Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

«As mulheres são todas parvas» ou a apoteose do equívoco

Ter graça, cair em graça ou ser engraçado – não é para quem quer, mas sim para quem pode. E nem todos podem. Há tempos corria uma tarde amena e, perante três mulheres (de 22, 30 e 57 anos de idade) que folheavam um tratado de Botânica, julguei oportuno atirar para o ar uma frase irónica e disse com o ar mais sério que me foi possível arranjar: «As mulheres são todas parvas».

Julguei então que o facto de a palavra latina ‘parva’ aparecer com frequência nos nomes científicos das plantas, dos arbustos e das árvores ajudaria a abrir as portas para um sorriso cúmplice e, já agora, em triplicado.

Equívoco total o meu. As duas mulheres mais novas sorriram, mas a mais velha fez beicinho e advertiu de imediato: «São todas parvas se forem como eu. Eu sou parva porque penso mais no outros do que em mim».

A partir daqui estava tudo explicado. A brincadeira só existe se for compartilhada. Até lá, até à sintonia de ideias, é um equívoco prolongado com cada um no seu papel e a puxar para o seu lado. Neste caso, eu estava na ironia e a terceira senhora estava num registo (digamos) sério e olhando apenas ao óbvio.

Um dia o grande escritor Santos Fernando (autor do belíssimo «Os grilos não cantam ao domingo») escreveu que o «humor não passa de uma lágrima entre parêntesis». Pelos vistos a ironia também. Ele tinha todas as razões para escrever esta magoada constatação: eram seus amigos de peito os escritores Luiz Pacheco e Ferro Rodrigues. Eles também sabiam que ter graça, cair em graça ou ser engraçado não é para quem quer.

Poema algures

Há um poema. Um certo poema. Julgo-o feito a partir de memórias sedimentadas nas mais pequenas gavetas do teu coração. Assim como um guarda-jóias invisível, um estojo antigo, passado de mão em mão, na mesma família, por sucessivas gerações de mulheres.

Há um poema. Um poema algures onde deixaste o pó das brincadeira da infância, os jogos, as cantigas, as lengalengas. Tudo aquilo que poderia sugerir um mundo organizado entre os sonhos e os seus resultados. Um mundo onde a ternura era uma janela a fechar o vento mais frio do Inverno desse tempo.

Há um poema. Procuro-o nos teus gestos hoje mais comedidos e reservados, na tua voz onde se insinua a força das pausas, a grande nuvem cinzenta do tempo de hoje onde a tristeza fez a sua sementeira multiplicada.

Há um poema. Deve haver mesmo esse poema num lugar que só tu sabes. Pode não ser ainda poema, pode não ter ainda forma mas eu pressinto que ele existe, funciona, respira, articula-se entre as palavra e os sentimentos, sobe das águas mais escuras e lodosas para uma superfície onde a limpidez dita a sua regra.

Há um poema. Persigo-o ansioso todos os dias apenas guiado pela intuição e pelo instinto de julgar o teu rosto o rosto desse poema, sua origem e seu destino, sua força e sua razão de ser.

Há um poema. Eu sei. Hei-de escrevê-lo a partir da límpida pontuação do teu olhar. Amanhã. Ou num amanhã futuro. No dia da tua total revelação. No lugar onde, a partir dos teus olhos, seja possível instalar uma harmonia igual às brincadeiras da infância quando o mundo estava organizado entre os sonhos e os seus resultados.

De um momento para o outro

Cada poema é uma oração no santuário do teu olhar. Eu sei. A tua palavra pode ser a última. O nosso encontro pode não se repetir. Basta um gesto teu e vou-me embora. Estou sempre pronto para pegar no cajado do peregrino. De um momento para o outro pode acontecer. Sei que não posso fingir. Há na tua voz, em certos momentos do dia, um cansaço profundo que vem superar os projectos de tua alegria convocada e reunida.

A melancolia das tardes de Lisboa chega ao teu olhar trazida por um eléctrico que vem do Martim Moniz e segue para os Prazeres. Chega e é como se fosse uma seara de afectos na qual o vento desenha um pequeno mar verde de ondas repetidas entre luz e sombra.

