Archive for the 'Susana' Category
Há tempos deixei aqui este comentário:
a susana tem andado soterrada debaixo do trabalho e demais assuntos que foi deixando pendurados enquanto andou algum tempo dependurada nos blogues. lê regularmente o aspirina, que eu sei, mas evita comentar para não prolongar suspensões. vai deixar o aspirina por não fazer sentido estar não estando, mas ainda não [...]
A mão pousava os dedos espalmados na beira do balcão, com o braço a sustentar o peso do corpo em fuga ligeira à ortogonalidade. Está tudo sempre a cascar nos militares, mas queria ver se viesse a guerra. Quando é a guerra, aí já nos querem. Aí é que ficam a saber o horror da [...]
No exame nacional de língua portuguesa, o meu filho não soube responder apenas à pergunta nº 7. Tive pena, porque o texto a que se refere* é belo e esperaria que ele tivesse sido capaz de uma qualquer interpretação do excerto apresentado, solicitação enunciada pela pergunta. Há tempos encontrei um apontamento dele, do ano passado, [...]
Há coisas que me irritam. Coisas que irritam a ponto de apetecer descarregar. Quando fico assim apetece dar pontapés em objectos pela rua fora. Antigamente havia sempre umas pedras da calçada soltas ou uma garrafa, ou uma lata, até uma carica para pontapear nos passeios. Mas agora só cagalhotos de cão escapam ao zelo varredor [...]
A bicicleta passava ainda era dia e noite. Encostava-a à parede e seguia a pé para o campo, atrás do carro de mão. Aparece-me ligado à memória do lugar, paisagens substituídas. Um rosto afogueado a emergir dos feijoeiros, galochas avistadas por entre as videiras, som de borracha sobre o saibro. Uma sombra de viúvo pairava [...]
afecto
Desde que comera o pai, após o seu suicídio, habituara-se a farejar os mortos em busca da proximidade mórbida. Não era gula que sentia, apenas a necessidade de preencher um espaço sombrio que se insinuava entre o ventre e o coração. Ora, como era frágil de estômago, vomitava quase de imediato. E embora não tivesse [...]
Aqui
Manual de instruções:
Esperar e não mexer, que mexe sozinho. Ligar o som.
(Descoberto ali.)
Não se deixem enganar pelo Carlos. É de carols que se trata. Aquelas peças de canto coral que fazem crescer as crianças inglesas no amor à música enquanto lhes afinam a voz e a sensibilidade. Razões de cultura que permitem a revelação de fenómenos como este e que tão pouco alimento têm nas nossas imediações. [...]
Ontem, na feira do livro. Espero na fila da bica de água, distraída com os meus filhos e as suas reclamações. Não vejo quem está à frente. Ambos bebem e depois é a minha vez. O papel estava colado pela água, rasgado, um pouco desfeito, mas reconheci-lhe a escrita. A lápis, astucioso. Secou sobre a [...]
A amiga andava carente, faltava-lhe o sorriso bonito. E elas não descansaram até lhe arranjarem um amigo colorido. Primeiro sondaram no círculo de amizades mais próximas. Depois foi a vez dos anúncios nos periódicos e dum périplo pela internet. Acabaram por descobri-lo no centro de Lisboa, mesmo ao lado da caixa registadora, num estabelecimento do [...]
ternura
O que mais a incomodava não era nem a saliva viscosa, nem as unhas dos pés amarelecidas. Era apenas um velho, que pouco mais trabalho lhe dava que uma ejaculação octogenária por semana.
O que já não suportava, isso não, era a ternura do olhar dele no momento de se vir. Nessa tarde, foi com alívio [...]
desprezo
Jazia morto na estrada. Aproximei-me.
Ao ritmo lento da decomposição, bailava um sorriso involuntário na face já ausente de carne. Retribuí o sorriso, com desprezo. Baixei-me, tirei-lhe o dinheiro. Voltando-me esqueci-o de imediato. Os mortos não merecem memória.
eu sei que tu sabes quem sou
Temos um post, no Aspirina, agendado para um futuro incerto, data marcada. Já se falou em apagá-lo, mas eu quis preservar-lhe a presença. Com o sugestivo título «Desta não estava à espera», mantém-nos expectantes, mesmo sabendo que esta não chegará. A escrever direito por linhas tortas. Cada dia que passa, o futuro fica mais grávido. [...]
E ontem o meu filho contou-me que alguns colegas, quando se riem, em vez de darem uma boa gargalhada exclamam LOL.
Consegue obter-se uma índice máximo de anuências gestuais num concerto de metal. Em nenhum outro género musical faz mais sentido a expressão «abanar a carola». O metaleiro deve ter boas vértebras cervicais para dançar como um verdadeiro strobe humano. A luz vem dos reflexos no cabelo. Há uma percentagem maior de cabelos compridos num concerto [...]
A igreja de S. Domingos está em ruínas desde 1954. Ou será que o incêndio foi em 58? Alguns dizem mesmo que aconteceu em 59. Nos anos 90 trataram de pôr-lhe uma abóbada, agora esponjada com pigmentos naturais. Mas se pusermos a mão em pala sobre os olhos continuamos a ter as ruínas e tapamos [...]
Cada nica 100 porta mansa
Croma 100 a pinta cansada
Rosna, mata 100 pica, dança
Narcisa canta 100 pomada
100 mainada pancas troca
100 psico-drama na catana
Da anca dá sã trip 100 moca
Ponta 100 risca cá da mana
Casa 100 picada na montra
Dá post 100 ar, anima cancã
Ama 100 pisca, anda contra
Ansa 100 cinta, madraço Pã
100 cara capta na sina dom
Trinca [...]
Os graffiti são tão perenes que incomodam populações e autarquias. Embora após Basquiat mais nenhum artista saído da rua tenha podido contar com roubos de paredes inteiras por potenciais coleccionadores sem dinheiro, os graffiti ascenderam ao estatuto polémico de obras de arte, para os que os vêem neles uma curte de expressão cultural street, grunge, [...]


Intervenções cirúrgicas