Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Ronaldo traidor

O que se passou em Portugal à pala da ida de Ronaldo à Casa Branca na comitiva do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman merecia estudos académicos. Não me é possível dar conta aqui do maremoto de nacionalismo pindérico e pelintra que inundou o editorialismo e o comentariado. Para minha agonia, pessoas de quem sou enraizado fã alinharam nisto. Umas por puro tribalismo clubístico, outras por contágio emocional.

Tendo que escolher um exemplo, vou para um dos meus alvos favoritos: o Pacheco. No Princípio da Incerteza, num relambório trôpego, declarou sentir “vergonha” pela “traição ao País” cometida pelo futebolista. ‘Tá claro que a expressão “traição ao país”, na economia do discurso deste guarda pretoriano da moral, não quer dizer rigorosamente patavina. É uma junção de palavras com menos densidade do que o ar, destinada a desaparecer do alcance da inteligência assim que é lançada boca fora. Mas presta-se a uma ironia cheia de significado, tão oportuna que desconfio da intervenção de um dos deuses do Olimpo na sua confecção.

Sucedeu que Alexandra Leitão, comentando de seguida, escolheu como tema de intervenção inicial a questão das escutas a Costa não validadas pelo Supremo Tribunal de Justiça. Por causa desta problemática, fez uma alusão a Ivo Rosa. E depois disse esta coisa notável, ou mesmo espantosa: “Tivemos também recentemente, embora aqui não tenhamos falado — e por isso é que eu também achei que era altura de trazer, porque na altura não falámos (não calhou!) — da questão de ter sido investigado o juiz Ivo Rosa…

Não é lindão?! A tal questão do juiz Ivo Rosa tem estado na berlinda desde o início de Outubro, com múltiplos e crescentemente gravosos episódios, e nós estamos no final de Novembro. Neste programa não tiveram tempo para falar disso, porque “não calhou”, mas tiveram tempo para discutir a mudança da hora. Calhou.

A forma tíbia como Alexandra Leitão aludiu aos crimes cometidos no Ministério Público com a anuência da hierarquia merecia um texto dedicado, contudo não sendo uma traição ao País. O silêncio do Pacheco, tanto na CNN como no Público, face aos desmandos, abusos e crimes de procuradores também não será uma traição ao País. E a impunidade e soberba como o Estado de direito é violado — é ridicularizado — por quem o jurou defender numa primeiríssima linha de defesa, e é pago para esse fim, estará muuuuuuuuuuito longe de ser uma traição ao País.

Traição, traição a valer é a do Ronaldo. Nunca devia ter saído do Sporting, o traidor.

Revolution through evolution

For Young Children, Finger-Counting a Stepping Stone to Higher Math Skills
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Daily music listening linked to big drop in dementia risk
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AI Psychosis Risk: LLMs Fail to Challenge Delusions, Experts Warn
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AI and Psychosis: What to Know, What to Do
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ChatGPT Is Smart, but No Match for the Most Creative Humans
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Scientists reveal kissing began millions of years before humans
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Dominguice

Nas imagens divulgadas do encontro entre Ronaldo e Trump, há um registo de breves segundos em que ambos, com Georgina ao lado, atravessam um corredor aberto na Casa Branca. Trump diz algo que deixa o português a rir com uma felicidade infantil. O que por sua vez causa uma expressão de genuína afeição em Trump por lhe ter dado tamanho prazer. A captura é feliz em vários dos sentidos deste vocábulo. Ronaldo parece deslumbrado por estar ao lado daquele homem, aquele homem exibe o seu estilo de celebridade primus inter pares. Qualquer deles é excepcional, em cada contexto respectivo, não só face à média dos seus contemporâneos mas em relação ao todo da História.

Há excelentes razões para lamentar com mágoa profunda termos Trump como presidente dos EUA e Ronaldo como parceiro de negócios da Arábia Saudita. Nenhuma para exigir ao nosso patrício que seja o que não é, nunca foi e nunca poderá ser.

Este país é uma risota

Nesta semana foi anunciado, e promovido com destaque na comunicação social “de referência”, um espectáculo com estreia a 1 de Abril de 2026. Intitula-se “Sr. Engenheiro — Alegadamente Um Musical”. O autor diz que se baseou apenas no que foi publicado sobre Sócrates na imprensa, nisso imitando o método do caluniador profissional que mais dinheiro já ganhou com o mesmo filão, e promete encher o Tivoli com multidões que vão rir e gargalhar até os bofes lhes saltarem pela boca.

