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Para a história da calúnia em Portugal – Pacheco Pereira

«Se há defeito de carácter que infelizmente se repete em Portugal, vez após vez, sem culpa nem remorso, é a adulação dos poderosos seguida pelo seu escárnio público quando deixam de ser poderosos. Todos os que tinham a cerviz bem dobrada, a boca bem calada, a vénia pronta, o tom untuoso, a mão estendida para o pequeno ou grande favor, o silêncio oportunista, correm para a imensa fila, de pedras na mão, para abjurar o anterior senhor. Já vi isto muitas vezes. Já escrevi isto muitas vezes. Suspeito de que não será a última.

Um caso exemplar foi Sócrates, em que se contava pelos dedos de uma mão aqueles que percebiam bem de mais o que ele estava a fazer e a multidão de sicofantas e aproveitadores que lhe servia de barreira contra tudo aquilo que o podia afectar. Alguns desses foram depois profissionais do atirar da pedra, muitos na política, a começar pelo PSD, e muitos na comunicação social. Mas o vento virou e foram logo para a fila do arremesso. O remake actual desta conduta cívica exemplar passa-se hoje com Ricardo Salgado e o BES, só que com a gravidade de esquecimentos e fugas à responsabilidade que nos custaram milhares de milhões de euros e, diferentemente do caso Sócrates, este passa-se na alta finança e não na baixa política.»


Pacheco

🤡

O caluniador profissional de maior sucesso em Portugal, actualmente, é o João Miguel Tavares. A partir de um singular texto ranhoso, em 2009, saiu-lhe a sorte grande de ter Sócrates a esgotar todos os recursos judiciais alegando difamação. Tal procura de reparação judicial acabou em insucesso – e com a agravante irónica de ter criado uma vedeta da indústria da calúnia. Pouco depois, o caluniador trocava o DN pela Cofina, desta vindo a ser contratado pela Sonae para fazer exactamente o mesmo: perseguir Sócrates e o PS através do emporcalhamento do espaço público num modelo de negócio onde se procuram atrair fanáticos e broncos ao click. Pelo meio, aproveitou a boleia do Ricardo Araújo Pereira para se mostrar disponível para todo o serviço à clientela que lhe paga. Seguiu-se a sua utilização por um primeiro-ministro que até aceita obrigar crianças a serem carne para o canhão do caluniador desde que isso o purifique no mercado eleitoral. E culminou com a sua utilização por um Presidente que concebe as solenidades da República como uma extensão do calendário das festas em Cascais e no Guincho, sempre com muita animação e pirraça para mostrar aos pés-descalços quem manda na barraca. Este percurso mercenário onde se cruza a indigência moral do arrivista e o cinismo soberbo dos príncipes encontra-se soterrado na memória colectiva, à maneira daquelas vergonhas de família tão escandalosas que se tornam um tabu que gangrena o respeito próprio.

Porém, o caluniador profissional mais importante em Portugal é o Pacheco Pereira. Enquanto no primeiro caso lidamos com um ser eticamente indigente que acredita estar não só a enriquecer sem gastar uma caloria como a falar para um país onde as suas platitudes ignóbeis são o olhinho na terra de cegos, já com o marmeleiro temos um investigador que vai deixar obra válida no campo da historiografia e bibliofilia. O primeiro suporta-se sem esperança de conversão à decência, ao segundo pode-se pedir responsabilidades. Não existe é quem o queira fazer, daí o Pacheco acabar por ter um mundo interior análogo em distorções narcísicas ao do caluniador seu companheiro de vocação e rival no proveito pecuniário e social. Ambos fizeram de Sócrates a galinha das atoardas de ouro e ambos se concebem como heróis que viram o que mais ninguém viu, fizeram o que mais ninguém fez. Ou quase ninguém, nisso também se imitando ao reconhecerem terem tido a companhia de apenas mais uns dois ou três bravos. Ambos desfilam agora, como se pode ler exemplarmente na versão acima, reclamando os louros pelas campanhas contra os bárbaros e exibindo o cobiçado e mítico grande chefe dos godos amarrado a um toro com as carnes laceradas. Mas do que nos está realmente a falar o Pacheco, inclusive abdicando de sofisticação narrativa pela depressiva obrigatoriedade de tarefeiro a ter de despachar mais uma encomenda com data para sair e, especialmente, pelo cansaço dos seus 71 anos a virar frangos?

Quem ler o texto “Os três macacos sábios” integralmente não vai ficar a saber quem foram “aqueles que percebiam bem de mais o que ele [Sócrates] estava a fazer“, não vai ficar a saber quem foram os “sicofantas e aproveitadores“, não vai ficar a saber quem foram os “profissionais do atirar da pedra, muitos na política, a começar pelo PSD, e muitos na comunicação social“. Não vai sequer ter o mínimo vestígio do que é que foi feito por este Sócrates alvo de tanto ódio. O Pacheco nada explica, não dá nomes, não gasta caracteres com factos. Basta-lhe o vox populi moldado pela indústria da calúnia para disparar contra o Diabo, tratando da legião que o serviu através da escola Octávio Machado: “Vocês sabem de quem estou a falar, e se não sabem é porque são uns merdas que andam a ver passar os comboios”. O propósito é o de se conceber como o narrador omnisciente dos pecados e pecadilhos dos bastidores do regime mas sem que alguma vez tal pretensão possa ser testada recorrendo ao contraditório posto que não é possível identificar de quem fala e do que fala exacta ou vagamente.

