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Estranho

Pode não ser estranho aparecer uma denúncia de assédio sexual contra um candidato presidencial em cima da votação. São inúmeras as possibilidades que levam a tal, para todos os gostos. O que acho real e profundamente estranho é o baixíssimo, residual, número de denúncias de assédio sexual face ao total da população e contando as últimas décadas de democracia e legislação para o efeito.

Ou melhor, esse encobrimento não tem nada de estranho. É bem portuguesinho da Silva.

Com Cotrim, tudo é ligeiro e superficial; não admira que se tenha precipitado

Não excluo qualquer candidato, mas teria de fazer uma reflexão profunda”, admitiu o também eurodeputado, no final de uma visita ao Mercado Municipal do Fundão onde teve, a seu lado, o vice-presidente da Assembleia da República Rodrigo Saraiva, a ex-deputada do PSD Liliana Reis e o vereador na Câmara Municipal da Covilhã, que concorreu como independente eleito pelo CDS-PP, Eduardo Cavaco. Questionado sobre se apoiaria o adversário André Ventura na corrida a Belém, o antigo líder da IL reafirmou que, nesta altura, não exclui ninguém.

O André Ventura dos últimos quatro dias eu ainda não conheci. Moderou o discurso e parece um político diferente”, considerou.

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Em declarações aos jornalistas depois de uma visita à adega Vila Real, o líder do Chega reagiu ao facto de João Cotrim Figueiredo não excluir apoia-lo numa possível segunda volta. André Ventura disse ter ouvido as declarações do ex-líder da Iniciativa Liberal com “naturalidade”.

 

Que queridos.

Cotrim de Figueiredo pode ter dado um tiro no pé ao declarar que votaria em Ventura em caso de confronto deste com Seguro na segunda volta das presidenciais. Pois bem, foi dito, está dito, o Ventura não o choca (não desconfiávamos já? Cotrim tem como apoiante um fundador do Chega, Nuno Afonso, ex-braço direito de Ventura). Se os seus adversários da área democrática (Gouveia e Melo, Seguro e …cof cof … Marques Mendes) forem habilidosos, atacá-lo-ão sem dó nem piedade nestes sete dias que restam. Basta lembrarem ao eleitorado que Ventura não é mais do que um candidato a ditador, à laia de Trump, que tanto admira e a cuja tomada de posse nem pôde faltar (mesmo ficando à porta). Se puder, e quando puder, acaba com a democracia e põe-se a perseguir tudo o que seja cigano, paquistanês e preto, pondo o país em pé de guerra, para logo de seguida calar os seus adversários políticos, de raça branca, com recurso à polícia. É isto que Cotrim quer ou não se importa de ver na Presidência da República?

Cotrim ou não pensa antes de falar e é um tipo superficial, no fundo um vaidoso – pouco talhado para a Presidência, ou acha mesmo que o Ventura tem mais qualidades do que o Seguro – e pouco apreço tem pelos regimes democráticos. Um dandy sem cabeça. Saiu da liderança da Iniciativa Liberal porque queria ir até Bruxelas e Estrasburgo ver as modas e agora o melhor a fazer é rua com ele.

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Dominguice

Adorava que Corina Machado desse o seu Nobel da Paz a Trump. Seria um dos momentos mais efusivos da minha vida, não tenho pejo em admitir. Explico. O Nobel da Paz, para lá do prémio em dinheiro, materializa-se numa medalha de ouro e num diploma artístico. A haver uma entrega da coisa, seria então a medalha e o diploma. Medalha e diploma personalizados para a real vencedora, a senhora venezuelana. Ora, parece que Trump aceitaria ficar com esses recuerdos de Oslo grafados com o nome Corina Machado e passar a dizer que o prémio Nobel da Paz era afinal e mui justamente seu. Mas que faria a seguir? Creio que de imediato escreveria por cima do nome dela o seu, e trataria de martelar a medalha com igual intenção. E esta operação seria realizada na Sala Oval, com solenidade e cobertura mediática.

O meu entusiasmo com essa hipótese vai parar aos romanos. Poder descobrir o que terão sentido e pensado enquanto Nero foi o maior artista na capital do império.

E o prémio Nobel da falta de noção e de espinha vai para…

Maria Corina Machado

Não percebeu que Trump não quer saber da democracia para nada. Não percebeu que toda a máquina repressoara de Maduro continua instalada e que  a mudança de governo (que pouco interessa a Trump se puder corromper o actual) só se faria provocando uma guerra civil. Não percebeu que não é intenção dos MAGA pôr americanos a combater pela democracia na Venezuela, eventualmente nem pelo petróleo. Não percebeu que, neste momento, a proposta de partilha do Nobel da Paz é completamente deslocada e absurda. Não percebeu que já deve haver quem ache que o seu prémio não foi merecido.

