Da simpatia e da audiência gerada pelo ódio aos corruptos dos políticos

Não é de agora. Claro que não. Atacar a honra, a credibilidade e a legalidade de actos de políticos no activo é, e há muito, uma forma de os combater. É, desde logo, uma estratégia que pode ser seguida destruindo político a político, por exemplo com o objectivo de fazer cair um determinado Governo. Este tipo de ataque é, por isso, um dominó: apresenta-se em prestações semanais, sempre dirigido a uma só pessoa, verificando-se com a matemática do tempo que todos os bandidos pertencem ao mesmo grupo, ao mesmo Governo.
Este foi o estilo inaugurado pelo “Independente” de Paulo Portas, todas as sextas uma promessa, com ou sem provas, fazendo do obreiro um dos responsáveis pelo fim do cavaquismo. Paulo Portas era muito novo, diz-se, mas mais nova era eu, por exemplo, e aquelas primeiras páginas eram tão mortais que nem a circunstância de ter então 10 anos me fizeram esquecer o jornal “do momento”.
Passaram muitos anos, temos canais privados, que bom tanta liberdade de expressão, até para aqueles do PSD que odeiam Portas até hoje e optam pelo silênco, no seu pleno direito, enquanto outros, imagine-se, os que deveriam ser por adesão ideológica avessos ao “Independente”, passaram a usar da mesma técnica em tempos de técnica mais apurada.
Nem uma voz durante os seis anos mais impressionantes de perseguição política a um PM (com a ajuda de Cavaco, a ex-vítima) e, com isso, todos, mas todos, a construirem uma “moral de verdade” que assenta na negação dos mais elementares princípios do Estado de direito.
Por outro lado, esta moral está a acabar com a política. A política e sobretudo quem a exerce é presumivelmente um cão. E tanto é um cão que vozes da esquerda que animam o “Eixo do Mal” dizem, por exemplo, que Sócrates nunca poderá voltar à política por causa do Vara (Clara Ferreira Alves). O cidadão, portanto, para a comentadora, perdeu os seus direitos políticos porque confiou em Vara, pelos vistos um bom administrador da CGD, mas, já julgado e culpado, terá a sua sentença de culpabilidade estendida ao ex-PM.
Na inquisição era assim, de facto: vigora o princíipio da extensão da culpa. Daniel Oliveira, assertivo, não deixa dúvidas: “quem priva com um imoral é imoral”. A ser verdade, estou feita ao bife. Já privei, sem saber, com imorais lixados.
Tudo isto alimenta o sentimento popular traduzido em frases como: os deputados são todos corruptos; os deputados são todos advogados de grandes empresas que negoceiam com o Estado; os deputados não vão perder os dois subsídios, ai pois não; o ordenado dos deputdaos ronda os dez mil euros; e por aí fora.
Uma pena que em vez de se combater estes erros decorrentes de perseguições como a feita esta semana pelo Expresso a João Semedo, se caia na demagogia aprovando o nojento enriquecimento ilícito contra todos os pareceres de quem de direito.
Pode ser que alguém se lembre de lembrar à cidade que somos todos políticos.

14 thoughts on “Da simpatia e da audiência gerada pelo ódio aos corruptos dos políticos”

  1. Excelente artigo, partilho do seu ponto de vista.
    Infelizmente os julgamentos na praça pública já cairam na “normalidade”.
    Permita-me uma correcção ortográfica: perssiguição não, será antes perseguiçâo…

    Cumprimentos,
    Cândido Lemos

  2. Tenho a certeza que Clara Alves sabe deste magnífico texto. Se não responde, é porque não está à altura e neste caso, tudo fica clarificado.

