Bolo de chocolate e bombas

Depois de dois meses a falar da urgência de dar prioridade à América (pressupunha-se que em relação ao resto do mundo, o que significaria um fechamento) e das boas intenções dos russos, que não queria antagonizar, mas com os quais queria cooperar (ou seja, eles que tratassem dos das cabeças cobertas lá dos desertos), Donald Trump dá uma volta de 180º, bombardeia uma base aérea na Síria (dando a ordem enquanto saboreava bolo de chocolate em Mare-a-Lago), envia navios de guerra para a Coreia do Sul, ameaçando a Coreia do Norte, lança uma bomba de grande potência no Afeganistão contra esconderijos do Daesh, reconhece a importância da Nato, depois de dizer que estava obsoleta e de envergonhar os seus membros, e diz-se pronto a admitir o Montenegro nesta organização, contrariando os russos. O que se passa?

Perguntas e mais perguntas:

  1. Descobriu um passatempo alternativo ao golfe que o pode manter mais tempo na Casa Branca?
  2. Descobriu os prazeres do poderio militar do seu país?
  3. Agora que tomou o gosto pelos “jogos de guerra”, não vai parar?
  4. Terá neste divertimento a participação (e o incentivo) da filha Ivanka?
  5. Nada disto e está apenas a ser levado pelos falcões militares que o rodeiam?
  6. Saberá onde fica o Afeganistão, uma vez que ontem confundiu a Síria com o Iraque?
  7. Estará a ficar cheché? Nunca deixou de estar?
  8. Faz tudo isto para fingir que se está a distanciar da Rússia?

Avalanche de santos

Leio na France 24 que o padre que foi assassinado por dois jihadistas numa igreja na Normandia, Jacques Hamel, enquanto dizia a missa para meia dúzia de fiéis, poderá ser em breve beatificado, o que constitui o primeiro passo para se tornar santo. Os dois miúdos que acompanharam Lúcia nas suas alucinações também estão na calha para a canonização.

Ou o estatuto de “santo” está a perder valor, ou a igreja católica está a precisar desesperadamente de mártires (o padre seria um deles, pois, estando a trabalhar, automaticamente “morreu pela sua fé”) ou, terceira hipótese, a igreja anda algo desorientada com a concorrência e a pressão dos muçulmanos em matéria de mártires.

Mas, nesse caso, por que não beatificar todas as vítimas de camiões e automóveis (e aviões) utilizados pelos terroristas islâmicos nos últimos tempos? É certo que andavam simplesmente a passear e distantes do objectivo de “defender a fé cristã”, mas caramba. Foram assassinados em nome de uma seita religiosa antagónica.

Não me posso impedir de imaginar e de me intrigar com a consequência lógica de um atropelamento de um qualquer grupo de padres católicos a caminho do Vaticano por um camião conduzido por um tresloucado jihadista. Passariam todos a santos?

Os “deuses das moscas”* apenas numa semana e em meio urbano

Ainda a propósito da viagem de finalistas do secundário a Torremolinos, uma pessoa amiga fez-me chegar o seguinte texto, escrito por uma mãe cujo filho foi, há poucos anos, a uma viagem do género.

Aquilo que eu sei sobre as viagens de Finalistas do Secundário

O texto foi publicado num blogue para mim desconhecido até agora (“destinoomulher”). Transmite uma visão prática e muito terra a terra desta problemática, que não deixa de ter interesse discutir. No fim, deixa sugestões alternativas a estas saídas turísticas em massa. São sugestões bem intencionadas, eventualmente bem acolhidas por alguns, mas, a meu ver, esquecem o atractivo que é, para a maioria dos jovens, conhecer outros (e quantos mais melhor) para além dos da própria escola.

Mas como resolver isto? O acompanhamento por um maior número de responsáveis capazes de controlar o cumprimento das regras básicas parece-me fundamental.