Há semanas, a Guida comentou um episódio que também me tinha chamado a escrever: Vergonha alheia. Não foi a primeira vez que aconteceu, ao contrário. O que me interessa na recorrente situação de se tratar a Operação Marquês como matéria irrisória é ver Pedro Marques Lopes, excelente como mais ninguém no comentariado na defesa da decência e do Estado de direito, igualmente a alinhar, ora passivo ora cúmplice, na função a que se entregam os restantes parceiros no programa: ritualizar o linchamento simbólico que institui uma culpabilidade indelével ao arrepio do que possa factualmente ficar estabelecido em tribunal. Decidiram que Sócrates não só não tem direitos, a começar pelo direito de defesa e demais direitos de personalidade, como igualmente pode ser alvo de um ódio mercantilizado e febril.

Pergunta-se: mas esta gente não tem consciência do que está a fazer? E insiste-se: mas isto é gente que quer ser levada a sério, quando os próprios se esvaziam de princípios morais e cívicos na ânsia de espetarem a forquilha no monstro? E vem a resposta: eles acham que podem ser ambivalentes e volúveis, cínicos e hipócritas, al gusto, pois não lhes chega qualquer penalização pelas antinomias.

Então, vamos rir. Rir do fraco, da vítima, do que se transformou em bode expiatório sem que importe o que possa ter feito. Principalmente, que não se perca tempo a tentar descobrir se houve algum exagero ou incorrecção no que os probos procuradores colocaram na praça pública e os impérios da imprensa de imediato crismaram. Tudo pessoal sério, do melhor. A fina-flor do entulho deontológico e ético.

Bute rir. Rir no país onde o Ministério Público comete crimes, sistemáticos, há décadas, e cada vez mais graves. Com o apoio dos juízes. E ai do juiz que não alinhe. Ai do político que levante a cabeça. O esgar sardónico do Ministério Público é fatal promessa: serão eles os últimos a rir.

Feministas legalistas e anti-feministas

Ronaldo, Khamenei e o ferro de engomar

Tudo certo neste artigo, excepto a posição da própria jornalista sobre o uso da burqa. Sobre isto, ver um artigo anterior, onde as considerações jurídicas elencadas apenas visam complicar o que, na realidade, é bem mais simples e fundamentar as suas dúvidas incompreensíveis em raciocínios de homens de direito à nora com a política. Na prática, entende que as mulheres devem ser livres de usar ou não usar, pois ninguém tem o direito de proibir o teu direito a não ser visto. E fala em totalitarismo. (“É, na verdade, de um peculiar e paradoxal totalitarismo que se trata: o de, a pretexto de salvar as mulheres da imposição da invisibilidade, determinar que não têm direito (ninguém tem) a não ser vistas/identificadas.”). Esta posição parece-me indefensável perante as críticas que faz às debatentes, pois nessa perspectiva as mulheres (críticas do feminismo, mas não vi o debate) que escolherem ficar em casa a tratar dos filhos e do marido e na total dependência deste, também devem poder fazê-lo, sem julgamentos. Portanto, estaria tudo bem. Nada a criticar. Nota-se, porém, que a jornalista critica muito mais do que a incongruência.

É verdade que elas, as mulheres antifeministas, estão erradas ao manifestarem-se contra a burqa, pois, para serem congruentes, deviam defender que uma mulher ser dependente economicamente do homem e, devido a isso, submissa e de contemplação exclusiva, não devia ser problema, mais trapo menos trapo, seria lá com elas. Mas a jornalista está igualmente errada ao criticá-las pela incongruência, quando ela própria, apesar de considerar a submissão das fêmeas ao macho inaceitável e a separação de funções muito criticável, no que respeita ao uso da burqa, uma fatiota que é o paradigma da submissão e do machismo, já considera totalmente aceitável, alegando que pode ser uma escolha e um direito. Bullshit, não?

