Choose your poison

Wikileaks has acted irresponsibly, and perhaps as an inadvertent tool of those who want to stifle information sharing. It is again the law of unintended consequences. It is one thing to bring to light things the public needs to know, it is completely another to compromise the defense, diplomacy, alliances, and security of countries and people who interact with the United States. That serves no useful purpose whatsoever. Mr. Assange is making few friends, and since his financing is opaque, one must entertain the potential fact that he may actually be working for a foreign power. His site seems to target the US in particular. Wired’s view that Wikileaks is good for America is naive. Free speech requires responsible action, not “poison pills”, and threats to disrupt the security of a soveriegn nation. The free flow of uncomfortable information is not to be discouraged, but if Wikileaks had information from the Chinese of this caliber, he wouldn’t be breathing. Nor would his source. And since Wikileaks isn’t a press organization – I repeat, Wikileaks is not a press organization, has no established location and acts more as an anarchistic group that a legitimate force – they should have none of the protections that the 1st amendment affords in the US. Wikileaks may have given those who would slam shut the free flow of information more ammunition that the worst porns sites have. If Mr. Assange makes good on his “poison pill” threat, people will die, and he will have blood on his hands. He is playing an extraordinarily dangerous game. If someone dies as a result of these releases, you can bet the poor kid who gave him this information to Wikileaks will face the death penalty. Nothing good is coming from this.

Comentário a Why WikiLeaks Is Good for America

80 thoughts on “Choose your poison”

  1. É o discurso do faz de conta que a informação dos telegramas não serve para nada nem tem importância nenhuma. Especialmente quando ainda não foram publicados 1000 dos 250 mil telegramas.

    Saber que os EUA interferiram na independência do sistema judicial espanhol relativamente ao poder executivo, essa corrupção da democracia, é do interesse quer dos espanhóis quer dos americanos que assim ficam a perceber melhor o contexto da aversão que algumas pessoas têm aos americanos.

    Saber que o governo Nigeriano está completamente minado pela SHELL é do interesse dos povos nigeriano, holandês e inglês e americano – mostra a complacência relativamente à corrupção das corporações e indicia que o convívio com a corrupção é standard.

    Saber que os EUA foram os que escreveram as leis de copyright espanholas e suecas é do interesse dos eleitores desses países.

    Saber que a relação especial UK/EUA é de uma só direcção é muito importante para os ingleses que assim podem enquadrar melhor a participação do UK na guerra do Iraque. É importante para todos os europeus para perceber o que fazerem com tony blair quando o quiserem voltar a meter na política.

    Saber da aliança dos EUA com China para minar a cimeira de Copenhaga limitando-a a um acordo muito pobre e limitado, contra os esforços dos eleitores europeus e do interesse dos eleitores americanos. Não só não é do interesse do povo chinês pelas razões que legitimamente toda a gente aponta.

  2. Que os EUA não façam uma critica aos jornais que estão a publicar os telegramas é revelador. O interesse é concentrar as atenções apenas num alvo para fazer a gestão do ciclo das notícias. Para retirar a atenção do conteúdo dos telegramas. Com o interesse de fazer com que a informação relevante só chegue aos activistas que a procuram e que já suspeitam destas situações com base em indicias menos claros e óbvios.

    Foi lamentável ver Tomás Vasques falar da Wikileaks como um caso de pirataria (que nunca o foi apesar de também usar a internet como eu e tu). Pior ainda vê-lo a comparar segredos de estado com privacidade individual – espero que não tenha sido apenas pelo caso dos voos da cia e das escutas a Sócrates, que aliás soube spinar a diferença entre privado e estado aquando do caso face oculta.

    Vai por mim, houve quem chamasse a isto o 11 de Setembro da diplomacia, estão enganados a diplomacia vai sobreviver a isto. Este é o 11 de Setembro da liberdade de informação. A continuar assim a liberdade de informação não vai sobreviver especialmente no que toca a uma internet livre e não censurada.

  3. Qual veneno?!… Fica tudo na mesma. Os prevaricadores estão na cadeia e os princípios pelos quais a diplomacia internacional se rege vão manter-se intocáveis. O resto, é buraco de fechadura que, por muito que seja utilizada, não afectará a Clinton que parece estar ali de pedra e cal para o que der e vier.

  4. Abaixo o imperialismo americano, ou este não existe? Para algumas almas pseudo-ingénuas parece que não, convém-lhes e por isso ficam irremediavelmente cúmplices dos seus inúmeros crimes desde praticamente que existe como Estado.
    Há que denunciar e publicar todos esses crimes fruto de mentes anormais e fanáticas que o têm governado.
    E o Obama é uma desilusão total – também se assim não fosse, o homem já tinha ido desta para melhor, como outros antes, aliás!

  5. não será bom para os governos americanos e outros , mas é excelente para os restantes cidadãos do mundo . afinal a democracia não é centrada no Povo ? e se é , porque raio não podemos saber o que está por trás do dizem fazer para nosso “bem” e com o nosso dinheiro ? somos bons para pagar e mais nada , é? ou não temos capacidade para compreender o que fazem os “deuses ” lá nos olimpos? santa paciência.

  6. hehehe, vinha cá responder-te lá em baixo… gostas deste texto? já o tinha lido, quando apareceu – e achei-o execrável. enfim, se os pontos de partida são tão distantes, uma discussão é um disparate: nem tu me vais convencer do que quer que seja, nem eu a ti.

  7. susana, estás muito preocupada com o desfecho do diálogo: alguém convencer alguém. Não precisamos de chegar a tal, há proveito em manter opiniões discordantes, como estou certo que aceitarás no abstracto.

    Gostaria de saber qual a parte que torna este texto execrável e gostaria que admitisses que não tenho de gostar dele para o sugerir como elemento de reflexão. E lembro-te que ele traz por arrasto um texto, bem mais importante no seu estatuto, a que darás todo o teu favor.

  8. Voltei,novamente.Gostei do texto e concordo bàsicamente com ele.Só não gostei daqiele comentário que termina com “e refute se tiver mau perder” : que raio de comentário é este ! Quer dizer, quem não concorda com a opinião do sr. com nome a modos que grego, é porque tem mau perder? Mas que Democracia é esta?

  9. Val, eu só alinharei pela perspectiva do artigo da Wired quando vir publicadas as comunicações «comprometedoras» dos diplomatas de todos os outros grandes países do mundo. Ou seja, quando as denúncias de práticas condenáveis com base na transcrição de mensagens diplomáticas (que, de si, não é garantia de causa e efeito), forem gerais e democráticas. Até lá, vejo o Assange como um adolescente tardio, irreverente, desafiador e muito irresponsável, além de «soissante-huitard» muito «après la lettre» e, logo, um cruzado contra o imperialismo americano.
    Acresce que, se isso acontecer, se toda a correspondência secreta do planeta (da China, da Rússia, do Irão…, para além dos EUA) passar a ser do domínio público, confirmando-se a intenção purista e supra-nacional da Wikileaks, podemos preparar-nos, na pior das hipóteses, para uma de três coisas: ou a terceira guerra mundial, ou a sabotagem constante (ou a transformação) da Internet, esta coisa de que já não prescindimos e que tantos prazeres nos granjeia, ou algumas decapitações, sobretudo por parte da China, da Rússia, do Irão, etc., a que se seguirá um silêncio e uma pausa temporária no desenvolvimento desses sites. Na melhor das hipóteses – um reforço absoluto da segurança das comunicações diplomáticas, transmissão presencial de informações, maior repressão deste tipo de «crimes». Inclino-me mais para a melhor das hipóteses, já que tenho seriíssimas dúvidas de que algum dia tenhamos o prazer de ler os e-mails dos diplomatas Xing Jao ou Vladimir Novarenko ou Rachid Mahmoud na Internet.

  10. mais ou menos. também tinha lido o artigo da wired e, como podes imaginar segundo os meus critérios, gosto mais dele do que do texto que citas. mas, no que respeita a sugestões para reflexão, é bem menos interessante que aquele que comecei por sugerir, por exemplo.

    Comecemos pelo texto:
    “It is one thing to bring to light things the public needs to know, it is completely another to compromise the defense, diplomacy, alliances, and security of countries and people who interact with the United States.” Falácia. 1. Pressupõe a definição do que o público precisa de saber; creio que se não for o público a decidir isso caímos no insuportável paternalismo dirigente e, sobretudo no controle político da informação. 2. Não só não há qualquer confirmação do comprometimento das instâncias referidas, como a primeira condição pode implicar a segunda. Claro que se houvesse transparência relativamente àquilo que o público deve ou precisa de saber, logo à partida, não haveria necessidade de revelações ‘colaterais’.