*”O Deus das Moscas“, livro escrito por William Golding

Contra as paixões e a decadência

A concomitância do acórdão sobre um recurso de Armando Vara e do despacho de arquivamento do inquérito a Dias Loureiro permitiu captar um luminoso registo da hipocrisia política e cultural que molda o espaço público. O objecto de estudo chama-se Marques Mendes. Eis o que ele consegue verter de rajada em 5 minutos:

– Armando Vara está a ser alvo de uma mudança de paradigma nos tribunais portugueses. Essa mudança na Justiça é positiva, é até excelente. Resulta de três factores: (i) “acabou a impunidade”; (ii) “a sociedade exige punições mais pesadas para os crimes de colarinho branco”; (iii) “os tribunais querem impor uma cultura do exemplo”.

– Dias Loureiro está a ser vítima de um mau funcionamento da Justiça. A começar pela duração do inquérito, oito anos, e a terminar nas suspeições que a procuradora incluiu no despacho, impossíveis de esclarecer e apagar. “Na Justiça não se pode agradar a gregos e troianos, isso é na política“.

Face a esta importante figura da nossa elite política e mediática estava uma jornalista que concordava com tudo o que lhe aparecia à frente. Para ela, a cena com o Vara era fixe, a cena com o Loureiro era foleira. A respeito do primeiro, a sua preocupação era a de saber se o bandido ainda poderia escapar aos merecidos 5 anos na choldra. A respeito do segundo, ela queria apuramento das responsabilidades, castigos para quem fez mal ao senhor. Ora, porquê esta atitude? Porque lhe disseram que ela está ali só para concordar? Porque calhou haver uma sintonia de pensamento entre a sua pessoa e a do comentador? Mas mesmo que haja concordância, por que caralho acha esta jornalista que o deve expressar e – o que é deontologicamente crucial – por causa disso abdicar de ser crítica perante as declarações que está a ouvir? Nunca o saberemos.

Marques Mendes não gosta de Armando Vara, por várias razões, e gosta de Dias Loureiro, por várias ligações. A partir desta configuração afectiva, os seus raciocínios decorrem da seguinte forma:

– Armando Vara indivíduo, sujeito e pessoa desaparece, desaparecendo igualmente a realidade concreta do seu processo judicial, ficando apenas a sua dimensão de condenado em tribunal. Este é um exercício de abstracção que permite depois o enfoque e realce numa abstracção superior, a da “Justiça”, dos “tribunais”, dos “juízes”, os quais são apresentados como um colectivo. O uso da expressão “mudança de paradigma” intenta diluir a responsabilidade individual dos juízes que condenaram Armando Vara num processo específico, com umas certas provas e não outras, com uma certa interpretação dessas provas e não outra, com uma certa valoração jurisprudencial dos crimes implícitos e não outra. Por cima disto, Marques Mendes justifica a lógica da “mão pesada”, explicando que se trata de um agravamento penal bondoso pois está a nascer de uma suposta “impunidade” que reinava no passado, e também da crise económica que afligiu e aflige tantos e a qual pede corpos dos ricalhaços pendurados pelo pescoço nas árvores, e, por fim, do papel paternalista que não só esperamos como desejamos que os juízes tenham em relação à sociedade, a qual está cheia de malandros a precisarem de castigos “exemplares.” O que está aqui implícito nesta juliana de pressuposto populistas, demagógicos, facciosos, maniqueístas e retintamente mentirosos dava para um “Prós e Contras” com a duração de seis meses em emissão contínua.

– Dias Loureiro indivíduo, sujeito, pessoa é posto em primeiro plano no confronto com as decisões da Justiça. Aqui, os actos do Ministério Público são inadmissíveis por estarem a violar os direitos de um dado cidadão. Nenhuma justificação abstracta pode ser invocada para legitimar o ataque aos bens concretos que foram atacados no despacho de arquivamento. O poder da abstracção é utilizado para defender o indivíduo contra os malefícios concretos oriundos de alguém particular na instituição. De repente, a aludida “mudança de paradigma” que justificava a “mão pesada” contra os crimes económicos de um tal Vara desaparece por completo do radar. Mendes ergue-se feito um leão contra o Ministério Público porque este não reuniu prova sequer para avançar com uma acusação. É todo o Estado de direito que está a ser conspurcado e isso ele não admite, seja com Dias Loureiro, seja com quem for, o mais borrabotas.

