Ter graça, cair em graça ou ser engraçado – não é para quem quer, mas sim para quem pode. E nem todos podem. Há tempos corria uma tarde amena e, perante três mulheres (de 22, 30 e 57 anos de idade) que folheavam um tratado de Botânica, julguei oportuno atirar para o ar uma frase irónica e disse com o ar mais sério que me foi possível arranjar: «As mulheres são todas parvas».
Julguei então que o facto de a palavra latina ‘parva’ aparecer com frequência nos nomes científicos das plantas, dos arbustos e das árvores ajudaria a abrir as portas para um sorriso cúmplice e, já agora, em triplicado.
Equívoco total o meu. As duas mulheres mais novas sorriram, mas a mais velha fez beicinho e advertiu de imediato: «São todas parvas se forem como eu. Eu sou parva porque penso mais no outros do que em mim».
A partir daqui estava tudo explicado. A brincadeira só existe se for compartilhada. Até lá, até à sintonia de ideias, é um equívoco prolongado com cada um no seu papel e a puxar para o seu lado. Neste caso, eu estava na ironia e a terceira senhora estava num registo (digamos) sério e olhando apenas ao óbvio.
Um dia o grande escritor Santos Fernando (autor do belíssimo «Os grilos não cantam ao domingo») escreveu que o «humor não passa de uma lágrima entre parêntesis». Pelos vistos a ironia também. Ele tinha todas as razões para escrever esta magoada constatação: eram seus amigos de peito os escritores Luiz Pacheco e Ferro Rodrigues. Eles também sabiam que ter graça, cair em graça ou ser engraçado não é para quem quer.