    “one must entertain the potential fact that he may actually be working for a foreign power. His site seems to target the US in particular.” Conspirativo e mentiroso – aquilo que temos visto é que ninguém é poupado, a não ser as fontes editadas. Para mais informação sobre as actividades da wikileaks, ver isto:

    http://svtplay.se/v/2264028/wikirebels_the_documentary

    Claro que nem tudo adquire igual relevância nos noticiários, mas esse é outro assunto.

    “The free flow of uncomfortable information is not to be discouraged, but if Wikileaks had information from the Chinese of this caliber, he wouldn’t be breathing.” Comparar o que se passa ou pode passar num regime democrático e num que não é, e ver nisso um argumento de razão é estúpido. Se Assange deixar de respirar não será nada bom para os EUA, parece-me. Embora nos dias que correm os mártires sejam rapidamente esquecidos.

    “Nothing good is coming from this.” Então não?! Já começou.

    Seja como for, continuo com a esperança de que a consequência seja uma situação melhor. Um dos aspectos fulcrais, para além dos crimes e ilegalidades propriamente ditos e que agora são revelados, é a confirmação das mentiras que os governos contam aos seus eleitores. Há sempre um problema de delimitação das fronteiras. Se é sabido, por exemplo, que qualquer exército comete as suas atrocidades, movidas muitas vezes por interesses individuais, corrupções privadas e colectivas, etc., também me parece que isso, que os displicentes resumem sob a designação de “efeitos colaterais”, deve então ser assumido como tal, noticiado, e não encoberto. É fundamental para um exercício de cidadania íntegro que cada um saiba da sua parcela de responsabilidade partilhada com aqueles que elege. O secretismo fomenta a distância entre o eleitorado e as acções que este tacitamente sanciona, claro.

    A tentativa de perseguição, o cancelamento das contas de Assange, etc., ao arrepio das instâncias judiciais, parece-me suficiente para te responder à questão dos lobbies e sua promiscuidade política, e da sua legítima extensão. Mais uma vez, um problema de limites. É muito fácil contornar a lei, como sabes, e os próprios legisladores estão sempre a contar com isso. É sobre a interpretação da lei que os factos são julgados, e é nosso papel fazer disto um evento positivo e não negativo, pela pressão pública.

    Aqui está um discurso interessante, por ser de um republicano:
    http://www.youtube.com/watch?v=ywoInPNXZJk&feature=player_embedded

    Que o retrato do mundo seja mais detalhado e fundamentado pelos seus habitantes, também me parece positivo:

    http://www.guardian.co.uk/world/2010/dec/10/wikileaks-reaction-world-reaction

    Penso (ou desejo, numa outra formulação…) que a liberdade na net será preservada. A participação dos sujeitos é incomensurável, e parece-me que o caminho é indomável. Mas o facto permanece que a maioria dos sujeitos deseja uma boa vida, pelo que esta participação, conduzindo ou não a novos modelos políticos (provavelmente uma integração de modelos anárquicos com modelos democráticos, onde as minorias terão voz mais forte e haja maior representatividade) já está a contecer. A cidade já perdeu fronteiras geográficas, pelo que tudo isto requer associatividade bem definida e coloca uma pressão sobre o direito internacional, para que este seja integrador das novas ‘instituições’.

  11. Antonio Manso,

    Daqui, donde a olho, esta democracia é de caca, ou então tem tantos tiranos como o senhor que me tiram logo a vontade de escrever quando abrem a boca. 1 a 0. Ganhou você.

  12. Repare-se na aldrabice a que esta trampa chega. Ao quarto de milhão de documentos não-classificados que a Wikileaks tem vindo a soltar às pinguinhas – presume-se que para fazer render o peixe até lá por alturas do campeonato do Mundo de Futebol no Qatar – tinham acesso por computador em rede nada menos que a bagatela de 2 milhões de gambuzinos civis e fardados, “personnel”, das forças armadas dos USA, sem contar com as várias agencias. É o que se relata em jornais responsáveis. Mesmo sem recorrer a análises complicadas ou à ajuda dos miudos mais espertos do PISA, é fácil para qualquer um imaginar o enorme manto de secretismo que envolvia essa papelada electronica.

    Mas o Assange não quer saber disso e toma as suas precauções. Não espalha as coisa pela Internet, com liberalidade já que a fruta não lhe custou nada, em vez disso manda os papelitos para jornais da “oposição my foot” como o NY Times. Este telefona ao Estado Maior dos Coletes de Forças e de lá, segundo a onda, não há zuzuns de que tivesse havido problemas com publicação.

    Apesar disso, apesar da personalidade domesticada e extremamente cuidadosa do australiano, apesar de ninguém saber se ele vive de fazer crochet ou engraxar sapatos, apesar das coisas que disse e fez antes de se tornar a starlet dos boletins noticiosos de várias bandas do globo, são precisamente aqueles que nunca deram um ai de indignada revolta perante teorias da conspiração bem documentadas os que mais se entusiasmam com esta palhaçada, com alguns deles a considerarem isto uma Nova Era. Vamos encontrar muitos desses, como era de esperar, a vegetarem no jornalismo maricas dos diários de referência e subserviência. As declarações de boas-vindas à verdade do anedótico de fonte diplomática dividem-se em dois campos distintos, de enganados e enganadores, mas aliados: aqueles que acreditam que Assange é o Cristo blogosférico que todos estávamos à espera, de cajado na mão e sacola ao ombro, para levarmos a todas as aldeias da Net a Doutrina a partir de Belém em Israel; e os que andam a vender o peixe psicológico de intriga e aldrabice como de costume – caso do autor da citação que serviu para empurrar mais este post aqui no Aspirina, que comenta como alguém que finge que não sabe o que se está a passar.

    “Nothing good is coming from this”. Frase chave e a única que faz algum sentido. Se houver alguém por aí a pensar que o grande plano “uiquiliques” visa um corte da relativa liberdade de se escrever na Internet, ou até mesmo a proibição de a ela se ter acesso, coisa que se pode fazer a partir da América com uma perna às costas, e mais fácil ainda que engordar banqueiros com crises económicas, não se admire, nem chame maluco ou maluca à pobre pessoa.

  13. Caro V. Kalimatanos, não com quantas bonecas se faz uma matrioska, honestamente chega-me saber o resultado final, na expectativa que ajudem a construir algo de positivo.

    Os telegramas são libertados às pinguinhas porque porque a capacidade de absorção de noticias é limitada. A gestão do ciclo de notícias por parte da wikileaks está predefinido e é transparente. Já as acções necessárias a ocupar espaço de notícias e espaço de debate são dinâmicas e organizadas – basta dizer que (como se viu hoje no site reddit, consultadas as tendências de procura de notícias da google o district que mais consultas fez sobre a wikileaks foi um district de washington dc com uma elevadíssima concentração de agências de segurança «interna».

    Os telegramas têm conteúdos pertinentes sobre a corrente actual de democracia e sobre a democracia (?) americana.
    Hoje ficou a saber-se do encobrimento de mortes e malformações causadas pela farmaceutica Pfizer na Nigéria. Esta convivência, cumplicidade e encobrimento de corrupções e crimes merece ser conhecida pelos eleitores – tem que ser conhecida pelos eleitores.

    É ingénuo (ou manipulador) dizer que informação como esta será adquirida voluntariamente.
    Em mais um caso, o papel da wikileaks e do americano, de humanidade exemplar, que libertou esta informação, é de louvar! Outros juraram defender uma constituição democrática e os direitos humanos para se esconderem em responsabilidades partilhadas por hierarquias e conselhos decisores.

  14. Caro Francisco,

    Onde é que o meu migo tem andado? Os crimes e as corrupções da BIG PHARMA, não só da Pfizer, é das coisa mais corriqueiras na Internet e livros são às centenas, com pormenores à balda. As falcatruas da Pfizer na Nigéria são bem conhecidas, e não são de hoje. Google Pfizer, Birth Deffects, Nigéria e tem muito que ler sobre isso e outras áreas. Uma amostra, se não se quizer dar ao trabalho.

    “Pfizer also is the target of criminal and civil legal actions in Nigeria, where authorities are seeking damages of more than $8 billion. While the ruling in New York has no direct effect on the Nigerian actions, lawyers in the case said it could complicate long-running settlement negotiations there.