Será? Acontece que não sabemos o que Marques Mendes pensa acerca do modo como se chegou a uma justificação para os supostos crimes de Vara, e isto ainda antes, muito antes, de analisarmos a gravidade da pena face à matéria do eventual ilícito. Sabe Mendes se, de facto, houve algum crime cometido por Vara? Ou ainda melhor, conhece Mendes alguma prova de que Vara recebeu dinheiro do sucateiro? Nem ele conhece nem conhece o tribunal que condenou Vara, mais o outro que confirmou a pena. Vão meter Vara na cadeia durante 5 anos sem haver certeza de ter ocorrido uma qualquer ilegalidade. Onde está a paixão de Mendes pelo Estado de direito face a um processo que usa a liberdade de um cidadão como meio para agendas políticas e corporativas? Quem permitiu aos tribunais essa “mudança de paradigma” celebrada por Marques Mendes na ocasião em que a vê seleccionar um seu adversário político para o castigar muito para além da racionalidade judicial?

As circunstâncias em que toda a sociedade, todo o regime, está a aceitar que se trate Vara deste modo são fáceis de expor. E contam-se pelos dedos de meia mão aqueles que revelam colocar o primado da Lei democrática e da decência comunitária acima das paixões e da decadência.

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A história do cavaquismo está por fazer

A entrevista a Dias Loureiro – “Temos um Presidente com opinião sobre tudo menos os direitos fundamentais dos cidadãos” – oferece duas passagens geradoras de granítico silêncio no comentariado, seja à direita ou à esquerda:

- À boca pequena toda a gente diz que há uma central de informação em tal lado, as pessoas são estas e aquelas... Eu não vou dizer porque ainda vou ter outro processo a seguir, porque não posso provar também, não é? Mas nada acontece, a justiça tem sido incapaz de se investigar a ela própria nas coisas mais comezinhas.

- Cortei com um só amigo, um grande amigo. Um amigo a quem devotei uma amizade incondicional nos últimos 32 anos. Um amigo a quem dei, em tudo, o melhor de que fui capaz. Admirava-o como pessoa e como político. Continuo a admirar a sua obra política como primeiro-ministro. Falo do professor Aníbal Cavaco Silva. Da pessoa. Não lhe falei durante todo o segundo mandato presidencial e quando terminou as funções procurei-o para lhe dizer por quê me afastei dele. Disse-lhe que fui sempre leal à amizade que lhe dediquei. Disse-lhe que ele não o foi em relação à amizade que eu esperava dele. Disse-lhe que tenho a consciência tranquila. Agora a vida segue. A dele e a minha. Sem rancor. Às vezes lembrarei a mágoa.

Na primeira citação, Dias Loureiro está a declarar que tem conhecimento dos nomes dos agentes de Justiça que cometem crimes em conluio com jornalistas e órgãos de comunicação social. E acrescenta que essa informação a que se refere está na posse de muitos que a repetem em círculos privados, na “boca pequena”. Na segunda citação, Dias Loureiro humilha Cavaco Silva e mostra qual dos dois é que detém o poder dentro da relação. Pista: não é o orquestrador da “Inventona de Belém”.

Antes de irmos às ilações que estas duas citações legitimam, uma nota sobre a figura. No seio do PSD sabe-se muitíssimo bem como é que o Manuel de Aguiar da Beira subiu dentro do partido. Corriam anedotas ao longo das décadas sobre os tempos de Coimbra que eram contadas por militantes e dirigentes laranjas. Este aparato sórdido, pois as histórias eram sórdidas, ligava-se com a percepção de que ele se tinha tornado na eminência parda do cavaquismo. E o que foi o cavaquismo? Foi algo sem o qual não teria nascido o BPN, por exemplo, daí a teia de relações entre os seus protagonistas, os da corte de Cavaco e os do banco, sendo que nalguns casos eram exactamente os mesmos. Donde, quando rebentou a crise do BPN, e se deu a intervenção do Ministério Público, muito boa gente jurava que seria impossível tocar em Dias Loureiro. A lógica sendo a de que, se ele caísse, inevitavelmente cairia Cavaco. E jamais a oligarquia deixaria que isso acontecesse. Os factos vieram dar razão a estas profecias, pois Dias Loureiro acaba de ver um bizarro e escandaloso despacho de arquivamento a, para todos os efeitos práticos, ilibá-lo de crimes que o Ministério Público mantém terem acontecido por sua responsabilidade, por um lado, e Cavaco permite-se gozar com o regime e a comunidade, vindo mentir pateticamente a respeito de um crime que igualmente cometeu, pelo outro. Do ponto de vista da opinião, são dois escroques. Do ponto de vista da Lei, dois inocentes. E é a Lei o que mais importa.