Não vou ao ponto de dizer que estão bem umas para a outra, até porque o meu lado é o do feminismo (não atormentado). Mas quase. De facto, do lado das tradicionalistas há assuntos que se podem discutir sobre o acompanhamento das crianças. Pode uma mulher ser paga (pelo marido ou pelo Estado) para ficar em casa, quando existem creches para as crianças? Em princípio não, e deveria ser proibido em nome da igualdade e da dignidade. Mas se a mulher que fica em casa, sem outro emprego que não o de tratar da casa e dos filhos, tem bens próprios, pode considerar isso uma profissão, remunerada por ela própria, portanto um investimento. Ou então a relação contratual com o marido poderá, por lei, ficar plasmada num acordo nupcial (ou equivalente, para quem não for casado). Ou poderá haver um contrato com o Estado, no caso de não haver creches. Claro que nunca estas pessoas põem a hipótese de ser o homem a ficar em casa, o que é de lamentar. Mas, lá está, são antifeministas. São anti-igualdade e anti-equiparação. Umas tontas. De certo modo, são como as mulheres mais velhas do Irão, que pertencem às brigadas dos costumes contra as “liberdades” das mais jovens de mostrarem o cabelo.

As ditas feministas, por seu lado, como a jornalista, são incapazes de condenar a burqa apesar da luta e da repressão por vezes brutal das jovens mulheres do Irão por causa do mero hijab. Exigir-se-ia, digo eu, no mínimo mais solidariedade. Toda a solidariedade. Nem todas as proibições são más. Nem sempre deve ser proibido proibir. A proibição da excisão genital feminina é mais do que bem-vinda e urgente, pouco importando se as miúdas a querem fazer para não desafiarem a família, ou se são poucas a fazê-lo. As vinganças de honra familiares também são proibidas. Se for proibido, essa proibição acaba por ser absorvida e as coisas mudam. Para melhor. Se não for proibido, mantêm-se. Assim é com a burqa no Ocidente. Se for proibida, as pessoas adaptam-se. E não, as mulheres não vão deixar de sair à rua por não poderem fazê-lo com burqa. Isso é uma tolice. Aos poucos, ou no imediato, tirarão a burqa e circularão sem que ninguém lhes ligue. Deixam apenas de ser bichos, e os homens ficarão um pouco ou bastante menos trogloditas. Ou então, se fizerem muita questão, regressam às origens para se sentirem melhor. Não haverá problema nenhum com isso. Nenhum mesmo. Pode é acontecer que “as origens” também já tenham evoluído mais do que as feministas da liberdade de ocultação do corpo debaixo de trapos para os outros machos não as verem e cobiçarem. Seria bom e far-me-ia rir.

 

Consultoria política – Como debater com um chunga

Seguro não esteve mal frente a Ventura. Poderia até ter ficado bem no retrato, caso tivesse continuado a apertar o chunga quando o encostou aos números. Só que, por não ter estratégia para tal, consolou-se com a vitória táctica numa casual escaramuça e desperdiçou o que poderia ter sido a vitória na batalha.

Todos nós, adultos e grande parte dos adolescentes, já privámos com tipos como o Ventura. Uns com maior intimidade, outros com menos, pudemos ver esses seres em acção nas conversas de rua, nas escolas, na noite, no desporto, no emprego, na família. São, tecnicamente, “ciganos”. É um termo cunhado por séculos de estigmatização que merece ser recuperado para descrever quem ataca gravemente a comunidade cigana. Nesse sentido popular em que “cigano” é um sinónimo vernáculo de burlão, velhaco, trapaceiro, biltre, o Ventura entra na categoria do “ciganão”. Tudo nele corresponde a essa caricatura, a qual não quer esconder, ao contrário. Esse estilo vale actualmente 60 deputados no Parlamento, deu-lhe a mirabolante posição de segunda força política nacional à frente do PS, e tem merecido encómios do editorialismo e comentariado que repetem estarmos perante alguém “muito inteligente”, dotado de um poder de comunicação superior à concorrência. Seguro, confirmando não ter noção do que tinha de fazer, repetiu essa ideia amiúde no debate com a ingénua intenção de ser desconstrutivo e negociar uma trégua; mas tendo como único efeito a promoção da marca do interlocutor.