    W Post Jan. 2009

    Mais alguns cabeçalhos:

    – Pfizer caught in yet more science fraud: Company altered study findings for Neurontin drug
    – Pfizer to pay $1.3 billion criminal fine for misbranding its drugs
    – Big Pharma researcher admits to faking dozens of research studies for Pfizer, Merck

    Mas claro que você não vê muito disto em jornais de “referência”, a maioria dos quais vivem das coroas que as mesmas lhes pagam em publicidade.

    Mas a proibição do DDT em África, calcula-se ter causado centenas de milhões de mortos nesse continente, com malária, mas isso foi uma decisão política. Pesquise isso, que eu não tenho tempo, não fique à espera que wikileaks o informe.

  15. o espião Carré ( foi espião e parece que dos bons ) já tinha contado isso , das barbaridades que fizeram , fazem , em áfrica. foi a partir de aí que ganhei um pó às farmacêuticas que nem vos conto.

  16. Vamos assumir que sou tão ingénuo quanto você insinua. Então, quando encontra alguém que vê a luz a única coisa que lhe ocorre é dizer “só sabes isso agora, eu já sei isso há muito!”?

    Já reparou que em vez de centrar a sua acção no tentar e contribuir para resolver, minimizar, mitigar o problema, escolhe centrar-se no mostrar que você já sabia disso, antes dos outros. Honestamente, e não tenho por objectivo ofender ou recalcar, ninguém quer saber se você sabia mais cedo.

    hhhunf, caro V. Kalimatanos, você já votou comunista, não já?! :D

  17. Penélope, a pretensão de vir a alterar as relações internacionais só porque se conseguiu publicar documentos roubados à diplomacia americana ou é do foro do narcisismo demente ou do gesto artístico, de facto.
    __

    susana, em que regime, ou sociedade, é que não existe controlo político da informação? Melhor: achas que na imprensa “livre” não se faz controlo político da informação? Estás a pressupor que é possível escapar à “política”, porque a estás a conceber como a dimensão da manipulação pelo poder “maligno”. Daqui nascem, logicamente, as utopias da “transparência”, que não passam da alucinação da “pureza”, do maniqueísmo.

    Pura e simplesmente, o público não tem a capacidade para decidir acerca de todos os assuntos do Estado, por um lado, e não convém que o Estado publicite todos os seus interesses e processos, pelo outro. Porque é que não convém? Por causa de uma coisinha chamada “realidade”. Na realidade, os Estados vivem com a obrigação de velar pelos seus interesses, os quais estão sempre ameaçados pela concorrência e potenciais inimigos. O modo que a civilização encontrou para diminuir a antropológica desconfiança e aumentar a probabilidade de paz entre os povos consistiu na invenção da diplomacia. O secretismo desta sempre foi garante da sua eficácia, é inerente ao conceito.

    E os lobbies não têm nada a ver com a perseguição ao Assenge, é estar a ir buscar alhos para falar de bugalhos.

  18. Francisco,

    Não precisava convidar-me a assumir que você é ingénuo. Como calcula, eu já sabia disso. Mas não é crime, nem fique triste porque isso tem terapia e cura. Mesmo que eu não tivesse ao longo de vários anos “downloaded” dezenas de escritos sobre as matérias que agora o estimularam na forma duma “revelação” do Assange, teria, tenho, pelo menos três livros algures entre os meu cardápios que me informaram dumas coisas realmente de espantar – um desses já com pelo menos 40 anos de escrito.

    Preciso de dizer mais? Para quê citar coisas que ainda irão aborrecê-lo mais.

    Atrevo-me, no entanto, a dar-lhe mais um conselho. Quando a wikileaks surgir com uma nova e estrondosa descoberta pseudo-anti USA, pegue em si e google os termos key dessa “informação” e espante-se com o que, pacientemente, encontrar. Não é que a google tenham tudo como na farmácia, que não tem nem está interessada nisso, mas pode, se tiver sorte, ficar com a ideia de que afinal aquilo que o Assange lhe quer vender não passa da redescoberta da roda. Bom fim de semana e boa sorte.

  19. valupi, proponho-te um exercício de imaginação: imagina que uma parte das revelações da wikileaks vai ao encontro de acusações que já surgiram no passado, com documentação suplementar, e que essas acusações encontram aqui o complemento que lhes faltava para se verem confirmadas. imagina que essa confirmação é a de que os EUA manipulam a política externa para servir os seus interesses económicos e estratégicos, ao arrepio dos direitos humanos. continuarias a achar que elas deveriam ter sido suprimidas?

    e imagina agora que algumas dessas histórias eram histórias que tu sempre demitiste como falcatruas da esquerda que é avessa à democracia, mesmo quando denunciadas por ONGs no terreno sem ligações óbvias a facções politicas. como é que tu reagirias?

    o facto é que a internet existe. as ferramentas existem. e, mesmo que a liberdade na internet venha a ser seriamente coarctada, surgirão redes clandestinas, enquanto houver o know how. o que aconteceu voltará a acontecer, numa dimensão exponencial, enquanto, claro, houver material a ser recolhido. o que desejas, dois mundos, um com net e outro na paz democrática, ou um mundo inteiro?

  20. susana, o exercício que me propões explica parte do problema nesta discussão: tu não me lês, nem sabes o que estou a defender. Por isso consideras que estou a atacar a liberdade de informação e o proveito em descobrir crimes e ilegalidades. Como tenho escrito o contrário, será inútil remeter-te para o que já foi dito.

    Não há só duas posições possíveis nesta questão. Essa necessidade de finca-pé na barricada do “quem critica a Wikileaks é inimigo do bem” é militante, facciosa, maniqueísta. Por mim, espero que a Internet continue a ser o espaço de liberdade absoluta que tem sido – e lembro-te o papel dos tribunais americanos na sua defesa, contra todos os preconceitos religiosos e moralistas e apesar do extremismo, ou violência, a que se pode chegar com palavras e imagens.

    Saudei o aparecimento da Wikileaks e vi nela o surgimento de um novo paradigma de comunicação social. Espero que continuem com esse ideal, apenas não me demiti de pensar.

  21. claro que te li, e não encontrei em lado algum essa saudação à wikileaks. o que não significa que ela não tenha existido, apenas que não escreveste sobre ela neste episódio.

    poderia dizer-te a mesma coisa relativamente à opinião expressa perante a crítica à democracia americana. a quantidade de coisas que já resolveste que eu penso sem eu o ter escrito, porque colocas um rótulo nessa crítica.

    não me parece que exista tal coisa como liberdade absoluta. mas é verdade que ela se aproxima mais do absoluto na internet.

    quanto aos tribunais americanos na defesa da liberdade na net, andas mal informado:

    https://www.eff.org/wp/unintended-consequences-under-dmca

    mais específico relativamente a este caso, já agora:

    https://www.eff.org/deeplinks/2010/12/information-antidote-fear-wikileaks-law-and-you

    se bem te entendi, o que criticas à wikileaks é a indiscriminação relativa ao que é divulgado. como achas que a informação deveria ser discriminada?

  22. Exacto, a saudação referia-se ao aparecimento da Wikileaks, e não consta que ela tenha começado a existir neste últimos dias de conversa.

    As opiniões expressas por mim nesta conversa apenas dizem respeito aos conteúdos apresentados por ti nesta mesma conversa, não vão mais além. Nem sequer correspondem à opinião que possa ter a teu respeito por via de outras fontes, são meramente retóricos.

    Tenho a certeza de que ando mal informado a respeito dos tribunais americanos, e de muita outra coisinha, mas não pode haver grandes enganos perante os factos da História:

    http://en.wikipedia.org/wiki/Reno_v._American_Civil_Liberties_Union

    A informação pode ser discriminada de milhentas formas, tantas quantas as que os sujeitos decisores encontrarem. Dá-me a informação para discriminar e te mostrarei os meus critérios.

  23. Claro, mas essa saudação não foi expressa por escrito aqui no aspirina, pelo que tomei por referência as únicas palavras que te li a respeito. Estas não eram de saudação.

    Reitero que não vejo relação entre os conteúdos por mim apresentados e algumas das tuas conclusões.

