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Marcelo e a lua nova

A entrevista de Marcelo ao DN gerou uma curiosa polémica negativa. Negativa no sentido em que se está a discutir algo que apenas se consegue definir negativamente, descrevendo a sua ausência. No caso, é a ausência do que alguns comentadores gostariam de ter encontrado e não encontraram e do que outros dizem ter encontrado e não se encontra: alguma declaração para usar como arma de arremesso contra o Governo.

Estamos no período mais intenso do dolce fare niente. O País está a banhos. Condições óptimas para uma típica discussão bizantina. Mas será só isso? Será apenas mais uma crise de azia naqueles que desesperam com a gestão paciente e teatral do calendário eleitoral por parte de um actor que poderá estar a aprender um papel novo no acto mesmo de representar uma peça cujo enredo está desactualizado e para que foi outrora escolhido precisamente pela sua popularidade e dotes histriónicos?

Paulo Baldaia, protagonista principal desta polémica, já despachou dois textos sobre o assunto. No primeiro, O “momento” de Marcelo, declara o seu alinhamento com Vítor Costa, uma das vítimas azoadas pela falta de combustível conspirante nas frases saídas da boca de Marcelo. No segundo, O que se disse sobre o que disse e não disse Marcelo, embirra com Sousa Tavares e Louçã e apresenta-se com o orgulho ferido. O registo é de tertúlia, Baldaia tenta ripostar imaginando que existe uma audiência interessada na sua defesa perante o que lhe parecem críticas ao seu trabalho como entrevistador, editor e director – ou talvez estado-se a marimbar para a putativa audiência, servido o jornal onde escreve tão-só como meio para o jogo de espelhos em que se concebe como figura pública.

Espremendo o que o director do DN diz e repete, a sua mensagem resume-se a esta brilhante ideia: Marcelo, por agora, não vai fazer nada contra os interesses do Governo; mas, atenção, Marcelo, num destes dias, poderá fazer alguma coisa contra os interesses do Governo. Este simplismo interpretativo, nascido da auto-infligida necessidade de dizer coisas só porque assim o dita a convenção e a vaidade, transforma-se em hermenêutica pirata na ênfase dada a estas tautologias: “É grave. Não desdramatizo, é grave.” e “Se há responsabilidades, tem de haver responsáveis.” Para o entrevistador, estão aqui os sinais de que Marcelo está a pedir cabeças de governantes servidas em travessas, com ou sem molho. Para quem estime os humildes mas nada modestos preceitos da lógica e da gramática, Marcelo está é a dizer que não se pode desdramatizar aquilo que se calhe considerar grave, num caso, e a explicar que incluso no conceito de responsabilidade, atributo exclusivamente dos seres conscientes e dotados de vontade ou de entidades onde esses seres exerçam funções, está o conceito de responsável, no outro.

Marcelo não exibe a pulsão odiosa e golpista para onde Cavaco foi empurrado pela oligarquia quando o império bancário desta começou a ruir em 2007 e 2008. Marcelo também não precisava de ser Presidente da República para se sentir feliz da vida. Pelo que aquilo que começou por ser apenas uma luxúria e um oportunismo, a sua candidatura presidencial tantos anos em preparação na TV, pode levá-lo para um percurso de verdadeiro estadista. Por agora, ainda é cedo para o sabermos, embora tudo aquilo que tem deixado a direita fanática em polvorosa seja a expressão de um exercício do cargo onde o interesse nacional está a ser respeitado como primeiro e principal critério de intervenção e decisão. No entanto, a futilidade dos exercícios como os de Vítor Costa, Marques Mendes e Paulo Baldaia apenas se foca na intriga. São como meteorologistas que se limitam a observar o tamanho da Lua para descobrirem se vai chover ou fazer sol.

Estava aqui a pensar no mesmo

«O que Marcelo e Costa perceberam, cada um à sua maneira, é que o modo da sua política deve estabelecer uma diferença marcada com o passado recente. Marcelo separa-se de Cavaco, que interpretava a austeridade melhor do que ninguém (e por isso se perdeu, com a lamúria sobre a sua pensão) e Costa separa-se do tempo da troika e do PSD e CDS (e por isso se perderam, com a sua gula de empobrecerem o país). Isso é totalmente óbvio na sua linguagem: ao contrário de Passos, que se passeia como se fora um primeiro-ministro no exílio e à espera de poder desembarcar no Terreiro do Paço, zangado com o mundo que o esqueceu, Costa sorri e é uma pessoa normal, enquanto Marcelo corre o país a acarinhar o povo.

