Curso rápido de iniciação à espiritualidade – sem contra-indicações para ateus, agnósticos e distraídos

Warriorship here does not refer to making war on others. Agression is the source of our problems, not the solution. Here the word warrior is taken from the Tibetan pawo, which literally means “one who is brave.” Warriorship in this context is the tradition of human bravery, or the tradition of fearlessness. The North American Indians had such a tradition, and it also existed in South American Indian societies. The Japanese ideal of the samurai also represented a warrior tradition of wisdom, and there have been principles of enlightened warriorship in Western Christian societies as well. King Arthur is a legendary example of warriorship in the Western tradition, and great rulers in the Bible, such as King David, are examples of warriors common to both the Jewish and Christian traditions. On our planet Earth, there have been many fine examples of warriorship.

*

Chögyam Trungpa
Shambhala: The Sacred Path of the Warrior, 1977-78-84

19 thoughts on “Curso rápido de iniciação à espiritualidade – sem contra-indicações para ateus, agnósticos e distraídos”

  1. OK, Valupi.

    Noutras palavras, o homem esta a falar do mana, da força (may it be with you), talvez também do tao, etc., ou seja de um conceito que, nas linguas latinas, fez ninho na palavra “virtude”.

    Existe uma fatalidade – porventura ligada à distância que de que eu falava ontem entre evidência e banalidade – que nos leva a ir buscar aos antipodas o que geralmente esta mesmo debaixo do nosso nariz. O Borges escreveu sobre isso (ou copiou) um conto que ja não me recordo se foi completamente inventado, ou se consta mesmo de uma das versões das mil e uma noites. Salvo erro, intitula-se (o conto) “a historia dos dois que sonharam”.

    Como modesto contributo para a discussão, sacrificando à minha mania de considerar que o grande descobrimento que nos falta é o das Indias Interiores (não fosse eu descendente de raianos), sugiro que existe uma palavra bem portuguesa, antiga, de raça pura e, que eu saiba, sem equivalente nas outras linguas, que é uma forma muito lusitana de apreender o conceito, com o que isso tem de mau, mas também com o que isso tem de bom.

    Trata-se da palavra “jeito”.

    Com tanto sorbonagro português a desperdiçar resmas de papel sobre “Portugal como problema”, não houve um unico, tanto quanto sei, a fazer um tratado filosofico e moral sobre a nossa principal matéria prima.

    Um tratado sobre “O jeito”.

    Pugna pelo nosso jeito ! Eis o que eu tenho a dizer sobre a tua “warriorship”…

  2. joão viegas, essa convocação do “jeito” é interessante pelas notas folclóricas que traz, e poderá aplicar-se dada a sua latitude semântica. Contudo, não chega para o que está aqui em causa.

  3. Pois, Valupi, surpresa mesmo, seria eu ficar admirado com a tua reacção…

    Ora bem, continuo a achar que o “jeito” merece a nossa atenção, não so em absoluto, mas também neste debate. E’ certo que, ficando-me por palavras e conceitos batidos entre nos, podemos sempre afirmar que, embora seja da mesma parentela, o “jeito” não esgota a “virtude”. Não esgota, admito, mas ajuda a domestica-la, que é o que conta.

    Ja reparaste que, quanto mais os vemos ao longe, mais a virtude, a força, o tao, ou o warriorship (ou antes o raio da palavra que o autor deve ter usado na lingua dele, que presumo não tenha sido o inglês, e dai não sei), nos parecem temiveis, grandiloquentes, imponentes ? Não estaremos aqui perante um caso, entre tantos outros, de sacralização ?

    Mas olha que o nosso “jeitinho” pode, também ele, aqui mesmo pertinho de nos, assumir traços medonhos. Pensa nos “enjeitados”, ou no “mau jeito”, ou alias no simples mas misterioso “mesmo a jeito”…

    Ha mistérios insondaveis aqui bem por perto e, pela parte que me toca, encontro “manas” todos os dias no nosso Leal Conselheiro (ele mesmo um palimpesto, diga-se de passagem) ou nos versos de Camões.

