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Contra as paixões e a decadência

A concomitância do acórdão sobre um recurso de Armando Vara e do despacho de arquivamento do inquérito a Dias Loureiro permitiu captar um luminoso registo da hipocrisia política e cultural que molda o espaço público. O objecto de estudo chama-se Marques Mendes. Eis o que ele consegue verter de rajada em 5 minutos:

– Armando Vara está a ser alvo de uma mudança de paradigma nos tribunais portugueses. Essa mudança na Justiça é positiva, é até excelente. Resulta de três factores: (i) “acabou a impunidade”; (ii) “a sociedade exige punições mais pesadas para os crimes de colarinho branco”; (iii) “os tribunais querem impor uma cultura do exemplo”.

– Dias Loureiro está a ser vítima de um mau funcionamento da Justiça. A começar pela duração do inquérito, oito anos, e a terminar nas suspeições que a procuradora incluiu no despacho, impossíveis de esclarecer e apagar. “Na Justiça não se pode agradar a gregos e troianos, isso é na política“.

Face a esta importante figura da nossa elite política e mediática estava uma jornalista que concordava com tudo o que lhe aparecia à frente. Para ela, a cena com o Vara era fixe, a cena com o Loureiro era foleira. A respeito do primeiro, a sua preocupação era a de saber se o bandido ainda poderia escapar aos merecidos 5 anos na choldra. A respeito do segundo, ela queria apuramento das responsabilidades, castigos para quem fez mal ao senhor. Ora, porquê esta atitude? Porque lhe disseram que ela está ali só para concordar? Porque calhou haver uma sintonia de pensamento entre a sua pessoa e a do comentador? Mas mesmo que haja concordância, por que caralho acha esta jornalista que o deve expressar e – o que é deontologicamente crucial – por causa disso abdicar de ser crítica perante as declarações que está a ouvir? Nunca o saberemos.

Marques Mendes não gosta de Armando Vara, por várias razões, e gosta de Dias Loureiro, por várias ligações. A partir desta configuração afectiva, os seus raciocínios decorrem da seguinte forma:

– Armando Vara indivíduo, sujeito e pessoa desaparece, desaparecendo igualmente a realidade concreta do seu processo judicial, ficando apenas a sua dimensão de condenado em tribunal. Este é um exercício de abstracção que permite depois o enfoque e realce numa abstracção superior, a da “Justiça”, dos “tribunais”, dos “juízes”, os quais são apresentados como um colectivo. O uso da expressão “mudança de paradigma” intenta diluir a responsabilidade individual dos juízes que condenaram Armando Vara num processo específico, com umas certas provas e não outras, com uma certa interpretação dessas provas e não outra, com uma certa valoração jurisprudencial dos crimes implícitos e não outra. Por cima disto, Marques Mendes justifica a lógica da “mão pesada”, explicando que se trata de um agravamento penal bondoso pois está a nascer de uma suposta “impunidade” que reinava no passado, e também da crise económica que afligiu e aflige tantos e a qual pede corpos dos ricalhaços pendurados pelo pescoço nas árvores, e, por fim, do papel paternalista que não só esperamos como desejamos que os juízes tenham em relação à sociedade, a qual está cheia de malandros a precisarem de castigos “exemplares.” O que está aqui implícito nesta juliana de pressuposto populistas, demagógicos, facciosos, maniqueístas e retintamente mentirosos dava para um “Prós e Contras” com a duração de seis meses em emissão contínua.

– Dias Loureiro indivíduo, sujeito, pessoa é posto em primeiro plano no confronto com as decisões da Justiça. Aqui, os actos do Ministério Público são inadmissíveis por estarem a violar os direitos de um dado cidadão. Nenhuma justificação abstracta pode ser invocada para legitimar o ataque aos bens concretos que foram atacados no despacho de arquivamento. O poder da abstracção é utilizado para defender o indivíduo contra os malefícios concretos oriundos de alguém particular na instituição. De repente, a aludida “mudança de paradigma” que justificava a “mão pesada” contra os crimes económicos de um tal Vara desaparece por completo do radar. Mendes ergue-se feito um leão contra o Ministério Público porque este não reuniu prova sequer para avançar com uma acusação. É todo o Estado de direito que está a ser conspurcado e isso ele não admite, seja com Dias Loureiro, seja com quem for, o mais borrabotas.