De facto, ambos perceberam um segredo que pouco mais gente partilha: é que na política há dois mundos e dois tempos bem separados. Um é o frenesim de políticos e jornalistas, das grandes intrigas e das grandes frases (os suicidados de Pedrógão, ou que vivemos sob um governo totalitário porque o Ministério Público não juntou a senhora atropelada à outra lista das vítimas directas da tragédia!), outro é o da gente normal, que prefere que lhe garantam que não vão ser reduzidas as pensões dos nossos pais e que quer ver esforço para resolver as muitas dificuldades da sua vida.»


A chave da política

Manchete que mancha

Parece que a nossa direita é tão decadente, tão ridícula, que está agora dependente do que aparece no Público, no Expresso e no Observador para fazer prova de vida. É a própria que o assume. E que aparece nesses bastiões onde se luta de espada na mão e faca na liga pela defesa da liberdade e das crianças num pobre país dominado pelos criminosos socialistas? No jornal da Sonae, o director especializou-se em fazer listas de perguntas sobre ocorrências variadas, as quais envia por email para ali e para acolá, igualmente lhe servindo o paleio para se fantasiar como um jornalista que põe o Governo e o Estado de cócoras. Ao mesmo tempo, este director usa um caluniador profissional para, como se lê no último trabalhinho, espalhar veneno no espaço público e fazer declarações de amor ao populismo. É uma fórmula, e o dinheiro é deles, mas gostava de conhecer os resultados comerciais por mera curiosidade. No jornal do militante nº 1 do PSD a situação é muito mais divertida. Para além da presença alada do mano Costa, temos um Guerreiro que está quase a merecer uma estátua graças à criação de um novo estilo de prosa jornalística: o pornolirismo para encher o chouriço. Foi assim que chegaram àquela magnífica manchete onde se lia “Lista dos 64 mortos exclui vítimas de Pedrógão”, a típica arte de enganar o patego recorrendo à superior inteligência do Ricardo e ao majestoso coração do Pedro. Parece que depois uns malandros se aproveitaram desses 8 termos, incapazes de se ficarem pela contemplação estética da maravilha. Merdas que acontecem. Finalmente, no jornal não se sabe bem de quem, estamos numa típica madraça da direita fanática, ressentida, golpista, caluniadora e complexada. São uma extensão do Correio da Manhã, no que diz respeito à estratégia de combate ao PS, embora tenham outra embalagem por se dirigirem a um público com um bocadinho mais de literacia. As peças que fizeram agora sobre umas manigâncias menores no PSD estão a servir para corrigir um posicionamento que se tinha esgotado num nicho sem peso político. De facto, se é para crescerem, vão ter de ser um bocadinho mais sofisticados no sectarismo.

O Expresso é, dos três, o caso mais interessante. Impossível alegarem falta de experiência na profissão, pelo que aqueles bacanos devem ser julgados implacavelmente. Podemos começar por um laivo de coragem moral de um deles, Filipe Santos Costa:

"Um último comentário, sobre a manchete desta edição. Por uma questão de lealdade, fiz as minhas apreciações a quem de direito dentro do jornal. Serei, por isso, parcimonioso na crítica pública. Digo apenas que achei a formulação infeliz, pela simples razão de que aquela manchete não se percebe. Eu, pelo menos, não a percebi - ou seja, não consigo tirar dali um sentido. E isto significa que não leio ali uma manchete contra o Governo, contra a oposição ou a favor do que quer que seja. Não percebo, ponto final. E uma manchete que não se percebe não pode ser boa."

O ódio ao jornalismo livre

Apesar da sonsa confusão em que se enreda para não ser frontal, tem pelo menos o mérito de ter falado no assunto. O assunto consiste no facto de estarmos perante um manchete intencionalmente mentirosa, intencionalmente sensacionalista, intencionalmente alarmista, intencionalmente tóxica. Este amigo, que até tem um curso de Ciências da Comunicação e anda nisto desde 1994, faz-nos rir a bom rir ao teclar que a manchete “não se percebe”, ficando depois agarrado, qual desesperado no cadafalso, à sua incapacidade para “perceber” o que lhe está a acontecer. Quero daqui dizer-lhe que nós percebemos, que ele já pode adormecer descansado.

Antes da parangona demasiado críptica até para a elite do jornalismo político nacional, tivemos direito a mais uma obscenidade do Guerreiro:

"Uma morte é uma tragédia. 64. 65. Todas. Uma tragédia. Esquecê-las é uma covardia. Jurar nunca esquecê-las é então ter mentido. E "se uma notícia mudar a vida de uma pessoa então já valeu a pena escrevê-la", é através da transparência e da verdade que o fazemos. Pelos sobrevivos que ficam. Pela solenidade da homenagem aos que morreram.

