Costa nas muralhas da cidade

António Costa regressou ao convívio com os seus grandes amigos da política-espectáculo, Lobo Xavier e Pacheco Pereira: Circulatura do Quadrado – 11 de Julho. O evento não teve qualquer repercussão no comentariado que a minha distracção tenha apanhado. No entanto, e a vários níveis, é mais uma peça notável deste trio onde se pode ver o invisível da política nacional.

A chegar ao minuto 40, o Pacheco avança para a grande paixão da sua vida, entretanto amainada dado estar satisfeito com o auto-de-fé em curso mas ainda viva dado o investimento emocional e afectivo. Eis como ele apresenta a acusação:

«O PS permitiu, durante muito anos, o ascenso político no seu interior de pessoas... e aqui não é um problema de saber se foram julgadas ou não foram julgadas, isso é um problema da lei; é um problema de comportamentos. Quando o antigo primeiro-ministro diz que não usa dinheiro, que não usa cheques e que pretende pagar tudo com dinheiro vivo, quando coloca bens em sítios terceiros, quando vive de rendimentos não conhecidos por favores de amigos, há uma enorme obrigação, há muito tempo, de haver um corte, muito sério, no Partido Socialista em relação ao antigo primeiro-ministro José Sócrates. O antigo primeiro-ministro José Sócrates teve casos durante todo o tempo em que esteve dentro no PS. Como tinha poder, ninguém ligou nenhuma. Ou então remete para uma falsa ideia de que a ética republicana tem a ver apenas com os julgamentos e com o comportamento da Justiça. Não. Uma das razões porque o populismo cresce em Portugal é porque os dirigentes partidários mostram uma considerável indiferença em relação à corrupção no interior dos seus partidos, e permitem que pessoas façam carreiras quando toda a gente sabe que aquilo não é certo; e toda a gente sabe. [...] A gente dava um pontapé numa pedra e saía o Engenheiro Sócrates debaixo da pedra, em praticamente todas as coisas. Eu só estou a falar de coisas que ele admitiu fazer, nem sequer estou a falar das coisas que têm a ver com a "Operação Marquês" e com as conclusões. Portanto, se há um aumento do populismo em Portugal isso tem muito a ver com o facto de os partidos não serem muito duros com a corrupção no seu interior. E Isso significa que não podem permitir no seu interior carreiras de pessoas que se percebe que eram pobres e passam a ricos. E isso não depende apenas da investigação do Ministério Público ou dos julgamentos, depende também da nossa obrigação de saber o que se está a passar. Porque nós sabemos o que se está a passar. Dentro dos partidos, um dirigente sabe o que se está a passar, conhece o que se está a passar. Sabe que há práticas admitidas que são inaceitáveis. E, por isso, se há responsabilidade no crescimento do populismo em Portugal, passa muito pelo Partido Socialista, porque o caso do Partido Socialista é muito mais grave do que é no PSD. No PSD há o caso do Duarte Lima. [...] No PS, há um conjunto de pessoas que puderam fazer carreira no partido sem que nunca tivessem sido prejudicados pela circunstância de haver comportamentos que são absolutamente inaceitáveis

Trata-se de uma juliana de porcarias. O Pacheco não preparou a intervenção, ficou evidente. Entrou no estúdio para literalmente falar de cor, para virar mais um frango no seu ganha-pão, a indústria da calúnia. Saiu-lhe o discurso atabalhoado e repetitivo mas cumpriu o objectivo de se fantasiar de paladino da moral e da virtude enquanto continuava a perseguir Sócrates. Por saber que não seria contraditado, que nada teria de justificar, a displicência do seu argumentário espelha a obesa impunidade em que enche os bolsos. Mas olhemos para o subtexto, de que está a falar o Pacheco?

A ideia principal, de manual de retórica, consiste em apelar à identificação da audiência. O que o marmeleiro está a dizer é tão-só o que “toda a gente sabe“. Logo, o seu lugar de partida institui-se como indiscutível na economia do seu discurso, é aquilo a que os ingleses (os cultos, os que tinham aprendido latim) chamaram “vox populi”. Ora, o bom povo está farto de saber que os políticos são corruptos, que os partidos são escolas e antros de corrupção, que isto acontece assim desde que a água dos rios corre para o mar. O bom povo já julgou, condenou e transitou em linchado Sócrates. Apesar da falta de novidade, este número em que aparece alguém a tocar a mesma cassete populista pela enojéssima vez funciona e permite viver à pala disso calhando ter-se um descaramento debochado. É o caso do Pacheco.

