Arquivo da Categoria: Valupi

Cuidado, não enfies o sapato neste buraco negro

Nesta notícia do ObservadorAstrónomos detetam o maior buraco negro que está mais próximo da Terra – ficamos a saber que (i) há buracos negros próximos da Terra, que (ii) nesse grupo, alguns são maiores do que outros, que (iii) existe um buraco negro que consegue o feito inconcebível de ser, em concomitância, o maior e o mais próximo, embora possa não ser, em simultâneo, nem o que está mais próximo nem o maior dos que não estão tão próximos.

Percebem? Ajuda a perceber quando olhamos para a autoria do texto e vemos escrito Agência Lusa, talvez a maior fonte de iliteracia científica mais próxima do espaço público, gerando com entusiasmo e consistência aberrações cognitivas que a imprensa, inclusive a mais modernaça, replica sem qualquer tipo de edição. A sandice do artigo continua por ali fora como se a inteligência dos leitores tivesse desaparecido num buraco negro não tão grande mas calhando estar bué mais perto. E chega-se ao ponto de fazer uma revelação que vai obrigar à reescrita de todos os tratados de cosmologia e astrofísica:

«Um dos maiores buracos negros no Universo, o “TON 618”, com uma massa equivalente a 66 mil milhões de vezes a do Sol, está a uma distância muito maior, a 104 mil milhões de anos-luz da Terra.»

Pois é, senhores ouvintes, o ganda TON, depois de ter devorado este universo, e o outro, e ainda o outro a seguir, e mais 6 ou 7, foi descansar e fazer a digestão a uma distância (da Terra, atenção, cuidado) de 104 mil milhões de anos-luz. Como os físicos actuais, famosos por não lerem a imprensa portuguesa, calculam que o Big Bang ocorreu há perto de 14 mil milhões de anos, é só fazer as contas e mandar parar as rotativas.

Mas que importam as datas das cenas astrocósmicas quando o menino Jesus nasceu numa agradável noite de Primavera e tem de gramar com o aniversário no começo do Inverno, nem sequer sabendo ao certo a idade que tem?

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Men think they’re better liars
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Mothers’ and babies’ brains ‘more in tune’ when mother is happy
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Home hospital reduces costs, improves care
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Study Suggests Early-Life Exposure to Dogs May Lessen Risk of Developing Schizophrenia
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Your DNA is not your destiny – or a good predictor of your health
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Neuroscientists reveal the basis of confirmation bias
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Black Teens Face Racial Discrimination Multiple Times Daily, Suffer Depressive Symptoms as a Result
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Lapidar

Delatores e quejandos

Bufos, chibos e delatores pertencem a uma mesma realidade subterrânea, ainda que delator se queira agora fazer passar por palavra redentora. É da história que nunca o serem bufos, chibos ou delatores lhes trouxe dignidade, e, muito menos, à justiça quando desta foram apaniguados.
Nas páginas digitais do Conselho de Prevenção da Corrupção e da Procuradoria-Geral da República existem espaços em que qualquer cidadão, mesmo de forma anónima, pode denunciar o que lhe aprouver. Lamentavelmente, não se sabe para que têm servido ao longo dos anos. A opacidade que rodeia estes pretensos instrumentos de combate à corrupção e crimes afins permitem ajuizar da sua irrelevância. Presumo que sejam sustentados por delatores morais, em tudo idênticos àqueles justiceiros que vagueiam pelas caixas de comentários dos média.
A justiça tem um preço ético e não é quando se abdica dele que se torna mais eficaz. Todas as reformas que cedem à demagogia da eficácia serão sempre passos para novas cedências.


A.R.

Metáforas

«O planeta 'HD 45652b', agora designado como Viriato, que liderou o povo lusitano contra o domínio do Império Romano na Península Ibérica, foi descoberto em 2008 e é constituído maioritariamente por gás, estando localizado na constelação Monoceros (Unicórnio).

A sua estrela, a 'HD 45652', batizada como Lusitânia, que era uma das três províncias romanas da Península Ibérica onde vivia o povo lusitano e que coincidia na sua maior parte com o território português atual, é uma anã laranja, que o seu planeta leva 44,1 dias a completar uma órbita.»