É aqui que tudo começa: nas pessoas. Quem anda pelos conselhos queimados pela desgraça não conta apenas lápides, mas histórias, mas nomes, mas traumas, mas pessoas, mas quem peça que acudam, mas quem se sente demasiado sozinho mesmo que (ainda) não abandonado. E sim, há quem perdeu a confiança no Estado. No Estado cujas estruturas de prevenção e socorro falharam, como já se demonstrou e o Ministério Público investiga.

[...]

E assim voltamos ao início, este é ainda o tempo da investigação das causas, da preparação de reformas no Estado para que a tragédia não volte a acontecer, para uma cultura de responsabilidade de quem representa o bem público. Este é ainda o tempo das perguntas por responder. Este é já o tempo da homenagem e de não esquecermos que cada morte é uma tragédia. Todas. 65. 64. Uma.


Não esqueço os mortos
Não esqueço os heróis
Não esqueço
o luto
das famílias

todos silenciosos

Denuncio
publicamente
a nossa cobardia

e quem mente

António Reis, “poemas quotidianos” (1957)

A 65ª vítima

É um prato cheio. Desde a acusação genérica, vaga, insultuosa, de que os governantes e demais funcionários públicos são irresponsáveis à associação directa entre o incêndio e seu desfecho letal com umas certas “reformas” que vão acabar com esses acontecimentos, garante. Mas o que mais importa está no contexto em que sai esta lábia: a discussão sobre a manchete do Expresso e seus efeitos mediáticos, sociais e políticos. E o que lemos é a justificação para valer tudo, inclusive explorar todas as mortes que possam ter real ou imaginada ligação ao incêndio. Vale tudo, explica o director da coisa tocando o seu violino no Olimpo sobre a cidade, porque basta invocar os interesses de alguém para se poder publicar o que lhe der na gana. Dêem-lhe uma suposta vítima de Pedrógão como ponto de apoio e ele levantará uma tempestade que abrirá rachas em S. Bento. E é tão simples, basta escolher o título errado para a notícia certinha.

Depois de o próprio Marcelo ter mostrado que já chegava de deboche, e de Lobo Xavier se ter publicamente afastado do cadáver chamado PSD, o Expresso fez um editorial onde continuou ao ataque, culpando os socialistas pela situação que o próprio jornal tinha criado: O Governo e o Expresso. O despudor é tal que chegam a escrever que a sua notícia encerrou uma especulação a respeito do número de mortos. Aposto os 10 euros que tenho no bolso como a prosa e a arrogância é do mano Costa.

Este episódio é significativo de algo mais do que o pedantismo narcísico de certos jornalistas na sua miserável condição de meros espectadores da política com pretensões a profetas e mágicos. O que está em causa é uma crise profunda na direita portuguesa, onde as sucessivas lideranças desde Barroso têm sempre optado pelo cinismo e pela baixa política, quando não pelo golpismo. Com Barroso, foi-nos vendido um sonho pessoal que se filiava no legado cavaquista quando tal ainda era credível e tragável para muitos. Depois da sua traição, apenas temos tido operacionais do poder pelo poder, às descaradas. Daí o arsenal que utilizam, essa mistela de retórica feirante com violência mediática e populismo pragmático. Merecem a nossa radical ausência de tolerância.

Revolution through evolution

Why some people are so sure they’re right, even when they are not
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Cognitive cross-training enhances learning, study finds
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Mind-body therapies immediately reduce unmanageable pain in hospital patients
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Mediterranean-style diets linked to better brain function in older adults
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Neuroticism may postpone death for some
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To pick a great gift, it’s better to give AND receive
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Living computers: RNA circuits transform cells into nanodevices
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Realmente, há um antes e um depois de Pedrógão

Poucas horas depois de se conhecer a gravidade do incêndio de Pedrógão, em área ardida e em vidas perdidas, algumas pessoas com tribuna nos principais órgãos de comunicação portugueses (e até num espanhol, puta madre) começaram a repetir que passava a haver “um antes e um depois de Pedrógão”. Essas pessoas são políticos, jornalistas e comentadores profissionais. Em cada um desses papéis poderiam ter optado por serem decentes com as instituições e solidários com as vítimas, mesmo que quisessem lançar críticas para mostrarem a sua “oposição” ou “independência”, mas optaram exactamente pelo contrário num crescendo de violência verbal e emocional que culminou na cena desonrada de vermos o PSD a fazer um ultimato ao Governo para que cometesse um crime em nome do torpe e insano boato lançado pelo Expresso.