Ir buscar informações vindas a público em 2014 e 2015 – as quais, nesta altura pelo menos, apenas são factuais para a esfera privada e pessoal de Sócrates e que não permitem estabelecer uma culpabilidade de corrupção por si só – para castigar um partido de poder e seus dirigentes e responsáveis é sofística, é demagogia, é pulhice. Antes da investigação do Ministério Público era impossível ter ostracizado politicamente Sócrates dentro do PS pela simples e evidente razão de não haver razões para tal. A esta falácia junta-se a outra de se apelar ao critério do boato para abater políticos. O Pacheco jamais aceitaria tal se estivesse activamente em funções no PSD, de imediato denunciando a baixa política indecente do intento, mas eis que, como profissional da calúnia, o está a reclamar para os outros, os alvos da sua agenda. Uma campanha de insinuações, ter órgãos de comunicação social engajados, está aqui a fórmula para decapitar a liderança de um partido e de um Governo, aparece em 2019 a defender para epater les burgessos.

Acima e antes de tudo, no fundo do fundo, a principal mensagem que a vedeta do comentariado nacional espalhou foi esta: “Eu sei que nos partidos andam todos a roubar, por actos e omissões, e que a elite governante medra neste meio.” Dito de outra forma, para este ilustre membro da Ordem da Liberdade o Estado de direito não se aplica dentro dos partidos e, por inerência, aos seus dirigentes, mais os actuais e futuros membros da Assembleia da República, Governo e Tribunais. “E toda a gente sabe“. Toda a gente sabe e concorda, pois a eficácia deste número de revista depende de não haver qualquer consequência na plateia e nos camarotes. A indústria da calúnia precisa de “moralistas” como o Pacheco, alguém que passou pelo Cavaquismo só para conseguir desenvolver teorias e lançar atoardas acerca da corrupção dos socialistas. Daí nunca ter partilhado connosco a logística do Cavaquistão de que foi cúmplice nesse tempo em que o Estado era 100 vezes mais fraco para sequer detectar a alta corrupção, quanto mais combatê-la e puni-la, do que actualmente alcança após as mudanças legislativas precisamente protagonizadas pelo PS e por Sócrates.

Nas duas últimas intervenções de Costa, das melhores de sempre da sua parte, vemos um Lobo Xavier exposto como cavalheiro de indústria e um Pacheco Pereira estatelado ao comprido com um golpe de judo. Imperdível o espectáculo em que a política rechaça nas muralhas da cidade quem vive de assaltar a democracia.

7 thoughts on “Costa nas muralhas da cidade”

  1. Se bem percebi, o que seria importante era transcrever e, porventura, comentar, “as duas últimas intervenções de Costa”. E para quê a estocada, “António Costa regressou ao convívio com os seus grandes amigos da política-espectáculo”, como se ele tivesse dito ou feito, nos convívios anteriores a que se refere, algo de amiguismo político impróprio? É uma insinuação, não é?