A exposição mediática de Ventura, nestes anos de ascensão meteórica, é tal que fica como paradoxo, se não for mistério insolúvel, ainda não ter aparecido vivalma que consiga lidar com ele. Isto é, alguém que o meta no seu lugar. Que lugar é esse? É o lugar da mais crassa, vil, perigosa ignorância. Porquê? Porque se trata de uma ignorância metodológica. Como com todos os populistas e candidatos a tiranetes, o sucesso nasce de se explorarem os segmentos mais fragilizados da população. Idosos e jovens, pobres e deprimidos, remediados e ressentidos, esta manta de retalhos de iliteracias e défices cognitivos não quer saber do Estado de direito ou da Constituição, nem que lhes expliquem as complexidades e constrangimentos das questões governativas e da administração do Estado. Eles querem é vingança, uma história aparvalhada e mentirosa que consigam perceber, e o prazer de se fantasiarem como vencedores. Há oceanos de literatura sobre este fenómeno que sempre assim foi, sempre assim será.

Que fazer? Fazer perguntas. Os debates com o Ventura deviam ser dedicados exclusivamente ao Ventura. Não têm interesse para mais nada pois o pulha vai boicotar qualquer racionalidade dialógica. Então, não vale a pena, a quem se vai meter num estúdio com ele para 30 minutos de cegada, tentar discursar para a sua própria base eleitoral ou para indecisos, ainda menos para a base de apoio chegana. A única utilidade consequente de um debate com Ventura é o serviço público de o levar ao tapete. Seguro prometeu ir fazê-lo, quando lhe perguntou pela percentagem de imigrantes do Bangladeche. Mas essa foi apenas uma pergunta em mil possíveis face a quem assume o desprezo pela tradição religiosa e moral do cristianismo, a quem alimenta o desprezo pelos direitos humanos, a quem atiça o desprezo pela democracia e a liberdade nascidas com o 25 de Abril.

Ventura diz-se católico praticante, é filmado e fotografado em igrejas a participar em liturgias e outras expressões de fé, afiança que Deus lhe confiou a “difícil mas honrosa missão de transformar Portugal”, foi a Espanha agradecer ao fundador do Opus Dei os resultados eleitorais em 2022. Ao mesmo tempo, persegue minorias e imigrantes – e, portanto, viola espectacularmente a tradição milenar, fundada nos Evangelhos, de hospitalidade e caridade incondicionais para estrangeiros e estranhos. É ler Mateus, é ler a Regra de S. Bento, para só referir o básico do básico. Como é que foi possível chegarmos a Novembro de 2025 e ninguém ainda lhe ter perguntado em que parte da vida de Jesus se está a inspirar?

Revolution through evolution

Surprising heart study finds daily coffee may cut AFib risk by 39%
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Scientists shocked as bumblebees learn to read simple “Morse code”
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AI revives lost 3,000-year-old Babylonian hymn
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After 3 Years of ChatGPT, Expert Says the Technology Has Become a Coworker — Not a Boss
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Dominguice

Fernanda Câncio fez dois artigos a malhar nas inteligências artificiais: Grok, ou a burrice mentirosa da inteligência artificial + Última hora: Maria João Avillez é de esquerda. Em bom rigor, os seus exemplos vêm de uma única IA, o Grok, e este numa qualquer versão que a jornalista calhou usar (provavelmente, a 3). As suas denúncias são válidas, óbvio, porque as IA de LLM, como o ChatGPT e quejandos, desde o início que foram apanhadas a lançar bacoradas alucinantes. O enfoque principal dos textos remete para as consequências do uso acrítico destas potentíssimas máquinas de simulação da inteligência — e da alma (ahahahahah) — humana. Certo. Só que… Só que há um outro lado nestas mesmas IA que alucinam (mas cada vez menos) que é revolucionariamente democrático. Com um pouco de aprendizagem, elas servem-nos conhecimentos que antes teriam de ser pagos a especialistas ou, no que é ainda mais crucial, que não saberíamos sequer onde procurar. Sendo que as IA deste género, para o paleio, são apenas uma pequeníssima fatia das tipologias variadas de IA já desenvolvidas, mais as que inevitavelmente irão aparecer.

Há nisto uma verdadeira transição de fase cujas consequências, sejam elas quais forem, serão inevitavelmente benéficas para a humanidade. Algo equivalente a se ter ao dispor a inesgotável e limpa energia de fusão nuclear.