A expressão, como se viu pelas sondagens feitas após o incêndio, não carecia de qualquer ligação à sociedade. Tratava-se, e trata-se, de um instrumento retórico nascido da febril necessidade desta direita para explorar qualquer potencial negatividade que possa ser lançada contra o Governo e os partidos que o suportam no Parlamento. Esta direita, repetindo o seu paradigma calunioso em vigor como práxis após a traição de Barroso, chama a essa estratégia decadente “fazer política”. Se for preciso achincalhar as famílias, amigos e populações com ligação directa às vítimas do incêndio, então bute, salivam rapaces, toca a usar as suas mortes como carne para canhão. O que pretendem é criar um clima de alarme social que se transforme em perseguições mediáticas aos governantes e a qualquer tutela do Estado que possa ser denegrida – com sorte, conseguindo que a pressão mediática sensacionalista e a irracionalidade dos ataques lançados pelos comentadores incendiários tome conta do desespero de alguém e haja agitação popular aqui e ali; idealmente, com agressões que possam ser filmadas, seja lá quem for que se esteja a agredir. Uma política, literalmente, da terra queimada.

É verdade, há mesmo um antes e um depois de Pedrógão. Antes, ninguém imaginava que um ex-primeiro-ministro e actual líder da oposição pudesse aparecer em público a garantir que tinha conhecimento, de fonte “particular” e relativo a um caso de “família”, de “um” suicídio miraculosamente transformado em “suicídios”, só para se vir a descobrir logo depois que era tudo mentira: os suicídios, o suicídio, o familiar e até o particular. Também antes de Pedrógão ninguém imaginava que, factualidade dos suicídios e vocação para mentir do Pedro à parte, algum político com pretensões à governação, ou que fosse só ao cargo de deputado ou vereador, se dispusesse a usar a temática dos suicídios como arma de arremesso contra o Governo. Um caso onde a estupidez da atitude quase que ultrapassa a sordidez da mesma (quase…). Num efeito de vasos comunicantes, a estupidez do líder passou para o Hugo Soares e seu brilhantemente capitaneado grupo parlamentar, originando a cena gaga onde se cobriram de vergonha. Finalmente, antes de Pedrógão o Expresso ainda mantinha uma réstia de respeito próprio. Agora, na sequência de um já longo caminho de aproximação e rivalidade com outros esgotos a céu aberto, podemos ter a certeza de que o ideal jornalístico foi substituído neste vetusto e outrora prestigiado título por um escabroso fanatismo ao serviço da sua agenda de baixa política.

Moral desta triste história: os pulhas têm toda a razão.

Pacheco e a ciganice

Pacheco Pereira escreveu um artigo didáctico onde despacha o populismo de Trump e a questão cigana de uma forma não só razoável, não só convincente, mas também interpelante – Trump e os ciganos. A eficácia argumentativa vem da exposição do inegável. É inegável que os ciganos – tomados como etnia – ainda não aceitaram incluir na sua antropologia, ou que fosse só na sua axiologia, essa maravilha civilizacional chamada Estado de direito democrático. O Pacheco compraz-se em registar que tal fenómeno gera silêncios à esquerda e na militância a favor das minorias que são fácticas cumplicidades com as vítimas ciganas e não ciganas daí resultantes, igualmente contribuindo para o aproveitamento populista do Ventura. O texto está destinado a ser aplaudido como consensual.

Porém, como em tudo o que nasce desta impante figura, o viés ganha à lucidez. O seu alvo são os “nossos mais vocais grupos feministas e anti-racistas e muita gente à esquerda que abraça causas de género” com que encerra o exercício. É a partir deste epílogo que começa o nosso pensamento. Duas são as perguntas a fazer:

– A esquerdalhada que abafa a questão cigana faz mal em ocupar o seu tempo com as carências doutras minorias?
– A esquerdalhada que abafa a questão cigana é responsável pelo abafamento geral da questão cigana?

Para responder com honestidade intelectual à primeira pergunta, há que estar munido de um diagnóstico acerca do problema. Serão as questões tratadas pelos “grupos feministas e anti-racistas” da mesma ordem, complexidade e viabilidade legislativa do que aquelas inerentes à questão cigana? O Pacheco simula ser esse o caso, pois só dessa forma pode deixar o seu ferrete persecutório. Mas é mentira. Enquanto se pode facilmente legislar contra as descriminações de género e raciais, e essa legislação passar a ter aplicação universal sem dificuldade de maior, já não se pode legislar contra a identidade cultural de um grupo. Não se pode por limitações também culturais da entidade legisladora, a nossa comunidade política, e não se pode porque a problemática não se resolve pela produção de mais ou melhores leis. São os próprios envolvidos em práticas que rejeitamos que começam por se considerar politicamente separados, indiferentes ao que o Estado decida a seu respeito.