Luz é quando o teu sorriso constrói uma renda de ternura e, sendo esta renda uma projecção da rede, eu sinto-me o pescador cansado a atravessar a praia, pronto a repetir a faina no dia seguinte. Sombra é quando o teu olhar se dilui no vento e na escuridão destes dias levando para os arquivos do silêncio esta amargura acumulada de pequenas traições, faltas de respeito, deslizes nos sentimentos e erros crassos nas relações humanas.

Entretanto o eléctrico que te trouxe a melancolia segue o seu trajecto pelas colinas de Lisboa. Perdido entre convenções, conveniências e mal-entendidos, eu sigo o meu caminho no sentido oposto. Estou cheio de dúvidas sobre o amanhã mas tenho, pelo menos, uma certeza. O futuro está num tempo desconhecido. Só o presente se vive. Eu sei. Não posso ignorar a melancolia que chegou aos teus olhos trazida por um eléctrico amarelo e lento que partiu do Martim Moniz e vai na direcção dos Prazeres.

Cada poema é uma oração no santuário do teu olhar. Eu sei.

Até esse momento

Lembrarás então o pai aqui sentado
A máquina de escrever no chão
Os discos na parede entre a luz e o pó

Irão passar talvez muitos anos
Farás promessas que não vais cumprir
E dirás ruas para voltar noutras horas

Será como quem percorre um caminho
Iluminado pela luz do teu olhar
À procura das palavras subterrâneas

Lembrarás então o pai aqui sentado
Um gelado presente do indicativo
E silencioso que não fala – não esquece

Passarás nas tuas mãos um fio
Será talvez a memória das noites
O tempo do leite e das fraldas

Será como quem procura descobrir
Nos desenhos (nos cadernos escolares)
Uma outra maneira – a tua outra voz

Lembrarás então o pai aqui sentado
Não como pai mas como anónima pessoa
Surpresa a esperar no céu do outono

Terás nas tuas mãos um retrato
O voo das aves por cima da casa
Como inesperada vírgula do tempo

Será como quem procura fragmentos
Num momento ou talvez num lugar
Na tua idade como um portão aberto

Um poema de Vítor Matos e Sá

E porque o nome do poeta veio à baila no Aspirina B, nada melhor que recordar um dos seus poemas, «Para os meus alunos», que integra O Trabalho – antologia poética, e que devia estar em todas as salas de aula deste País (atrevo-me eu, «jcfrancisco», a pensar).

Após tantos anos a ver-vos chegar
e a deixar-vos partir
alheios ou inquietos quanto
ao parentesco das ideias e dos actos
o direito às perguntas e a fonte
das perguntas,
gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome,
saber se estive, perto ou longe,
em vossas dúvidas. É sempre
uma questão mútua de ser.
Uma presença e não
um resultado.

Mas nem sempre soubestes que crescíamos
entre ódios, fanatismos, cobardias,
com olhos vendados pelo conforto
e o medo, com ter-se ou não ter-se
vantagens, aplausos, soluções privadas.
E como foi possível ter razão
sem ter as circunstâncias.

Agora os vosso rostos passam, firmes,
entre visão e facto, entre o amor
e a chegada de todos ao amor.
Mas também morro mais depressa agora.

Por isso gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome. E agradecer-vos a herança
da alegria. E dizer uma vez mais que é sempre
uma questão mútua de ser. Uma presença
e não um resultado.

E os vosso rostos todos
hão-de ajudar-me a envelhecer
sem angústia ou vergonha
e a estar convosco na verdade
e a buscá-la juntos e a cumpri-la.

Do analfabetismo à fúria das viúvas

José Mário Silva assinou no passado dia 2-2-2008 no Diário de Notícias um trabalho jornalístico no qual divulga o «caso» do poeta Amadeu Baptista. Autor de vasta obra poética cuja publicação se iniciou em 1982 (com As passagens secretas), este poeta tem mais de vinte livros publicados e uma antologia intitulada Antecedentes criminais.

Desempregado desde Setembro de 2007, o poeta saiu do Bairro Alto e vive em Viseu onde não paga renda de casa. Ganhou vários prémios literários nos últimos meses num total de 12.500 euros. Este dinheiro evitou-lhe entrar no centro da miséria, está apenas na sua periferia, no seu limiar. Mas também no limiar do vazio e da depressão: «Escrever poupa-me à depressão e à angústia de não ter trabalho» – diz o poeta a José Mário Silva.