    Chamo a tua atenção para o facto do caso histórico que apresentas, de 1997, ser pré-histórico, no que à História da internet diz respeito. Claro que houve decisões boas ao longo do tempo. O Internet Freedom Preservation Act de 2009, que acrescenta legislação importante para a neutralidade na net, foi outra, mais recente. No entanto os serviços que comercializam internet continuam a contornar a lei, sem encontrar oposição, porque não existe fiscalização, por um lado, nem condições de competição, por outro. [http://www.nytimes.com/2010/04/07/technology/07net.html?_r=3&pagewanted=1]

    Há vários aspectos em que te podes basear para aferir das limitações decorrentes da pressão de lobbies sobre a regulamentação e a excepção à mesma. Vou referir apenas dois, por estarem à mão de semear:

    – Embora tecnicamente seja de igual viabilidade a velocidade de download e a de upload, as empresas que te fornecem internet estrangulam a tua velocidade de upload para te dificultar a tarefa de colocares conteúdos na net. Há, depois, empresas que te cobram para esse efeito.

    – Traffic shaping: as empresas que te fornecem internet estrangulam a tua velocidade em âmbitos por elas seleccionados. Um deles é o peer-to-peer que, em si, nada tem de ilegal. mas como é um dos meios de partilha de conteúdos proprietários existe pressão para esta acção, pelas empresas de entretenimento. Os grandes monopólios de media que te fornecem ambas as coisas (ex. Zon) jogam obviamente no sentido dos seus interesses, mas não te avisam que se fizeres peer-to-peer eles ficam com medo de que deixes de ir ao cinema e cortam no que te devem por condições contratuais. Nem que um conteúdo que lhes pertence chega mais depressa ao teu computador do que um conteúdo da concorrência.

    E tens aqui um artigo de Tim Berners-Lee sobre as restrições que são pressionadas na actualidade. É de novembro último, pelo que dificilmente poderia estar mais up-to-date. Aqui tens, por exemplo, que a Google exerce pressão para que a lei da neutralidade não se aplique às ligações móveis, que constituem o único recurso de acesso à net em sítios remotos do planeta (citando, “de Utah ao Uganda”.)

    Quem seriam os sujeitos decisores, no caso da wikileaks?
    Quanto à informação, take your pick: :)

    http://cablesearch.org/

  24. A referência à saudação pelo aparecimento da Wikileaks era parte do argumento: é possível estar a favor, em certos aspectos, e contra, noutros.

    Não estava interessado em discutir contigo as minudências e novidades da jurisprudência norte-americana, apenas lembrei que a nação dos lobbies e do Governo que mente ao povo é também a terra onde o sistema de Justiça sempre deu provas de proteger a liberdade de expressão. Aliás, o caso Reno v. American Civil Liberties Union não é pré-histórico no que à Internet diz respeito, é História e é histórico.

    Quanto ao resto, se a tua tese é a de que vivemos num mundo imperfeito, onde há maus da fita a planearem maldades, estou completamente de acordo.

  25. Não se trata de querer e não querer que os documentos sejam divulgados, trata-se de querer que apenas os documentos necessários sejam publicados. E talvez não seja espantoso que haja tantas noções do que seja o necessário quantas as cabeças que se pronunciarem sobre o assunto.

    Quanto à proposta que te fiz, e uma vez que me mandaste 1311 telegramas (última contagem), creio que estarás disposta a esperar um bocadinho para a minha decisão ter algum grau de ponderação…

  26. No meio disto tudo, eu que sou um lorpa daqueles que se deixam tratar como putos e que só sabem aquilo que os deixam saber fico desorientado e sem perceber se afinal é melhor morrer na paz da santa ignorância, ainda que isso implique permitir que sistemas democráticos omitam (ou mintam, vai dar no mesmo) a informação que lhes for inconveniente alegadamente a bem de qualquer nação de lorpas que têm o fardo de orientar pelos caminhos da vida às escuras (nas trevas), ou, em alternativa, devo congratular-me por existirem falhas nesse manto de secretismo cujos critérios de selecção desconheço e morrer desgostoso pela merda de mundo “civilizado” que estamos a alimentar (a parte que não passa fome, claro) como as pontas geladas do Wikileaks deixam adivinhar gota-a-gota para podermos digerir a coisa (a overdose de liberdade de expressão e assim) sem mais sobressaltos do que os provocados pelas decisões erradas e pelos pecados encobertos nos bastidores?

    (Este comentário abriu-me o apetite. E claro que também me dói a cabeça de tanto esforço mental, mas tenho a sorte de estar no sítio certo – a da Bayer, what else?)

  27. valupi, exacto. portanto o critério em causa foi aquele que conhecemos: a entrega do material a sucessivas delegações, por grupos mais alargados, de jornalistas. foi o critério de quem tinha a batata quente nas mãos. se admites que não há Um critério válido, então o critério foi legítimo.

    a pergunta não é para mim, mas a wikileaks trouxe mais elementos sobre os meandros das relações internacionais, sobre a natureza da guerra e seus bastidores, e sobre as origens económicas da guerra e da pobreza. um património vasto e cru de informação para desbunda de historiadores. a história da diplomacia, o estudo destas relações da economia dos povos encontra nelas muito pasto. a compreensão de uma política a partir do conhecimento da diplomacia que esta produz, assim à partida, tem duas alternativas óbvias: ou o eleitor do mundo democrático opta pela aceitação dessa política, assumindo a visão tradicional de que há supremacia de povos, o que num contexto nacionalista é legítimo, ou não aceita essa política e a política tem que ir mudando. a wikileaks faz história ao mesmo tempo que a altera. o jornalismo pode recuperar poder político.

    a propósito, o acontecimento de hoje fez-me lembrar porque me surpreendi com a tua primeira reacção: as caricaturas também podem ‘ter sangue nas mãos’, no sentido em que a expressão tem sido usada no corrente caso. mas isso não impediu quem, nessa altura, se bateu (retoricamente) pela liberdade de expressão.

  28. Usei o conceito de retórica no seu sentido técnico, alusivo às técnicas do discurso ao serviço da verbalização do pensamento em disputa dialogante, e não no seu eventual aceno moralista, como artifício e hipocrisia.

    As caricaturas entram no campo da liberdade de expressão, porque expressam apenas ideias, visões intelectuais, subjectividades. São manifestações puras da liberdade. No caso que discutimos, publicam-se informações com dados que remetem para pessoas e instituições concretas, criando a possibilidade das suas reputações e segurança sofrerem algum dano, já para não falar em possíveis prejuízos políticos e financeiros. Mas foste tu que trouxeste o tema do sangue nas mãos, o qual não me parece principal, antes consequência do problema primeiro: não se descortina qual seja o benefício para as populações ou regimes da publicação indiscriminada de materiais roubados a uma dada diplomacia. E antevêem-se vários perigos, os quais, podendo ficar apenas em potência, não podem ser ignorados pelos responsáveis das áreas atingidas pelas fugas de informação.

    O cardápio de vantagens que apresentas não corresponde nem à prática jornalística, condicionada pela actualidade e pelos públicos, nem à prática científica, carente de outras fontes para confirmação e complemento destas. Estás tão-só a exibir o teu panfleto ideológico, imune ao princípio de realidade.

    As batatas quentes podem ficar na travessa a arrefecer ou, em alternativa, serem manuseadas com luvas. Não precisamos de ficar reféns dos taralhoucos que nem sequer sabem lidar com batatas, quanto mais julgarem que são capazes de nos impingir a sua lógica.

  29. Eia, Susana! Aquele teu segundo parágrafo é todo um tratado sobre o teu pensamento. Estou sem palavras. Tanta coisa que a Wikileaks trouxe ao mundo! Fantástico. Andávamos todos a dormir?

    A «visão tradicional de que há supremacia de povos» – há e vai haver, não te martirizes com utopias irrealizáveis. Ao longo dos milénios de história, ora são uns, ora são outros, agora são os americanos, mas daqui a 500 anos podem ser os chineses. Ou pode não ser nada disto: podemos ter a visita de algum povo extra-terrestre, «for a change»…

    «a wikileaks faz história ao mesmo tempo que a altera» – manifestamente exageras. Sabes por que razão a Amazon resistiu aos contra-ataques dos amigos da Wikileaks? Porque há anos que reforçou a capacidade dos seus servidores para níveis inimagináveis. Sabes o que vai fazer a diplomacia americana? Vai arranjar uma rede própria à prova de Assanges. A americana e as outras!

    Dito isto, acho bem que se denunciem as falcratuas das multinacionais e as más práticas políticas. Tenho, no entanto, a impressão que sempre se denunciaram. Agora a Wikileaks veio chamar a atenção para os problemas de segurança informática que existem no mundo democrático. Não tenhas dúvidas de que irão ser corrigidos, assim como eu não tenho dúvidas de que se encontrarão novos processos de guerrear o «incumbent». É a vida.

  30. Susana,

    Você acredita mesmo que “a wikileaks trouxe mais elementos sobre os meandros das relações internacionais, sobre a natureza da guerra e seus bastidores, e sobre as origens económicas da guerra e da pobreza”?