E este contexto leva-nos para a segunda pergunta. Curiosamente, o mesmo Pacheco tropeça na boa resposta quando regista que “alguns professores, alguns militantes católicos e um infelizmente muito pequeno grupo de ciganos” enfrentam heroicamente a adversidade na defesa dos direitos individuais das raparigas ciganas. Ora, neste passo o autor trava a sua análise e salta para a sacanice de apontar o dedo a quem luta social e politicamente para acabar com injustiças, as mais variadas. Mas podia ter optado por questionar antes a indústria onde vai buscar aquilo com que se compram os melões. Por que razão a nossa comunicação social não trata como “heróis” esses que o Pacheco descreve serem heróicos na tentativa de mudarem mentalidades na comunidade cigana? Não está aqui a chave social e política da questão, o silêncio na imprensa e o papel que pode e deve assumir? Por que razão o marmeleiro prefere atacar pessoas que corajosa e altruisticamente têm defendido diversos grupos minoritários prejudicados pelas maiorias em vez de atacar os partidos e sua inércia na questão? Aliás, por que razão o Pacheco não assume pessoalmente o combate e se vai juntar aos heróis que lhe serviram para compor a prosa?

Para que o veneno lançado pelo texto lhe caia em cima, basta soprarmos suavemente na sua direcção.

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Screening Those at Risk of Psychosis May Help Prevent Violence, Reduce Stigma
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When sizing up potential friends and mates, the eyes of men and women move differently
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Devotion to National, Religious Symbol Alleviates Stress of Immigration
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Messages with Moral-Emotional Words Are More Likely to Go Viral on Social Media
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Can Journalists Help Readers Navigate the Changing Media Landscape?
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Generous people live happier lives
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Case Grows for Link Between Happiness and Health
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Pensamento marado

Embora não apareça referido, é muito provável que António Guerreiro estivesse inspirado irritado pelo circense Quintino Aires quando escreveu Os psi, modelo de luxo. Para o que me interessa, só tenho a agradecer-lhe ter deixado no espaço público uma denúncia que apenas peca por vir com muitos anos de atraso. É que a coisa existe desde 2009, pelo menos: Pensamento Cruzado

Não sei em que ano deixei de os ouvir, mas sei que foi pela mesma falta de vocação para ser vazadouro de confusa sermonária vendida como “psicologia” que o texto do Guerreiro ilustra expondo a granel a inanidade da parelha. O que leva a TSF do Fernando Alves a ter este programa, agravado pela tonteira de durar só três minutos e ter dois oradores que querem muito dar lições de vida ao povinho, é um mistério. Adorava conhecer os números das audiências e algum estudo qualitativo, em nada me importando se viesse a descobrir que estamos perante um sucesso pois tudo é possível no gosto dos outros. Mas aposto os 10 euros que tenho no bolso em como o programa não consegue ter mais do que dois ouvintes fiéis, os próprios que vão para lá falar de tudo menos de psicologia e psiquiatria.

É desconcertante, até triste, porque a TSF, ou outro canal qualquer de prestígio, poderia ter um papel decisivo na educação para a saúde mental e no combate ao estigma da doença mental. Há tanto na área da psicologia e psiquiatria que pode ser divulgado com imediato impacto nos problemas de milhões de pessoas que este desperdício de espaço mediático aparece quase como um escândalo. Azar o nosso.

Isto agora é o da Joana

Felizmente, foi fazendo o seu caminho em Portugal uma cultura de intransigência social face à corrupção, que está atenta e não aceita a promiscuidade na política e as relações ambíguas entre ocupantes de cargos públicos e agentes económicos. Uma nova cultura de intransigência que, felizmente, tem eco no Ministério Público desde que Joana Marques Vidal está à frente da Procuradoria-Geral da República, dando um imenso contributo para a dignificação da Justiça, das instituições e da sociedade. Felizmente, o Ministério Público passou a estar atento ao comportamento dos políticos.

[…]

A actual remodelação de secretários de Estado tem assim um lado simbólico. Esperemos não seja só isso e, daqui para a frente, surja uma cultura de exigência ética quanto ao comportamento dos ocupantes de cargos políticos. Isso seria mais do que o início de novo ciclo do Governo concreto de Costa. Seria um novo ciclo na actuação política e, por consequência, na governação do país.