Outro dia, soube na Casa Fernando Pessoa que a viúva do poeta Ulisses Duarte convidou os amigos da Tertúlia Rio da Prata para irem lá a casa, munidos de sacos de plástico. Queria ver-se livre de todos os livros, queria a casa limpa. A viúva do poeta Vítor Marques e Sá (falecido em 1975) nem me respondeu quando lhe escrevi em 1982 para pedir uma fotografia para ilustrar um artigo sobre a sua obra. A minha carta, como muitas outras, terá ido para o lixo. Anos depois, a viúva de Nuno Guimarães não atava nem desatava sobre a gaveta de inéditos do poeta morto em 1973. Com a simpática colaboração do actual (ao tempo, 1993) marido da senhora, lá foi possível a Câmara de Gaia levar para a frente uma edição comemorativa de poeta que morreu jovem.

Como se não bastasse o nosso analfabetismo ainda temos que levar com a fúria das viúvas. É muita areia para a camioneta dos poetas.

O regicídio visto por Pascoaes

Descobri hoje no Alfarrabista Bocage na Calçada do Combro a cópia de uma carta de Pascoaes a Unamuno de 2-10-1908. Depois de saudar o «querido amigo», Pascoaes afirma:

«A tragédia de Lisboa foi o desenlace duma luta travada entre o gato e o rato. E, coisa curiosa, o rato matou o gato! João Franco subiu ao poder para eliminar abusos, roubos, sinecuras. O advento do Franquismo representou um tardio arrependimento do Rei Carlos. Calcule a guerra feroz que lhe moveram os partidos (progressista e regenerador) que se viram despojados do Tesouro Público! Guerra de difamação contra o Rei e de ódio contra o Franco. Este viu-se obrigado a recorrer a meios violentos e pouco simpáticos nos tempos de hoje para resistir à onda que o tentava derrubar. Estas medidas violentas exasperaram dois pobres e ingénuos sonhadores (Costa e Buíça) que, num ímpeto que eles julgaram libertador, deitaram a terra D. Carlos e o Príncipe Luís, um adorável rapaz de 20 anos! Resultado: o Franco foi para o estrangeiro por onde anda errante como um fantasma; o Buíça foi para a sepultura, fulminado como um Titã que quis roubar o fogo do céu! No dia 1 de Fevereiro de 1908 havia dois homens em Portugal, João Franco e Buíça; inimigos irredutíveis que se destruíram um ao outro, em vez de salvarem a sua Pátria! Neste momento Portugal é um mistério. É impossível a gente calcular o que virá a ser dele! É uma Pátria que a noite envolve, entregue aos morcegos e às aves agoireiras. Aqui, não se vê um palmo adiante do nariz; é tudo confusão e sombra. Um abraço do seu grande admirador e amigo certo – Teixeira de Pascoaes.»

Um documento curioso, descoberto e lido cem anos depois, num alfarrabista da Calçada do Combro.

Dissertação breve sobre o olhar de Marisa

Há no olhar de Marisa a memória dum tempo entre pedra e água. Nesse tempo tudo o que era essencial à vida (água, pão, azeite, vinho) era arrancado às pedras. Os homens tiravam as pedras da terra para a amanharem e com essas pedras construíam os muros, os redis para o gado, os abrigos dos pastores, as eiras, as cisternas, as pias e os poços rotos. Sem esquecer as presas, muros de contenção de terras onde se plantavam as oliveiras. Depois da pedra, a água. No olhar actual de Marisa passam de novo carros de bois com tonéis cheios de água. Um molho de vides, colocado em cima, evita o desperdício da água nos solavancos do caminho. A água era o bem mais precioso no tempo que o olhar de Marisa recorda. A porta da casa deixava-se sempre no trinco mas a portinhola da cisterna estava sempre fechada a cadeado. Uma enguia no fundo ajudava a matar todos os vermes. E a água sabia sempre bem. Ao lado do escritório de Marisa na cidade existe um restaurante. Nada nesse pão de forno eléctrico recorda à menina-mulher o sabor das «brindeiras» de sábado à tarde no forno da avó. O trigo e o milho eram tratados pelos homens a malhal em lenga-lengas ritmadas na «eira de poço», numa dupla inscrição de tarefas. Depois da ceifa e das descamisadas, completada a ocupação principal, surgem as primeiras chuvas de Setembro e a água, essa primeira água, não vai ainda para a cisterna. Só a segunda água entrará no reservatório. No centro comercial um pianista repete músicas de hotel, mas Marisa ouve na verdade uma canção antiga: «Fui lavar ao Rio Lima/Cheguei lá sem o sabão/Lavei a roupa com rosas/Ficou-me o cheiro na mão». O olhar de Marisa resiste ao desgaste da cidade porque tem dentro de si a memória e a força da pedra e da água.