A democracia tem de ter inimigos, bué deles

Na procura de uma qualquer racionalidade, ou intencionalidade substantiva, nas decisões de Trump 2º, não é possível a quem estiver fora do círculo relacional mais próximo saber se ele decide por capricho ou como marioneta de terceiros. Como neste caso da Venezuela, qual poderá ser o seu interesse pessoal? Podemos oscilar entre a aparente megalomania criminosa e os milhares de milhões de dólares de lucro rapace para empresas e pessoas americanas caso se cumpra o propósito de abarbatar o petróleo. Donde, sendo impossível discernir a lógica causal, resulta desinteressante prosseguir essa via de investigação. Historiadores no futuro desenvolverão as suas teses a partir dos documentos e testemunhos recolhidos. O que tem real interesse é a reflexão sobre a evolução da democracia nos EUA. Trump foi reeleito não apesar de ser um criminoso condenado, depois de uma longa vida de abusos éticos, indecências e deboche, mas precisamente por assumir ser esse ogre infame, sórdido, ignóbil. O eleitorado deu-lhe a vitória no colégio eleitoral e no voto popular. Donde, um democrata tem de aceitar que foi a democracia que tornou possível colocar no poder o inimigo da mesma. E esta característica das democracias não é um erro – antes, e paradoxalmente, consiste na sua maior virtude. Hitler não provou a fraqueza ou disfuncionalidade das democracias, apenas a capacidade para as perverter e aniquilar.

A democracia é o melhor dos regimes porque na sua essência é ingénua e optimista, esperançosa. Os seus inimigos não sabem o que estão a perder, os miseráveis.

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Rapto na Venezuela: a pessoa errada a apear um ditador corrupto com a finalidade errada

Maduro já devia ter ido embora há muito. Perdeu claramente as últimas eleições, escondeu os resultados e manteve-se no poder. Com o apoio do Kremlin e seus amigos.

Agora, irónico e decepcionante é ser Trump, um ditador com aversão à democracia e às suas regras, corrupto, prepotente, debochado e megalómano (muito igual a Maduro – menos o deboche -, só mais rico e poderoso), a depô-lo. Trump não pretende restaurar a legalidade e a democracia na Venezuela. Nem sequer pretende que sejam os vencedores das últimas eleições a governar. Pretende apropriar-se das riquezas do país e, verdade seja dita, não esconde esse objectivo. Calhou bem que Maduro fosse um ditador e odiado por grande parte dos venezuelanos, que agora festejam. Mas a intervenção e a intenção não são de todo de aplaudir, à luz do direito internacional.

Teve piada Zelensky ao lembrar que, se Trump abriu a caça aos ditadores, então saberá o que fazer a seguir. Não é porém essa a política da actual Casa Branca, infelizmente para a Ucrânia. Na verdade, Trump quer lá saber se o Maduro era um ditador corrupto e ilegítimo (ele é igual, apenas legítimo, por enquanto). Só quer saber que a Venezuela tem riquezas que lhe interessam e não tem o seu poderio militar, ao contrário da Rússia. Baiden dizia que Trump até admirava Maduro. Não tenho dúvidas de que, pelo menos o invejava. Aconteceu que, provavelmente após acordo/negociata com a Rússia, teve luz verde para se apropriar do país e das suas riquezas. A ver vamos o que Trump faz com a Gonelândia, onde não existe qualquer ditador corrupto, nem narcotraficantes, nem influência russa, existindo em vez disso disponibilidade para negociar por parte de um histórico e agora suposto aliado.

E a União Europeia? Reagiu bem? Seria impossível reagir de outra maneira. Toda a comunidade venezuelana exilada festejou o derrube do ditador Maduro. Condenar apenas veementemente a ingerência num país estrangeiro seria interpretado como dando legitimidade a Maduro, o que seria muito errado. Dizer claramente que Trump fez muito bem, legitimaria o acto como um precedente aceitável para todas as interferências que se seguem. Assim sendo, resta constatar o acto consumado, ficar na expectativa e desejar que se instaure um governo que tenha o apoio da população. Os tempos são desafiantes, quando a política internacional se torna num “reality show”, onde todos os dias acontece alguma coisa escandalosa.

Nas muralhas da cidade

«O dever de sigilo que o MP invocou para vedar o acesso aos autos só vale para as averiguações preventivas ainda não encerradas. Compreende-se que, enquanto se está a procurar evitar a concretização de crimes futuros, numa averiguação preventiva, haja segredo. Encerrada essa fase de prevenção, desaparece a razão de ser do segredo —, e, a partir daí, proibir o acesso aos autos revela um problema estrutural de falta de transparência.

Pior: chamar averiguação preventiva à investigação da denúncia de factos passados para evitar todo e qualquer controlo, é aceitar que mudar o nome das coisas é quanto basta para apagar os mecanismos próprios de um Estado de direito. Mas não pode ser.»