A diferença de Joana Marques Vidal

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São José Almeida, jornalista com importante produção no campo do activismo homossexual, situa-se politicamente entre o BE e o PCP (ou coisa parecida, ou para lá do PCP, ou nada disto, sei lá eu). Na sua opinião publicada não se encontram rasgos proféticos, nem iluminações súbitas, a respeito do devir político nacional. Bem pelo contrário, a previsibilidade e banal sectarismo dos seus raciocínios rivaliza com a pontualidade de Kant nos seus passeios diários de outrora em Königsberg. O mundo apresenta-se bem arrumadinho e pronto a entender na sua cabeça. Há bons e maus. Os bons são quem ela decide que são, os maus os restantes. Por exemplo, os políticos são maus. Pelo menos, todos aqueles que a São José não considerar bons, o que resulta numa enormíssima maioria. São maus porque são corruptos, e são corruptos porque não são bons. É simples de explicar e ninguém contesta sob pena de ser acusado de cumplicidade com a corrupção dos políticos. Num outro e congénere exemplo, o PS também é mau. E, dentro desse mal encardido e venenoso, o pior vem de Sócrates e de quem esteve ao seu lado. Ora, Sócrates teve o partido todo a seu lado durante anos, e parte dos seus mais próximos continuam politicamente relevantes, e até próximos de Costa. Resultado, esta senhora não perde uma ocasião para denunciar a profunda corrupção que grassa entre os socialistas.

Dentro deste quadro maniqueísta, o populismo e o moralismo fazem lei. Não espanta, então, encontrar uma arrebatada, lunática e pacóvia glorificação de Joana Marques Vidal com a sua assinatura. O texto que cito é típico nisso de ser completamente falho de fundamentação. Como avaliar a seguinte frase “Felizmente, foi fazendo o seu caminho em Portugal uma cultura de intransigência social face à corrupção, que está atenta e não aceita a promiscuidade na política e as relações ambíguas entre ocupantes de cargos públicos e agentes económicos.“? De que “caminho” está a falar? Quais são as manifestações da suposta “intransigência social face à corrupção“? Como definir o que sejam “relações ambíguas entre ocupantes de cargos públicos e agentes económicos“? Nada explicitando, sequer pela rama, não podemos saber do que está a falar. E, portanto, o discurso fica blindado contra a crítica pois se furta à mera análise da sua veracidade e sentido. Qual o seu valor? Nada mais, nem menos, do que ao passar na rua ouvir-se um “Viva a Joana!” caído de uma janela.

Seria fascinante ler ou ouvir esta jornalista a discorrer sobre um tema que lhe é tão querido mas agora estando obrigada (voluntariamente) à objectividade. Que sabe ela da corrupção em Portugal com base nas informações disponíveis nos diferentes organismos do Estado, nas universidades e em organizações relacionadas com o fenómeno? Que tipo de dados e qual o seu tratamento que conseguiria organizar e divulgar? E, indo directamente para o âmago da sua paixão messiânica, como é que a incensada “cultura de intransigência” deste Ministério Público desinfectado da porcaria dos socialistas se saiu no caso dos submarinos e de Dias Loureiro, por exemplo? É que, se correu tudo bem, o seu entusiasmo com a prisão de Sócrates e a demissão destes secretários de Estado será assim um bocadinho a modos que prematuro. Ou suspeito. Onde não há suspeição, e podíamos espremer todos os seus textos, é na convicção de que os seus conhecimentos factuais a respeito da corrupção não diferem dos que são partilhados gratuitamente pelos taxistas.

A ideia de que a eventual corrupção que aflige a Nação diz respeito a viagens e hotéis para isto e aquilo, e que podemos ficar tranquilos desde que esses malandros passem a pagar do seu bolso esses luxos caso os queiram usufruir fora do horário de trabalho, não é apenas estupidamente estúpida. É algo muito pior, é o culto de uma hipocrisia de Estado que conhecemos dos totalitarismos e ditaduras. São José Almeida gostava de ver os políticos acorrentados nos seus gabinetes e a trabalharem sob as ordens de um capataz de chicote, porque não confia em quase nenhum dado conhecê-los tão bem na sua natureza maligna. No final do dia, receberiam uma malga de água e um pedacito de pão. Tudo em nome da “exigência ética” que vai pôr os “comportamentos dos políticos” na ordem. Ou na prisa.

Vergonha, modos de usar

O desfecho da comissão parlamentar de inquérito à CGD gerou um episódio que começa por ser inacreditável, e que acabará por ser carimbado como burlesco ou trágico. Inacreditável porque não se acredita que o PS fosse para a votação do relatório – ainda por cima, e antes de tudo, dadas as questões em causa e sua notoriedade – sem saber onde estavam os deputados envolvidos, suplente incluído. Burlesco se a causa tiver sido a incompetência do grupo parlamentar. Trágico se tivermos assistido a uma encenação dos socialistas para obterem exactamente este resultado, o chumbo do relatório. Para clarificar esta última hipótese teremos de esperar pela conclusão das investigações judiciais à Caixa, algo que pode demorar meses ou anos. Neste contexto, a notícia da saída de Alberto Martins do Parlamento pode ser um sinal de que algo profundamente errado aconteceu nesta história ou tratar-se somente de uma coincidência.