Fonte

Serviço Público

"O jornalismo é a arte de chegar demasiado tarde, logo que possível."

Este sarcasmo certeiro do escritor sueco Stig Dagerman sobre uma profissão que foi também a dele vem-me muitas vezes à mente. Veio, por exemplo, a propósito da tentativa que fiz de compreender o que se passou com Sara Furtado, a jovem sem-abrigo que confessou ter colocado num ecoponto o bebé que deu à luz na madrugada de 4 para 5 de novembro.

[...]

As minhas questões eram simples: que era suposto ter acontecido a esta mulher quando foi detetada na rua, e porque não aconteceu? Porque não quis, fugiu, recusou, ou porque não lhe foi proposto? E quem tem a obrigação de responder a isto?

[...]

Ora sabe-se que Sara vivia na rua desde pelo menos julho e que desde essa altura estava credenciada. E que quer isto, credenciada, dizer? Que tinha sido "entrevistada" por um técnico de apoio social de uma instituição pertencente ao NPISA, o qual escrevera uma "carta de encaminhamento" na qual se atestava o estado de necessidade de Sara e constava obrigatoriamente o seu nome e idade, assim como o tipo de serviços a que devia ter acesso: alimentação, por exemplo.

[...]

A primeira questão é pois: que instituição credenciou Sara, e o que foi feito a partir daí? Foi-lhe atribuído, como é suposto, um "gestor de processo", para tentar criar com ela uma alternativa para sair da rua? E, nesse âmbito, que lhe foi proposto, se alguma coisa? Por outro lado, se foi referenciada, como é que a Santa Casa não a encontra no sistema?

Estas perguntas deveriam ter sido feitas desde o início, desde o momento em que Sara foi detida. Mas a maioria dos jornalistas, como eu, nada sabia das regras do apoio aos sem-abrigo, de como é suposto as coisas acontecerem ou até da existência de uma coordenação.

É que quase todo o jornalismo que se faz sobre sem-abrigo se ocupa sobretudo das "histórias humanas", quer dos sem-abrigo quer das "equipas de rua", muitas vezes compostas de voluntários, e passa ao lado do resto.

[...]

Mas aqui estou, atrasada mas logo que possível, a pedir contas. Sara está detida há mais de um mês, como mais de um mês de vida tem o bebé salvo do lixo. E ainda não vi, não vimos, um comunicado, um esclarecimento, qualquer coisa - de esquerda, já agora - do NPISA e da Câmara de Lisboa sobre o assunto. Não vimos um anúncio de inquérito sobre o caso, como se fosse possível algo assim acontecer e não haver uma averiguação formal, um apuramento de responsabilidades.

Como se, à partida, se decidisse que não há nem pode haver responsáveis; que o que sucedeu é normal, que não havia nada a fazer e não vale a pena perder tempo com o que lá vai. Como se à partida o NPISA nos estivesse a dizer que não serve para nada, que isto da intervenção junto dos sem-abrigo é uma completa treta da qual não podemos esperar mais do que carrinhas a distribuir sopa.

Como se aquele bebé no lixo fosse um gesto radical performativo, espelho brutal do nosso não querer saber.


Jornalista

Lapidar

«Além de assentar num princípio sinistro e que, entre nós, tem ressonância histórica — a bufaria —, a delação premiada tem o condão de ser, ao mesmo tempo, moralmente errada e processualmente ineficaz.

Mesmo face ao entusiasmo das hordas de justicialistas que se desdobram pelos espaços de opinião, caixas de comentários e submundo justicialista das redes sociais, a verdade é que não se encontra um penalista que defenda a legalidade do princípio. O mesmo é verdade em relação a toda a jurisprudência. Por bons motivos.

Desde logo porque a promessa a um arguido (quem? em que fase? no inquérito?) de uma vantagem na sentença como contrapartida da sua colaboração na denúncia implica por definição algum tipo de coação. Perante a escolha entre incriminar alguém para aliviar a sua própria sentença e rejeitar fazê-lo, as margens de liberdade são escassas. Ora, a obtenção de prova com coação moral apresenta apenas uma diferença de grau face à obtenção de prova com coação física. Em sociedades dignas, uma e outra são uma abjeção. Na mesma medida, a aceitação de que o Estado firme um acordo com alguém que reconhecidamente praticou um crime é uma ideia moralmente corrosiva.