Voltando às ilações, a primeira consiste nesta constatação: nem quando um cidadão declara ter conhecimento da prática de crimes e de quem são os criminosos tal impele o Ministério Público a agir caso as implicações corporativas e políticas lhe desagradem. Joana Marques Vidal não quer saber se Dias Loureiro mente ou se está na posse de uma valiosíssima informação que permitiria, finalmente, apanhar um dos criminosos na origem das violações do segredo de Justiça? O corolário é o de que os partidos, o Governo e o Presidente da República ficam automaticamente na categoria de cúmplices pela sua passividade e silêncio. A segunda remete para a História de Portugal e, em particular, para a história de Cavaco Silva primeiro-ministro e Presidente da República. O que Dias Loureiro quis mostrar foi que o seu “grande amigo” o atraiçoou e que, portanto, há uma história secreta entre os dois que nunca veio a público. Conhecer essa história corresponderia a conhecer os meandros da oligarquia portuguesa dos últimos 30 anos.

A construção de uma “percepção social” contra um arguido parece-me crime

No que representa mais um tijolo na construção de uma percepção social negativa sobre o arguido, com base na qual e invocando-a muitos juízes decidem, o Ministério Público dá outra vez notícia, na revista Sábado, das suas suspeitas e teorias sobre José Sócrates. Apesar de o artigo começar com uma referência ao último interrogatório e de nos ser dito que Sócrates esteve nada menos do que cinco horas e meia a “contrariar de forma contundente” as acusações dos procuradores, o que é facto é que nenhuma dessa contra-argumentação nos é transmitida. E foram cinco horas e meia. Segundo o jornalista/porta-voz, o documento do MP, para além do pormenor de nunca mencionar valores definidos para as transacções de dinheiro vivo, refere apenas (da parte do arguido) a negação peremptória das teses do MP, a negação de intervenções em operações de adjudicação, a queixa de falta de provas e o “pedido de realização de novas diligências” por parte  de Sócrates, mas sem que “o resumo do depoimento identifique do que se trata“. Pois é, não interessa o que disse nem o que propôs. Não interessa, claro, ao Ministério Público para efeitos de criação da tal percepção. De quando em vez, o jornalista lá vai dizendo, por exemplo a propósito do caso PT: “O problema é que Hélder Bataglia e Joaquim Barroca, dois dos delatores do MP, desmentem que este negócio abortado fosse um esquema para transferir dinheiro para José Sócrates“. E eram delatores, note-se. Ao longo do artigo há outros pequenos problemas como este. Mas é tudo.

Confrontados assim, avassaladoramente, com a perspectiva do Ministério Público, afigura-se-nos uma lacuna grave, porque propositada, a ausência da contra-argumentação. É bizarro. No fundo, convidam-nos para um julgamento e mandam-nos sair antes do contraditório. Por outro lado, qualquer pessoa informada e com juízo defenderá que as teses das partes não são para andar a ser esgrimidas em revistas. Há locais próprios para o efeito e chamam-se tribunais.

Quanto à seriedade dos jornalistas que deveriam exigir as respostas concretas do arguido nos interrogatórios como condição para a divulgação das teses do MP, infelizmente passo. O jogo é sujo mas envolve receitas chorudas para a Cofina. E se são as próprias autoridades judiciais a convidarem a empresa para o festim… e para o crime, com que argumentos se recusa e se vai ser decente? Seria preciso haver ética. Está à vista que não há.