Será? Acontece que não sabemos o que Marques Mendes pensa acerca do modo como se chegou a uma justificação para os supostos crimes de Vara, e isto ainda antes, muito antes, de analisarmos a gravidade da pena face à matéria do eventual ilícito. Sabe Mendes se, de facto, houve algum crime cometido por Vara? Ou ainda melhor, conhece Mendes alguma prova de que Vara recebeu dinheiro do sucateiro? Nem ele conhece nem conhece o tribunal que condenou Vara, mais o outro que confirmou a pena. Vão meter Vara na cadeia durante 5 anos sem haver certeza de ter ocorrido uma qualquer ilegalidade. Onde está a paixão de Mendes pelo Estado de direito face a um processo que usa a liberdade de um cidadão como meio para agendas políticas e corporativas? Quem permitiu aos tribunais essa “mudança de paradigma” celebrada por Marques Mendes na ocasião em que a vê seleccionar um seu adversário político para o castigar muito para além da racionalidade judicial?

As circunstâncias em que toda a sociedade, todo o regime, está a aceitar que se trate Vara deste modo são fáceis de expor. E contam-se pelos dedos de meia mão aqueles que revelam colocar o primado da Lei democrática e da decência comunitária acima das paixões e da decadência.

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A história do cavaquismo está por fazer

A entrevista a Dias Loureiro – “Temos um Presidente com opinião sobre tudo menos os direitos fundamentais dos cidadãos” – oferece duas passagens geradoras de granítico silêncio no comentariado, seja à direita ou à esquerda:

- À boca pequena toda a gente diz que há uma central de informação em tal lado, as pessoas são estas e aquelas... Eu não vou dizer porque ainda vou ter outro processo a seguir, porque não posso provar também, não é? Mas nada acontece, a justiça tem sido incapaz de se investigar a ela própria nas coisas mais comezinhas.

- Cortei com um só amigo, um grande amigo. Um amigo a quem devotei uma amizade incondicional nos últimos 32 anos. Um amigo a quem dei, em tudo, o melhor de que fui capaz. Admirava-o como pessoa e como político. Continuo a admirar a sua obra política como primeiro-ministro. Falo do professor Aníbal Cavaco Silva. Da pessoa. Não lhe falei durante todo o segundo mandato presidencial e quando terminou as funções procurei-o para lhe dizer por quê me afastei dele. Disse-lhe que fui sempre leal à amizade que lhe dediquei. Disse-lhe que ele não o foi em relação à amizade que eu esperava dele. Disse-lhe que tenho a consciência tranquila. Agora a vida segue. A dele e a minha. Sem rancor. Às vezes lembrarei a mágoa.

Na primeira citação, Dias Loureiro está a declarar que tem conhecimento dos nomes dos agentes de Justiça que cometem crimes em conluio com jornalistas e órgãos de comunicação social. E acrescenta que essa informação a que se refere está na posse de muitos que a repetem em círculos privados, na “boca pequena”. Na segunda citação, Dias Loureiro humilha Cavaco Silva e mostra qual dos dois é que detém o poder dentro da relação. Pista: não é o orquestrador da “Inventona de Belém”.