O José do Telhado não se chama João

Vivo em Lisboa desde 1966 e tenho tido sempre o meu trabalho e a minha casa por aqui: Rua do Ouro, Chiado, Camões, Bairro Alto, Santa Catarina. O mesmo é dizer livrarias, antiquários, editoras, leiloeiros, alfarrabistas. A Moraes, editora dos meus primeiros livros, era no Largo do Picadeiro e passou para a Rua do Século. O jornal onde comecei em 1978 (Diário Popular) era na Rua Luz Soriano. Mas ia nos alfarrabistas. Tem chegado gente nova ao ramo com os seus telemóveis, faxes, E-mails, blogs, sites, boletins. E alguma prosápia muito juvenil. Há dias tive nas mãos um boletim bibliográfico que, embora datado de Dezembro de 2008, é de Dezembro de 2007 até porque estamos em Janeiro de 2008 e ainda não chegámos lá. Um dos livros referidos é sobre a revolta militar da Ilha da Madeira em 1931 mas, por óbvio lapso, o autor refere que a dita revolta procurava «instaurar» a I República. «Instaurar» não; quando muito «restaurar» porque ela já tinha sido instaurada em 1910. Mas onde me pareceu que o absurdo se tinha instalado de armas e bagagens foi nas referências ao Zé do Telhado aqui referido como João do Telhado. Não, não pode ser. José Teixeira da Silva não se chamava João. Nascido em Penafiel no ano de 1816, José Teixeira da Silva veio a morrer em Angola (Sanza) para onde foi degredado pelos muitos assaltos da sua quadrilha formada em 1849. Antes tinha recebido a Torre e Espada por ter salvo a vida do Visconde de Sá da Bandeira. Pelo meio aparece ao lado de Camilo Castelo Branco nas cadeias do Porto e no livro «Memórias do Cárcere». Mas sempre como José Teixeira da Silva, nunca foi João. Por mais voltas que dê um qualquer boletim bibliográfico editado em Dezembro de 2007.

Sobre uma fotografia de Nuno Ferrari

Há um homem que caminha contra o movimento do Mundo.
O trabalho, a pressa de chegar, o jogo das obrigações, deixam-no, por agora, indiferente.
Ele vira as costas ao trânsito da Vida e caminha para a máquina, para o magnésio que lhe dará a revelação duma serena amargura.
A sua vida está suspensa nesse momento preciso.
Lesionado, impedido de jogar, toca nele, dentro dele, uma música triste.
Por isso se afasta do rio, do silêncio da água ou da neblina da manhã já alta.
As colunas do cais são um termómetro gigante a medir a amargura duma exclusão.
Há um homem que caminha contra o movimento do Mundo.
Apanhado na trama secreta dum acaso infeliz, desloca memórias de tardes entre sol e pó, à procura dos longos abraços dos companheiros a correr do outro lado do campo.
Por isso não olha em frente a objectiva, não se enquadra nas sombras, nas rugas, na duvidosa estrada do futuro.
Imaginamos que ao lado passaram aves, rápidas, tensas, como urgentes vírgulas no tempo deste homem. Passam ou passaram a caminho do Sul mas este homem não teve a esperança do calor, nem do sal das praias nem do corpo efémero das ondas.
O seu olhar era amargo, demasiado real para o magnésio da verdade, demasiado forte para a revelação dum pequeno mundo a ser destruído.