  3. UMA “SANTANETE”

    A hipotética “dra.” Clara Ferreira Alves (chegou com dificuldade ao actual 12º ano), crítica literária que leu (jura ela) “os clássicos”, especialista do último escritor inglês com quem almoçou, autora de um romance anunciado em 1984 e nunca até agora publicado, dona de uma coluna ilegível (e bem escondida) na “revista” do Expresso, foi um dia arvorada directora da “Casa-Museu Fernando Pessoa” pela conhecida irresponsabilidade de Pedro Santana Lopes, de quem ela tinha sido uma entusiástica partidária. Daí em diante, a importantíssima Ferreira Alves e o “Pedro”, como ela dizia, ficaram muito amigos. Tão amigos que a “dra.” Clara apareceu um dia presuntiva directora do “Diário de Notícias”, coisa que me levou a sair antes que ela entrasse. Felizmente, não entrou, porque teve medo de cair na rua entre o “Expresso” e o DN, com a reputação de uma “santanete” obediente. Agora, morto o seu patrono, não perde uma para o maltratar, supondo que demonstra “independência”. Ontem, a propósito de um “Audi”, que o homem comprou, despejou em cima da cabeça dele todo o lixo do mundo. Santana não aprendeu que a certa espécie de pessoas não se fazem favores.
    Se a “dra.” Clara me quiser responder, sugiro que me responda em inglês e não meta na conversa a sua célebre descrição do pôr-do-sol no Cairo. Muito obrigado.

    VPV

  4. A criminalização dos adversários políticos sempre foi uma característica central dos regimes fascistas. Por isso não admira que tenha sido ressuscitada primeiramente pela extrema direita – o CDS, que se auto-intitulam de centristas, só falta saber porquê! – e mais recentemente apadrinhada pelo PSD – partido que de social ou democrata não tem nada.
    O domínio absoluto de tudo o que é comunicação social completa o tão almejado circulo.

    O fascismo voltou mas desta feita com a abstenção de um PS liderado por um trambiqueiro.

  5. Por falar em coerência, eu gostava de saber porque é que a Isabel e os seus “coleguinhas” escolheram para líder do partido alguém que apoia a criminalização da anterior direcção do PS, quer através de declarações quer através de silêncios, alguém que foi sempre conivente com a insidia, a deturpação e o assassinato de carácter como forma de estar na política?

  6. sim , sim , somos todos políticos , mas só alguns , muitos , demasiados , são remunerados por essa faceta tão cidadã e altruista . ..e também somos todos cozinheiros e músicos..e pecadores.

  7. VPV, da “A ascenção de Cavaco ao céu”?

    Olhe, se perguntar não ofende, diga lá se faz favor!

    Se o antigo ministro da reforma agrária do sr Soares, o sr António Barreto, é agora o propagandista-mor do “Pingo Doce”, porque razão o sr ainda não desempenha as mesmas funções no “Continente”? Eu dou uma ajuda, Fundação Shoné.

  8. só copiei do espectro, o melhor é perguntares ao vasco, mas acho que tem a ver com entaramelanço avaliando pelo sucesso dos jornais das cestas.

  9. Cara Isabel,
    Para a pequena-grande ambição de ClaraFA tudo está no bom caminho. Está seguindo mais ou menos à risca o caminho que um dia a levará a secretária de estado da cultura, também, porventura, sem assento no conselho de ministros. Segue com nuances o guião do actual sec, o paspalhão.
    Do eixo, o mínimo que se pode dizer é que aquilo está tudo tão contaminado de azia e dor de cotovelo, presunção e pretensionismo que até o mau cheiro salta do écram. É tanta a idiotice que até o o direitista conservador pml, entre aquela desgraçada gente, consegue passar por alguém sensato. O pedro, aquele que se ri alarvemente das alarvidades que produz e se toma por engraçado, esse, mete dó.
    Todos, à sua maneira e jeito, se batem pela vidinha: por um lugarzinho ou um lugarzão. Já imaginaram o que seria um governo com tipos deste calibre com poder de manipular os nossos destinos?

  10. As Democracias no Séc. XX caíam violentamente às mãos dos militares e eram repostas pacíficamente nas ruas.

    No Séc. XIX cairão suavemente às mãos dos oligarcas do megafone mediático-propagandístico. Porventura serão repostas de novo nas ruas, mas com a “doçura” de uma sobremesa com nome eslavo…

  11. O importante era eleger Sócrates como nosso Rei e senhor para os próximos 30 anos.Era tudo mais fácil.

    Cumprimentes reais e filosoficos desde do exílio forçado em Paris

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