    E encontro neles também, reconfortante mas fragil, a doce sensação de não estar apartado da riqueza por uma distância insuperavel. Por isso, alias, é que eu, ao revês do basbaque, fecho a boca diante da porcelana chinesa, para examinar de perto o que posso mesmo aprender com ela… sobre mim.

    Seja como fôr, vejo que afinal o meu primeiro reparo, sobre o post anterior, não era assim tão disparatado.

    Au antes, se era, tinha pelo menos o condão (o jeito) de corresponder exactamente ao que eu queria dizer !

    Abraço guerreiro ou jeitoso, como quiseres !

  4. A palavra que o autor utiliza na língua dele é “pawo”, tal como podes ler no excerto. E é um conceito que se aplica à bravura em combate, pelo que o nosso “jeito”, nem sequer a “virtude”, não lhe faz justiça.

    Outra nota que pareces ignorar, apesar de reclamares ter lido estes fragmentos, é a da universalidade da experiência a que se alude, a qual não é um exclusivo regional ou temporal, antes pode ser encontrada por toda a Humanidade desde sempre. É disso que o autor está a falar, embora através de uma específica tradição, com as suas marcas próprias.

  5. Boa resposta.

    Não tenho aqui nenhum dicionario português (a não ser o electronico). Devo ter em casa um apanhado, ainda muito incipiente, dos sentidos em que a palavra “jeito” é usada. Acho que tens razão quando dizes que a tonica dominante não pertence ao campo semântico da guerra e do combate (contrariamente ao teu “pawo”). Mas haveria que investigar mais…

    Ja quanto à virtude, mantenho. Virtus vem de vir (homem, cf. viril, e penso que não digo nenhum disparate se precisar que a palavra “vis”, força, pertence à mesma familia). A virtus designa, também, a coragem militar : Helveti reliquas Gallos virtute praecedunt diz César numa clara referência ao valor guerreiro.

    Alias o teu autor é o primeiro a salientar que o que ele designa se encontra também, ou o equivalente, noutras culturas.

    Repara que eu não queria dizer que não tem sentido ir ver o que diz o teu autor indiano. Longe de mim ! Apenas que, para compreendermos bem o que dele nos separa (e que ele nos pode ensinar) devemos começar por compreender aquilo que a ele nos une. Os etnologos e outros comparatistas profissionais sabem bem do que eu estou a falar.

  6. O autor nem é meu nem é indiano. É nosso e é tibetano. “Virtude” vem de força, claro, mas o seu uso actual e histórico não acolhe com clareza a qualidade que está aqui em causa: bravura, ou coragem. Pede um complemento; por exemplo: virtude guerreira.

  7. Exactamente, caro ⅀ !

    Valupi, se me permites, eis o que (juntamente com as minhas desculpas para o Tibete), nos vai pôr de acordo :

    http://www.youtube.com/watch?v=HiN5AqGaSM8

    Reparem bem na quadra (camoniana ?) :

    Meu coração tem um sereno jeito,
    E as minhas mãos o golpe duro e presto.
    De tal maneira que, depois de feito
    Desencontrado, eu mesmo me contesto.

    Queres pincaros mais elevados do que estes ?

    Abraços

  8. “Sabe, no fundo eu sou um sentimental
    Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose
    de lirismo…(além da
    sífilis, é claro)*
    Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em
    torturar, esganar, trucidar
    Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”

    (A estrela é para assinalar o foi censurado na época)

    Não me lembrava… A letra é toda ela espectacular. E adapta-se bastante à nossa discussão espinoso-tibetana !

    Vão ver que esta na Internet (googlem “fado tropical”) e que eu não quero estar aqui a maçar (mais ainda) os leitores com um comentario demasiado extenso…

  9. mas esse livro do Valupi é muito bom, João Viegas. O meu estava em português mas não sei dele, depois aparece algures. Valupi: qual é o nome do leão façanhudo com chamas que antecede o dragão?