Antes de irmos às ilações que estas duas citações legitimam, uma nota sobre a figura. No seio do PSD sabe-se muitíssimo bem como é que o Manuel de Aguiar da Beira subiu dentro do partido. Corriam anedotas ao longo das décadas sobre os tempos de Coimbra que eram contadas por militantes e dirigentes laranjas. Este aparato sórdido, pois as histórias eram sórdidas, ligava-se com a percepção de que ele se tinha tornado na eminência parda do cavaquismo. E o que foi o cavaquismo? Foi algo sem o qual não teria nascido o BPN, por exemplo, daí a teia de relações entre os seus protagonistas, os da corte de Cavaco e os do banco, sendo que nalguns casos eram exactamente os mesmos. Donde, quando rebentou a crise do BPN, e se deu a intervenção do Ministério Público, muito boa gente jurava que seria impossível tocar em Dias Loureiro. A lógica sendo a de que, se ele caísse, inevitavelmente cairia Cavaco. E jamais a oligarquia deixaria que isso acontecesse. Os factos vieram dar razão a estas profecias, pois Dias Loureiro acaba de ver um bizarro e escandaloso despacho de arquivamento a, para todos os efeitos práticos, ilibá-lo de crimes que o Ministério Público mantém terem acontecido por sua responsabilidade, por um lado, e Cavaco permite-se gozar com o regime e a comunidade, vindo mentir pateticamente a respeito de um crime que igualmente cometeu, pelo outro. Do ponto de vista da opinião, são dois escroques. Do ponto de vista da Lei, dois inocentes. E é a Lei o que mais importa.

Voltando às ilações, a primeira consiste nesta constatação: nem quando um cidadão declara ter conhecimento da prática de crimes e de quem são os criminosos tal impele o Ministério Público a agir caso as implicações corporativas e políticas lhe desagradem. Joana Marques Vidal não quer saber se Dias Loureiro mente ou se está na posse de uma valiosíssima informação que permitiria, finalmente, apanhar um dos criminosos na origem das violações do segredo de Justiça? O corolário é o de que os partidos, o Governo e o Presidente da República ficam automaticamente na categoria de cúmplices pela sua passividade e silêncio. A segunda remete para a História de Portugal e, em particular, para a história de Cavaco Silva primeiro-ministro e Presidente da República. O que Dias Loureiro quis mostrar foi que o seu “grande amigo” o atraiçoou e que, portanto, há uma história secreta entre os dois que nunca veio a público. Conhecer essa história corresponderia a conhecer os meandros da oligarquia portuguesa dos últimos 30 anos.

O melhor e mais fundo da política

Paulo Baldaia, honra lhe seja, foi a primeira figura grada da imprensa, e até agora a única adentro do meu conhecimento, a publicar uma opinião sobre o inadmissível despacho de arquivamento do inquérito a Dias Loureiro e Oliveira Costa. E nela deixa a pergunta que vai ao essencial de parte do que está em causa:

Alguém quer saber? Alguém com responsabilidade e poder para mudar o que está mal é capaz de explicar ao Ministério Público que um despacho de arquivamento não deve incluir um rol de acusações que a própria procuradora não pretende provar em tribunal?

O Estado de direito está a ser corrompido. Alguém quer saber?

Ora, ninguém quer saber. Ninguém quer explicar seja o que for ao Ministério Público que aluda, nem que seja no reverso das palavras ou pelo aroma, à defesa do Estado de direito e da cidadania, da dignidade e da liberdade. Ninguém. Alguém no Governo? Não temos conhecimento. Alguém nos partidos, qualquer partido? Não temos conhecimento. Alguém na academia? Talvez, mas, por favor, falem um bocadinho mais alto e com mais regularidade. Alguém em programas de televisão? Por vezes, mas sem conseguirem deixar de estar a representar para a televisão. Alguém na comunicação social, como aparentemente está aqui a fazer o Baldaia? Nim. É ler o seu texto e constatar como a intenção é boa mas a análise é superficial, a denúncia é pífia.

Não há escândalo perante um despacho escandaloso. Oito anos de investigação produziram uma sentença subjectiva que o Ministério Público deixa lavrada em esterco jurídico. A procuradora responsável pelo inquérito vem dizer à sociedade que os arguidos não devem gozar da presunção de inocência apesar da falta de provas para sequer avançar com uma acusação. Ficam para sempre condenados à suspeição, sem qualquer possibilidade de recurso ou cumprimento da pena.