«Primeira pessoa» de Pedro Mexia

Todo o cronista aspira a ultrapassar o efémero do jornal ou da revista e juntar as suas crónicas em livro. Antes publicadas na «Grande Reportagem», há neste conjunto de tudo um pouco. A começar pela crónica em si: «Os textos de quem escreve vêm do mesmo sítio das conversas dos conversadores ou das recordações dos anciãos: desse sótão no qual se empilham murmúrios, recortes, quinquilharia.» E passando pelo autor, ele mesmo, o próprio: «Um gordo não é exactamente um homem: é um bom amigo. Um bom tipo. Horrorizado, chego à conclusão de que quase todas as pessoas que me conhecem me acham confiável, compreensivo e relativamente inofensivo.» Entre a crónica e o autor surge o Mundo: «O nosso mundo compõe-se de três categorias: aqueles de quem gostamos, aqueles de quem não gostamos e aqueles de quem gostamos porque gostam de nós.» Nem tudo é bom; às vezes aparecem inimigos: «O inimigo, na sua cabeça, vê a outra pessoa como uma caricatura demoníaca, desprovida de méritos, de atenuantes, mesmo de humanidade. O inimigo espreita cada passo. Constrói em negativo, uma relação quase amorosa.» E, se estamos no Mundo, há nele lugares: «Há quem deteste o ‘Snob’. Sei de duas ou três pessoas que dizem, enojadas: ‘Nem pensar, não quero ir a um lugar frequentado por jornalistas’. Não anuncio grande novidade se disser que são os jornalistas que dizem frases assim. Compreendo que as manchetes devem ser lidas de manhã, quando compramos os jornais na banca da esquina e não espiolhadas de véspera na maré das redacções que desaguam para um bife tardio e um copo reparador.»

Editora: Casa das Letras

Morreu um menino grande

O Júlio era um menino grande que andava aqui pelo Camões, pelo Calhariz e pela Calçada do Combro. À maneira dos galegos do século passado mas sem as cordas nos ombros, o Júlio, menino grande da nossa rua, fazia uns fretes e ajudava as pessoas com a sua força braçal. Caixotes, volumes e recados eram levados pelo Júlio ao destino com perfeição e rapidez. Uma vez por ano o Júlio aparecia na procissão da Semana Santa aqui na igreja de Santa Catarina. A capa que lhe vestiam e o lugar que lhe permitiam tomar na procissão, ora na espia de um estandarte ora duma bandeira, era uma espécie de ressalva de uma vida passada no lado inferior dos alcatruzes. O Júlio tinha 62 anos mas era um menino grande. O seu sorriso na procissão era bem o sorriso bom do menino que uma vez por ano se sentia igual aos outros. Mas os alcatruzes da vida que nunca o puxaram para cima pareciam estar combinados com os alcatruzes do elevador da Bica. O Júlio acabou por cair no buraco da casa das máquinas do elevador. Costelas partidas, contusões diversas, lá foi para o Hospital. Mas por pouco tempo, que os Hospitais de hoje não podem ter as pessoas muito tempo por causa da redução de custos. Por isso, numa casa fria, sem medicamentos, sem comida, sem um olhar amigo, o Júlio, esse menino de 62 anos, morreu. Morreu de solidão porque a assistente social que lá foi com a Polícia voltou para trás ao ver que ninguém abria a porta. Na próxima procissão da Semana Santa o Júlio já não vai segurar a espia do estandarte ou da bandeira de Santa Catarina. Não morreu cortado por uma roda de navalhas como a sua padroeira mas cortado por lâminas de solidão, de vazio e de desespero. E todos nós somos um pouco responsáveis por isso.

Um rumor de água

Na voz de Fernanda há um rumor de água. Estamos na cidade, passa um eléctrico com turistas a descer uma das colinas de Lisboa, há um carro dos bombeiros sapadores com a sua pressa e as suas sirenes a subir a calçada, alguns jovens estudantes discutem em voz alta o seu pequeno mundo entre mochilas e telemóveis mas, ao mesmo tempo, na voz de Fernanda há um rumor de água. Será a água do Rio Távora, a que sobe no Inverno ao levantar uma neblina portátil quando as águas batem nas pedras gigantes das margens.

Se fosse Verão a voz de Fernanda teria a frescura das fontes onde ainda hoje se bebe por um púcaro de barro vidrado, uma água que mata as sedes mais antigas de quem secou nos lábios o pó dos caminhos para o trabalho e para a romaria.

Mas é Inverno. O sol não aquece os intervalos dos aguaceiros trazidos pelas nuvens mais escuras do lado do Oceano Atlântico. Duas turistas italianas, de mapa de Lisboa em riste, procuram uma livraria que venda partituras musicais. A vida acontece nestes encontros e desencontros. O Inverno teima em continuar como um calendário repreendido.