    A que é que você se está a referir? A que guerra? A que pobreza? Estará a dar razão ao Valupi, quando ele fala na “publicação indiscriminada de materiais roubados”? A mim é o que me parece.

    Você que tinha começado tão bem, optou agora por patinar, e de maneira tão desiquilibrada e pronta a cair que até a Penelope assumiu a incumbência de notar os seus fracos, como neste passo “a wikileaks faz história ao mesmo tempo que a altera”.

    Por favor, ponha os tarecos velhos na arrecadação. Será que você e o resto da tropa que anda por aí a beber champanhe e a estralejar com foguetes à saúde da leaks terão a ingenuidade de pensar que essa organização, com os montes de publicidade que anda a receber dos órgãos das Media esquerdotas e direitotas anda a fazer algo para tornar este mundo mais justo e mais bem informado?

    Esqueça essa fruta. Eu nem acredito que a operação “leaks” seja uma operação financeira, como alguns foram levados a pensar quando souberam das 150 mil libras auferidas em poucos dias pelo famoso video de tiro ao árabe. Os segredos “roubados” pela “leaks” foram, de acordo com relatos, depositados com falsa precaução nas mãos de jornais escolhidos a dedo, como o NY Times, defensor das guerras actuais desde o ano Um, pelo Le Monde , Guardian, El Pais, todos máquinas produtoras do verbo político enganador e confundidor ao serviço dos poderes recicláveis do nosso querido Mundo Ocidental.

    Não se esqueça duma coisa importante quando quiser definir “segredo” neste contexto da liberdade NOVA dos networks, se você deixar a porta da casa aberta ou a chave do carro na ignição não há companhia de seguro que lhe pague um chavo. Pense descomplicadamente, seja doméstica.

    Se eu fosse a si, revia todo o material que assimilou até aqui e apresentava-me novamente a exames.

  31. valupi, também eu usei retoricamente com esse sentido, não percebo a tua ressalva.

    assim muito rápido porque tenho pouco tempo:

    tens razão na diferença de conteúdos, I’ll give you that. todavia é um dos temas relevantes neste caso, em termos legais. por um lado, ao ser difícil defini-lo juridicamente (o facto de espionagem ou traição serem complicados pelas razões conhecidas), uma das hipóteses é a da propriedade intelectual, que permitiria a apreensão de todo o material na net (como o youtube é obrigado a fazer com um homevideo com música do prince, por exemplo). esta hipótese é relevante, parece-me, porque permitiria o cancelamento das revelações sem fazer de assange uma vítima mediática do sistema. e, se for o caso, é de liberdade de expressão que falaremos.

    não, não fui eu. tu é que começaste por falar na segurança, no perigo para as partes envolvidas e divulgadas, etc. eu limitei-me a resumir isso na expressão que aí circula.

    sobre o jornalismo creio que te enganas. é verdade que a matéria já não é actual, mas é o tipo de matéria que se torna actual pelo impacto que tem, por contextualização retrospectiva. quanto ao público, sequioso. no que respeita aos académicos, sim, é mais matéria. como eu mesma disse, são mais elementos, não disse que são autosuficientes. como sabes, numa investigação académica, quanto mais elementos e diversificação das fontes melhor. estes são documentos em primeira mão, documentação por excelência.

    a questão que parece não passar é a da realidade, precisamente. isto é consequência da tecnologia e da difusão das competências tecnológicas. como sabemos, assange era um puto na pré-história da net e já se pendurava como hacker nos sistemas altamente protegidos de várias instituições, incluindo o departamento de defesa americano. isto foi na altura, como achas que será no futuro? milhões de utilizadores com competência para violar as seguranças tecnológicas. a ideia de que é possível fazer redes à prova de hackers é risível, porque as redes sempre foram programadas com este fito e os peritos informáticos sabem lidar com código. reforça-se a segurança, viola-se a segurança, num continuum. enquanto a segurança for computacional, estará sempre à mercê das competências crescentes em grau e em número.

    dizeres que eles não sabem lidar com a batata remete novamente para os critérios. já percebi que os critérios de divulgação não preenchem os tes requisitos, mas continuo à espera de saber quais são eles, concretamente (i.e. com exemplos).

    Kalimatanos, oh que tristeza com a reprimenda. claro que trouxe mais elementos. se não tivesse trazido não haveria problema nenhum, para ninguém. sobretudo trouxe-os ao grande público, penso que foi este o critério determinante. os ‘especialistas’ já sabiam da maioria dos dados mas, não só estes reforçam o seu argumento, como levam, pela mediatização do evento, a um consumo maior das contextualizações inerentes.

    já percebi que anda aí na sua cabeça uma teoria qualquer de que a wikileaks, afinal, está mesmo é a mando dos israelitas, mas não me parece razoável. os hackers e, de modo geral, os informáticos, têm uma preferência pelos modelos anárquicos de governação. como se vê no comentário do ex-parceiro de assange (‘schmidt’, se não erro, aquele que fundou uma nova agência nos mesmos moldes), eles ‘entendem sistemas’ e por isso desejam uma sociedade com camadas de cadeias de comando, transparentes entre si.

    quanto ao que diz no fim do comentário, pois claro, estes não eram os segredos realmente secretos. esses devem estar mais bem guardados. daí eu continuar a achar que o embaraço dos nomeados é inferior ao nosso.

  32. Val, trouxe-me algo de precioso que é a da prova da vulnerabilidade dessas instituições a uma coisa muito simples e que dá um jeitão à democracia: a verdade. Nua e crua.

  33. acabei agora mesmo de ouvir isto. debate importante entre académicos, moderado por Jonathan Zittrain e Lawrence Lessig (o primeiro não conhecia, o segundo, professor de direito, é o autor de “the future of ideas”, “free culture” e “remix”, leituras que recomendo por esclarecedoras, actualizadoras e que não obrigam a abdicar do prazer de ler.) existe uma transcrição em pdf.

    http://blogs.law.harvard.edu/mediaberkman/2010/12/08/radio-berkman-171/

  34. só agora reparei e, afinal, a penélope também me suscita um comentário:

    “daqui a 500 anos podem ser os chineses.”
    hahahahahahahahaha!

  35. susana, então tens tempo para estar a ouvir académicos americanos e dizes que estás com pouco tempo para gastar numa caixa de comentários?… Mau…

    Baralhas, creio que intencionalmente, as noções relativas a um novo paradigma de comunicação social, onde a Internet é o canal por excelência da possível revolução, e o acto particular que analisamos: o roubo de documentos e sua publicação indiscriminada. Obviamente, a questão é polémica, porque altamente complexa política e eticamente, dando azo a contrastantes divisões na opinião pública. É ilustrativo ver como a direita e o centro facilmente se cindem internamente e ocupam as barricadas polares. Para mim é que não colhe a misturada. Transparência e denúncia de crimes, sim, danos inúteis e aumento dos riscos para os bens e a segurança, não.

    Tudo o que diga respeito à diplomacia concerne com temáticas de segurança, tanto do país que tutela esse corpo diplomático como dos países e pessoas que apareçam referidos nas suas comunicações internas. A segurança não se avalia só pelo desfecho letal do “sangue nas mãos”, pode até dizer respeito a segredos comerciais.

    Esclareci a noção de retórica porque a ligaste ambiguamente com outra temática que não dizia respeito a esta, insinuando uma duplicidade de critérios. Quanto ao eventual uso da categoria de liberdade de expressão para impedir a actividade da Wikileaks, é assunto que me escapa pela especialização jurídica em causa.

    O apelo para exibir os critérios que usaria na publicação dos documentos continua a carecer de material. Remeteste-me para os documentos que a Wikileaks vem publicando, mas isso não satisfaz a condição. Repara: eu desconheço as condições em que os documentos chegaram ao Assenge e sua equipa. Não posso, pois, comprometer-me com a publicação de qualquer deles, mesmo o que pareça mais inócuo. Para me envolveres na situação, tens de criar uma situação. Traz aí documentos que consideres merecerem publicação e apresenta o teu caso. É assim que se faz na realidade.