  2. O falhado político do Pacheco, coitado mete dó, pois após andar uma vida a fazer-se passar por génio intelectual que carrega toneladas de livros na cachimónia donde jorra sabedoria à sua volta como se fora um regador de jardim está resumido a ser uma figura grotesca desamparada à imagem de um tal jmt que se fez caluniador profissional para ascender e manter-se à tona dos mídia afim de manter estatuto junto do povo ingénuo e poder continuar a ganhar a vida e viver entre os verdadeiros poderosos enquanto palreia contra os “poderosos” seus adversários políticos.
    Nem o facto de estar perante um plano tortuoso com constantes falhas e falsas partidas lhe levanta necessariamente a mais leve interrogação racional, a mais leve dúvida ou a mínima suspeita quanto à inteligência e intenções dos seus autores.
    Para o falhado e despeitado Pacheco a sentença está dada porque primeiro i) “pôs-se a jeito” porque não procedeu segundo o calculismo do politicamente correcto, ii) depois porque incorreu nos factos “daquilo que toda a gente sabe” que é tão fundamento e prova como dizer ‘daquilo que toda a gente não sabe’, iii) ou praticou aquilo “que toda a gente sabe” não só pelo que sabe que fez como pelo que disse que fazia e depois não fazia e, iiii) sobretudo o seu grande achado de provas irrefutáveis pelas ruas e calçadas de Lisboa e Portugal inteiro que são os factos pacheco-mentais de que “cada vez que retirava uma pedra de qualquer lado havia um buraco socrático por baixo”.
    Este Pacheco que está chegando ao fim de sua carreira política totalmente falhada, despeitado, já só vê e acusa os outros daquilo que foi a sua prática política de fio a pavio:
    – Colaborador activo do cavaquismo na maior escola de corruptos desde a Democracia que teve como epicentro a maior fraude colectiva de corrupção que foi o BPN.
    – Homem de confiança de Duarte Lima durante anos na AR viu o homem pobre de província enriquecer supersonicamente e nunca piou sobre a coisa. Um caso flagrante de intimidade e convivência política comum durante anos a fio e nem um cheiro, uma suspeita levezinha o Pacheco detectou quando agora parece o maigret da Marmeleira.
    – E nunca piou um pio sequer nos negócios de trocas de casas e acções não cotadas do BCP do amigo Cavaco nem nos negócios da uva mijona do marido da filha de Cavaco quando este era Presidente.
    – Nunca piou um pio acerca do caso dos “submarinos” adquiridos pelo amigo Durão, primeiro ministro, feita por meio de corrupção provada na Alemanha.
    – Nunca piou um pio que se ouvisse no caso “Portucale” do abate de sobreiros e aprovação do projecto nos últimos instantes como governo de gestão nem mais tarde com as incessantes rapidinhas de depósitos de cheques de mil euros pelo Jacinto Leite Capelo Rego nas contas do CDS.
    – Mas piou alto e bom som quando o Durão lhe disse que tinha visto armas de destruição maciça no Iraque e depois o Bush, o Blair e o Aznar tudo gente amiga e de grande confiança de Pacheco de tal modo que o levou a defendê-los com os seu argumentos tais como insinuar que Mário Soares era um idoso que perdera a velha visão e astúcia política ao condenar a guerra que estavam planeando sob falsidades e mentiras depois constatadas.
    – Ainda no seguimento da defesa desta universal mentira para justificar a guerra do Bush o Pacheco viu o primeiro ministro e amigo Durão lixar-se para o seu povo e abalar para ser o Grande Comissário americano na UE e ser tão universal e evidentemente corrupto que ainda hoje não o querem ver à porta da dita UE em Bruxelas; e Pacheco nem um pio, mais uma vez, botou de seu bestunto sabe-tudo.
    Mário Soares, sempre ele e sua experiência de velha raposa política, que “via” logo o alcance de qualquer conjura ou mentira política foi o primeiro a denunciar a prisão de Sócrates e a intentona de linchamento político do PS através do caso Sócrates como já fora a tentativa do caso dos meninos da Dª. Catalina na Casa Pia.
    Visto agora a actuação de A. Costa nesta “circulatura” mais uma vez não se deixou enredar nem culpabilizar ninguém nas questões de algibeira, especialmente do Pacheco, acerca do caso Sócrates e seus colaboradores onde o alvo final é o próprio Costa.
    Até de certo modo desmontou os argumentos falaciosos do facilitador de roubos ao fisco Xavier e não deixou de salientar a Pacheco surpresas como a que ele certamente teve com Duarte Lima depois de anos de intimidade com tal personagem e que para ele o primado da inocência até transito em julgado era fundamental e nem percebia como podiam dizer o contrário em Democracia.
    Costa continua com uma estratégia de aguentar até ao julgamento e está convencido, como cada vez mais portugueses, que a tramóia anti-PS do Alex,Teix&Vidal em julgamento vai parir um imenso bluff que destruirá por completo todos os falsificadores intervenientes.

  3. Conclusão – no PS a ética republicana impoluta, nos outros “ todos para a choldra”. Estamos muito próximo do camarada Lenine.

  4. dá ideia de que toda a gente esqueceu a demissão de um bom homem, socialista, 1º ministro , em 2001. não podia deixar-se afundar no pântano… foi substituído por um que ficou nas suas sete quintas pantanosas, na maior.

  5. manojas, a transcrição do que disse o Pacheco é, para mim, mais importante do que as afirmações de Costa porque estou interessado em desmontar falácias, em denunciar a desonestidade intelectual. Quem quiser que oiça Costa, basta ter uma ligação à Internet para o efeito.

    Quanto ao que chamas de “estocada”, o facto é o de Costa ter participado durante anos na Quadratura do Círculo com esses dois. Por várias vezes me referi aqui no blogue ao que por lá vi. Por exemplo: https://aspirinab.com/valupi/declaracao-de-voto/

    Que achas? Insinuação?
    __

    jose neves, muito bem.
    __

    Hmota, larga o vinho.

  6. Valupi, obrigado!
    Haverá ainda alguém que não saiba quem é o Pacheco? Em que águas turvas navega? Aceito que talvez ainda haja, infelizmente.
    Só quero insistir no seguinte: Ainda precisamos de António Costa, tanto, como não precisámos do Passos Coelho. Ainda precisamos do António Costa, tanto, como não precisamos do Rui Rio.
    Claro que António Costa não é prefeito, não é, não, mas quem é?

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