Tinha muitas expectativas para o debate de Jorge Pinto com Ventura, depois de ele ter estado bem nos debates anteriores. A minha curiosidade remetia para a esperança de ser este candidato estreante o primeiro a mostrar como se lida com Ventura. Não foi.
Jorge Pinto, pese alguma verdura atrapalhante, confirmou ser uma fonte de salubridade e decência no espaço público, tendo conseguido reduzir Ventura à miséria política que o caracteriza. Só que isso não chega, pois o porco adora resfolegar na porqueira. A estratégia de lhe dar uns açoites, com sorte uma murraça no focinho, é inútil porque nivela por baixo o espectáculo. E nessa lógica dá a vitória ao feirante no sentido em que este ganha sempre desde que não perca.
Ora, qual a perda em causa, tratando-se de um profissional debochado da chicana? Curiosamente, o debate com Jorge Pinto teve vários momentos em que Ventura se revelou transparente nos mecanismos de defesa que o levam para as cassetes chungas do seu reportório. Infelizmente, ainda não apareceu ninguém que consiga utilizar essas fragilidades para ser eficaz neste objectivo: encurralar o pulha na sua pulhice. Exemplo mais óbvio, a temática da corrupção. Que sabe Ventura acerca do fenómeno da corrupção em Portugal? Provavelmente, quase nada. Como não sabem os profissionais da calúnia estrelas na indústria da mesma. Porque, se soubesse, não se arriscaria a fazer desse assunto uma das principais bandeiras da sua retórica. Alguém que lhe comece a pedir números, registos ao ano e à década, instrumentos policiais e judiciais para o seu combate, condenações transitadas em julgado, tipologia dos corruptores e corrompidos, sectores com mais ocorrências, valores calculados dos prejuízos e ganhos ilícitos, e o Ventura de imediato tentaria fugir do aperto. Essa fuga seria desesperada, em pânico, e essa seria uma real perda de poder político. Como isto não acontece, ele só tem que falar de corrupção e de imediato agitar o papão Sócrates. Os jornalistas que calhem estar presentes calam-se e riem, porque comungam do mesmo passatempo.
Trump provou que o seu eleitorado realmente aceita que ele dê um tiro em alguém na Quinta Avenida, caso de repente lhe apeteça, sem que isso o leve a perder votos. Quem vota Ventura está na mesma alienação, são imunes a qualquer exibição de força dos adversários no campo dos factos e da racionalidade. Já não resistirão se virem o líder gabarolas e chico-esperto como um cobarde atarantado.