Creio que o Paulo Baldaia, se está mesmo interessado neste assunto, pode contribuir com algo mais do que o meritório grito de indignação. Poderia, por exemplo, ajudar a compreender por que é que a Cofina/Correio da Manhã é esse esmagador fenómeno de popularidade e influência social que domina Portugal. Que alimenta um clima de caça a certos alvos políticos através de técnicas de calúnia que depois surgem referidas implicitamente pela própria Justiça para justificar certas penas. Tal como acaba de acontecer com Vara, um cidadão que se tornou num saco de encher no espaço público há anos e anos, o qual recebeu do Tribunal da Relação do Porto a confirmação de uma condenação inédita pela sua gravidade face aos supostos ilícitos em causa. Os juízes invocam um “sentimento de reprovação social” para com a criminalidade financeira que lhes serve para defenderem a pena de prisão efectiva durante 5 anos. Pois bem, onde foram esses juízes encontrar os indícios do tal sentimento de reprovação social? Houve reais, concorridas, sonoras manifestações nas ruas? Recebem correspondência da população a falar do assunto? Frequentam as redes sociais e andam a contar os comentários furiosos a esse respeito? Dispõem de qualquer metodologia estatística ou basta-lhes molhar o dedo na boca e esticá-lo à janela para saberem donde sopra o vento? Alguém faz a mais pequena ideia de quais sejam os processos sensoriais e cognitivos usados pelos juízes para detectarem “sentimentos”?

A Justiça portuguesa, tanto no Ministério Público como nos tribunais, está a ser fonte de crimes. A calúnia é crime. O preconceito pode ser criminoso ao gerar injustiças. Se o jornalismo não quiser ser cúmplice destes crimes tem de combatê-los fora das secções de opinião. Porque precisamos de outra munição. Precisamos de investigar aqueles a quem confiamos as investigações e os juízos sobre a liberdade e o património. É que a Justiça pertence ao melhor e mais fundo da política.

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We’ll always have Petra

O caluniador pago pelo Público escreveu uma suposta homenagem a Alexandra Lucas Coelho na hora da sua despedida do/pelo semipasquim – Adeus, Alexandra, e até já – em que 80% do palavreado é acerca de si próprio e os 20% restantes acerca de si mesmo enrolado na memória de uma Alexandra com 14 anos a menos passeando-se airosa em ambientes tórridos e aventureiros. O cenário é heróico, romântico, colocando-se em palco ao lado de “grandes estrelas da reportagem mundial” a acotovelarem-se sedentas mas impecavelmente penteadas no balcão dos uísques e coquetéis algures numa das cidades mais perigosas do Mundo. O registo alude em subtexto ao enredo do filme Casablanca depois de retirarmos o Bogart, a Bergman, o Curtiz, o piano e a Casablanca, deixando só o avião para Lisboa e uma homérica pilha com restos de frangos assados amontoada nas traseiras do Hotel Babylon. Quem procurar nos seus caracteres por alguma vírgula ou espaço em branco que se relacione ainda que lateral e remotamente com o contexto e lógica da saída da Alexandra do jornal onde o caluniador é vedeta celebrada terá mais sorte se for à procura de imagens da Nossa Senhora de Fátima estampadas nas farpelas dos peregrinos a Meca. Aliás, estritamente pelo que diz não é possível sequer saber se alguma vez leu alguma coisa da senhora, quanto mais descobrirmos se tem uma apreciação a respeito. O chuto dado numa das cronistas, escritoras e jornalistas mais relevantes de toda a imprensa escrita é tão-só carne para o canhão narcísico deste medíocre e fanático operário da indústria da calúnia.