Depois, como é sabido, não há árvore má que dê bom fruto. Um fundamento civilizacional de reminiscências bíblicas que está convertido no direito penal. Se alguém incrimina outro para se defender ou dividir a sua responsabilidade, a probabilidade de com isso deturpar a verdade é significativa. É por isso mesmo que as provas assim obtidas são e devem permanecer nulas, até porque tendem a ser pouco credíveis.

Para alguns, a delação premiada é encarada como uma inovação exaltante, capaz de redimir todos os males da justiça. De facto, representa apenas um passo funesto no sentido de uma justiça que secundariza o papel do juiz e atribui maior centralidade a quem acusa (o Ministério Público), que poderia até passar a contratualizar a natureza da acusação com os arguidos. Sabemos como estas coisas começam e, infelizmente, também como acabam.»


O bufo, a árvore envenenada e o Estado de direito

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Advertising continues to assume mothers only use knowledge for domestic caring
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Have you found meaning in life? Answer determines health and well-being
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Scientists say you can change your personality
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You create your own false information, study finds
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Justified and unjustified movie violence evokes different brain responses
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Medical Errors Remain Problem 20 Years after Critical Report on Patient Safety
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The Songwriter Is Creative – the Singer, Not So Much
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Chico Mota e a corrupção abençoada

«Em Portugal, o problema que se coloca não é o de saber se vamos ter a delação premiada, mas sim se vamos manter um regime de corrupção abençoada. O actual regime legal de combate ao crime de corrupção tem como objectivo dissuadir os arguidos de colaborarem com a Justiça. Será possível mudarmos esta realidade e criarmos um regime que concretize o princípio anticorrupção que é constitucionalmente estruturante? Pessoalmente, não acredito.»


Chico Mota

*_*

Em Portugal, há fulanos a ganhar dinheiro às pazadas para dizer que os partidos são corruptos, os representantes políticos são corruptos, os deputados são corruptos, os governantes são corruptos. Com tanto corrupto e tanta corrupção à solta, o argumento igualmente estabelece que os polícias são corruptos, os procuradores são corruptos, os juízes são corruptos – caso não o fossem, e conhecendo estes agentes do poder supremo ainda melhor o que os evangelistas profissionais da corrupção apocalíptica revelam, então já teriam metido no chilindró este mundo e o outro. O corolário dos sistemáticos, diários, maníacos anúncios de ser a corrupção o mal supremo a combater é este: espalhar a decadência cívica e civilizacional onde se passa a acreditar que o Estado é corrupto, que a democracia é corrupta, que não é com a liberdade que vamos conseguir matar a besta diabólica.

Quando a guerra santa contra a corrupção nacional conta com os préstimos de um advogado que representa, no jornal onde recebe dinheiro pelo que escreve, uma autoridade em Direito e seus princípios e aplicações, quando nesse mesmo jornal há um caluniador profissional exactamente com a mesma retórica que se viu elevado a condestável de um Presidente da República, e quando o director do meio em causa partilha da mesmíssima visão sobre os mesmíssimos assuntos ao ponto de lançar notícias falsas, podemos aproveitar para colocar uma singela pergunta: qual deles, nestes longos anos no activo, introduziu no espaço público algum dado objectivo sobre a corrupção em Portugal que permita aferir da sua tipologia, dimensão, gravidade e comparativo com países terceiros? Resposta: nem metade de um. A tentativa de quantificar o fenómeno da corrupção em Portugal, para além de ser metodologicamente dificílima, impediria o sensacionalismo e a calúnia de que se faz a motivação política, mais a sua lógica venal e deletéria, de quem só pretende usá-la como bandeira, tropo.

