Videoclips nacionais (colheita 2006)

Apesar de algumas ilustres excepções como as dos realizadores Paulo Costa Pinto (Driving You Slow dos The Gift), António Ferreira (Sunset Boulevard dos Belle Chase Hotel), José Pinheiro (co-realizador do documentário Brava Dança sobre os Heróis do Mar) ou Rui de Brito (autor do magistral Feeling Alive de Gomo), não existe em Portugal uma tradição na criação de videoclips que estejam, pelo menos, ao nível da qualidade da nossa produção musical. As razões são diversas, mas prendem-se sobretudo com as características do nosso mercado musical (o investimento não tem retorno e, quando tem, raramente compensa) e audiovisual (que apenas recentemente começou a disponibilizar plataformas onde os telediscos nacionais pudessem ser, pelo menos em potência, difundidos de forma regular). Na sua esmagadora maioria, a produção de vídeos musicais no nosso país deve-se sobretudo à carolice de músicos e (algumas) produtoras, pois quando as editoras nacionais resolvem investir a sério na produção de um vídeo mainstream, esses projectos tem sido quase sempre concretizados com uma displicência de bradar aos céus.

João Pedro da Costa

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Uma breve (e modesta) história do videoclip

Complemento supérfluo e desnecessário, veículo de promoção ou ferramenta de marketing, invenção da MTV, presumível suspeito do assassínio de uma estrela radiofónica cujo cadáver jamais foi encontrado e, mais grave ainda, objecto artístico – de tudo um pouco já foi acusado o formato audiovisual com as costas mais largas desde a invenção da televisão e que, pouco a pouco (eufemismo), começa a invadir a Internet. No momento em que o YouTube é uma virtualidade incontornável e a camada de ozono voltou a ser o que não era: que tal uma breve (e modesta) história do videoclip?

João Pedro da Costa

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Tragédia na SIC Comédia

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Constou ir acabar. Chegaram a passar a notícia em rodapé. E se calhar vai mesmo. Ou já não. Mas se acabar vou perder o Leno e o Conan. Dois exuberantes exemplos da vitalidade da democracia norte-americana. Dois cómicos que fazem crítica política subversiva, porque aparentam estar só a servir inócua diversão a mando do grande capital e demais imperialismos nefandos. Mas neles a fiscalização da incompetência dos políticos e vacuidade das figuras públicas não é escabrosa, imbecilizante ou medricas. E a estes dois ainda se deve juntar, por maioria de razão, Jon Stewart (SIC Radical), o qual se atira ao gasganete do Poder.

Portugal não tem ninguém que faça humor com tal inteligência, coragem e propósito cívico. Portugal não sabe rir, nem consegue chorar.

Bento&Bento

Um foi ao terreno do mais odioso adversário e ganhou. O outro recebeu o mais dilecto rival e perdeu. De um disse-se que, afinal, até sabia o que fazia. Do outro disse-se que, afinal, não sabe o que faz. Ambos treinam as suas equipas desde 2005. Ambos são a volúvel sombra dos resultados.

Não ESTA Espanha

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A «Visão» chega-me no dorso dum muar, o mesmo doce animal que me traz os víveres. Eis porque só hoje li a crónica «O fantasma do iberismo», de António Mega Ferreira, de 16 de Novembro.

Eu leria sempre o Mega, mas o tema gritava-me da página. O pretexto: certa indignação colectiva (que metia acção judicial) contra o iberismo de que o ministro Mário Lino se confessara professante. O cronista goza (e tem direito ao prazer, mas não a este) com o atraso do desagravo: o ministro declarara-se em Abril, e já se estava agora no mês que era.

Ignoro quem seja esse actual «grupo de indignados». Mas convém lembrar que este blogue foi o primeiro âmbito português em que se deu o brado. Fizemo-lo aqui, três dias após a confissão de Lino, pormenorizando-lhe os termos segundo o «Faro de Vigo»:

«Soy profundamente “iberista”, convencido de que España y Portugal tienen por delante un futuro en común porque su historia es también común y su lengua, similar. Soy iberista confeso. Tenemos una historia común, una lengua común y una lengua común. Hay unidad histórica y cultural e Iberia es una realidad que persigue tanto el Gobierno español como el portugués». E acrescentávamos, nós, que haveria por ali alguma «lengua» a mais e, quem sabe, alguma «cultura» a menos.

Mega Ferreira, como Sócrates, oferece larga cobertura ao ministro. Começa por reescrever-lhe generosamente a charla. «O ministro disse» – diz-nos o cronista em Novembro – «que a Ibéria é uma ‘nova realidade’ e que Portugal e Espanha têm tudo a ganhar em entenderem-se no quadro de uma estratégia comum de afirmação no espaço europeu e no contexto internacional».

E concretizará, já só por sua conta, adiante: «Na lógica do mundo globalizado, fatalmente hão-de sobreviver (ou viver melhor) as alianças estratégicas que acrescentem dimensão aos diversos particularismos nacionais».

Um iberismo assim entendido é já outra coisa do que o novíssimo, ou mesmo o tradicional. Não é a fusão de Estados, que uma percentagem pouco exigente de portugueses aceitaria em troca de uma ‘hoja de pago’ viçosa. Também não é a sonhada associação de «povos ibéricos», de estatuto igualitário.

É uma proposta que soa séria, essa das «alianças estratégicas que acrescentem dimensão aos diversos particularismos nacionais», com que, creio também, todos lucraríamos.

Só que a Espanha de Mega Ferreira é uma miragem. E com miragens não convém fazer alianças.

Quando o cronista afirma, tranquilizador, que «nem a Espanha de hoje é a dos ‘castelhanos’», causa-nos arrepios. Porque tudo indica que ela o é. Mesmo comandado às claras por um galego como Rajoy (e às escuras por outros indivíduos, o que é de ciência comum), o PP é um partido profundamente «castelhano», centralista até à medula, defensor duma Espanha governada ‘desde la Meseta’. O partido de Zapatero não o é menos. Mas habita nela alguma maior inteligência. O PSOE chega a falar numa ‘España plural’, e em ocasiões de desbunda lírica mesmo numa ‘Nación de Naciones’. Mas, podendo (e pôde), redigiu um novo Estatut catalão, e foi esse o adoptado nas Cortes de Madrid.

Quem estiver precisado de ainda mais calafrios leia esta inacreditável entrevista com Pío Moa numa estranhíssima (mas, aqui, oh tão útil) Alameda Digital.

Esta é a Espanha real, aquela de que convém manter-nos afastados. É por isso que a tirada de Mega Ferreira – «o iberismo contemporâneo parte da constatação da multipolaridade ibérica» – soa como de um mundo estranho, espectral.

Ao sensato Mega falta, quem o diria, só algum cepticismo.

Joana Santana Dias

Na primeira página do DN, mercê de uma publicidade engraçadinha da TSF, aparecem sobrepostos os rostos de Joana Amaral Dias e Pedro Santana Lopes. Melhor dizendo, a metade esquerda do rosto dela (que publicamente se assume de esquerda) funde-se com a metade direita do rosto dele (que publicamente se assume de direita). Além do perigoso subtexto da imagem (esquerda e direita transformando-se numa só e mesma coisa…), choca-me a ideia de um eventual clone que cruzasse o DNA das duas figuras. Como é que seria o discurso de uma tal quimera? E quem levaria a melhor: a menina guerreira soarista ou o engatatão com excesso de rímel?