Hoje, irrompendo desasado e cheio de dores após umas semanas em que não consumiu socrataína, publicou esta maravilha: Paulo Rangel e a “claustrofobia à Sócrates”. O puro delírio da tese, a de que a comunicação social portuguesa foi de alguma forma diminuída na sua liberdade por algo não identificado que governantes socialistas terão feito entre 2005 e 2011, atinge neste exercício a categoria de arte e passa a ser legitimamente um objecto que suscita admiração. No caso, é admirável que não haja dinheiro para Malheiros e Lucas Coelho, naquilo que outrora foi um jornal de referência pelas melhores razões, mas haja dinheiro (e quanto? adorava saber a como está a gramagem deste tipo de bosta) para um tipo de estupidez onde já se perdeu qualquer contacto com a realidade. Seria um espectáculo que me faria gastar os 10 euros que tenho no bolso esse de ver o caluniador a demonstrar como na RTP, na Público, no Expresso, no Correio da Manhã, na SIC, na TVI, no DN, no Sol, na TSF, na Sábado, na Renascença, no i e sei lá mais onde, entre 2005 e 2011, (i) “a esmagadora maioria dos directores e jornalistas era de esquerda” e (ii) as peças que essas vítimas produziram exibem as marcas de um “ambiente de claustrofobia democrática e condicionamento da liberdade”. Infelizmente, nunca o caluniador me dará essa oportunidade de gastar a nota nem há quem o confronte a pedir para ter módica vergonha nos dedos e na lábia.

Contudo, o mais importante na parceria caluniador-Público está na sua pulsão para Torquemada da política-espectáculo. Ele apela a que Vieira da Silva, Santos Silva e Pedro Silva Pereira sejam afastados de cargos políticos e presenças mediáticas e sejam julgados pela populaça com base nas sórdidas suspeições lançadas no espaço público pelos esgotos a céu aberto. Um crime de violação do segredo de justiça, uma parangona cuja intenção não passa de assassinato de carácter, é para este caluniador o suficiente para usar a sua carteira profissional de jornalista como parte de uma perseguição a certas pessoas que odeia. É que ele assina estes panfletos persecutórios como “jornalista”. Um jornalista interessadíssimo em conhecer a vida privada do filho de Pedro Silva Pereira por razões que o jornalismo desconhece e faz questão de não conhecer para, lá está, poder continuar a chamar-se jornalismo. Eis o meu conselho: inspira-te naqueles dias de Bagdade em que passavas risonho e altaneiro pelos pósteres das pornochanchadas para iraquiano ver, enquanto fazias tempo para mais uma sessão de perna ou peito (assados) com a Alexandra, e interroga pessoalmente o Pedro Silva Pereira acerca do seu filho e outros tópicos de fascínio para o teu decentíssimo “jornalismo”.

Força nisso. Não és qualquer. Estiveste em Petra quando os turistas tinham fugido por causa da guerra. Isto aconteceu. Turistas a bazarem pela esquerda baixa, tu a entrares pela direita com a dama ao lado. Foi lindo. Foi… lindo (não me ocorre outro adjectivo). Portanto, avança. Encosta o Pedro Silva Pereira à parede. Que merda é essa com o teu filho? Hã, pá? Desembucha, se queres continuar a aparecer na TV. Já não é possível ter dúvidas, chegou o tempo de também ele saber quem tu és e o que andaste a fazer ali por meados de 2003.

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Um americano em Lisboa

No restaurante onde almoçamos, ouvi este norte-americano explicar à mãe do seu filho bebé que, provavelmente, iria votar Trump. A mãe talvez seja sul-coreana, e nada dizia. Ambos na casa dos trinta e poucos. O americano explicava-lhe o problema: Hillary era corrupta e só alguém capaz de fazer uma radical limpeza em Washington merecia o seu voto. Estávamos em finais de Outubro.