Ronaldo sacrifica-se pela Selecção

Ontem foi uma noite feliz para a claque portuguesa que odeia o Ronaldo. Eles não admitem que o odeiam, obviamente, apenas dizem que está a mais na Selecção. Por isso, quando a Selecção ganha com Ronaldo a marcar ou a dar a marcar, calam-se. Mas ontem houve festa nesta gente. Porque a Selecção perdeu (talvez) também porque Ronaldo não marcou nem deu a marcar e, principalmente, porque quis ser expulso.

Nunca saberemos a razão que o levou a querer ser expulso, e o mais certo é ele também a ignorar, mas não pode haver dúvida alguma sobre a procura desse desfecho. Nas imagens vê-se que o nosso herói aplica um magnifico golpe de cotovelo, em rotação, sobre os costados de um irlandês. De fazer inveja a lutadores profissionais de Muay Thai. Ora, se tal se tivesse passado numa jogatana na Cabana do Pescador, na Caparica, poderíamos inferir que apenas estava em causa o zeloso cumprimento das regras do futebol de praia. Num campo de futebol cercado de câmaras, com a braçadeira de capitão no braço, mais um vídeo-árbitro de olhos abertos, qualquer outra intencionalidade que não a expulsão é inverosímil.

Agora, Ronaldo está mergulhado na vergonha de se ter comportado como um desmiolado. Logo ele, tão ajuizado desde cachopo. E vai continuar a sofrer quando a Selecção golear a Arménia neste domingo sem as suas chuteiras em campo. A claque que o odeia vai festejar a dobrar. Sem suspeitar que esse esfuziante desforço foi uma oferta do jogador que mais amou o futebol na história do pontapé na bola. Ama-o tanto que, apesar de ter uma fortuna acima dos mil milhões de euros, paletes de troféus e recordes, e 40 anos nos ossos, consegue provar que pode ser tão genuinamente irresponsável como um cepo a jogar nas distritais.

20 anos de pardieiro

O Aspirina B fez 20 anos no passado dia 5 (embora a 4 de Novembro de 2005 já existisse). Ao se aproximar a data, e já há um par de anos ou mais, fui acarinhando a ideia de propor à equipa restante fechar a loja nessa ocasião, tão-somente por ser um número redondo. A iminência desse desfecho acompanha o blogue desde os seus seis meses de idade, quando se deu a grande debandada de quase todos os fundadores e demais convidados, nos idos de Março de 2006. Por carolice de dois ou três escribas, manteve-se nos meses seguintes a produção diária dos disparates que a casa serve, a que se seguiram outros ciclos de interesse na equipa e nos leitores, chegando agora às duas décadas.

2005 é aquele ano entalado entre o nascimento do Facebook e do Twitter. Que o mesmo é dizer, os blogues estavam em processo fulminante de obsolescência quando este pardieiro foi criado. Por razões circunstanciais, a blogosfera política conheceu o seu último fôlego na campanha eleitoral para as legislativas de 2011, por então se prestar a ser uma plataforma programática informal para diversas figuras à direita que se ofereciam para as oportunidades de remuneração e currículo a caminho. De lá para cá, o conceito de blogosfera política deixou de ter uso, tendo-se deslocado os picanços e tribalismos para o Twitter. O próprio Twitter, finalmente, viria a perder o nome, e a sua cultura de ágora, com a chegada de Trump e da extrema-direita transnacional. Manter um blogue com vocação política, actualmente, não é muito diferente de ir para a auto-estrada tentar vender jornais regionais em papel a quem passa.

Donde, e posto que tudo tem de ter um fim, este 5 de Novembro parecia-me giro para a despedida. Mas depois pensei melhor e percebi quão estúpida era essa ideia. É que isso implicaria deixar de receber os milhares e milhares de euros que entram semanalmente nos cofres do Aspirina B em envelopes castanhos (ainda os mesmos que sobraram do Freeport) enviados do Rato. É dinheiro da corrupção, sim, claro, mas não tem cheiro, como diria um romano. E se eles continuam a pagar é porque a lavagem cerebral que daqui se difunde continua a chegar a milhões de vítimas incautas.

Portanto, e por tanto, decreto que este blogue passa a ter como missão chegar aos 200 anos. Sei que é ambicioso, mas não impossível. Assim não faltem os envelopes castanhos.

Este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório