A ascensão de Tsipras (1) – os amigos são para as ocasiões

Pelo que tenho seguido da ascensão meteórica de Alex Tsipras desde o resultado surpresa das últimas eleições gregas, poderemos bem estar perante um politico excepcional. A sua extraordinária prestação quando da “tentativa” de formar governo tem vindo progressivamente a confirmar-se na campanha em curso. Mas a sua subida não se fez sem ajuda. E essa ajuda veio precisamente da UE e FMI.

Perante a radicalidade do que o Syriza propõe, seria previsível que tentassem influenciar os eleitores gregos. A estratégia mais que óbvia era o medo, e não têm sido nada meigos a utilizá-la. O que temos assistido é uma das maiores sucessões de ameaças, pressões e chantagens que me lembro de ter visto numas eleições. E também uma das maiores demonstrações de estupidez já vistas na politica europeia, culminando na infame entrevista de Lagarde. Aliás, esta última atingiu níveis de indecência de tal maneira elevados, vindos de uma mulher inteligente que sabia, porque tinha de saber, o efeito que causariam, que é perfeitamente legítimo considerar que foram uma forma de ajudar Tsipras a ganhar e forçar a mão da Alemanha. Afinal, não dizem que a politica europeia é bizantina por acaso.

De qualquer maneira, o efeito foi precisamente o que seria de esperar: as ameaças, aos berros, de que a Grécia seria expulsa caso não cumprisse, escrupulosamente, um programa que todos vêm que não resulta pode fazer sentido para o eleitorado doméstico da restante UE, mas tirou por completo o tapete a uma solução mais “moderada” vinda do lado de Samaras e da Nova Democracia, baseada na vaga promessa de “negociações” e “ajustes” ao memorando. Neste momento, graças às várias intervenções dos responsáveis europeus, todos sabem que não há hipótese de negociação nem ajustes. O memorando é para cumprir, tal como está ou ainda mais duro, e custe o que custar. O que tem o mérito de tornar a escolha, para os gregos, perfeitamente clara: ou se mantém o rumo que conduziu ao desastre, ou se renega o rumo, arriscando um desastre maior mas combatendo até ao fim, e sobretudo não caindo sozinhos. Não existe agora meio-termo, não há moderados em quem votar, apenas radicais anti-memorando e radicais pró-memorando. E o Syriza passou de 16% a 30% nas últimas sondagens. Mais um sucesso europeu, portanto.

Logo, é bastante realista esperar que o próximo líder grego, mesmo em coligação, seja Alex Tsipras. E a partir daí, como dizem os americanos, all hell will break loose. Ou não. Porque apesar de ser “esquerda radical”, o homem parece saber perfeitamente o que faz. Um jogo muito, muito perigoso, sem dúvida, com implicações à escala mundial. E Tsipras sabe-o. E sabe que os restantes líderes também o sabem, e que o andavam a pedir já há bastante tempo. Vão finalmente tê-lo.

13 thoughts on “A ascensão de Tsipras (1) – os amigos são para as ocasiões”

  1. Bem posto. Resta saber (cá para mim) se esta compleição foi maquiavelicamente preparada ao milílogo ou se é um inevitável efeito dialéctico da união europeia que arrasta a sua denegação, tendo como contraponto o império.

  2. E até vai ser giro ver os tubarões de plástico a serem despedaçados às postas e esquartejados sem dó nem piedade por uma sardinha, mas com dentes de diamante.

    É mesmo de um destes que estamos a precisar cá: um Tsipras português, em liga leve, mas dura, de fibra de um Sócrates com a coragem de um Salgueiro Maia…

    Força, Grécia! Mostrar-lhes como é, como quando voltaste a nau catrineta do Santana & Companhia, no Estádio da Luz, em 2004!

  3. os xinocas seguram e os russos acompanham à viola. surpreso pela hilária ainda não lhes ter cantado o fado.

  4. Tudo muito certo, mas, com 30%, se lá chegarem, não têm maioria e vão ter de fazer uma coligação, como dizes. E com quem? Com a Nova Democracia ou o PASOK, impossível, e com os extremistas de direita ainda mais impossível. Com os comunistas? Não quiseram antes, porque quereriam agora? Melhor seria terem uma maioria mais ampla. Teria um grande interesse histórico.
    Possivelmente nada de muito diferente das últimas eleições se irá passar. Se o Syriza for o mais votado, ainda que sem maioria absoluta, quererá liderar o processo, seja ele qual for, mas, para negociar com a UE, tem de formar governo e há grandes hipóteses de não sair governo nenhum das próximas eleições. Avizinha-se um grande caos, seguido de um impasse e depois de um “passem bem”. Ou dito pelos gregos aos alemães, ou vice-versa. O que pode até ser benéfico para clarificar as coisas na Europa.