Nesta quarta-feira, o americano conversava com uma outra mulher, talvez colega dele, talvez brasileira. Falavam da saúde em Portugal, e quais as soluções disponíveis. A mulher explicava-lhe que tinha aderido a uma oferta qualquer privada e queria saber da sua experiência. O americano começou a explicar que estava surpreendido com a saúde pública em Portugal, a qual considerou de uma qualidade a anos-luz do cenário nos EUA. Contou que contrataram uma parteira para fazer o parto em casa mas que desistiram a meio por causa das dores. Então, rumaram à maternidade Alfredo da Costa, já com a dilatação em curso. Lá chegados, foram profissionalmente tratados e correu tudo bem. Deu outros exemplos de consultas e exames no sistema público e foi acrescentando elogios. Estava espantado e encantado. Depois passou para o diagnóstico da actual situação americana. Deu Nixon como o responsável pela mercantilização da saúde nos EUA, criando uma lei que permitia estar no lucro a principal finalidade dos serviços médicos à população americana. E chegou ao Obamacare, o qual explicou ao detalhe e onde reconheceu que, por sua causa, dezenas ou centenas de milhares de vidas tinham sido salvas porque, finalmente, essas pessoas tiveram acesso a um seguro de saúde que lhes permitiu usufruir de preciosos cuidados médicos. Fez então a comparação com o que os Republicanos defendem, o qual consiste no completo abandono daqueles que não possam pagar as seus necessidades de saúde ao preço de mercado. Citando-o de memória, há velhos escondidos a defenderem os interesses das grandes empresas e corporações que usam políticos jovens e bonitos, como Paul Ryan, para tentarem levar a sociedade e o eleitorado a aceitar políticas nojentas. Concluiu dizendo que Washington está nas mãos dos corruptos e que nada é possível ser feito, tal como se via com Trump que prometeu exactamente o contrário do que está a mostrar.

Este testemunho funciona como caixa de Petri onde podemos observar um processo cognitivo universal ligado com o desenvolvimento, maturação e crises das democracias numa idade pós-jornalística e amoral. No caso, o sujeito falante terá uma educação superior, está informado, inclusive em matéria histórica, e não se pode duvidar da sua boa intenção: ele gostaria que os políticos lhe aparecessem puros. Foi exactamente por isso, num paradoxo crucial para entendermos as últimas eleições americanas e várias na Europa, que preferiu um candidato desqualificado que lhe prometia uma utopia básica e instantânea, Trump, a uma candidata altamente qualificada que lhe prometia realismo e a devoção possível à causa pública, Hillary. É que a candidata com provas dadas quanto ao sentido das políticas benéficas para a maioria e para os mais pobres a assumir na sua governação era também para ele, e pelas mesmíssimas razões, a candidata comprovadamente corrupta pelo simples facto de ter exercido cargos políticos. Por sua vez, o candidato com provas dadas nas ilegalidades e imoralidades enquanto empresário era também para ele, e por inerência, o candidato capaz de fazer frente aos políticos dado nunca se ter misturado com os “corruptos de Washington”. Foi completamente enganado, gado para abate.

Se este americano se dedicar a estudar a história do Serviço Nacional de Saúde, para a qual terá de estudar o salazarismo e o 25 de Abril, é até possível que ainda venha a escrever uma carta a Hillary, e outra a Obama, a pedir desculpa pela sua tão populista, tão estúpida, cruz num certo boletim de voto.

Pacheco Pereira a caminho de Damasco

Paulo Pedroso elogiou o Pacheco por causa do texto Impedir abusos, defender direitos, liberdades e garantias é connosco e não com Sócrates, onde, para além da referência ao processo Casa Pia, encontrou uma denúncia dos abusos do Ministério Público sobre Sócrates e demais arguidos na “Operação Marquês”. Abusos que está em condições de compreender por experiência própria. Pedroso viu a sua carreira política, altamente promissora, ficar destruída precisamente por ter sido vítima de uma Justiça onde se praticam recorrentes, sistemáticas e capitosas injustiças.

Ora, o texto do Pacheco nasceu da intervenção de João Nabais no Expresso da Meia Noite no passado dia 17. Esse episódio de indignação foi uma pedrada no charco no marasmo e atrofio cívico dos espectadores que ainda não perderam o respeito por si próprios. Porque Nabais estava rodeado de 5 jornalistas, uma delas armada em advogada para o deboche ser maior, que, por actos e omissões (sim, Nicolau, esta é para ti apesar do tudo que não és), estavam a validar o comportamento criminoso do Ministério Público nas investigações acerca da suspeitada corrupção de Sócrates. E Nabais disse-lhes na cara que a sua cumplicidade com o escândalo em que o processo se transformou desde o seu primeiro momento público (e poderíamos inclusive situar o escândalo muito antes) só se explicava pela obsessão com Sócrates. Uma desvairada obsessão que permite a jornalistas da suposta “imprensa de referência” usarem a sua carteira profissional para mostrarem que sabem mais sobre um dado processo judicial do que os próprios arguidos e sua defesa. Uma obsessão feita de ódio, mas também de sectarismo e dependências várias a vários poderes fácticos, que se celebra a si própria num frenesim de ilegalidades inerentes a um linchamento em curso.