Factualmente, quais as informações novas geradas pela iniciativa parlamentar que colocou sob juramento os principais responsáveis pelo banco nos períodos investigados? Para o leitor e espectador interessado nos assuntos políticos, a resposta é nada, zero, nicles. PSD e CDS foram para a comissão cheios de suspeitas e essas suspeitas continuam intactas, na sua retórica, ou esvaziaram-se, de acordo com as declarações dos inquiridos. Resta a esperança de os colossais crimes estarem guardadinhos na papelada do banco à espera do olhar aquilino de um Ministério Público onde acabou a impunidade graças ao heroísmo e santidade de Joana d’Arc Vidal. Ou seja, se nos cingirmos às posições e declarações dos partidos, o inquérito serviu para reforçar a ideia de que a direita explora hipocritamente uma situação onde não tem qualquer prova para apresentar, limitando-se a mandar atoardas por ser essa a sua cultura política, um estado de decadência onde a calúnia aparece como a principal arma de arremesso.

Esta seria uma situação onde a imprensa poderia vir em nosso auxílio. Do que se trata é de tentar saber o seguinte:

– PS, PCP e BE encobriram ou adulteraram algum dado, ou dados, nos trabalhos da comissão?
– Alguma informação substantiva que indicie ilegalidades ficou registada nas declarações dos inquiridos? Se sim, qual ou quais? Se sim, em quê e porquê?
– A versão do PSD e CDS – a qual implica que não só Sócrates como também Teixeira dos Santos (na prática, todo um Executivo, ou dois) e vários dirigentes máximos da CGD cometeram inauditos e homéricos crimes de corrupção – merece algum crédito, sequer módico respeito?

Portugal é pequenino e a nossa imprensa é minúscula. Um dos primeiros a opinar foi o David Dinis – A honra do convento – e o que escreve deixa-nos um retrato de anomia, uma visão onde o jornalismo não passa de uma câmara baixíssima que serve apenas para destilar maus fígados. Se lermos o seu texto 10 vezes não conseguiremos extrair qualquer dado objectivo sobre o que realmente esteve e está em causa, seja na comissão de inquérito ou no seu acto final. Pelo contrário, o autor prolonga o discurso da direita, largado suspeições que não fundamenta para poder colocar todo o entusiasmo teclado na difamação. A frase “Salvou-se a comissão de uma vergonha” não quer dizer absolutamente nada para além do seu desejo de insinuar que estamos perante uma farsa gigantesca. Uma farsa que ele topa muito bem, claro, apenas não se dando o caso de ter tempo para nos explicar em que consiste e por que sortilégio ainda se mantém apesar deste bacano estar por dentro da cena e ter um jornal e não sei quantos canais de TV e rádio à disposição para expor a “vergonha”.

É que acabar com as vergonhas políticas que este tipo de jornalistas vão coleccionado pode não dar jeito nenhum, né? Se acabassem, falavam do quê?

Serviço público

Num bairro que se habituou a ter medo da polícia, a ouvir "para dentro, caralho", a revistas sem motivo, a portas partidas, a balas perdidas, a ser tratado por tu, a não protestar "porque é pior" e a não fazer queixa "porque não serve de nada", a acusação do MP à esquadra de Alfragide é como uma esmola demasiado boa: o pobre quer acreditar mas desconfia. É muito tempo sem justiça nem lei, de "preto vai para a tua terra", de "cala-te se não queres levar". A sede de uma espera só se estanca na torrente. Virá ela?


“Os polícias eram deuses, agora são como nós”

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Study Finds ‘Sexism’ in Sexual Assault Research, but This Time Men Are the Target
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Cannibalism: A new way to stop the spread of disease
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Cognitive behavioral therapy improves functioning for people with chronic pain, study shows
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Handshaking viewed more positively by Westerners than by East Asians
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Banks hired risk officers to mitigate risk in years before collapse. It didn’t go so well
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A Purpose in Life by Day Results in Better Sleep at Night
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Study Reveals the Hidden Ways Math Helps Us in Everyday Life
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Suspeito, não sabe do quê, até prova em contrário

Em mais um 14 de Julho, aniversário da Revolução Francesa, vem a propósito recordar o que se passou há 11 dias com Manuel Pinho. Segundo o seu advogado, Pinho foi constituído arguido no caso das rendas da EDP sem ter sido ouvido e, principalmente, sem ter conhecimento do que estava na origem da acção judicial sobre a sua pessoa. No dia seguinte, a PGR enviou para a Lusa uma declaração onde se lia que “no momento da constituição, o arguido foi informado dos factos que lhe são imputados”. Mais um dia passado e Ricardo Sá Fernandes apareceu a desmentir a PGR e a anunciar uma queixa à Ordem dos Advogados para refutar o que considerou como falsidade. De lá para cá, no meu radar, nada mais aflorou a respeito. Não sabemos quem mente, mas sabemos que alguém mente.