Mas sigamos o cherne. O Chico Mota escreve no Público que o PS e o PSD (pelo menos, mas aposto que igualmente consegue meter neste saco o CDS – e até o BE e o PCP, de quem nunca ouvimos alarme sequer remotamente aproximado) fazem leis cujo propósito é proteger e fomentar a corrupção. E que a não ser ele, mais os seus amigos na indústria respectiva, o resto da população fecha os olhos face ao regabofe quotidiano. Ora, essa prática de usar o Parlamento para institucionalizar o crime confunde-se com o próprio regime nascido do 25 de Abril, deixa presumido esta inteligência. Pelo que o racional assim proposto se estende para lá do plano político e, ainda com muito mais facilidade, atinge, envolve e preenche as dimensões económicas e sociais da nossa comunidade deste 1974. Se os políticos criam leis para impossibilitar o combate à corrupção, então os empresários, os funcionários e a arraia-miúda, em qualquer sector do Estado ou da actividade privada, vão dedicar-se ao crime com devoção e paixão. Daí partilhar connosco o seu desalento, coitado deste coitado que já não tem ilusões.

Sim? Se sim, o dinheiro da Sonae veio e vem da corrupção pelo simples e incontornável facto, estabelecido nas premissas anteriores, de a roleta existencial nos ter feito aparecer e permanecer num regime estruturalmente corrupto. Se sim, quem paga ao Chico Mota é inevitável e retintamente corrupto e/ou corruptor. Se sim, quem trabalha ao serviço de corruptos, quem mete no bolso dinheiro corrupto para fingir que combate a corrupção, talvez deva passar a ser visto como um colaborador da corrupção abençoada.

Jornalismo: o futuro é o negócio

«Mas talvez a resposta para toda esta onda de desinformação não seja a sua desconstrução, mas a ignorância sobre ela. Desprezar. Deixar de lado o zunzum das redes. E regressar ao jornalismo 1.0. O jornalismo sério, investigativo, a olhar de frente para o mundo. O único em que as pessoas acreditam. O jornalismo sempre foi um negócio cujo modelo se baseia na sua credibilidade: os consumidores de informação só a valorizam ao ponto de pagá-la se lhe derem verdade. Perdê-la é perder tudo. Até o negócio.»

Catarina Carvalho – 16 Novembro 2019

«Não há soluções mágicas para um problema complexo - e algures entre o otimismo de Madrid e o pessimismo do encontro de Cascais, com pedidos lancinantes para que o Estado intervenha com subsídios, estará a visão do que pode ser o jornalismo como negócio com futuro. Mas o novo contrato, mais direto, entre os consumidores e os produtores de jornalismo torna ainda mais evidente a relação de confiança: só vão pagar o que valorizarem.

As experiências mostram que o que valorizam é o mais básico: investigação, vigilância dos poderes, exclusivos, rigor e histórias bem contadas e surpreendentes.»


Catarina Carvalho – 7 Dezembro 2019

*_*

Catarina Carvalho está bem intencionada, e é só. Daí aparecer afundada nas areias movediças da ingenuidade mediológica, isso de achar que a imprensa corresponde a alguma forma de estabelecimento da “verdade” e que os consumidores de notícias são cidadãos angélicos dependentes do labor jornalístico purificado para darem sentido ao seu mundo celeste. Nada mais falso, nada mais lunático na era digital, pese ser um lugar-comum romântico. A ingenuidade acerca dos meios de comunicação social nasce da obliteração cognitiva das dimensões antropológicas, psicológicas e sociológicas onde o acto informativo semiótico ocorre – a intencional elaboração de uma informação, as condições da sua transmissão ou difusão, e as circunstâncias da sua recepção, descodificação, interpretação e assimilação. Por cima deste apagamento, o congénere acerca das dimensões culturais, históricas, económicas e políticas que geram situações diversas numa mesma sociedade, quanto mais num planeta com 193 países reconhecidos pela ONU. A complexidade em causa supera a dos fenómenos meteorológicos em ordens de grandeza talvez impossíveis de calcular.