    Mas portanto vis é que é força? Pensava que era vir, o Spinoza utiliza vires traduzido como forças lá em cima. Mas também me lembro da vis viva, a força viva.

    Do que então pesquisei o conceito de valor radica mesmo na valia de um guerreiro em combate, na defesa do território, ou na sua expansão. Passando a número real com as técnicas gregas consumou-se com o comprimento ou magnitiude do vector, imagino que agora será vetor.

  10. magnitude,

    (aquele i lá em cima a mais deve ser para lembrar os imaginários – outro capítulo – e dar um toque de franciú na cumbersa)

  11. Ola caro ⅀,

    Quanto ao texto, não duvido e vou procurar encontrar o livro recomendado pelo Valupi(contrariamente ao que a minha reacção pode sugerir, sou muito curioso das sabedorias orientais ; lembro-me por exemplo com carinho do livro espectacular, mas japonês, sobre a arte cavalheiresca do archeiro Zen, livro que acho que devia ser de leitura obrigatoria).

    Quanto ao latim, vis é (salvo erro) da 3a declinação, com plural em vires (cf. ultra vires). Mas vir (homem) e vis (força) são aparentados, acho que radicam numa mesma palavra indo-europeia.

    Bom Espinoza. E lembra-te que o homem era um artesão, e um paria do ponto de vista da comunidade de “sabios” a que pertencia. E no entanto, escreveu a ética…

  12. Espinoza recusou a cátedra de Heidelberg porque queria conservar a liberdade de pensamento e lá ficou a polir as lentes e a fumar cachimbo, e a conversar e escrever.

    Obrigado pelas informações latinas.

    Está aqui um índice de um livro que me chegou por email e que eu gostaria de olhar, mas não há neurónios para tal, agoramente :)

    Luigino Bruni
    A ferida do outro. Economia e relações humanas

    Índice
    Introdução 9
    Cap. 1 O anjo e o outro
    1. A radical ambivalência da vida em comum 17
    2. A comunidade trágica 23
    3. A mediação do Absoluto 26
    4. A descoberta do «tu»: o anjo torna-se o outro 31
    Cap. 2 A economia política moderna,uma ciência sem gratuidade
    1. O «pecado original» de Adam(Adão) Smith 39
    2. Economia sem «beneficência» 44
    3. Reciprocidade 47
    Cap. 3 Que responsabilidade para a empresa?
    Immunitas e communitas em confronto
    1. Economia moderna, mercado e empresa:
    um único processo imunitário 57
    2. Mercado e hierarquia 61
    3. Uma coerência, muito mais
    do que contraposição 66
    4. Uma outra ideia de
    responsabilidade comunitária 73
    5. Do mercado à empresa,
    da empresa ao mercado 79
    6. Uma conclusão 84
    Cap. 4 Eros philia ágape
    1. Economia e gratuidade 90
    2. O amor humano, uno e múltiplo 92
    3. Eros, philia e bem comum 100
    4. O bem comum como auto-engano 105
    5. Mais do que uma economia «erótica» 108
    6. Uma conclusão 117
    Cap. 5 Economia sem alegria
    1. Uma premissa 119
    2. A «felicidade pública»
    e a economia civil de Antonio Genovesi 120
    3. Relacionamentos e bem-estar 128
    4. Porque é que somos menos felizes
    do que poderíamos ser? 131
    5. O paradoxo da infelicidade opulenta 139
    6. Uma avaliação crítica do debate
    sobre economia e felicidade 143
    Cap. 6 Os relacionamentos como bens
    1. Os relacionamentos: os bens que a economia tradicional não consegue ver 150
    2. Os bens relacionais 154
    3. Relacionamentos primários e secundários 163
    4. «O inferno são os outros» 167
    Cap. 7 O significado económico e civil dos carismas
    1. Um olhar diferente 176
    2. Carismas e inovação 184
    3. Charis, ou «aquilo que dá alegria» 189
    Conclusão O abraço do outro 192

  13. Ai Valupi,

    Estou a ver que ninguém trabalha aqui e que tenho de ser eu a fazer a critica dos meus proprios comentarios. Uma vez que nem tu, nem pelos vistos nenhun(s) do(s) teu(s) leitore(s), falam fluentemente a lingua do profeta que citas, ou pelo menos o suficiente para traçar os contornos de “pawo”, teremos que nos fiar na tradução inglesa por “warriorship”.