A mim, que fico sempre sem saber o que têm a dizer os visados pelas operações do MP, este tipo de artigos, sempre iguais, provoca-me nojo e revolta. Por que razão estas técnicas de denegrimento não são consideradas crime? Um indivíduo é obrigado a ler na comunicação social o que o MP entende divulgar sobre a sua suposta malvadez, no fundo o seu julgamento, e não tem o direito de contra-argumentar, nem pode, porque o julgamento não pode ser feito assim na praça pública! Será isto o Estado de direito? A Procuradora-Geral incentiva esta prática? O Presidente da República entende que tudo está bem e nos conformes ou tem medo?

O melhor e mais fundo da política

Paulo Baldaia, honra lhe seja, foi a primeira figura grada da imprensa, e até agora a única adentro do meu conhecimento, a publicar uma opinião sobre o inadmissível despacho de arquivamento do inquérito a Dias Loureiro e Oliveira Costa. E nela deixa a pergunta que vai ao essencial de parte do que está em causa:

Alguém quer saber? Alguém com responsabilidade e poder para mudar o que está mal é capaz de explicar ao Ministério Público que um despacho de arquivamento não deve incluir um rol de acusações que a própria procuradora não pretende provar em tribunal?

O Estado de direito está a ser corrompido. Alguém quer saber?

Ora, ninguém quer saber. Ninguém quer explicar seja o que for ao Ministério Público que aluda, nem que seja no reverso das palavras ou pelo aroma, à defesa do Estado de direito e da cidadania, da dignidade e da liberdade. Ninguém. Alguém no Governo? Não temos conhecimento. Alguém nos partidos, qualquer partido? Não temos conhecimento. Alguém na academia? Talvez, mas, por favor, falem um bocadinho mais alto e com mais regularidade. Alguém em programas de televisão? Por vezes, mas sem conseguirem deixar de estar a representar para a televisão. Alguém na comunicação social, como aparentemente está aqui a fazer o Baldaia? Nim. É ler o seu texto e constatar como a intenção é boa mas a análise é superficial, a denúncia é pífia.

Não há escândalo perante um despacho escandaloso. Oito anos de investigação produziram uma sentença subjectiva que o Ministério Público deixa lavrada em esterco jurídico. A procuradora responsável pelo inquérito vem dizer à sociedade que os arguidos não devem gozar da presunção de inocência apesar da falta de provas para sequer avançar com uma acusação. Ficam para sempre condenados à suspeição, sem qualquer possibilidade de recurso ou cumprimento da pena.

Creio que o Paulo Baldaia, se está mesmo interessado neste assunto, pode contribuir com algo mais do que o meritório grito de indignação. Poderia, por exemplo, ajudar a compreender por que é que a Cofina/Correio da Manhã é esse esmagador fenómeno de popularidade e influência social que domina Portugal. Que alimenta um clima de caça a certos alvos políticos através de técnicas de calúnia que depois surgem referidas implicitamente pela própria Justiça para justificar certas penas. Tal como acaba de acontecer com Vara, um cidadão que se tornou num saco de encher no espaço público há anos e anos, o qual recebeu do Tribunal da Relação do Porto a confirmação de uma condenação inédita pela sua gravidade face aos supostos ilícitos em causa. Os juízes invocam um “sentimento de reprovação social” para com a criminalidade financeira que lhes serve para defenderem a pena de prisão efectiva durante 5 anos. Pois bem, onde foram esses juízes encontrar os indícios do tal sentimento de reprovação social? Houve reais, concorridas, sonoras manifestações nas ruas? Recebem correspondência da população a falar do assunto? Frequentam as redes sociais e andam a contar os comentários furiosos a esse respeito? Dispõem de qualquer metodologia estatística ou basta-lhes molhar o dedo na boca e esticá-lo à janela para saberem donde sopra o vento? Alguém faz a mais pequena ideia de quais sejam os processos sensoriais e cognitivos usados pelos juízes para detectarem “sentimentos”?