Este diálogo, ao minuto 33, sintetiza a “operação Sócrates” que parte da “imprensa” está a fazer:

Inês Serra Lopes - O importante é que exista uma acusação!

João Nabais - Mas porque é que tem que haver uma acusação?... Pode haver um despacho de arquivamento.

A promiscuidade criminosa do Ministério Público com os órgãos de comunicação social que exploram uma efectiva suspensão do Estado de direito para concretizarem agendas políticas e/ou comerciais tem esta superior finalidade estratégica: levar à aceitação social de uma eventual acusação insuficiente em matéria probatória e, acto contínuo, levar a uma eventual condenação por provas indirectas e clamor público. Perante a evidência, poder político, instituições públicas e sociedade civil têm apoiado com passividades e silêncios cumulativos o auto-de-fé. Porquê? Porque, e por razões fáceis de encontrar, até o PS obtém benefícios neste julgamento e tortura na praça pública que se faz a Sócrates por um colectivo cobarde. Estamos a viver uma inaudita experiência catártica onde os reais ou imaginados crimes de Sócrates deixam de requerer provas porque estão a ser cinzelados como mitos fundadores da nova História. Ele tem de ser sacrificado no altar da nossa submissão aos poderes que não controlamos, sequer sabemos onde habitam, mas que nos entram em casa e na mirrada defesa da liberdade. Reina a anomia na Grei por causa da paixão política por um homem.

O texto do Pacheco é ridículo, patético e mentiroso. Mais um assim, o enésimo, que vende por bom dinheiro. 90% do que escreve não passa da cassete “ele é culpado dos piores crimes, como eu sempre disse”, fazendo coro com os esgotos a céu aberto que fedem na cidade. Pacheco é um fulano que está na política há 40 ou 50 anos, que foi parte integrante e activa do cavaquismo nos seus vários ciclos, e que nunca encontrou mentiras e anomalias suspeitas no pessoal a quem se abraçou e com quem se cruzou. Foi preciso aparecer Sócrates para finalmente se confrontar com a corrupção e males congéneres. O Pacheco, portanto, é um palhaço que ganha a vida no circo que é a indústria da calúnia. Todavia, até este palhaço, mesmo que irónica e involuntariamente, consegue contribuir para a iluminação do que está em causa:

Sócrates hoje está sozinho no seu labirinto. A direita que o louvou como o “social-democrata” do PS, como aquele que tinha “roubado” o programa ao PSD, que andou ali a fazer-lhe a corte nos interesses e na política, agora, certamente por complexo de culpa, vai lá apedrejá-lo como se nada tivesse que ver com o homem. Mais, em vários momentos cruciais, protegeu-o de acusações muito semelhantes àquelas de que hoje lhe faz o Ministério Público.

A tese é a de que Passos e Relvas foram cúmplices de Sócrates quando o sabiam culpado de ilegalidades. Uma tese literalmente maravilhosa, que se explicita a si própria quanto à sua origem mental sem carência de mais palavras. O que realmente importa na citação está nesta oração: “protegeu-o de acusações muito semelhantes àquelas de que hoje lhe faz o Ministério Público.“. Do que fala é do “Face Oculta” e da operação que levou a que se espiasse ilegalmente um primeiro-ministro com vista a abrir um processo judicial contra ele em cima das eleições de 2009. Pois bem, quando o Pacheco repete estas bojardas a troco de dinheiro, e como estrela da política-espectáculo no suposto “jornalismo de referência”, a sua mensagem consiste efectivamente nos seguintes elementos:

– Que Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento são ainda mais culpados do que Passos e Relvas, pois sabiam tanto ou mais do que eles e tinham a acrescida responsabilidade de agir no cumprimento do seu dever. Com isto, o Pacheco contribui intencionalmente para espalhar no espaço público uma suspeita conspiracionista cuja lógica é a de levar ao sentimento de que as instituições da República e o Estado de direito ruíram pelo poder diabólico – portanto, inexplicável e indomável – de uma coligação de agentes, uns nomeados e outros apenas subentendidos.