  36. sabes que um podcast te permite ir fazendo coisas que não exigem concentração enquanto ouves, não sabes?

    insistes na “publicação indiscriminada”, quando não é o caso. ouve os harvard professors a esse respeito. lessig concordaria contigo “se” fosse indiscriminada. uma das consequências possíveis de se deter a wikileaks é exactamente o risco de a informação aparecer da forma que temes, através do accionamento do ‘seguro’ já anunciado.

    não supus dualidade de critérios, quanta susceptibilidade. acho apenas que it all boils down to it. como tudo indica que o procedimento da wikileaks não violou nenhuma lei, é provável que ainda venha a ser discutida nesse tema sempre em emenda, com notórios avanços e recuos, que é a liberdade de expressão. esta está sempre sujeita a limitações, nunca é absoluta, e é também cultural. desse ponto de vista, não podes ir todo nu para a rua, enquanto o fazes naturalmente em algumas culturas. do mesmo modo que se poderia ter estabelecido uma emenda no caso das caricaturas pode tentar-se uma emenda neste caso. não esquecer que a lei, nestes como em outros casos, se prende com a moral da respectiva sociedade.

    eu não apresentei ter critérios. deixo isso para as entidades responsáveis (no caso, as que se chegaram à frente para assumir e partilhar responsabilidade). a minha responsabilidade reside na interpretação daquilo que vou encontrando. como criticaste o excesso ou excedente publicado nesse material, esperava que me apresentasses exemplos dessa informação a mais entre o que foi publicado.

  37. susana, todos os documentos conhecidos, por princípio, podem ser exemplo do excesso a que aludo. Para começar, a sua publicação não obteve a aprovação das entidades que os produziram e guardavam, o que implica logo uma questão de raiz acerca da legitimidade da sua exposição – mas posso dar dois exemplos específicos, o de Moçambique e o do Brasil.

    Quanto a Chissano, negou que estivesse envolvido no narcotráfico e desafiou a que se provassem as alegações. Cenários: a serem verdadeiras, as autoridades locais nada investigarão, os traficantes estão em fuga ou à defesa, eventuais investigações internacionais estão comprometidas, outros países da região poderão vir a ser escolhidos para as operações que ganharam uma visibilidade que as compromete naquele país: a serem falsas, por engano ou conspiração, a sua reputação está irreparavelmente afectada, diminuindo o seu poder e o de quem o apoia.

    Quanto a Dilma, se o documento fosse publicado durante a campanha eleitoral poderia causar uma alteração na votação, servindo de munição para ataques de carácter ou todo o tipo de aproveitamentos em contexto de campanha eleitoral. O facto de não o ter sido também permite questionar um eventual cuidado da Wikileaks com uma dada situação local, o que, independentemente de ter acontecido, chama a atenção para a influência que a divulgação de documentos, apresentados com a chancela de uma diplomacia como a americana, pode ter nos contextos políticos nacionais das entidades visadas.

    Nestes dois exemplos parece-me inquestionável o dano que a divulgação comporta, seja de facto ou em potência.

    Não entendo a tua referência aos professores de Harvard, o que não passa de um argumento de autoridade, nem entendo a referência a emendas constitucionais para lidar com a questão das caricaturas, as quais estavam no centro de uma querela religioso-política que não teria qualquer resolução por via constitucional.

  38. os professores de harvar era o tal podcast. a razão, mera sugestão (não argumento de razão) para mais informação sobre a relevância do relacionamento com a liberdade de expressão.

    mas agora ouço isto http://www.livestream.com/pdfleaks
    muito interessante. acresce que o painel inclui figuras em oposição à cena; isto é especialmente pertinente dado que cheguei lá pela plataforma da wikileaks.
    depois cá volto. :)

  39. cá estou.
    “Para começar, a sua publicação não obteve a aprovação das entidades que os produziram e guardavam, o que implica logo uma questão de raiz acerca da legitimidade da sua exposição.” Isto significa a oposição a qualquer instância de whistle blowing, seja numa empresa ou noutra instituição.

    quanto aos casos que apresentas, não é o que acontece com qualquer reportagem em jornalismo de investigação? descobre-se umas pistas, ouve-se umas alegações, etc., publica-se. no de dilma acontece ainda que estes dados eram anteriores, tendo ela sido interrogada e investigada no passado por essas suspeitas. assim, a descrição biográfica no extenso telegrama que continha essa informação limitava-se a dar como verdadeiras suspeitas que são do domínio público. ou seja, há pessoas no brasil que já o afirmavam antes, o telegrama americano limita-se a acrescentar um número a essas pessoas. se o povo brasileiro ignorou esse dado nas urnas, provavelmente não o julgou verdadeiro, ou não o julgou negativo.

  40. Não significa nada disso, significa apenas isto: uma questão acerca da legitimidade desta acção que se discute, cujo contexto, de questionamento, é o repto ético que me lançaste.

    A Wikileaks não faz jornalismo e não obedece a qualquer código deontológico. Neste momento, faz terrorismo mediático a partir de documentos roubados. Que tal lhes dê entusiástico apoio de muitos, entre eles académicos de respeito, é outra questão.

    O problema com a Dilma não é biográfico, mas político. Numa campanha, a existência pública do telegrama – por ter a chancela da diplomacia norte-americana – poderia ser apresentado como uma prova da fraqueza internacional em que o Brasil cairia por ter uma Presidente que já estava a ser apresentada como ex-criminosa no círculo diplomático. Escuso de te detalhar os modos em que se pode manipular a informação para levar a cabo uma campanha negra. Se tal seria feito, e se teria algum efeito, é outra questão.

  41. valupi, se estabeleces como instância legitimadora de publicação “a aprovação das entidades que os produziram e guardavam”, sim, significa. nem me vou dar ao trabalho de explicitar, lê tu o que escreveste.

    I rest my case. discordamos nas questões de fundo.

    deixo apenas isto:

    http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2010/dec/11/henry-porter-wikileaks-cables

    e este debate, verdadeiramente plural e fascinante:

    http://www.livestream.com/pdfleaks

    um abraço.

  42. Não significa, porque tomar para questionamento (consideração, análise, ponderação, reflexão, etc.) não equivale a tomar como mandatório, obrigatório, inquestionável. E essa passagem está ao serviço da resposta ao teu desafio: quais os meus critérios para publicar fosse o que fosse. Parte da resposta está nesse “implica uma questão” – ou seja, se me chegassem à mão documentos que fossem propriedade de terceiros não presentes nessa situação, teria em conta esse facto e agiria com ele presente, fossem quais fossem as acções a tomar.

    Isto é simples, se estamos a falar de ética.

  43. não podes inferir sequer que esse facto não estava presente na decisão subjacente à acção (a não ser que tenhas poderes mediúnicos ou documentos da whateverleaks com actas das reuniões da wikileaks). como, numa análise positivo/negativo pendes para a segunda conclusão, examinas tudo à luz desse preconceito e não da tua objectividade. não significa que não possas ter uma opinião fundada e conclusiva, mas que até agora tens sido muito vago e condicional.

  44. Não me referi a factos, mas a condições. E não me referi à Wikileaks, mas a mim. Para mim é que seria necessariamente tida em conta a propriedade dos documentos. Lembro-te que estou a responder ao teu desafio para apresentar critérios de publicação.

    Terei de ser vago e condicional, posto que ainda ninguém me entregou material roubado para que eu o publique ou envie para quem o queira publicar. Nessa altura, concretizo para além de qualquer dúvida.

  45. em concretizar. “Nessa altura, concretizo para além de qualquer dúvida.” suponho que foi isso o que aconteceu.
    repara: criticaste os critérios presentes nesta divulgação. por um lado dizes, creio, que a acção foi criminosa, mas não te fundas em qualquer argumentação legal para tal afirmação. depois referes o facto da pertença dos documentos a uma entidade como óbice à sua revelação (o que acontece em grande parte das denúncias que todos consideramos razoáveis). adiante dizes que o problema afinal é um de excesso, pegar apenas nos realmente relevantes (whatever that means). mas quando coloco à tua disposição o acervo para que escolhas um qualquer caso e apontes essa informação desnecessária e unicamente perniciosa e… nada. :) olha que até eu, estou certa, encontraria rápido um exemplo.

    no entanto estamos a discutir apenas uma parte da questão. a mais importante é que, existindo a tecnologia, a não ser que faças uma cruzada contra a tecnologia, ‘queimando’ os seus instrumentos e programas, a tecnologia irá ser usada. já começaram a proliferar agências do mesmo género, que serão instituídas como canais de comunicação ou clandestinas, consoante o desfecho deste episódio. em qualquer dos casos as suas divulgações serão reproduzidas na comunicação social, a não ser que se alterem também as suas leis. parece-me mais aconselhável a sua aceitação, condicionando-se a edição do material às regras deontológicas da imprensa. será assim mais fácil o exercício da lei, com a penalização das suas violações, quando as houver. claro que isto implicaria que doravante a informação que se quer secreta terá que ser mais bem guardada. e, provavelmente, ou assim espero, que os estados democráticos passem a agir progressivamente mais em acordo com as políticas com que dizem identificar-se.

    não te esqueças, ainda, que o argumento inicial (o teu) era o obstáculo colocado à diplomacia, que não poderia operar sem (este) secretismo. recordo-te que por ocasião das primeira iniciativas no sentido de tornar públicas as assembleias de estado surgiu a mesmíssima objecção: a ausência de secredo impediria a operatividade do organismo. tu, que não perdes um debate parlamentar, terias seguramente uma participação mais pobre na tua cidadania.