Mesmo com a concorrência da rádio e da televisão, a era pré-Internet mostrava como os jornais em papel não correspondiam – em nenhum caso – à visão idílica e redutora que esta jornalista está a promover ao apelar à “investigação” e à “credibilidade”. A escolha por um jornal ou outro ocorria sempre num contexto que remetia para prévios factores condicionadores da construção da identidade de cada indivíduo, da sua posição na hierarquia social e do percurso existencial idiossincrático que viesse a ser o seu na travessia longitudinal pela vida. Pensando em Portugal a partir do Estado Novo, antes do 25 Abril a escolha por um dado jornal resultava da disponibilidade (era o que estava em cima da mesa do café, ou o que dava para comprar na cidade, ou o que circulava como panfleto) ou da percepção de estar mais próximo ou mais afastado do regime. Depois de 1974, os critérios foram análogos: disponibilidade e percepção ideológica e partidária. Não há registo de ter aparecido um único jornal que prometesse apenas “investigação” e “credibilidade” doesse a quem doesse. O Expresso e o Independente não o foram, bem ao contrário, o Diário de Lisboa, a República e o A Capital não o eram, longe disso. Até o Público do Vicente Jorge Silva, talvez o que mais se aproximou desse ideal na sua carta de intenções, estava irremediavelmente posicionado de acordo com as preferências ideológicas do seu director e da Redacção que seleccionou. E depois tornou-se numa aberração caluniadora e golpista da Sonae com o Zé Manel a dar a mão a Cavaco na vingança contra o alvo comum. Há lições a tirar desse desfecho mas não temos quem as tire.

Os jornais de sucesso nunca foram – nunca de nunca – apenas veículos de “notícias”, de apanhados quotidianos do devir banal ou excepcional das dimensões mais importantes das comunidades. Foram igualmente fontes de opinião, educação, entretenimento e tribalismo. Foram peças sistematicamente usadas na disputa política e na propaganda. Cada leitor estabelecia o seu pessoal modo de leitura, não sendo razoável esperar de alguém que tivesse lido o jornal todo, sequer que desse mais atenção a uma secção do que a outra dado tal ser do foro da subjectividade. Os jornais, portanto, eram também revistas, almanaques, recreio. E as capas das edições, diárias ou hebdomadárias, tinham forte poder de influência sobre as conversas dos protagonistas e seus públicos no variegado espectáculo humano. Com a Internet, a montante continuou imutável o modelo antropológico de criação de “informação”, apenas tendo de se adaptar aos novos formatos de agregação de palavras e audiovisual, mas a jusante algo radical acontecia pela primeira vez na história da imprensa: os consumidores de jornalismo deixavam de depender das edições dos jornais para captarem a “informação” sobre a actualidade. Algo similar tinha acontecido com a rádio e com a televisão face ao papel, meios muito mais rápidos e envolventes do que aquele dependente da celulose (TSF no incêndio do Chiado e CNN na 1ª Guerra do Golfo, para ilustrar com dois paradigmáticos exemplos, embora esse processo seja muito mais vasto e antigo). Porém, até com a rádio e com a televisão o ciclo das 24 horas, com os seus subciclos relativos, manteve-se operativo. O hábito de comprar, ou tão-só ler, um jornal diário justificava-se no pressuposto de continuar a produzir a “actualidade”, de existir nessa edição algo de “novo”, algo relevante para a nossa relação com os nossos grupos relacionais num ciclo de 24 horas ou 7 dias. Com a Internet, os ciclos temporais desfizeram-se perante a constante disponibilidade dos outrora leitores para serem utilizadores. Ao poderem escolher as fontes da informação sem custo financeiro e sem restrições espaciais ou logísticas, o ciclo da informação transformou-se na voragem do presente. A informação em celulose fica não só obsoleta no acto mesmo de ser impressa como as complementares funções de alimento da identidade e passatempo evaporam-se perante as infindas possibilidades gratuitas – e tão mais apelativas – ali mesmo no ecrã de casa, do emprego, na mão.

Que fazer? Olhar para as plataformas que vendem conteúdos televisivos sem grelha. A grelha deixa de fazer sentido quando se dá ao utilizador o poder de controlar as condições temporais de consumo dos produtos audiovisuais. O mesmo precisa de acontecer no jornalismo, a aceitação de que o conceito de “edição” se tornou obsoleto. Em vez de organizar o trabalho jornalístico pelas datas de publicação, cada unidade considerada como “notícia” deve ser entendida como um espaço – e uma oportunidade – de subsequente actualização. O desafio editorial seguinte passa a ser o de organizar estas mónadas de que se constitui a actualidade. Igualmente, o consumidor de jornalismo quer ter futilidade, narcisismo e tribalismo à sua disposição, genética oblige. A imprensa do futuro precisa de se reinventar como um parque de diversões cognitivo e intelectual.