Esta pose cagona já seria vexante para a comunidade que somos dado o protagonismo mediático de que dispõe há décadas e a carência que temos de intelectuais que cultivem a honestidade da dita. Contudo, algo mais putrefacto ocupa os refolhos da pícara figura. Continuando com o texto na berlinda, um mal amanhado e superficial relambório de maus fígados contra o meio onde ganha o pão, tropeçamos nisto:

«As pessoas comuns não fazem a ideia da enorme quantidade de informação que o círculo de confiança da elite portuguesa – quem, na verdade, manda no país – obtém quase como respira. Circulando de conselhos de administração para lugares políticos, de escritórios de advocacia de negócios para consultoras financeiras, ou pura e simplesmente falando com os seus pares dentro desse círculo de confiança, tudo o que é relevante lhes chega aos ouvidos.»

É um naco de prosa suculento. A começar pelo paternalismo das “pessoas comuns“, passando pela banalidade do suposto segredo que foge aos simples, e acabando no pindérico desvelamento da eminência parda carimbada como “círculo de confiança da elite portuguesa“. Podemos, então, pegar nestas palavrinhas para um exercício de engenharia reversa. Se é desse modo poderoso e oculto que as coisas se passam, prega Pacheco aos comuns, então como é que só dois caluniadores profissionais conseguiram topar com o que Sócrates andava a fazer nas barbas daqueles a quem “tudo o que é relevante lhes chega aos ouvidos“? Faz isto algum sentido? Não será infinitamente mais provável que essa elite tivesse os motivos e os meios para destruir Sócrates caso este resistisse à sua agenda ou meramente lhe pisasse os calos? Ou Sócrates era mais forte do que a elite portuguesa no seu conjunto, e tão mais inteligente que lhe trocou as voltas? Somos tentados a acreditar na segunda hipótese, conhecendo a história de imbecilidade das elites nacionais ao longo dos séculos, só que não dá, pá. A contradição não é só cabeçuda, também tem gigantes orelhas de burro. É preciso manter milhões de pessoas num estado de estupidificação colectiva para que tantos ganhem assim a vida, trabalhando para que o óbvio seja substituído pelo assombroso através do deslaçamento lógico entre as partes e o apagamento do que não confirmar a diabolização.

Mas o pior do pior neste caluniador profissional não diz respeito à sua paixão funesta por Sócrates, paixão de tantos a quem mais nada nem ninguém entusiasma. O pior do pior é vir semana sim, semana sim, duas vezes por semana pelo menos, anunciar seráfico ou iracundo que é a reserva moral da Nação quando ninguém lhe ouviu qualquer denúncia temporã contra o tal senhor Salgado que se propõe agora explicar com gravuras ao Zé Povinho. Quando o Pacheco da inteligência panóptica foi um notável cúmplice activo do cavaquismo e do Cavaquistão, era de corrupção sem igual, sem contabilidade e sem castigo.

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Study links attraction to ‘tyrannical’ leaders to dysfunctional family dynamics
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O discípulo agradece ao mestre

Os apelos ao ostracismo de Ventura são bem intencionados, e, seguindo a sabedoria popular, de imediato devem ser despachados para o Inferno. O problema para a democracia, se algum, que este palhaço configura não tem qualquer relação com a sua notoriedade – antes, e só, com a ausência de exposição. Para ser exposto, basta começar a olhar. Por exemplo, na sua conta de Twitter aparece o número 33. Corresponde às contas que segue na mesma rede. Destas, 15 são de entidades colectivas de comunicação ligados ao jornalismo e à política. Nas restantes 18, 6 são de ilustres desconhecidos, com ou sem relação directa com o Chega. E nas 12 finais, encontramos Trump, Bolsonaro, Boris Johnson, Farage, Salvini, Ivanka Trump, Flavio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Nuno Melo, Rui Rio, Paulo Sande e Pedro Pestana Bastos. Isto é uma pançada de material para levar Ventura a mostrar do que é feito.

No canal YouTube do Chega, o festival do culto de personalidade atinge a completa alucinação feirante. Eis uma amostra dos títulos:

1º Debate Quinzenal - Ventura arrasa Costa - 13NOV2019 / André Ventura ARRASA Governo - Parte 3 / André Ventura arrasa politica de transportes da esquerda! / André Ventura arrasa Governo e BE sobre racismo! / André Ventura ARRASA Sá Fernandes do LIVRE / André Ventura ARRASA saúde e é insultado pelo BLOCO! / André Ventura ridiculariza PS sobre portagens na A28! / André Ventura ARRASA definitivamente incoerência do Bloco de Esquerda! / André Ventura arrasa PS sobre educação especial! / André Ventura volta a ARRASAR esquerda parlamentar / André Ventura. Discurso histórico no 25 de Abril! / André Ventura ridiculariza Ministro Eduardo Cabrita! / André Ventura atira-se a deputado do PS nos apoios às pequenas empresas / André Ventura arrasa novamente Catarina Martins / André Ventura ARRASA deputados com prisão perpétua / André Ventura aperta Centeno / ASSEMBLEIA TENTA CALAR CHEGA!!! / Ventura arrasa Costa com máscaras inválidas! / André Ventura atira TANCOS à cara do Partido Socialista! / André Ventura malha no Bloco de Esquerda sobre Madeira e Açores / 💣 💥 André Ventura faz declaração mais EXPLOSIVA de sempre e ARRASA todos os partidos! / Ventura volta a DESFAZER o Bloco. Só o CHEGA quer combater a CORRUPÇÃO! / CHEGA arrasa HIPOCRISIA do PS sobre os enfermeiros / CHEGA arrasa esquerda parlamentar sobre a TAP e pede plano sério / André Ventura ENCOSTA Pedro Nuno Santos à parede / André Ventura ARRASA todos os partidos na defesa dos polícias! / Bloco não aprende e volta a levar CARGA de André Ventura / CHEGA defende Joana Marques Vidal para conselho de transparência no parlamento