Será este episódio algo sem importância cívica, política ou social? Não, impossível. O silêncio que o encobre revela uma sociedade que já transitou em julgado a culpa de um grupo de cidadãos. Nesse grupo está Manuel Pinho, figura que é fácil de ridicularizar e ofender. Saber que foi constituído arguido sem saber porquê, sem se poder defender e, como também apareceu publicado, apenas para evitar a prescrição de um inquérito, não causa escândalo, sequer solidariedade ou mínima preocupação. Na prática, testemunhamos um ostracismo generalizado que foi e é desejado por este Ministério Público de Joana Marques Vidal. Acham, e com toda a razão, que é meio caminho andado para prolongarem um exercício de poder que, a confirmar-se a versão de Sá Fernandes, corresponde a uma prática despótica. Saber como chegámos a este estado não é operação cognitivamente exigente, pois existe uma campanha intensa para linchar publicamente todos os alvos que possam contribuir para a exploração caluniosa de Sócrates com objectivos comerciais e/ou políticos. Pinho alia a ligação a Sócrates à ligação ao BES, transportando uma nuvem de culpabilidade que não passará nunca, nem mesmo que saia ilibado dos imbróglios legais onde está metido. Ainda por cima é rico, logo, fogueira com ele.

228 anos passaram desde a Tomada da Bastilha. Incontáveis e radicalmente decisivas as alterações políticas e sociais resultantes desse evento na França, na Europa, no Ocidente. Qual a relação desse pilar da História Moderna e Contemporânea com esta nanohistória de um fulano mal-afamado que foi constituído arguido no meio de um bate-boca sobre questões formais a que ninguém liga, muito menos tratando-se da rês em questão? A relação é a que cada um quiser – e puder – estabelecer. Na verdade, podemos recuar mais anos, mais séculos, até milénios, e continuar a estabelecer nexos fundamentais. Trata-se de reconhecer o papel do conhecimento histórico na formação da consciência política, primeiro, e na formação da actividade cívica, depois. Quem não souber explicar a si próprio o que aconteceu na Revolução Francesa igualmente não conseguirá sequer perceber qual seja a importância de vivermos num Estado de direito democrático. Porque não irá entender o que seja uma democracia, uma constituição, um direito. Nesse caso, qual será a origem das suas convicções ou opções políticas? Quais os mecanismos através dos quais toma decisões eleitorais? Como se gera na sua consciência os gostos e aversões pelas figuras públicas ligadas ao poder político, económico e social? Não é um acaso que, neste País vítima de décadas de analfabetismo e iliteracia, décadas de ignorância intelectual e atrofio cívico, o Correio da Manhã seja o grande educador do povo.

Como escreve Sócrates – Arguido por prevenção – o Código Penal não contempla a figura de arguido por fezada e arbítrio de algum procurador que esteja para aí virado. Porém, talvez o devesse fazer. Talvez o melhor seja regularizarmos a situação. Pormos em letra de lei que se pode constituir arguido qualquer cidadão sem carência de factos que o sustentem, sem que seja ouvido pelas autoridades judiciais, e ficando a partir daí ao dispor do Ministério Público e do seu aparelho mediático para o que lhes apetecer. É que coisas destas já aconteceram, eram a norma no tal passado registado na História. Os poderosos de então não conheciam outra forma de exercer o poder que não passasse pela lei do mais forte. Foi preciso que muita e muita gente verdadeiramente heróica morresse, ou perdesse tudo de seu e ficasse na miséria ou encarcerada, antes de se conseguir criar neste planeta uma outra forma de convivência onde a liberdade, a igualdade e a fraternidade substituíssem a tirania, o privilégio e a opressão.

Nesta terra de liberais de pacotilha, temos de perguntar aos valentões que apanham corruptos pelo cheiro, não precisando que qualquer investigação se conclua nem de conhecer a defesa dos envolvidos, se estão de acordo com a tal mudança do Código Penal – se isto de tratar cidadãos como suspeitos não sabem do quê até prova em contrário é só para ser usado contra alguns tipos que eles não gramam ou se também querem ver a sua família, amigos e colegas de carreira sujeitos ao mesmo remédio. Conseguir levá-los a responder a esta questão seria verdadeiramente revolucionário.