Associação Sindical dos Juízes Portugueses pronuncia-se sobre o único pilar da acusação a Sócrates

«A Associação Sindical dos Juízes Portugueses não mostra qualquer objeção de princípio à aplicação da delação premiada, mas lembra que esta deve respeitar todas as partes.

Tem de haver "um julgamento em que o juiz possa verificar se a colaboração prestada foi relevante e espontânea, se os factos ocorreram conforme o delator os disse e isso tem de ser sujeito a um contraditório pleno na audiência - ou seja, a pessoa que for denunciada, tem de ter o direito de contraditar os factos, de saber em que termos é que a colaboração foi prestada, com base em que propostas", referiu Manuel Ramos Soares.

Aquilo que não pode acontecer é a substituição de "um julgamento por uma mera denúncia - um acordo, um negócio - entre o delator e o Ministério Público", defendeu.»


Fonte

Serviço público

«Numa sentença conhecida esta semana, o Tribunal Cível de Lisboa dá como provado que diretores não dirigem e que notícias, títulos e manchetes são "opinião", podendo ser "teorias da conspiração" sem por isso merecerem sanção.

"Insinuam, deixam antever, dizem saber mas, ao cabo e ao resto, não dizem o que sabem. (...) As notícias colam títulos com realidades, nomes com casos, numa quase word salad [salada de palavras], pensamentos desorganizados, pontas soltas, em que muito mais do que dizer se sugere, se dá a entender, no fundo, ao cabo e ao resto, que onde há fumo há fogo, que alguma coisa há, que umas realidades e outras estão todas conexas, que é tudo muito grave, que há muito dinheiro envolvido, que é mais do mesmo, que os políticos são corruptos, que os interesses estão todos conexos numa trama invisível e etc., etc., etc."

Destas notícias, assim, "fica apenas uma amálgama (...), uma autêntica teoria da conspiração em que o Correio da Manhã sabe, não há dúvidas. Os hiatos temporais, os saltos lógicos, são de tal ordem e feitio que não se alcança o que sabe e sobre o que é que o Correio da Manhã não tem dúvidas. Os factos aproveitáveis são desgarrados e não seguem qualquer cronologia".

É assim que uma sentença datada de 3 de dezembro, do Tribunal Cível de Lisboa, assinada pelo juiz 8, descreve várias notícias, títulos e manchetes do diário aludido, respeitantes ao Processo Vistos Gold e publicadas em 2014 e 2015.

Poucas vezes se terá lido uma caracterização tão arrasadora do que nos produtos mediáticos da Cofina passa por jornalismo, mesmo se alguém munido de literacia e decência mínimas não pode deixar de concordar. É a conclusão que o tribunal tira dessa descrição que verdadeiramente espanta.

[...]

Sim, acabaram de ler isto: um tribunal considera que notícias e títulos de notícias são "opiniões". E como opiniões que são, nos termos da jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, que a sentença cita, "não se prestam a demonstração de veracidade". Dentro desta lógica, cabe perguntar por que raio a notícia "Miguel Macedo detido" não pode ser uma opinião. Lá porque é mentira, não é razão para não haver quem acredite ser verdade.»


O jornalismo como “insinuação” e “teoria da conspiração”

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Who’s That Girl?
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Cats’ faces hard to read, except for ‘cat whisperers’
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Clinical study finds eating within 10-hour window may help stave off diabetes, heart disease
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How does language emerge?
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It doesn’t matter how nicely you wrap that gift. Except when it does.
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New study hints at complex decision making in a single-cell organism
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Paying Taxes Less ‘Taxing’ When We Recognize How Those Dollars Help Others – Study
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A cultura do consultor da Cultura

João Miguel TavaresEu tenho pena do Carlos Santos Silva. A única coisa que eu retive é que ele está bem ensinado. E foi para lá, não entregou o José Sócrates... Ele está muito bem treinado, se calhar até traz as pantufas a José Sócrates. [...]

Pedro Mexia – […] as perguntas do juiz Ivo Rosa, que nós achávamos todos que iam ser mansinhas, na verdade são perguntas incisivas […]

Pedro Mexia – […] não sei se por ser um juiz que José Sócrates acolheu como sendo um juiz em que ele confiava...

João Miguel TavaresO seu possível salvador.