    Sendo assim, continuo a achar que com “virtude” estamos bastante perto. A tonalidade mais propriamente guerreiria levar-nos-ia na direcção de “honra”, mas existe em Roma um templo de Honos e Virtus.

    Em contrapartida o passo que dei entre virtude e “mana” soa-me agora a falso. Que eu visse, “mana” é mais frequentemente tido como equivalente de “numen” (vontade ou injunção divina, embora alguns exageros cometidos com base nessa analogia tenham sido criticados por Dumézil). Designara por conseguinte uma força presente em inumeras coisas (e também em pessoas), mas na sua realidade não individualizada, ou seja dada por acréscimo, como um apêndice : pode suceder alguém, ou alguma coisa, ter “mana”, porque o recebeu de fora. Nesse sentido, não sera como a virtude, que irradia de dentro e que exprime o valor intrinseco da pessoa individualizada. Mauss nota que o “mana” é considerado como algo de “separado”, apontamento que julgo ir no mesmo sentido.

    “Jeito” estara talvez mais perto de “mana” nesse sentido, ou de “numen”, do que de virtude.

  14. ⅀, a que sequência te referes, onde dizes que aparece o leão e o dragão?
    __

    joão viegas, a palavra virtude tem uma densidade moral e religiosa que não cumpre – a não ser pelo puruficação etimológica – o propósito de traduzir o “pawo” tibetano, o qual remete para uma qualidade estritamente guerreira.

  15. Caro Valupi,

    Dificil de averiguar o que dizes pelos excertos que publicas, ja que são em inglês e que, alias, são eles mesmos os primeiros a apontar para um conceito que também existe entre nos.

    Seja como fôr, a relação da virtude à guerra, por ser etimologica, não é menos viçosa. A virtude começa por ser a coragem viril, ou seja o que da valor ao guerreiro. A transformação em “perfeição”, e depois em qualidade (qualidade moral), da-se precisamente porque o guerreiro valoroso é aquele que dita a sua lei, que impoe o seu cunho aos acontecimentos, que participa com o seu ser particular dos acontecimentos, acrescentando a sua perfeição à realidade. Basta alias pensar na virtu de Maquiavel, que carrega o mesmo sentido.

    Este sentido subsiste nos usos que damos hoje à palavra virtude : é o que vale por si, o que se afirma graças à sua propria força, ao seu proprio valor.

    Eis um excerto do vocabulario portuguez e latino de Bluteau : “& despois de arvorar com o estandarte da Cruz as armas de Portugal entalhadas de meyo relevo no pé della, cõ esta inscripção, Lusitanorum virtus, & Gloria, Pregou o Evangelho àqueles barbaros…”

  16. Addenda : repara, alias, que a propria evolução da palavra virtude mostra precisamente o que o teu profeta diz no primeiro dos excertos que postaste : a virtus guerreira faz-nos tocar na componente verdadeiramente positiva, prodiga, ou liberal, da qualidade do guerreiro, que se podera opôr à sua agressividade, esta sim gratuita e contraproducente.

    Ai é que jazem os recursos para os quais, tanto quanto percebo, o teu profeta tibetano nos chama a atenção quando fala na “warriorship” caracterizando-a com as caracteristicas que citaste.

  17. Valupi, que vergonha minha, pá! Tem lá três bichos que inspiram a compreensão e as atitudes do guerreiro espiritual, e um deles é uma espécie de leão flamejante de que em tempos fixei o nome e agora não lembro. Desgaste neuronal e falta de água de coco, dá idéia.

    (quanto a isto que aí está não esqueças a menção feita pelo Sarkozy na cimeira da Nato de Lisboa sobre o ‘inimigo’, nem vale a pena falar disso)

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