Não é lindão? Ventura arrasa tudo e todos. O que não admira. Quem nasce da fibra do Passos, e é fã da santa Joana, tem realmente o carácter indicado para dar cabo desta bandidagem toda. Nas suas fantasias alarves, estes infelizes arrasam com a Assembleia da República, com o Estado de direito e com a democracia várias vezes ao dia. Não merecem ser desprezados, mereciam era que Portugal tivesse imprensa para que os pudéssemos ver como eles realmente são:

Acusação BES, para começo de conversa

Para começo de conversa, a acusação agora formalizada no processo judicial de liquidação do banco BES não se esgota nos eventuais crimes de Ricardo Salgado e mais 24 arguidos. Pela própria tipologia dos crimes em causa, o seu contexto implica directamente instituições públicas variadas, um Governo e seus responsáveis respectivos. Isto num primeiro nível, porque num segundo nível de responsabilidade aparecem os partidos com representação na Assembleia da República e os banqueiros em Portugal como cúmplices do desfecho a que estamos a assistir desde 14 de Julho de 2020: a suspeita de se ter criminosamente gerado um prejuízo de 11,8 mil milhões de euros.

Tamanha a semi-inaudita gravidade do caso (BPN é igual, e até bem pior no intento ilícito), tamanho o seu envolvimento com a estrutura da oligarquia (a ideia de fazer dos Espírito Santo aliados dos socialistas seria hilariante se não tivéssemos o estômago às voltas com o descaramento dos pulhas), que de imediato começou a politização do mesmo pelos mesmos que nada mais sabem fazer do que judicializarem a política e politizarem a Justiça. Esses tentam ligar Salgado a Sócrates, por todos os meios que encontrarem, ao mesmo tempo que santificam Passos Coelho e lhe levantam estátuas onde aparece de espada na mão a esmagar o dragão. Mentem agora como mentiram antes e mentirão amanhã. Mentem não no plano em que tenham ideias diferentes sobre o nosso destino comum ou interpretações alternativas de acontecimentos ambíguos. As suas mentiras são factualmente tangas para alimentar borregos porque apenas fanáticos as conseguem mastigar, obrigam a desligar a inteligência, o respeito próprio e o mero senso comum para serem aceites sem gerarem um curto-circuito neuronal. Dizer – como está Rui Rio a imitar, assim provando em catadupa que não passa do enésimo líder decadente na direita – que Passos Coelho decidiu afundar o BES para ser o primeiro a resistir a Ricardo Salgado em Portugal não é só desvairadamente primário, é também cristalinamente revisionista e tem como obsceno fito esconder a tragédia financeira, económica e social que podia – e devia – ter sido evitada por Passos e Maria Luís Albuquerque.

Mas quem começar a falar deste caso por aqui, pela sua relevância e complexidade política, ainda não estará no ponto inicial da conversa. Esse remete para estas duas características do processo judicial:

– Durante os seis anos em que os procuradores tiveram a batata na mão e foram-na descascando e fritando, nunca a indústria da calúnia nem os seus caluniadores profissionais puderam explorar sensacionalismos e calúnias. Isso prova que é possível, no mais apetecível dos casos para os abutres de todas as cores e interesses, manter o Estado de direito inviolado no que ao segredo de Justiça diz respeito. Mais indica que nenhum advogado viu qualquer vantagem em cometer esse tipo de crime, ao contrário das acusações que são invariavelmente lançadas pelos agentes da Justiça quando confrontados com o caudal das suspeitas óbvias sobre a quem ele aproveita.

– Durante os seis anos em que o processo esteve em investigação, nenhum órgão de comunicação social apareceu com “investigações” próprias ou declarações acerca da culpabilidade dos visados. Não houve jornalistas de favolas à mostra e a babarem-se enquanto corriam para se constituírem assistentes. (se houve, aceito penhorado a correcção)

Isto significa que a violação do segredo de Justiça é uma arma política usada impunemente por procuradores, juízes e jornalistas em conluio. Significa que, como bolçou Joana Marques Vidal a rir, o regime quer continuar a servir-se desse tipo de crimes ao sabor dos arranjos fácticos de poder entre as suas partes, caso contrário legislava para aumentar a sua gravidade penal e autorizaria escutas aos próprios agentes da Justiça actualmente à-vontadex na passagem do que lhes apetecer aos compadres jornaleiros (e à-vontadex em que outros tipos de crime, então, e pela mesma lógica que os protege?). Significa que a Operação Marquês se resume quase exclusivamente à oportunidade para utilizar os instrumentos de devassa do Estado para exercer perseguição e castigo sobre alvos políticos – e isto feito com o beneplácito daqueles que na esquerda também o viram como vantagem; grupo onde se encontra o actual PS, por paradoxal que possa parecer aos ingénuos e distraídos.

Na UCI da direita

Entre o juiz alegadamente excessivamente condescendente com o Ministério Público e o alegado ladrão, tenho sempre um lado fácil de escolher...