O Nome das Coisas, Montenegro e o Ministério Público

Vai ser o melhor 2026 de sempre

Garantido. Até porque não há notícia de algum outro 2026 ter corrido mal. Correm invariavelmente bem, este dando-se o caso de ser ainda melhor do que os restantes.

Não, pá, não é possível adivinhar o que vai acontecer, sendo certo que desgraças antigas e desgraças novas vão marcar presença. Putin e Trump poderão não ser os piores facínoras da História, apenas acontecendo que são os piores das nossas histórias. Muito provavelmente, se viverem o suficiente, continuarão a sê-lo chegados a 31 de Dezembro deste novo ano.

Por cá, temos uma eleição presidencial desgraçada. Só há um cadidato que permite alimentar alguma esperança, não se sabendo se sequer chega à segunda volta, e não existindo forma de fundamentar essa esperança em alguma prova tangível.

O que se passa no Ministério Público não começou no ano passado, nem no anterior, nem no anterior. Começou, exuberantemente, em 2009. De lá para cá, tem sido aproveitado pela direita, depois pela extrema-direita. A avaliar pelas sondagens, uma parte cada vez maior da sociedade aprova os atentados contra a democracia, as violações do Estado de direito e os crimes cometidos por magistrados. Parte maior desta gente já existia, outra acaba de chegar à idade adulta sem perceber nada de nada de coisa alguma. Perderam a vergonha, foram normalizados por quem faz da política o vale tudo. Para quem só conta o poder pelo poder.

Não escolhemos passar por isto. Mas podemos escolher tentar passar disto.

O parto continua

Não fazemos puto ideia. Do porquê disto e daquilo. Do que aquele fez, do que o outro disse. Não sabemos. Mesmo que eles expliquem, como por vezes explicam, ficamos sem saber. Mas fingimos saber. Deixamos que as opiniões sobre tudo e mais alguma coisa se sirvam de nós para nascerem e se reproduzirem. Somos bácoros presos no frenesim da manjedoura.

Mas sempre foi assim. E foi sempre a coragem que nos puxou da animalidade.

Ainda há dúvidas de que a PGR está nas mãos do PSD?

Algum dia a Justiça, quando se trata de políticos, será verdadeiramente eficaz, isenta e imparcial neste país?

É inevitável pensar que Marques Mendes, “apertado” pelas acusações de Gouveia e Melo em directo na TV de que é opaco em relação à sua actividade profissional passada, decidiu contra-atacar usando os contactos que tem na PGR para prontamente desenterrar e mandar para as redacções um caso de inquérito aberto há oito anos sobre ajustes directos na Marinha. Verificamos, mais uma vez, que o caso tem estado a marinar até melhores dias (oito anos!), sem que o principal visado tenha sequer sido ouvido ou tenha sabido das acusações. Os “melhores dias” chegaram, pelos vistos, agora. Este PGR não falha. Sempre a favor dos mesmos.

Tudo isto me parece escandaloso, quando o caso Spinumviva, que implica um conflito de interesses mais do que evidente (o primeiro-ministro esteve a ser pago por privados durante o exercício da sua função, e continua, tendo os pagamentos sido transferidos para os filhos; privados esses, como a Solverde, que acabam de ver as suas concessões renovadas), nem um inquérito suscitou, ficando-se por uma averiguação entretanto arquivada sem que os fundamentos das respectivas conclusões nos tenham sido dados a conhecer, num secretismo totalmente suspeito e inaceitável.

Dito isto, eu escandalizo-me e indigno-me e voto contra, mas tenho perfeita noção de que, tal como com Trump, é certo a um nível muito mais grave, se os eleitores, por uma margem determinante como indicam as sondagens, preferem a AD no governo a qualquer das alternativas, esta espécie de corrupção é ignorada e tolerada, se não mesmo incompreendida. Nem mesmo o Ventura, que elegeu a palavra corrupção como a palavra do ano e de todos os anos até chegar ao poder, fala nesta promiscuidade clara,  muito menos a denuncia.

Em suma, está tudo bem com esta direita, tudo sob controlo, maioria relativa dos eleitores contentes, uma Justiça amiga, um candidato a PR com fortes apoios na PGR. Quem se importa? Espero que o tiro saia pela culatra ao Marques Mendes. A este propósito, ler o professor Vital Moreira.

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Conjeturas

NOTA

Na prática, a juíza está a demonstrar, mutatis mutandis, que o perigo de fuga invocado para se ter prendido Sócrates em Évora foi completamente infundado. Ou seja, foi uma opção injustificada do Ministério Público e de Carlos Alexandre, violando os direitos e garantias de Sócrates e confirmando que se estava perante um processo político.

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