E a voz de Fernanda, com o seu rumor de água, liga de novo dois mundos separados pela solidão, pela distância e pelo tempo. Tal como numa prece ou num poema, Fernanda vai ligando de novo esses mundos separados. Há uma alegria convocada na Cidade pelo rumor da sua voz que veio das Serras. Assim, como se fosse a capa de um livro e não a realidade real da personagem desta crónica. «A Cidade e as Serras». Na pressa tantas vezes sem sentido da Cidade há uma voz que coloca de novo a funcionar a harmonia do Mundo das Serras. Na voz de Fernanda há um rumor de água.

«Branco de Quintal» de Fernando Teixeira (Baião)

Um antepassado nasceu-lhe no século XVII em Angola, no quintal dum militar holandês, Van Cappel. É o pretexto para uma digressão pela História de Angola desde os tempos da Companhia das Índias Holandesas e de Salvador Correia de Sá até à actualidade do século XXI.

Um excerto sobre o tempo de hoje: «O tão falado Homem Novo parece que é cada vez mais velho, arrastando-se de muletas, come o que lhe dão, sobretudo o milho estragado, o frango deteriorado e gripado, a carne das vacas loucas, bebe o leite com o prazo caducado, veste as roupas de fardo que a comunidade internacional envia generosamente. Toma medicamentos que já ninguém quer. Dorme com o lixo, acorda com a miséria. No entanto nem tudo é mau, fizeram-se algumas coisas boas, quanto mais não seja, a manutenção da unidade nacional e o alcance da Paz. Tentar corrigir muitos dos erros que se cometeram é um objectivo. A geração mais velha, a geração da luta contra o colonialismo, das matas, das prisões e da clandestinidade, da construção da independência, aquela que alcançou a paz e a tenta consolidar, já cumpriu o seu papel político e precisa passar o testemunho. Só se fala das coisas más, dizem alguns, mas o que se há-de fazer, dizem outros, as más são mais que muitas. A culpa foi da guerra, clamam outros, mas isso não justifica tudo, rebatem os inconformados. Ainda se ouve dizer que grande parte deles nada fazem, o que é mau, e nada deixam fazer, o que é péssimo mas atenção, muita atenção, a vítima nunca esquece o mal que lhe fazem. – Quem atira a pedra é quem se esquece mas quem levou a pedrada não se esquece.»

Pangeia Editores / Chá de Caxinde Edições
Prefácio de Francisco Soares
Apresentação de Rodrigues Vaz

«SOS! Será que estou a ficar racista?» de Manuel Geraldo

Metro de Lisboa. Um negro corpulento insulta («Querias era o banco todo para ti! Racista!») um jornalista que lhe chamara a atenção para o espaço indevido que estava a ocupar.

Manuel Geraldo, o jornalista, faz em «SOS! Será que estou a ficar racista?» (Editora CEPAS) uma compilação de reflexões e recortes de imprensa sobre uma realidade dolorosa: o decepcionado percurso do homem africano depois das independências. Um livro desiludido de um jornalista que dedicou a vida a lutar contra opressões rácicas, éticas e culturais.

Aí lemos, por exemplo, o que Mia Couto escrevia no jornal «A Capital» em 2004: «É um facto que os europeus criaram um sistema colonial e de escravatura que levou África para uma situação desastrosa, mas isso foi sempre feito a duas mãos dado que houve sempre africanos que colaboraram e participaram na construção dessa situação como um sistema. Não devendo haver por isso a visão de nós somos os puros e eles os que estragaram.»

Também em «A Capital», o cantor e compositor Fausto afirma numa entrevista conduzida por Viriato Teles: «No tempo colonial a mandioca dividia-se, agora já nem a mandioca se pode partilhar. É um povo que está completamente abandonado e o melhor é não opinar sobre os governantes. A guerra civil teve mais tempo do que a guerra colonial e, portanto, quando um povo se vê assim, a gente tem de apontar o dedo a quem está no Governo. A independência de um país concorre sempre para a felicidade, quem se vê livre do jugo de alguém tem de ser mais feliz a seguir. Com a infelicidade do povo angolano chegamos à conclusão de que não houve independência.»