José Eduardo Martins

Questionado pela tão querida reforma da justiça que o PSD quer fazer, o líder social-democrata responde de forma mais ampla. "Infelizmente, vejo como muito, muito difícil, no quadro partidário que temos em Portugal, conseguir qualquer reforma. Eu esforço-me, aliás é a principal razão pela qual estou neste cargo", lamenta.

"A minha esperança existe porque é a última a morrer, mas é cada vez mais pequena porque não vejo vitalidade no sistema partidário, pelo contrário, está cada vez mais fechado. Qualquer coisa que se queira mudar é sempre um 31, porque os interesses instalados, seja na política, seja fora dela, são uma coisa tremenda", conclui o líder do PSD.


Rui Rio

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José Eduardo Martins parece-me um doppelgänger intelectual do Jorge Coelho porque tenho exactamente a mesma reacção quando os oiço e vejo na TV: é-me impossível recordar o que disseram meio segundo após terem parado de falar e fico sempre estupefacto com os critérios editoriais que dão tanto protagonismo mediático a duas nulidades de arrebimbomalho. Porém, em benefício do patusco Coelho, há a dizer que o Sr. Martins consegue acrescentar à inanidade discursiva os tiques folclóricos de um peralvilho que se tem em altíssima estima. Trata-se da farronca dos ignaros – e também, como a citação ilustra, da estética dos pulhas. Ei-lo, com à-vontade soberba, a dizer frente às câmaras que prefere a perversão da Justiça – pela mão de um juiz que vê como vantagem política imperdível para a perseguição e destruição dos adversários – à defesa dos inocentes.

Rui Rio, ao que consta na imprensa portuguesa, é presidente do PSD e líder da oposição. Porém, devemos desconfiar da validade dessa informação à luz das suas próprias palavras. Admitindo que estas serão a via mais rápida para chegar ao seu pensamento, ei-lo, com à-vontade soberba, a dizer aos jornalistas curiosos que graças à influência nacional por si obtida a 13 de Janeiro de 2018, quando venceu as eleições no PSD, temos agora o sistema partidário “sem vitalidade”, “cada vez mais fechado” e impotente face aos “interesses instalados”, “seja na política, seja fora dela”, pelo que só uma esperança desesperada, daquelas que se levam para a cova, permite sonhar com alguma reforma, qualquer mudança.

Estas duas figuras, nestes exemplos avulsos que desaparecem da atenção assim que entram no espaço público, mostram o estado comatoso da direita partidária. A sua decadência resulta de terem reduzido a política ao “fazer política”, e o fazer política é para eles apenas tentar chegar ao poder pelo poder. Daí não terem qualquer ideal de natureza teórica, nem sequer conseguem pensar uma visão para a comunidade que ultrapasse as suas agendas pessoais. Vivem mergulhados em cinismo e ressabiamento, juntando-se à escória que lhes acena com indecências, golpadas e violências para derrubarem os outros gajos. São broncos, brutos e sem escrúpulos. Politicamente incompetentes e eticamente cobardes. Emporcalham a República.

Ser bronco e mentir ajuda ao regular funcionamento das instituições

- Curiosamente, se as pessoas estiverem muito juntinhas em comboios, há estudos que provam que nos comboios o vírus não se pega.

[...]

- Isto é ridículo, ridículo! Por mais estudos que hajam, é uma coisa completamente absurda, não é possível acreditar que comboios apinhados com pessoas que podem estar infectadas não causem nenhum género de infecção. E ver o primeiro-ministro e o Presidente da República a repetir isto, eu acho espantoso.

Caluniador profissional & presidente da comissão das comemorações do Dia de Portugal, de Camões, das Comunidades Portuguesas e do João Miguel Tavares (mas não necessariamente por esta ordem) – minuto 23:11

Há estudos que provem não sei quê do vírus nos comboios? Não. António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa foram apanhados em público a dizer que comboios apinhados com pessoas que podem estar infectadas não causam nenhum género de infecção? Não. Disseram eles algo de remotamente parecido? Não. Ao que se referiram foi ao mesmo que Graça Franco aqui explica com clareza comunicativa e rigor científico: DGS diz que estudo em comboios de Lisboa é apenas um indício

Só há duas causas possíveis para as afirmações deste caluniador profissional: ou é analfabruto ou mente a troco de dinheiro. No caso, a mentira tinha começado com outro patrão que também lhe paga para/por ele mentir, quando a 4 de Julho acusou a ministra da Saúde de “irresponsabilidade política e desonestidade científica” com base em declarações que ela não fez. Seis dias depois, faz acusação igual ao primeiro-ministro e ao Presidente da República com base em declarações que eles não fizeram. Indo buscar a navalha de Ockham, temos de excluir o analfabrutismo. O caluniador profissional, mais uma vez, trata da vidinha: mente de acordo com a marca pela qual lhe pagam.

À sua volta, um jornalista premiado, o humorista mais bem pago do País e o assessor para a Cultura do Presidente da República aceitaram, validaram e reforçaram as mentiras do caluniador profissional. E não os devemos censurar. É que quem assim mentia acerca da ciência, de estudos e de representantes políticos foi no ano passado considerado pelo regime como um dos portugueses mais importantes da nossa sociedade. Pelo que a conclusão impõe-se com uma taxa de infecção mil milhões de vezes superior à do coronavírus: o problema não está no João Miguel Tavares, está nesta sociedade onde uma abécula faz carreira a mentir e a caluniar e ainda é eleita como exemplo pátrio pelo garante do regular funcionamento das instituições.