– Que nada se tem de concretizar para atacar Sócrates e terceiros com quem se alucinem ligações de parceria, basta apenas lançar suspeições sem fundamento. O Pacheco repete que tomou conhecimento dos registos da espionagem feita a Sócrates, que eles são “terríveis” e que há muita gente a mentir, mas nunca se foi oferecer ao Ministério Público para os ajudar a apanhar essa malandragem nem sequer permite que se saiba do que está a falar. É pura canalhice.

– Que o “Face Oculta” não tinha matéria que legitimasse a intervenção da Justiça mas chegava para judicializar a política na forma de mais comissões de inquérito e, com sorte, levando a que o Ministério Público abrisse uma investigação, de modo a que então se fizesse a exploração político-mediática e devassa da privacidade que tem sido feita na “Operação Marquês”. O Pacheco parece não ter qualquer consciência de que o combate político a Sócrates pela direita não foi feito no páreo de modelos de sociedade e desenvolvimento económico mas, logo desde 2004 com o Freeport e os boatos de ser homossexual, exclusivamente recorrendo a assassinatos de carácter – os quais tiveram sempre a participação de agentes da Justiça e/ou da comunicação social.

De repente, aparentemente, em Março de 2017, oito anos depois do que andou a fazer e com quem o andou a fazer, o Pacheco começa a dar-se conta de que, talvez, quer-se dizer, vai na volta, isto que se passa com Sócrates no tandem Justiça-indústria da calúnia é capaz, se calhar, talvez, vai na volta, de ser mesmo, ai jasus, uma perseguição política. Talvez.

Já que é notório o teu desequilíbrio em cima do cavalo, Pacheco, só posso desejar que te aleijes na queda.

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Aviso à navegação

Comentários que tenham muitas ligações (links) poderão ficar retidos pelo sistema automático de afastamento do merdelim (spam). E aquilo que é apanhado nesse filtro por cegueira da máquina nem sempre é salvo da destruição irreversível pois para tal há que estar a ver todos os comentários considerados merdelim (1.689.388, é o total destes seres que foram apanhados ao longo dos anos neste momento em que escrevo). Ora, tal confirmação manual só acontece de forma aleatória e circunstancial.

Igualmente podem ir parar ao esgoto comentários que não tenham qualquer ligação de hipertexto e que, ainda por cima, sejam de comentadores regulares – como aconteceu recentemente com o último comentário do Joe Strummer. Não sei qual é a causa desse fenómeno, mas aconselho a que se envie uma digicarta para o blogue calhando terem algum comentário retido e sentindo que ele merece melhor sorte.

É um grande cultor da lei moral de Kant, diz esta anedota ambulante


(oferta do nosso amigo Lucas Galuxo)

Para além do que o perigoso socrático de nome Judice diz, tocando num aspecto crucial para as obrigações da Justiça e dos interesses da soberania que o comentariado nacional intencionalmente abafa, colhe recordar que Carlos Alexandre, na entrevista à SIC onde aparece todo pimpão a fazer ameaças inclusive a colegas juízes, por três vezes declara que não recebe ajuda financeira de amigos. Ou seja, tal como Pedro em relação a um certo galináceo de Israel, Carlos mentiu a triplicar para que todo o pulha cantasse de galo.

Um juiz que dá uma entrevista para se promover como santo franciscano e para insinuar que um certo e notabilíssimo arguido que anda a julgar “tem dinheiro em contas de amigos”, revelando ser uma obscena farsa o suposto papel de defensor das liberdades e garantias dos cidadãos na fase de instrução, e que ainda por cima disto resolve mentir a respeito dos amigos procuradores que lhe emprestam dinheiro, terá condições para julgar seja quem for em nome da Justiça? Se tiver, como tem, então estamos desgraçados.

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