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Ventura explicado às crianças

Almas que usam o seu poder na política e na comunicação social, há décadas, para fazerem assassinatos de carácter, linchamentos e golpadas, que cagam d’alto no Estado de direito democrático e na Constituição, têm autoridade para falar de Ventura? Não, claro que não, caralho. Por isso muitas delas nada dizem, e as que dizem nada valem.

Ventura é um fenómeno colectivo, apenas o sintoma mais chunga e desumano da nossa doença comunitária.

Nas muralhas da cidade

De joelhos perante o todo-poderoso
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NOTA

Sou fã entusiástico do Pedro Marques Lopes. Por isso, quase que me comovo com o malabarismo que tem andado a fazer para não se referir ao Ricardo Costa. Dito isto, quem sabe se o mano Costa vai nesta sexta-feira, e finalmente, reconhecer que existe um atentado contra o Estado de direito em curso.

Já na parte em que não relaciona a perseguição e devassa a Ivo Rosa com a origem e o pretendido desfecho do julgamento de Sócrates, deixa-me quase desiludido. Quase, pois só se desilude quem se ilude, e não me iludo sobre a condição humana. Não há seres perfeitos, se exceptuarmos os que habitam no reino das matemáticas.

Ventura é cá dos nossos

«Carlos Moedas recusa demitir-se e acusa o PS de ter usado "sicários" para fazer aproveitamento político»

Fonte

«O ministro da Presidência acusou esta sexta-feira o PS de "querer repetir o erro feito na política da imigração" no passado e, com as objeções à lei da nacionalidade, querer "acabar o trabalho de reengenharia demográfica e política" do país.»

Fonte

«Racista e xenófobo? “Chega é imberbe e imaturo”, responde vice do PSD»

Fonte_2023

Ventura é uma criação do PSD, pela mão de Passos Coelho. Foi criado para ser aquilo que é, aquilo em que se tornou. Quem conhece a sua história, e o conhece nos bastidores, sabe que não passa de um reles pantomineiro, capaz de dizer tudo e o seu contrário assim veja vantagem nisso. Quando o lançaram, em 2017, havia um racional estratégico para tal sustentado em décadas de alterações ideológicas nas democracias europeias e norte-americana. O teste em Loures de ver um partido fundador do regime democrático em Portugal a agitar bandeiras racistas e xenófobas, porém, careceu da circunstância sine qua non desse partido estar com um presidente tortuosamente humilhado por ter perdido o poder através do Parlamento e, em simultâneo, ser o maior mentiroso alguma vez registado na história das campanhas eleitorais nesta terrinha. Que o mesmo é dizer, Passos foi buscar Ventura porque para ele vale tudo, inclusive usar o ódio e a violência como instrumentos eleitorais (pelo menos…).

Os anos passaram e a ligação entre Ventura e Passos é agora algo consolidado como uma aliança ostensiva. Excentricidade? Não, pá, exibição de uma natureza. Cavaco, Ferreira Leite e Rui Rio, cada um à sua maneira, igualmente validaram o achado do Pedro. Porque, lá está, para dar cabo dos socialistas valia tudo. Para este tipo de políticos, onde só conta o poder pelo poder, vale tudo. Daí o que temos na comunicação social desde 2004, daí o que se vê na Justiça desde 2009.

Não há nada de original em Ventura para além de aceitar ser um pulha antipatriótico. Os seus colegas de pulhice no PSD não teriam estômago para tanto, estão-lhe profundamente agradecidos.

Quase um mês depois, a ASJP resgata a honra própria

«"A palavra atentado é muito forte, mas podemos dizer que pomos em causa aqui alguns dos princípios estruturais do Estado de direito", defendeu, em declarações à Lusa, o presidente da ASJP.

"Como é que uma denúncia anónima tão pouco concretizada, tão pouco consistente, conforme é dito por que aquilo que tem vindo a público, demora três anos a ser investigada? Será que foram investigados esses factos [...] ou foi feita uma investigação cujo objeto foi muito para além disso, numa tentativa de encontrar aqui algo ao longo de muito tempo de investigação?", questionou.»


Fonte

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Dominguice

Gostei que Mariana Mortágua tivesse chegado à liderança do BE. Gostei por causa da sua qualidade parlamentar e por ser mulher. Depois, constatei que não tinha estratégia. Por estratégia entendo um plano para ser relevante nos eleitorados que prezem a democracia e a liberdade. Que o mesmo é dizer, cidadãos preocupados com a qualidade e defesa do Estado de direito democrático. Acontece que a esquerda à esquerda do PS não tem a mínima intenção de se posicionar nessa área (nem o PS desde 2011, salvo as excepções conhecidas; outra conversa). Ideologia facciosa oblige. A comunicação social, toda nas mãos da direita de uma ou outra forma, esmagou-a com o ódio machista e chegano.

Que pena Garcia Pereira não se poder candidatar a líder do Bloco. Ou de qualquer outro partido.

Vamos, pois

Quando escrevi este texto — Vamos deixar Ivo Rosa sozinho? — em Abril de 2021, não imaginava que fosse possível vir a acontecer o que já sabemos que aconteceu.

Pensava que este era um país de cobardes. Que o é. Agora, tenho a acrescentar traidores. Como país, sociedade, regime, comunidade, somos cobardes e traidores.