Coelha Acácia à presidência

«Marcelo Rebelo de Sousa olha para a próxima campanha das presidenciais como "uma coisa curta, uma semana, 10 dias" e garante que se avançar - o Presidente insiste em manter tudo em aberto - nem sequer vai precisar de um diretor de campanha. “Num período pós-pandémico, o país precisa de tudo menos de campanhas sofisticadas.”

"Se eu for candidato, é seguro que não haverá diretor de campanha", afirmou o Presidente da República ao Expresso. Quanto ao anúncio da sua decisão, nunca será antes de "finais de novembro, princípios de dezembro" (as eleições são em janeiro). E sem direito a uma tradicional estrutura de campanha.»


Órgão oficial do marcelismo

*_*

Para as eleições de 2016, Marcelo apresentou-se como o falso minimalista que abdicava de todo o apoio partidário, sua logística, dinâmica mediática e retórica. Descia à arena eleitoral apenas como o cidadão em contacto directo, simples, puro, com os restantes concidadãos. Concessão ao populismo do tempo? Sim, claro, mas igualmente táctica flanqueadora dos adversários que não dispunham da estupenda vantagem desse Nuno Duarte vedeta televisiva com aceitação transversal numa sociedade portuguesa, sem alternativas presidenciais credíveis, que o consumia há 22 anos como estrela-mor da política-espectáculo. Quem levantasse a cabeça e armasse espalhafato seria censurado e penalizado por estar a “fazer política”; quem se calasse e amochasse, imitando o mestre, desaparecia do palco e do radar.

Para 2021, a fórmula é exactamente a mesma, justificada e reforçada pelas consequências da pandemia. Só não o diz porque não o pode dizer mas pensa-o: as eleições, e sua chatice e riscos para a saudinha, deviam ser substituídas pela renovação automática do mandato, estabelecendo-se a votação final através de uma sondagem a realizar quando o coronavírus se for embora. No entretanto, até Janeiro de 2021, pode continuar a exibir-se como o real bluff que é, mais um na direita assim prolongando o ciclo da decadência que triunfa. Sobrevive aparentemente incólume porque não há imprensa em Portugal e os impérios mediáticos direitolas dominam a paisagem. Dois casos, escolhidos pela sua actualidade, ilustram a situação.

O primeiro diz respeito a André Ventura. Quem tiver perdido 1 minuto a olhar para a figurinha sabe que estamos perante um palhaço – e nada mais, rigorosamente mais nada. Ora, tanto Marcelo como os jornalistas que o protegem e lhe fazem os serviços andam desasados com cagufa da alimária criada e lançada na ribalta por Passos Coelho, outro espantoso crânio da estratégia política. Que é que agitação tão confrangedora nos diz sobre o amante da coelha Acácia? Ponta de um corno. Que é que temos de concluir ao vermos os homens do Presidente com medo de um taralhouco? Que o produto que nos querem vender está marado.

O segundo diz respeito à acusação pelo Ministério Público de que Ricardo Salgado terá sido o cérebro e o líder de uma rede criminosa, fazendo do Grupo Espírito Santo, no seu todo, uma associação criminosa. Ora, a menos que a ideia acabe por ser a de também conseguir responsabilizar Sócrates e/ou o seu motorista João Perna por essas avarias, temos que o próprio Marcelo fica sujeito à deliciosa pergunta dos pulhas profissionais: “Então, como foi possível não ter percebido nada convivendo de abraços com o bandido? Vá, conte lá a verdade verdadinha…” Só o Marcelo? Seguindo o rasto do dinheiro, terá de ser pulhice feita a meio Portugal, com Cavaco, Durão Barroso, Moedas e o próprio Ministério Público à cabeça, para só dar aqui exemplos imediatos ao correr do teclado entre centenas, milhares.

Em resumo, temos um Chefe de Estado que teme a concorrência de um desqualificado qualquer, e temos o mais alto magistrado da Nação a esfregar as mãos de contente quando a Justiça é usada para perseguir e castigar adversários políticos e ódios da oligarquia mas que não pode ser beliscado pelo gigantismo e abalo tectónico do que está em causa no processo de liquidação do Banco Espírito Santo, acabe como acabar. Às tantas, a coelha Acácia daria uma imagem mais digna da República mordiscando distraída as verduras num jardim do Palácio de Belém.

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Há advogados a mais, declara o nosso melhor liberal

O Ministério Público tem o exclusivo da acção penal, mas os seus magistrados não podem fazer comentários públicos sobre processos judiciais. A advocacia, que assume o papel da defesa, pode ir à televisão comentar tudo e um par de botas. O resultado é que o espaço público fica completamente desequilibrado entre aqueles que podem acusar, mas não podem falar, e aqueles que se podem defender falando. É assim que Carlos Alexandre e o MP se transformam em sacos de pancada. E é também assim que surgem as famosas fugas ao segredo de justiça, forma perversa de fazer falar aqueles que não têm cadeira nos telejornais.