  46. Sim, a questão tem muitas, complexas, ambíguas e aporísticas partes. Daí o sucesso da iniciativa da Wikileaks e da sua pop star. Mas não creio que estejas interessada numa discussão da problemática, antes no proselitismo.

    Vejamos, já te dei dois exemplos: Chissano e Dilma. Por aí, podes inferir que não estou com dificuldade em igualar a tua rapidez. Todas as notícias acerca de políticos portugueses, que saíram até agora, poderiam igualmente ser dadas por mim como exemplos de matérias cuja publicação nestas circunstâncias é perniciosa a vários interesses democráticos. Porém, colocada desta forma a questão, estamos a pôr lenha nos pressupostos falaciosos onde me queres colocar: (i) que a Wikileaks tem o direito de divulgar a informação em causa, independentemente dos interesses dos seus proprietários e entidades referidas (ii) e que não se pode questionar o direito à informação que torna esse acervo publicável em si mesmo sem carência de critério inibitório.

    Ao considerar a acção criminosa não tenho de me valer de um quadro legal específico, posso ficar apenas no campo moral. Neste, vale o bom senso: os telegramas não pertenciam à Wikileaks nem foram autorizados a sair do controlo do corpo diplomático americano. Qual a razão para o seu furto? A única moralmente legítima seria a de denunciar crimes ou evitá-los. Como não é isso que acontecerá com 99,999% deles (estou a fazer referência aos 250 mil anunciados para publicação), decorre que a intenção não é apenas, ou não é primeiro, ou não é por fim a de tornar o mundo mais puro e bonzinho. Há um dano inquestionável nesta exposição, tanto no conteúdo como na forma da mesma.

    A diplomacia nunca funcionará sem secretismo, e não é a Internet que mudará seja o que for a esse respeito. Do mesmo modo, espera-se que a medicina nunca funcione sem privacidade e a advocacia sem sigilo. Pelo que o teu enfoque na tecnologia nada tem a ver com a questão, pois já na Antiguidade se violavam segredos diplomáticos, não era preciso estarem ligados à Internet (e consta que não estavam). O que tem sido o alvo da minha crítica é tão-só o modo como a iniciativa da Wikileaks anula as mediações dos Estados de direito democrático e provoca aquilo que só encontra paralelo simbólico com o 11 de Setembro.

    Creio que tu, ou qualquer outra pessoa, não terá dificuldade em imaginar alternativas – que fizessem à mesma uso das informações recebidas – a esta situação em que comunicações descontextualizadas e datadas provocam prejuízos a indivíduos, empresas e instituições de forma gratuita e cruel. E o cúmulo deste cinismo voyeurístico é dizer-se que quem ousa criticar a Wikileaks está do lado do mal, da ocultação, do “poder”.

    Mas enfim, foi sempre assim, né?

  47. ok, estamos em desacordo, pronto. o único ponto em que vejo razão (tua) é no carácter meramente ilustrativo (e, por vezes, até revelador de boas práticas e rigor de análise) de parcelas. mas diferimos em muito, nomeadamente no que respeita a revelações de ligação portuguesa, que vêm acrescentar indícios a casos que já constituíam acusações por confirmar. aqui partimos de pressupostos também distintos: tu confias nos nossos governantes presentes, eu não. teria argumentos sobre elementos nada secretos nem do âmbito da suspeição, mas fica para outra altura.

  48. Independentemente dos governantes, dos tempos e dos casos, eu confio é no Estado de direito – o qual, em última instância e como primeiro fundamento, é o garante de todas as liberdades. Desconfio daqueles que se julgam acima do Estado de direito, isso sim.

    Constato que tu não discutes casos particulares, pelo que acabo por também desconhecer os teus critérios para lá do entusiasmo com o lado ideológico e espectacular desta acção. Se vieres a discorrer acerca das revelações de ligação portuguesa, terás aqui um leitor que não pode estar mais interessado no que tenhas para dizer.

  49. acima? ou parte, com direito a denúncia?

    o que me parece insensato é pensar que a wikileaks podia escolher apenas uma parte. imagina que revelavam só 1647 documentos. a comunidade iria ficar a pensar que os outros massivamente ‘ocultados’ constituiriam uma forma de manipulação dos dados. os teus conspirativos comentadores iriam deduzir de imediato que esses diziam respeito à al qaeda, às violências do comunismo, etc..

    eu não acho a wikileaks a melhor coisinha à face da terra, apenas vejo a sua inevitabilidade. a paz podre, por um lado, e a oportunidade, por outro. tenho andado a tentar falar é do que se vai fazer com isto. o quadro legal parece-me o melhor ponto de partida, e surpreende-me que não consideres que a justiça é o primeiro guardião do tal estado de direito.

  50. Mas a Justiça é o resultado das escolhas que os Estados fazem para a sua regulação. Onde é que está escrito que não pode haver segredos diplomáticos ou que alguns documentos das diplomacias não devem ficar em segredo durante alguns anos? Que pretende a Wikileaks, afinal? Sabes?

    Ninguém pensou que os jornalistas do Watergate tivessem prejudicado o público por não terem publicado tudo o que tinham investigado, nem o problema sequer se colocou. Em qualquer parte do mundo livre, admite-se que os jornalistas só publicam aquilo que querem, e eles são os primeiros a assumir critérios subjectivos – estejam ou não escudados na deontologia – para as suas escolhas. Donde, essa ideia de que a Wikileaks teria de publicar o conjunto dos documentos, sem sobre eles exercer qualquer tipo de selecção, evidencia que não estamos a falar de imprensa.

    Não sei a que te referes com a “paz podre” e continuo sem saber quais são as revelações acerca da política portuguesa que te confirmaram suspeitas ou indícios.

  51. estás a dar-me argumentos, valupi. no caso watergate quem avançou foi a Justiça, não houve leakage para a imprensa. foi a Justiça quem decidiu reter material relativo às escutas. deve ser por isso que ninguém fala em watergate a propósito deste assunto, mas dos pentagon papers. foi aqui que houve uma fuga de informação para a imprensa, que a foi publicando, excerto a excerto. a grande revelação deste caso foram as mentiras que o governo contava ao povo relativamente à guerra do vietnam.

  52. Tenho todo o gosto em te dar argumentos, embora pensasse que já tinhas os suficientes. Quanto ao Watergate, devo-me ter distraído algures, ia jurar que nasceu da investigação de dois jornalistas.

  53. não, o caso foi crescendo por investigação do FBI e eventually (não eventualmente) descobriram a história das escutas. o produto das escutas foi entregue por ordem judicial (e ao tribunal, não à imprensa, portanto). ao que parece, entretanto (mas não tenho a certeza), já foram divulgadas na integra, passado o tempo do segredo de justiça, perdão, Justiça. :)

  54. Certo, e recentemente ficou a conhecer-se a identidade do Garganta Funda, um funcionário do FBI, mas foi o trabalho da imprensa que criou a pressão pública para o seu desfecho – e, em especial e para a lenda, a investigação de Bob Woodward e Carl Bernstein. Estes não se limitavam a publicar o que recebiam dos informadores, faziam trabalho jornalístico. Era esse o contexto da referência na nossa conversa.

  55. sim, mas não tem nada a ver, certo? havia alguém de dentro que passava informação à imprensa e esta investigava e pressionava. não podes falar de imprensa a filtrar e escolher a informação, pois não consta que tenham retido alguma parcela do que lhes passou o informados. as escutas sim, mas foi o tribunal.
    os pentagon papers são o grande caso que se presta a comparação directa. a grande diferença é o bulk – e, claro, a net, a exponenciação da difusão.

    um detalhe interessante, que me apareceu ontem: assange pensava, a princípio, que o melhor modo de agir seria, com toda a comunidade de observadores independentes que caracteriza a internet, divulgar as leaks (não estas, seria uma opção editorial genérica e anterior) ao mundo. cria que depois os fragmentos importantes seriam destacados por este meio, que antecipava crítico, preocupado, objectivo. mas cedo percebeu que os blogs se caracterizavam pela intenção de passagem dos valores dos autores, seguidos de perto por um grupo de pessoas mais ou menos constante, todos, de um lado e do outro, pouco preocupados com factos, investigação, notícias. por isso este modus operandi, a opção de integrar a imprensa, através dos mais importantes jornais ocidentais, como meio de selecção e edição. é engraçado que aquilo por que se critica tanto assange é na verdade atribuição dos jornalistas que estão a mediar o processo.