A Justiça portuguesa, tanto no Ministério Público como nos tribunais, está a ser fonte de crimes. A calúnia é crime. O preconceito pode ser criminoso ao gerar injustiças. Se o jornalismo não quiser ser cúmplice destes crimes tem de combatê-los fora das secções de opinião. Porque precisamos de outra munição. Precisamos de investigar aqueles a quem confiamos as investigações e os juízos sobre a liberdade e o património. É que a Justiça pertence ao melhor e mais fundo da política.

Pândegos e amofinados em simultâneo

Asfixia, claustrofobia e, ainda há pouco, manipulação democrática. Estas pessoas da oposição, e quando na oposição, fazem questão de dizer que se sentem asfixiadas, enclausuradas e até manipuladas à mínima contrariedade. Não tenho pena da maneira como dizem que se sentem, até porque se trata de teatro, mas o vocabulário arrisca-se a escassear. Como não estão no governo, queixam-se desta maneira algo infantil. Quando tudo decidiam a seu bel-prazer, invocando a Tróica, e todos nós nos sentíamos verdadeiramente asfixiados e impotentes, a ponto de até o PCP ter desistido da agitação e ter assumido uma espécie de síndrome de Estocolmo (mas podiam ser resquícios da aliança tácita do passado), eles sentiam-se livres e eram felizes. Agora amofinam-se.

Têm, porém, reconhecido que todo o sufoco que sentem acontece em democracia. Menos mal. Amenizam a acusação, têm pruridos. Hoje, perante o brandimento da palavra «ditadura» na Assembleia, aguardo com expectativa se o agravamento da situação de mal-estar no sentido de uma mudança de regime – para uma ditadura (que mais ninguém vê) – os levará a manter o qualificativo «democrática». É uma curiosidade minha.

Vem isto a propósito do episódio de abandono da Comissão de Orçamento e Finanças pelo PSD, ocorrido hoje, devido à exigência de «simultaneidade» para dois cálculos da UTAO, e noticiado aqui (segundo a jornalista, com base nos relatos das partes envolvidas).

“Os deputados reuniram para debater o requerimento do PSD que, na sequência do anúncio da venda do Novo Banco à Lone Star, pedia à UTAO um cálculo dos custos para o Estado do alargamento dos prazos do empréstimo até 2046 ao Fundo de Resolução. Mas esse é um cálculo que, por si só, para os partidos da esquerda “não fazia sentido”, disseram aos jornalistas os deputados do PS João Galamba e do PCP Paulo Sá. E foi aqui que todos pareciam de acordo que era necessário fazer um acrescento ao requerimento do PSD, para clarificar o que era pedido.

De acordo com os presentes, foi o deputado Paulo Sá a apresentar uma solução: acrescentar ao requerimento do PSD um pedido de cálculo (também) das alternativas. Ou seja, se o PSD queria apenas avaliar os custos da decisão do actual Governo, o PCP propôs que se requeresse também uma avaliação do que seria se essa opção não tivesse sido tomada, uma vez que as condições, como estavam, previam que os bancos tivessem de pagar até ao final deste ano o valor dos 3900 milhões de euros.

O PSD acusa o PS de tentar “boicotar” a verdade, disse aos jornalistas o deputado Leitão Amaro, e de por isso ter provocado a discussão que culminou com a proposta do PCP. Na versão da esquerda, depois de o PCP apresentar a sua proposta, houve um “entendimento” que os dois pedidos se complementavam e que os dois seriam votados favoravelmente por todos, para que a UTAO pudesse fazer as duas contas em “simultâneo”. E foi esta a palavra que levou os partidos a trocarem acusações.

Adoro a credibilidade das instituições europeias…

…logo pela manhã:

Num relatório que analisa o desemprego em Portugal, a chefe de missão pelo BCE defende que as subidas do salário mínimo (em relação ao salário médio) estão a fazer aumentar o desemprego no país.

Ah, ah, ah…! “Aumentar o desemprego”. Que mundo paralelo é este? É o Observador que descobre esta pérola de objectividade e oportunidade e publica. Quem mais?

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