Caluniador profissional & presidente da comissão das comemorações do Dia de Portugal, de Camões, das Comunidades Portuguesas e do João Miguel Tavares (mas não necessariamente por esta ordem)

Não é fácil começar a análise deste trecho, tantas e tão variegadas as abordagens que competem entre si na incendiada consciência do leitor, pelo que o melhor será comentar pela ordem frásica. Assim, na primeira, ficamos com a tese de haver uma limitação injusta a penalizar o Ministério Público: com tanto para dizerem sobre fulano, sicrano e beltrano que andaram ou continuam a devassar durante as fases de investigação e inquérito, com tanto para opinarem sobre o rumo deste mundo imundo enquanto não despacham a acusaçãozinha ou acusaçãozona, um poder opressor (socialista, tudo o indica) impõe-lhes a lei da rolha. Na segunda, recebemos o ensinamento de ser a advocacia o exercício da defesa e, concomitantemente, de ser uma libertinagem oralizante que medra em canais de televisão. Na terceira, o primeiro corolário: o Ministério Público devia correr para o espaço público de cada vez que aparecem esses artistas da defesa a falar sozinhos, armados em bons, de modo a que os telespectadores pudessem também assistir ao espectáculo dos procuradores e fizessem de imediato o julgamento sem mais demoras. Temos de castigar essa malandragem que até tem dinheiro para contratar advogados, e que só sabem é atrasar as condenações e os costados na choldra com a mania de que têm este direito e mais aquele. Se fossem santos não precisariam de arranjar quem os defendesse, né? Pois é, Zé. Na quarta frase, o segundo corolário: acudam ao Carlos Alexandre e ao MP, por favor, parem com as conversas no espaço público sem a presença de um magistrado por advogado! E na quinta, o terceiro e mais feérico corolário, o qual encerra o texto com donaire: quando Carlos Alexandre e o MP chegam a casa, altas horas da noite ou primeiras da madrugada, só para trocarem de camisa e voltarem logo a seguir para o combate à corrupção, ligando a TV uns minutinhos apenas enquanto trincam meia torrada, e o que lhes aparece na pantalha são advogados e mais advogados e mais advogados, inevitavelmente os coitados sentem que é demais, que é um nojo, e lá passam pela Cofina para deixar umas papeladas a caminho do trabalho.

O naco citado, portanto, é do melhor. Mas com este autor o melhor é apenas uma fase transitória para um estado ainda melhor, num movimento perpétuo que define o seu especial tipo de meritocracia, aquele onde ele mija para cima de quem o leva no andor. Como aqui:

Não achas que Portugal está num estado em que um juiz como Carlos Alexandre está muito tentado a adoptar um estilo justiceiro? Eu acho que sim. [...] Portugal, ao nível a que chegou, é de facto uma lixeira. [...] A Justiça não anda a ser feita. [...] Tu tens um país que foi brutalmente capturado por interesses. [...] Se tu não olhares para a podridão em que o regime está neste momento, e quando os principais partidos não combatem essa podridão, é evidente que tu abres a porta aos Venturas. [...] Já se viu o que é que lhe aconteceu! Oh... [a Joana Marques Vidal]

Fonte

Ora, vamos à continha:

– Defesa e promoção dos crimes cometidos por magistrados ao violarem o segredo de justiça.
– Concepção populista e linchadora do poder judicial e respectivo edifício jurídico.
– Redução ao mediatismo dos princípios do Estado de direito democrático.
– Culto messiânico do providencialismo justiceiro.
– Visão caluniadora onde, em Portugal, todas as instituições republicanas e todos os representantes do Soberano são acusados de cumplicidade passiva e/ou activa com o crime e com criminosos.
– Adesão à teoria da conspiração onde se diz que Joana Marques Vidal foi afastada por Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa para que acabasse a investigação e prisão dos corruptos.

Que está a faltar? Só um pormenor neste vendaval desumanizante e bronco, o azar de não existir imprensa na Grei. É por isso que não se arranja ninguém para ir a Belém perguntar ao Presidente da República se está finalmente em condições de nos pedir desculpa. Pedir desculpa por ter convidado o aborrecido e pseudo-intelectual Tolentino de Mendonça para o 10 de Junho deste ano quando tinha o famoso jornalista João Miguel Tavares disponível para voltar a entreter os portugueses bons e simples, os únicos genuínos, com a sua pessoa, a sua família, a sua meritocracia portalegrense, e umas duas ou três verdades sobre o próprio Marcelo et alia que só o nosso liberal apaixonado pelo estado de excepção tem coragem de revelar num espaço público com advogados a mais.

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Vasco M. Barreto tratou ontem desta mesma passagem e trouxe um Reinaldo Azevedo que se recomenda entusiasticamente: João Miguel Tavares vs. Reinaldo Azevedo

Afinal, descobriu agora o Expresso, parece que Sócrates andou foi a salvar a economia

«Durante a recessão de 2009, o investimento público ascendeu a 4,1% do PIB para contrabalançar a queda do investimento privado e reanimar a economia após a crise do subprime e a falência do Lehman Brothers. Agora, o valor previsto não vai além de 2,5% do PIB. E a crise de 2020 será bem mais violenta que a de 2009, quando o PIB caiu 3,1%. Em 2020, o Ministério das Finanças já admite que a economia portuguesa caia mais do dobro (-6,9%) e as mais recentes previsões nacionais e internacionais apontam para mais do triplo (-9,4% a -9,8%).»

Covid-19. Sócrates investiu mais 60% do que Costa para amortecer crise de 2009

Ricardo Costa descobriu o culpado: Ivo Rosa

A falsa equivalência é falácia (leia-se: uma tanga para alimentar borregos) que delicia os pulhas. Estamos sempre a levar com ela. Se calha falarmos de Hitler, o pulha vai logo buscar Stalin alegando que fez igual ou pior. O objectivo é defender Hitler e o nazismo. Se calha falarmos da violência dos racistas, o pulha vai logo buscar os episódios em que os anti-racistas agrediram alguém nas suas manifestações contra o racismo. O objectivo é defender os racistas e o racismo. Se calha apontarmos o dedo para um juiz que se acha superior à Lei, o Ricardo Costa vem logo a correr avisar a malta de que o culpado é outro juiz, o que defende a Lei em nome do Estado de direito democrático e dos direitos individuais dos cidadãos. O objectivo é defender um magistrado instrumental para a oligarquia e atacar um outro que ameaça expor a farsa e o processo político que originou e conduziu a Operação Marquês.