  56. Ola aos dois,

    Não quero deitar achas na fogueira mas o ultimo comentario da susana põe o dedo num ponto importante que, a meu ver, o Valupi tem menosprezado :

    O segredo (no exemplo da susana o segredo de justiça, mas isso vale também para os outros) é precario e instrumental. Não é um valor absoluto que deva ser respeitado em qualquer circunstância, ou por si mesmo. Isto explica, alias, todos os enredos do cinema e da literatura acerca dos dilemas morais a que o segredo nos pode submeter : se eu tiver recebido informação sob sigilo, mas da revelação dessa informação depender a vida de uma pessoa, etc.

    Por conseguinte é inevitavel, mesmo para o depositario do segredo, ponderar as obrigações que nascem do sigilo à luz da sua finalidade ou da sua razão de ser. Isto ainda é mais obvio para a imprensa que, nos casos de que falamos, não é sequer o depositario, e que é, por outro lado, uma instância de controlo, ou mais exactamente um canal importante para esclarecer o publico, publico que é suposto controlar os poderes eleitos.

    Claro que continua a ser possivel criticar a violação do segredo, e até a cumplicidade de violação do segredo. Mas a critica não pode coibir-se de analisar se as finalidades do segredo (ou do poder que ele serve) foram ou não defraudadas no caso concreto…

    A discussão devia pois começar por ai, e não pelo segredo (= pela substância e não pela forma = pelos factos que se denunciam e não pelos instrumentos que os tornaram possiveis)…

    Boas

  57. joão, um exemplo que me tem ocorrido na flutuação do segredo como um bem é o de uma ficha clínica, que se deseja confidencial até uma prática médica errónea. aí quer-se divulgá-la, com a classe médica, muitas vezes, a funcionar como corporação que se opõe à quebra do sigilo, ‘em nome’ da confidencialidade devida ao doente.

    a questão é que o valupi considera que os factos, esses a que te referes, não constituem matéria de denúncia, apenas vilipendiam os que neles aparecem. são, segundo percebo, conversas que não nos dizem respeito, cuja divulgação viola a privacidade alheia e põe em causa o futuro da boa diplomacia.

  58. susana, a minha referência ao Watergate foi para fazer a destrinça entre o que é o jornalismo e o que seja o que a Wikileaks fez neste caso do roubo dos documentos à diplomacia americana. A nossa conversa estava nesse ponto. Não creio que estejas em condições de saber se algo foi ou não filtrado pelos jornalistas que recebiam informações das fontes secretas no Watergate, mas creio que aceitarás a evidência empírica de ser prática corrente no jornalismo de investigação a construção de uma narrativa. Isso implica escolha de materiais e de pontos de vista.

    Advogaste, e advogas, a vantagem, ou bondade, da entrega dos documentos aos jornais sem deles excluir qualquer parte. Esse aspecto teria um mérito inquestionável, mas só se não tivesse nascido de um pecado original: a captação ilegal de documentos cuja publicação, agravada pelo modo em que está a ser feita, é prejudicial para todos aqueles que apareçam expostos. Só se salvariam deste deboche os casos que gerassem legítimas investigações policiais ou sanções ao abrigo das jurisprudências. O resto, é terrorismo.

    Continuas sem apresentar os teus critérios, sem concretizar as suspeitas e desconfio que estás disposta a viver num mundo sem diplomacia. É que não há diplomacia sem alguma forma de segredo (a palavra pode ser outra, à escolha, mas a semântica é esta).
    __

    joão viegas, não se põe em causa a obrigação ética para violar qualquer segredo, e mesmo qualquer lei, de acordo com a necessidade que seja imposta pela consciência de cada um. Esse domínio é o da liberdade, é o que nos torna humanos.

  59. Ola,

    Susana : eu até tendo a concordar com a postura do Valupi, desde que ele ache que nada de importante foi revelado até agora. O que eu digo é que, precisamente por isso, ele devia ter mais cuidado em não inverter a ordem dos argumentos. A violação do sigilo não é aqui, nem o problema principal, nem sequer um problema de principio (tal como a questão da pretensa ideologia da transparência, etc). E’ apenas um problema secundario, menor, em relação ao problema verdadeiro que seria estarmos a perder tempo com rumores e maledicências quando nada de essencial parece estar em causa (de acordo com a tese defendida pelo Valupi). O fantasma da ideologia da transparência não passa disso mesmo, um fantasma. Da mesma forma que ninguém contesta seriamente a legitimidade do segredo, ninguém parece contestar seriamente a necessidade de transparência quando estão em causa possiveis atentados a valores fundamentais…

    Valupi : pelo contrario, é precisamente o que esta em causa. E’ alias uma das raras coisas que interessam nesta discussão. Mais uma vez, acho que vacilas na aplicação de um principio que, no entanto, reconheces em abstrato : a existência de um continuum entre direito e moral. Pois é mesmo disso que se trata. O respeito da lei (nesse caso o segredo) não pode ir até ao ponto de aceitar que lhe seja sacrificado o bem que ela pretende proteger. Ha pois um limite, que não é so da moral dos filmes (embora também seja, como disse no meu comentario), mas da ética profissional que nos deve socorrer na nossa vida quotidiana. Por isso frisei no outro post que a violação do segredo coloca necessariamente a questão da legitimidade com que foi exercido o poder que ele serve. Agora concedo que, neste caso especifico, não seja 100 % liquido que os limites tenham sido transpostos a ponto de justificar a violação…

    Em suma, para não ser enviesada, a discussão deve partir da questão essencial : as revelações da Wikileaks permitiram ou não informar o publico acerca de graves desvios de poder indevidamente ocultados pela administração ? No passado, parece pacifico que a resposta é afirmativa. Com as novas revelações sobre telegramas diplomaticos, confesso que não tenho ainda uma ideia bem definida…

    Boas

  60. Eu sabia que aprovarias esta parte do meu comentario.

    Vou considerar que também aprovas o resto, embora saibamos bem da nossa divergência quanto a saber se as ideias valem pela sua clareza aprioristica (como defendes), ou se valem antes por nos permitirem aprender algo sobre a realidade, o que implica que se procure afina-las a posteriori (como tendo a crê-lo).

    Abraços

  61. pois, joão, creio que é essa a questão do valupi: não considera que haja revelações, ou credibilidade, neste material, que justifique a quebra do segredo. depois de muitas voltas, e variáveis, penso que é esta a constante resiliente na sua argumentação.

  62. valupi, falas de roubo como se a wikileaks tivesse roubado os documentos, quando apenas os recebeu. mesmo o caso da quebra de sigilo, alegadamente pelo brad manning, é uma constante em qualquer caso de whistleblowing, embora ninguém espere perdão pela coragem da traição. apareces com uma nova formulação que condena à partida a revelação de documentos pertencentes a terceiro e depois, não sei por que encadeamento de raciocínios dizes que isso não é condenar à priori qualquer denúncia que os use. o pecado original é conceito que não aprecio, e que convoca uma questão de fé para o debate. relativamente a essa questão, que já critiquei, o joão viegas apresenta uma argumentação muito mais eficiente.

  63. joão viegas, a ti ninguém apanha descalço. A tua prognose chega e sobra para as encomendas.
    __

    susana, falo do roubo como se a Wikileaks tivesse recebido documentos roubados. Se me viste a fugir deste facto, diz-me onde foi para me penitenciar.

    Ignorava que não condenavas à partida o roubo de documentos.

    Como tenho dito desde o princípio, nisso repetindo o óbvio, todas as denúncias de ilegalidades são proveitosas. Se a denúncia implicar o roubo de documentos, esse será um meio moralmente lícito, posto que está ao serviço de um bem que relativiza o acto e o legitima pela finalidade.

    Continuo à espera, cheio de curiosidade, dos teus critérios para publicação de documentos roubados e à espera dos exemplos concretos onde as revelações entretanto feitas suscitaram um proveito para o cumprimento da legalidade, o reforço da democracia ou a regeneração cívica da sociedade.

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