  5. Penélope, a coligação será com a Esquerda Democrática, que nas últimas sondagens andavam pelos 7,5% e já disseram que estão abertos a um entendimento, e possivelmente os Gregos Independentes com 4,5%, que têm também dado pistas nesse sentido. E muito me surpreenderia se o Syriza tivesse menos de 30-35%. Com o bónus de 50 deputados deve chegar, embora o cenário que descreves seja perfeitamente possível. O KKE é, tal como cá, uma carta fora do baralho.

  6. Claro que, no seio da Europa, todas as pressões possíveis serão exercidas sobre estes “radicais” (que anátema tão conveniente, uma espécie de “terroristas”). Se saírem vitoriosos e conseguirem formar uma coligação (será que não cai algum avião ou um maluquinho solitário se lembra de assassinar o Tsipras?…), não tenho a mínima dúvida de que ficarão isolados, cercados pela borregada Europeia e pelo Poder financeiro. Serão fustigados sem piedade para servirem de exemplo ao resto dos potenciais infractores.
    Ora, e se, por acaso, se lembrarem de seguir um percurso ligeiramente diferente do previsto?
    Pode ser que queiram aproveitar a ideia dos Cipriotas e pedir apoio à Russia (ai, ai….g’anda bronca!). É que estamos a falar do Putin (independentemente de polémicas que não estou para discutir agora), este urso tem a unha mais afiada e não papa grupos, como o Medvedev no caso da Líbia. Não sei se iria dar origem a um novo desenho geo-estratégico, nem se isso permitiria iniciar o reequilibro de forças Mundial que espero venha a acontecer um dia. A ver vamos, como dizia o Mr. Magoo.
    Mas- perguntar-me-ão- e os coitadinhos dos credores?
    Quem?-responderei com um sorriso irónico- Os bancos Alemães e toda a malta que andou a apostar em CDSs?
    Que se fodam!

    PS-Lá estou eu com o sexo, outra vez. Desculpem lá qualquer coisinha.

  7. ok, concedo que por cá se faz mais pela vida , somos jogadores supremos no euromilhões.
    Não é bem o dream do Martin Luther King, mas a luta dele era diferente, era pela dignidade, ora isso não dá de comer a ninguém.

  8. penélope e vega, desculpem a intromissão, mas essas contas não são baseadas em pressupostos de épocas anteriores (não nego que próximas cronologicamente?).

  9. O que faz um animal acossado, ferido de morte e com a certeza de que ninguém o virá salvar?
    Reune o que lhe resta de forças e salta para o desconhecido, pois já nada têm a perder.
    E esta Europa de lideres estupidos acabou de dar o empurrão á grécia para o salto final.
    Resta saber se por pura estupidez ou por um calculo politico de xadrez que tudo aposta contra a surdez da alemanha, a ultima cartada para virar o tabuleiro…

  10. edie, são números da ultima sondagem antes do black-out. Valem o que valem, porque têm sido muito inconstantes.
    ___
    Gato Vadio, acredita que os gregos têm ainda muito a perder.

  11. Meus caros:

    De facto, a indústria credora dos alemães, holandeses, franceses, etc, pretende, acima de tudo, defender os seus interesses próprios. Da emissão de eurobonds resultaria uma política monetária do BCE de “pagamento” da dívida pública através do diferencial entre inflação e taxas de juro das eurobonds. Tais taxas de juro teriam que ser suprimidas, designadamente através de uma estrita regulação da indústria financeira, em tudo semelhante ao que foi feito na Europa Ocidental e Estados Unidos para pagar a (enormíssima) dívida pública resultante da II Guerra Mundial. Como, agora, não há ameaça soviética, eles acham que podem bem passar sem esse castigo.

    Assim sendo, eles vão deixar cair os países periféricos da Europa e recrear uma Zona Euro mais restrita, só com países credores, sendo depois que vão usar uma política de supressão da inflação nos países deles e de valorização acentuada do novo Euro (relativamente às moedas próprias, que circularão nos países periféricos) como forma de saquear a produção desses países através dos juros de empréstimos futuros, emitidos em Euro. Mesmo que haja incumprimento na dívida dos países periféricos, as necessidades de investimento (bem como a actual descapitalização brutal dos países periféricos, motivada pela austeridade) obrigá-los-ão a contrair empréstimos futuros, a taxas de juro reais altamente penalizadoras. Assim, e apesar de perdas iniciais devidas aos “defaults”, os países credores esperam vir a ganhar muito dinheiro no futuro.

    Mas, o que pode furar estes planos é que haverá um momento de grave e profunda derrota. As consequências políticas disso não foram devidamente ponderadas. A audácia reforçada dos seus competidores russos, chineses, brasileiros, argentinos, etc, poderá baralhar as cartas de tal forma que torne impossível o restabelecimento do poderio financeiro europeu (pelo menos da forma que idealizam).

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