Exagero? É ouvir este génio da análise pulhítica: Caso EDP. “O que estamos a assistir é uma guerra pública entre dois juízes”

Há nisto uma faceta maravilhosa de desplante e acefalia. É a insistência desta infeliz figura em mostrar o seu processo mental. Que consistiu em delirar, é o próprio que o confessa: “Uma boa parte da conferência de imprensa foi direcionada ao juiz Carlos Alexandre”. Ou seja, o ás do jornalismo “sick” ouviu Ivo Rosa a descrever a desvairada complexidade do que Rosário Teixeira montou, e de como não seria justo para ninguém, arguidos e a própria Justiça, ter de decidir no prazo dos 10 dias regulamentares, e pensou “Hum… este gajo está a querer ser isento e respeitador dos principais direitos e interesses em jogo, está a querer fazer o mais zeloso trabalho que for humanamente viável, está a tentar chegar à melhor justiça possível sem se deixar condicionar pela colossal pressão política, mediática e popular à volta do caso judicial mais importante de sempre na democracia portuguesa … então, só pode estar a atacar o Carlinhos!”

Do muito que se poderia dizer sobre este pulha, o qual foi para a TV avisar todos os magistrados para acabarem com as denúncias do populismo judicial sob pena de entrarem na lista dos inimigos do superjuiz, vou só agarrar no que me parece mais odorante da latrina em que transformou o seu papel público: “Ivo Rosa gosta de destruir e duvidar sistematicamente, e na minha opinião exageradamente, do que o Ministério Público lhe apresenta. Um defende demasiado, se quisermos, os direitos da defesa, Ivo Rosa. O outro não protege assim tanto os direitos da defesa, Carlos Alexandre.“. Portanto, Ivo Rosa, cuja suposta função é a de ser o juiz dos direitos e garantias dos arguidos perante a acção e poderes do Ministério Público, acaba denunciado como vilão pelo director-geral de informação do grupo Impresa devido à sua má vontade “sistemática” (??) contra os coitados dos procuradores que lhe chegam já com as condenações prontas a transitar em Cofinado. O outro, que calha também ter como suposta função constitucional a defesa dos direitos e garantias dos arguidos, já se está um bom bocado (sistematicamente, talvez?) a cagar para os direitos da defesa, se é que ele admite que tenha algum direito, o que recolhe a aprovação do director-geral de informação do grupo Impresa.

Não seria impecável podermos assistir a uma qualquer exposição, nem que fosse por escrito num papel de embrulho com nódoas, deste senhor onde ele justificasse o que diz sobre Ivo Rosa – sem contraditório – no império mediático do militante nº 1 do PSD? Mais rapidamente chegará a notícia de o Inferno ter congelado do que tal dia.

Alguns de vossemecês são muito estúpidos, caramba

Pedro Marques LopesUma ministra não pode vir dizer, como ela disse, "que não, isto não há problema nenhum com os transportes". Ou seja, como é que ela sabe? Portanto, o confinar foi muito fácil. Desconfinar, pelos vistos, foi mal programado. Se nem transportes estavam programados para fazer isto, mal andamos.

😧

Luís Pedro NunesO descaramento do Pedro Nuno Santos, no Parlamento, a dizer que os transportes públicos de Lisboa não têm absolutamente nada a ver com a transmissão do vírus...
Clara Ferreira AlvesA ministra também disse isso, a ministra também disse isso...
Luís Pedro NunesA lata dele a dizer que os números não batem com alguma acusação, os senhores deputados preparem-se melhor. A vontade que dá é mandar o ministro de manhã para a linha da Amadora-Sintra e para alguma dessas imagens que se vê...

😳

Clara Ferreira AlvesA mim não me interessa a chicana política, não me interessa mesmo nada a chicana. [...] As conferências da Dra. Graça Freitas são catastróficas, são catastróficas, são catastróficas, são catastróficas! A senhora já disse tudo e o seu contrário, não tem uma opinião definida sobre nada, chuta para a Organização Mundial de Saúde que também já disse tudo e o seu contrário sobre certas coisas. [...] Não somos todos estúpidos, caramba... [...] Há uma perfeita descoordenação. Eu conheço um caso, uma pessoa infectou a [e conta o caso que conhece] Ou seja, está-se a poupar dinheiro nos testes, a verdade é esta! A verdade é esta!

😵

Fonte

Lamento ver o Pedro Marques Lopes, de quem sou o maior fã neste planeta (logo a seguir à família e amigos, bem entendido), a mergulhar de cabeça no espectáculo de se comportar como um borrego. Já o Luís Pedro Nunes não surpreende (embora nos surpreenda por vezes pelo serviço público que presta, como também foi o caso nesta última quinta-feira ao denunciar Carlos Alexandre) e a Clara Ferreira Alves é uma traumatizada do socratismo mediático a precisar de urgente apoio profissional, pelo que nos devemos preparar para o pior de cada vez que opina em matérias relativas ao PS e à política em geral.