Pedro MexiaO seu possível salvador no sentido que podia, digamos, deixar o processo por aqui... […]

TVI

*_*

João Miguel Tavares formou a convicção de que Carlos Santos Silva deixou de ser um cidadão com direitos, desapareceu como ser humano com razão e vontade, capaz de agir livremente e de se responsabilizar pelos seus actos. Em vez disso, quando olha para ele, e quando toma conhecimento do que diz, o que lhe aparece à frente é uma outra coisa cuja imagem mais aproximada será a de um cão. Um cão domesticado cujo dono é Sócrates. Como é que se terá formado tal convicção nos neurónios do Sr. Tavares? Será que o alvo da sua desumanização lhe fez algum mal, ou terá prejudicado algum familiar, amigo, colega, vizinho seu fosse lá no que fosse e quando fosse? Muito improvável. O mais provável é que a desumanização não ocorresse calhando aparecer-lhe à frente o alvo da mesma, até o imaginamos a cumprimentar o canídeo, mas naquele contexto em que se recebe dinheiro para dizer coisas e há parceiros de espectáculo, uma plateia com notáveis e uma audiência televisiva socialmente influente, ali, então, portantos, o homem caluniador e a sua circunstância venal, narcísica e megalómana fazem com que se possa reduzir uma pessoa envolvida num processo judicial a um animal perante as gargalhadas de quem assiste sem com isso vir a perder o sono em camas de Lisboa ou de Portalegre. A família de Santos Silva, os amigos, o seu direito a não ser tratado como criminoso enquanto for considerado inocente, o facto de ainda não ter sido condenado por nada de nada e não se saber se o será ou porquê, isso não conta para quem não precisa das chatices e demoras do Estado de direito democrático para encher o bolso a representar na perfeição o papel de um pulha. Um canalha que, desde Janeiro de 2019, também se exibe em representação do actual Presidente da República que o instituiu como exemplo e símbolo nacional; única e exclusivamente por ser um caluniador profissional que ataca “inimigos” políticos comuns. Que nome podíamos dar à cultura onde uma personagem socialmente infecta como esta é promovida pela cúpula do Estado?

A seguir abriu a boca o consultor para a Cultura da Casa Civil do Presidente da República. Abriu a boca para deixar algum reparo à desumanização que acabava de ouvir? Nada disso e ao contrário. Partilhou connosco a sua Weltanschauung, na qual afiança que “todos” [sic&sick] esperavam ver o juiz Ivo Rosa a proteger os acusados com perguntas preparadas para terem respostas falsas e inocentadoras – exegese: “todos” os elementos dos grupos relacionais onde este indivíduo constrói a sua identidade partilham a mesma convicção de Ivo Rosa ser um juiz cúmplice de criminosos, ou tal percepção espalham à sua volta mesmo que não acreditem nela (quiçá, precisamente, por nela não acreditarem). Foi isto que Pedro Mexia revelou, sem surpresa no caso dos seus parceiros de espectáculo mas atingindo a população do Palácio de Belém que frequenta amiúde e intimamente. Daí o seu gozo, ou compulsão, ou ambos os fenómenos, ao deturpar as declarações de Sócrates a respeito de Ivo Rosa, as quais não foram de confiança ou preferência por este juiz devido a qualquer característica que antecipasse favorável no seu plano para fugir da Lei, como Mexia e os restantes caluniadores têm repetido e o caluniador-mor acrescentou na ocasião. Sócrates limitou-se a constatar que, pela primeira vez no processo, iria ser julgado por um juiz isento. O que remete para o histórico de Carlos Alexandre na “Operação Marquês”, matéria que daria para milhares de doutoramentos acerca da “cultura” dos magistrados portugueses, acerca da “cultura” dos nossos jornalistas e acerca da “cultura” da nossa direita política decadente.

