A propósito da pretendida construção de uma mesquita em Samora Correia, a jornalista Fernanda Câncio escreve um artigo no DN a defender a liberdade religiosa (e, logo, de construção da dita mesquita), pondo em pé de igualdade o islão e o catolicismo (e o judaísmo, para se mostrar abrangente) neste nosso Portugal europeu.
Sendo eu ateia, não posso deixar de criticar este igualitarismo cego, que acaba com pessoas a fazerem figuras como a de envergar “keffiehs” palestinianos em defesa de visões do mundo e da sociedade muito piores do que as do tempo das cavernas. Como se os adeptos do islão, e os imãs, fossem todos boas pessoas que apenas rezam a um deus diferente, inofensivo, compatível, e alheio aos poderes políticos, partilhando no fundo os nossos valores. Infelizmente, assim não é.
Para o bem e para o mal, em termos religiosos, a Europa foi historicamente coutada da igreja de Roma, desde Constantino, e, nessa base, muita da nossa história se forjou séculos depois nos combates contra o islão. O facto de, por cá, posteriormente, termos evoluído – e que alívio – no sentido de a religião ser um assunto pessoal, privado, não podendo misturar-se com o poder político, não significa que, do lado do islão, a evolução tenha sido no mesmo sentido. Alguns indicadores apontam para que não tenha havido evolução nenhuma, nem a nível da separação entre poder secular e religioso, nem no sentido da visão do mundo e da sociedade, e esse é o grande problema. Não é, por isso, invulgar haver mesquitas por essa Europa fora em que se incita a audiência ao ódio aos ocidentais, os chamados “infiéis”, e à “jihad”, apesar da enorme tolerância daqueles à já referida liberdade de culto, incluindo do islão, no território europeu.
A igreja católica já foi violenta, prepotente, corrupta, abusadora? Sim, foi. Muitos dos seus membros foram, eventualmente ainda são, criminosos. Lembro os abusadores sexuais de crianças. Que apodreçam nas prisões. Não se pode, porém, dizer que a igreja católica represente algum perigo generalizado hoje ao nosso modo de vida livre (e só Zeus sabe como sou contra a designação de “Parque Papa Francisco” para o parque junto ao Tejo). A perda de poder político retirou à igreja muitos dos seus malefícios. Não é o caso do islão. Na Europa, as manifestações de apoiantes muçulmanos que mantêm a fidelidade ao islamismo de cada vez que o Médio Oriente se incendeia devido, nomeadamente, ao conflito com Israel é, para mim, um sinal de que as portas não podem estar totalmente abertas a todo o tipo de valores (há quem fale em “multiculturalismo”) e que o Ocidente está hoje, de certo modo, condicionado pelo tipo de população que aceitou acolher. O facto é que os valores não são todos aceitáveis. Quantas pessoas lutaram e morreram, no Ocidente, para finalmente remeterem a religião para o domínio íntimo, para conseguirem igualdade de direitos, liberdade para as mulheres, liberdade sexual, etc., para acabarem com as guerras religiosas? Não têm conta. Mas conseguiram.
E então? Proíbem-se as mesquitas? As novas mesquitas? Contrariando a liberdade de culto? A questão não é simples. Se for feito um inquérito à população, eu diria que a resposta será claramente um não às mesquitas. Nalguns casos muitas pessoas acrescentariam, se pudessem, “os muçulmanos que vão para a terra deles”. O que historicamente tem respaldo suficiente. Mas essas pessoas apreciam o Chega. No entanto, são conhecidos e elogiados o pacifismo e a boa convivência de quem dirige e frequenta a mesquita central de Lisboa, em Campolide, e provavelmente outras. Quando o Chega os ataca mostra ser tão mau e repugnante como os piores radicais islâmicos. Um salazarento bafiento.
Em suma, é preciso ver e são precisas regras, em meu entender. Hoje em dia muitas comunidades islâmicas formam guetos e representam focos de conflito e violência em países como o Reino Unido, a França ou a Alemanha. É natural que se queira evitar chegar aí. É cegueira escamotear estes problemas, ainda que seja gente da laia do Ventura a falar neles.
Mas, voltando atrás: e se um grupo de pessoas quiser construir uma mesquita num determinado sítio, com financiamento próprio que não o de radicais e antiocidentais? Nesse caso, se, ouvidas as populações, for concedida a licença, terá que ficar claro que qualquer incitamento à guerra aos “infiéis”, à submissão das mulheres e à preponderância da Sharia sobre as leis da República deve implicar a expulsão (ou prisão) do Imã.
Assim, querer levar a lei da liberdade de culto à risca, fazendo equivaler as instituições católicas às islâmicas em Portugal é convidar a população portuguesa a repudiar ainda mais esta esquerda. Não é que o grosso dos imigrantes muçulmanos seja mal-intencionado. Mas os que levam a religião muito à letra, que são muitos, criam claramente uma barreira intransponível à integração numa sociedade ocidental, com repercussões na sua descendência. Nós evoluímos no sentido de pôr a religião no seu devido lugar. Guerras por questões religiosas deixaram de fazer sentido e de acontecer. Os muçulmanos estão a trazer a questão religiosa outra vez para a ordem do dia e isto é incontestável. É o recuo à Idade Média. Com tudo o que se passa no Médio Oriente e as suas repercussões na Europa, o problema das mesquitas não pode ser tratado com a ligeireza com que os puristas da liberdade religiosa o tratam. Geralmente ateus, note-se, e de esquerda.