Uma forma de explicar o caudal de estupidez que as citações acima exibem é remeter o fenómeno para as distorções típicas dos registos orais emocionados. No fundo, estes artistas estão tão à-vontade em palco que se permitem agir como se estivessem numa almoçarada na casa de um deles, vocalizando alto qualquer fantasia e barbaridade que lhes dê na gana. Pode ser. Vamos fingir que sim.

Então, aqui vai um outro exemplo de alguém que, aparentemente, teve tempo para pensar no que queria dizer, tempo para confirmar que disse o que pensou dizer, e tempo para eventuais correcções ao pensamento e ao que ficou dito:

«É por isso estranho que a ministra da Saúde tenha dito que não se pode associar os transportes públicos à existência de novos casos. Na sexta-feira explicou-se melhor e clarificou que nas “identificações de infecção, não há nenhuma associada a contágio em transportes”. Apesar disso, reconheceu, há “uma probabilidade elevada” de transmissão. Marta Temido queria dizer que os transportes públicos não merecem ser olhados com desconfiança e preconceito porque são essenciais às populações. Mas isso não significa que o vírus não apanha o metro.»

Sónia Sapage

Vinte e três anos depois de ter concluído o curso de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa, esta jornalista usa um espaço de opinião para nos ajudar a entender uma ministra que pinta como tendo graves problemas de comunicação e ainda mais graves problemas de responsabilidade política. Uma ministra, afiança descontraída Sónia Sapage, que precisou de uma segunda oportunidade para se explicar e permitir que o povo entendesse o que pretendia, afinal. Mesmo assim, foi só à terceira tentativa, agora com a ajuda do “jornalismo de referência”, que pudemos perceber o que está em causa: cuidadinho com os transportes públicos não se vá apanhar um bicharoco fodido. Ora, será verdade? Será, sequer, remotamente aproximado com o que aconteceu ou com os factos (por favor, riscar o que não interessa)? Para o tira-teimas, nada mais isento do que usarmos os materiais que a própria Sónia faculta no seu artigo, um deles onde Ana Maia, colega da jornalista Sapage, faz o relato do que afirmou Marta Temido na famigerada primeira ocasião em que ousou tocar no assunto. Eis o que o Público garante ter sido dito a 1 de Julho:

- «A ministra da Saúde afirmou, na quarta-feira, que não existe reporte de novos casos de infecção associados aos transportes públicos, apesar das cautelas que são necessárias.»

- «“Temos de ser honestos e verdadeiros sobre os dados que temos em cima da mesa. Não é pela circunstância de conhecer fotografias actuais ou pretéritas de transportes públicos, que têm uma lotação acima daquilo que são as recomendações da Direcção-Geral da Saúde, que nos fazem esquecer que na informação reportada pela Direcção-Geral da Saúde, e de acordo com o último relatórios que disponho da terceira semana de Junho, nos novos casos, não há nenhum caso de infecção associada a transportes públicos”, reforçou.»

- «A ministra chamou a atenção para uma realidade semelhante noutros países. “A circunstância mais ou menos de em todo o lado se indiciar que essa poderia ser uma fonte de infecção, e provavelmente será, mas depois quando encontramos os resultados, não encontramos a correspondente evidência. Isso tem de nos fazer estar atentos e pensar que isso também faz parte da exigência que se coloca ao nosso trabalho. Uma vez mais, sem desvalorizar aquilo que são os riscos associados a estas circunstâncias e as cautelas que são necessárias e o que são as possibilidades.”»

- «Mais à frente, novamente questionada sobre a situação de Lisboa e Vale do Tejo e a questão dos transportes públicos, Marta Temido explicou que o que disse foi que “não são conhecidos casos de contágio que tenham tido origem em transportes e não que os transportes não sejam pela sua sobrelotação, pelas suas condições, espaços a merecerem uma especial cautela”. “Se não fosse assim, não tinha o Governo decidido desde o primeiro momento que haveria uma coima pelas viagens em transportes públicos sem máscaras ou viseira”, salientou.»

- «“Penso que estes dois aspectos sublinham intensamente o ponto para o qual estava a chamar a atenção e para aquilo que era sobretudo a substância da minha chamada de atenção. Estamos a enfrentar um fenómeno novo relativamente ao qual temos muitas incertezas e, em muitas circunstâncias, lapsos de conhecimento. Esta questão dos contágios em transportes é uma delas. Embora da nossa vida empírica percebamos que há um conjunto de circunstâncias para que sejam locais particularmente expostos. Mas se não tivermos estes dois argumentos em paralelo, penso que não estamos a prestar bom serviço ao conhecimento e à objectividade”, reforçou Marta Temido.»

Como é que estas declarações – exemplares de objectividade científica, pedagogia cívica e responsabilidade governativa – se transformaram numa caricatura aberrante e bronca em que até uma jornalista com décadas de profissão nem sequer percebe o português da colega? Ou achará que é mais giro inventar assassinatos de carácter para encher colunas de opinião à conta de uma epidemia que está a causar uma inaudita crise de saúde pública e de segurança económica no mundo inteiro? Questões que não terão resposta, claro, pelo que volto ao Pedro Marques Lopes. Creio que o pior castigo que lhe consigo arranjar é o de exibir as companhias para onde se deixou arrastar pela boçalidade do meio. Toma lá disto, ó pá:

«“Os transportes públicos não estão associados a nenhum dos novos casos de infecção”, afirmou Marta Temido esta semana na Comissão Parlamentar da Saúde.
É uma frase extraordinariamente absurda da ministra, no seu misto de irresponsabilidade política e desonestidade científica, tendo em conta que ninguém sabe a origem de inúmeras infecções.»

Caluniador profissional

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