, cabra. agora, para me compensares por esta desfeita, toma três valium a ver se eu fico menos stressado e acalmo. vá! mexe esse cu, mole, que estou ansioso!

    iv
    treinar
    (para respirar)
    .

    um pouquinho hoje, outro tanto amanhã e a pastilha elástica foi, toda, mascada pelo menino.

    até que enfim consigo ver o meu brinquedinho novo.
    a masturbação é certa sempre que contempla, de sorriso rasgado, a pistola. depois, amiúde, repete o que a mãezinha lê e reproduz.
    leve, segura e com boa precisão; fabricada em liga de polímero e pode ser adaptada para atirar em baixo d’água; acção do tipo safe action, patenteado pela glock gmbh, com o cão sempre em posição half-cock, operando somente em acção simples; não possui travas externas: somente uma lingueta junto ao gatilho, que destrava no momento do tiro – um dos motivos porque muitos atiradores e policiais não consideram as glock armas seguras.
    lá dentro o tempo não tem tempo. e o tempo, que o menino passa a experimentar posições e a destreza para carregar no gatilho passa sem, no entanto, passar. mas o menino passa-se.
    os testículos dele desceram para o escroto e juntam-se, agora, com oito meses, à verruga do pénis – o orgulho da mãezinha.
    já não te posso ouvir. se, ainda ao menos, me chupasses… quero sair daqui: respirar: estou pronto. obrigada minha mãezinha. já não preciso de ti. (mas havemos de nos encontrar, um dia destes, lá fora.)
    (…)
    pensei melhor: até já.
    ————————————————————————————-

    paternidade como maturidade. gostei;

    olha, a preguiça já pode não ser inimiga dos músculos e o sofá pode ser amigo das maratonas. isto agrada-me;

    os psicopatas têm um cérebro com defeito e nem dá para ver no feitio;

    a única coisa que diminui a depressão é a força que o medo traz para ultrapassar tudo – quando o tudo é o que está em risco;

    é. há estranhos que não são estranhos. estranho. :-)

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