Varanda das meninas

No beijo que me deste nessa despedida
Ficou o teu tempo todo concentrado
Parte da tua alma, toda a tua vida
Em luz sem presente fez-se só passado

Havia a varanda das belas meninas
Vendo os mascarados, mimos no passeio
Depois de atirarem muitas serpentinas
Que à casa ligavam árvores do meio

O meio que agora já só tem asfalto
E os fumos dos carros, feio e doentio
Onde uma sirene me traz sobressalto
E onde chega a névoa que sobe do rio

Foi encontro breve, como de rotina
Chamavam tarefas do teu dia-a-dia
No beijo voltaste como a ser menina
E a Morais Soares foi a da Alegria

O teu cabelo

Mesmo quando adormeces tão cansada
O teu cabelo não repousa mas continua
Instala durante as horas da madrugada
Uma montanha no alcatrão da tua rua

Há nele toda a força dum compêndio
Transporta várias lições de geografia
Umas vezes tem o fogo dum incêndio
Noutras há nele a chuva e a neve fria

Tudo depende do estado da humidade
Os ventos, as altas e as baixas pressões
Entre madeixas que existem na verdade
E o relevo criado nas minhas emoções

Aos poucos o mundo passa ao cinzento
Tempo pleno de sombras e de segredos
O teu cabelo está sempre em movimento
Na carícia tenho o clima entre os dedos

O Estado a que isto chegou

Jorge Luís Borges escreveu um dia que os argentinos não têm a noção de Estado. Não só porque nunca leram Hegel, mas também porque a própria ideia de Estado é, para eles, uma completa abstracção. Para os argentinos roubar dinheiro ao Estado não é um crime.

Neste fim de ano, conjugam-se duas situações (uma pública, outra privada) para eu ter cada vez mais repugnância pelo Estado português, o Estado a que isto chegou. Pública é a ofensiva da ASAE contra um ponto de referência nas minhas deambulações lisboetas, em que desde 1966 pratico o ‘desporto líquido’ – como diz o Baptista-Bastos. Fecharam a Ginjinha do Rossio e fico à espera do próximo. Será o Eduardino na Rua das Portas de Santa Antão? Será o Pirata nos Restauradores? Será o British Bar no Cais do Sodré? Ninguém sabe.

Mas eu sei que a minha repugnância perante esta ofensiva de macaquear o politicamente correcto de Bruxelas me dá cada vez mais angústias no meu quotidiano lisboeta. A história privada é uma multa de 50 € que fui obrigado a pagar porque em 2004 não paguei 324 € por conta das minhas receitas desse ano. Não paguei porque sabia que ia receber, como recebi de facto 373 € no final. A máquina é tão monstruosa que não há nada a fazer. É pagar e calar. Se não pagar essa multa, podem penhorar-me a casa que eu demorei 25 anos a pagar em prestações.

Sinto-me cada vez mais argentino no sentido em que do Estado não espero nada de bom. A ASAE e as Finanças são os pontos negativos de uma realidade que me repugna também porque nada posso fazer contra ela. Agora Luís Filipe Menezes vem dizer que quer acabar com o Estado até 2009. Vamos a ver, vamos a ver. Há sempre uma esperança. Nem tudo é negro no Estado a que isto chegou.

Terceiro retrato de Paula F.

Teu corpo é uma paisagem protegida
Que não se lê num livro ou na Escola
A origem do prazer e a fonte da vida
Situa-se entre as calças e a camisola

Olho e vejo as dunas, vento e areia
Condições de humidade e pressão
No teu corpo é sempre maré-cheia
As ondas trazem espuma e paixão

Mostravas os quadros de uma sala
Mas a obra passou-me despercebida
E noutra proporção e noutra escala
Mais valiosa do que a Arte é a Vida

O poema procura mas não alcança
Desenhar sentimentos em confusão
Sais pelo jardim em passo de dança
E eu fico nos corredores da solidão

O teu mundo na garrafa

O vinho é mais que vinho é também terra
Nesta garrafa se concentrou o teu mundo
Intervalo da luz do rio para o frio da serra
Onde tudo é mais verdadeiro e profundo

Onde as pedras formam a lareira dum lar
Onde a água é a origem e a força da vida
Vejo-te com arte e paciência a cozinhar
A receita local é a perfeição perseguida

Este mundo está no bilhete de identidade
Onde os teu nome está de facto registado
As palavras chegam do campo à cidade
Andam contigo na mala por todo o lado

As castas que estão na origem do vinho
Trazem com as uvas a luz do teu lugar
Convite a que ninguém fique sozinho
E mesmo num dia triste venha cantar