Pedro Mexia surgiu como personalidade interessante na política nacional quando fundou com Pedro Lomba e João Pereira Coutinho o blogue Coluna Infame; há incompreensíveis 17 anos, o Blogger tinha acabado de ser comprado pela Google. Por isso, pelo seu talento intelectual, por representar uma incipiente vanguarda para o renovo da direita, e talvez pelo berço histórica e socialmente aristocrático, foi convidado para o lançamento do Eixo do Mal em 2004. Viria a sair deste programa um ano depois, ficando a ideia de não apreciar a crescente politização do mesmo e preferir o registo opinativo dedicado às artes ao de guerrilheiro ou polemista da actividade partidária e governativa. A sua imagem era a de um comentador tímido, delicado e com sólida cultura clássica e literária. Voltaria à ribalta mediática em 2008 com o lançamento do Governo Sombra na TSF, então apenas um programa de rádio – tendo sido durante vários anos, até à assunção da carreira de caluniador profissional do Tavares e até ao episódio do dinheiro do Sr. Araújo sumido no BES, um programa puxado pelo brilhantismo do cómico fedorento onde se produziu crítica política e social decente. Depois, pelo meio, nasceu o “Processo Marquês” e choveram os sistemáticos crimes de violação do segredo de justiça usados para a exploração das captações da privacidade e das situações de exposição perante agentes policiais e da Justiça de suspeitos, arguidos, testemunhas, familiares, terceiros. Pedro Mexia passou não só a aceitar ser co-estrela num espaço de decadência mediática, social e política como igualmente celebrou a caçada e se aproveitou da prepotência colectiva para mostrar que também conseguia atingir e violentar quem já estava caído no chão.

Nunca terá de responder à pergunta mas nada impede que fique feita: “Pedro, que nome darias à cultura onde se usam crimes cometidos por magistrados e jornalistas em processos judiciais para alimentar a rapacidade voyeurística e caluniadora do ódio político?”

Se chegar às 12 derrotas, chicotada nele

Ivo Rosa derrotado pela 11ª vez na Relação, desta vez por não querer considerar declarações de Salgado

*_*

Numa altura em que se discute o presente e o futuro do jornalismo (por inerência, igualmente o seu passado), dá vontade de ir para a janela bater em tachos de modo a aliviar a fúria quando estamos mergulhados nisto que a “notícia” acima impõe e alimenta no espaço público: uma campanha mediática contra um juiz – que se limita a querer cumprir a lei com zelo pelos direitos dos arguidos e acusados – a quem foi atribuído um processo onde os poderes fácticos (no caso, da oligarquia) pretendem usar a Justiça para obter ganhos políticos (de ordem vária, da táctica à estratégica, passando pela vingança). Os mesmos poderes explícitos e implícitos que ignoram, escondem ou aplaudem os abusos do poder da Justiça desde que sejam contra aqueles que queiram assassinar politicamente.

Por que razão não vai ser possível encontrar um único jornalista capaz de explicar o que está juridicamente em causa na decisão do Tribunal da Relação de Lisboa referida acima? Por que razão não existe um único jornalista, a não ser avulsa e vagamente em espaços de opinião, capaz de expor a estratégia de amalgamento, confusão, do Ministério Público ao ter optado pela criação de um megaprocesso na “Operação Marquês” com vista, precisamente, a obter as consequências perversas que este episódio ilustra? Por que razão tem sido tão fácil fazer na “imprensa” (incluindo a da “referência”) o culto da personalidade de Carlos Alexandre, Rosário Teixeira e Joana Marques Vidal, e tão fácil diabolizar Ivo Rosa de forma sistemática e desde que se conseguiu meter Sócrates numa prisão?

É que para os mandantes e para os borregos do vale tudo não chega que Sócrates e terceiros estejam há cinco anos numa masmorra onde foram despidos do seu prestígio, credibilidade, bom nome, dignidade. Não chega que Sócrates tenha mais não se sabe quantos anos de privação de plena liberdade, podendo realmente acabar por voltar a ser preso (e por excelentes razões, se se provarem as acusações) e a ter de pagar ao Estado somas neste momento incomensuráveis. O processo de investigação, e agora o da instrução, é parte do linchamento maníaco onde os pulhas e os broncos vêem qualquer apelo à razão, à Constituição, à mínima decência como expressão de defesa do monstro que perfuram e queimam no bacanal do ódio político, o ódio tribal mais arcano e animalesco.

Não haver jornalistas, jornais, televisões, rádios, um órgão de comunicação com jornalistas encartados lá do cu do mundo onde haja coragem para defender a liberdade nas muralhas da cidade, eis a verdadeira crise que em muito ultrapassa o jornalismo.