O desfecho do caso Ivo Rosa, o maior escândalo na Justiça portuguesa desde a aprovação da Constituição, seja ele qual for, vai definir o grau da nossa derrelicção.

Uma involuntária autobiografia

O caluniador profissional pago por muitos mandantes lançou um livro sobre Sócrates, depois de já ter escrito uma série de televisão sobre Sócrates (um estrondo de audiências num canal fantástico, literalmente fantástico) e de Sócrates ser o vocábulo que aparece em 92% das suas declarações públicas, sejam escritas ou orais.

Segundo palavras do próprio, o livro demorou 10 anos a ser escrito e consiste em recortes de jornais. Dito de outro modo, para não ficarem dúvidas, o livro é uma colecção de centenas de recortes de jornais (da autoria de colegas seus na indústria da calúnia) e levou 10 anos a estar pronto.

Diz que tem mais dois livros sobre Sócrates na calha. Quer dizer que em 2045 ainda espera vir a encher o bolso com recortes de jornais e Sócrates. Há uma justiça poética qualquer nesta exibição de miséria moral e disfuncionalidade livreira.

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Dominguice

Ricardo Leão teve um resultado triunfal em Loures, maioria absoluta e um total de 10 mandatos (6 do PS, mais 2 do Chega e 2 do PSD/CDS). Tudo graças à estratégia de ser o Ventura do PS. Valeu a pena ser violento com miseráveis, e prometer mais do mesmo para os mesmos. Empolgado, afrontou e destratou António Costa. Uma questão legítima se coloca, perante a evidência dos números: se este senhor tivesse concorrido em Lisboa, pelo PS, com a mesma cassete teria ganhado ao Moedas? Não faço ideia, nem ninguém, claro. Mas a pergunta impõe-se porque não é impossível que o PS queira seguir por este caminho. É muito mais provável ver votantes no PS, que o podem fazer há décadas, a apoiar o populismo eleitoralmente eficaz exibido em Loures do que vê-los a defender o Estado de direito democrático ou a herança de Abril. A violência sobre os miseráveis e ostracizados é fascinante, há uma gula antropológica calada por esse espectáculo. Ventura, com o convite e o empurrão de Passos, introduziu no sistema partidário essa oferta ideológica. Ricardo Leão provou que a mesma também tem viabilidade sob a chancela do PS.

Se eu fosse do PS, militante ou dirigente, tentaria expulsar este traste para fora do partido. Precisamente por causa do seu resultado triunfal em Loures.

Um conjunto irrazoável de pulhas

«Existe um conjunto razoável de comentadores, políticos e antigos bloggers, conhecidos na gíria como “as viúvas de José Sócrates”, que hoje em dia já não têm coragem para o defender publicamente, como fizeram noutros tempos com fervor, mas que ainda rezam em segredo pelo fracasso da Operação Marquês. Em bom rigor, esta gente está-se nas tintas para o destino de Sócrates, politicamente morto e enterrado. Mas não se está nas tintas para as suas reputações.»

Caluniador profissional pago pelo Público

A parte que acho mais interessante, porque cognitivamente mais desafiante, neste trecho citado, o qual abre o produto pelo qual a SONAE paga muito dinheirinho, está na expressão: “conjunto razoável“. Que bicho será esse?

Bom, podemos de imediato reconhecer que o tal conjunto se opõe a um outro tipo de conjunto considerado irrazoável. Felizmente, não temos agora de definir este último, basta assinalar a sua diferença. Constitui-se como limite semiótico ao desafio de definir o primeiro.

Sendo “razoável”, o conjunto aludido tem algum tipo de mérito, de valor positivo. Seguindo por esta linha hermenêutica, encontramos um outro limite, o qual se posiciona como antagónico daquele já encontrado: razoável será, neste entendimento, o que não é medíocre ou inferior, mínimo. Ou seja, a noção de “razoável” pode, tentativamente, indicar algo que está entre um mínimo e um máximo. Uma mediana.

Muito bem. Apliquemos essa lógica ao que a expressão está a qualificar, os tais “comentadores, políticos e antigos bloggers“. Tal significa que o caluniador profissional, seguramente, está a pensar em vários comentadores, vários políticos e vários antigos bloggers. Isso é inevitável, são vários de cada, como o plural usado regista. Mas quantos? Quantos em cada categoria serão necessários para se obter um “conjunto razoável”? Dois não será a resposta, dado ser a pluralidade mais baixa, o limite mínimo. Se formos para o limite máximo, ficamos face a face com o abismo: como calcular o total dos comentadores, dos políticos e, especialmente, dos antigos bloggers?

É quase impossível, sem meios de contagem especializados e custosos, obter a informação correcta. Mas tentemos, por alto, à toa. Por exemplo, que tal admitirmos 214 comentadores, 5. 529 políticos e 375 antigos bloggers (pressupondo-se, portanto, que continuam em actividade apesar de vetustos)? Sim, há outros números diferentes, e igualmente prováveis, mas temos de encontrar algum pé para não nos afogarmos na irrazoabilidade. Usando estes, o conjunto razoável agitado pelo caluniador profissional corresponderia à soma dos respectivos conjuntos razoáveis específicos. Cá vai: 100+2800+190=3090. A ser uma quantidade aproximada daquela sugerida, tal explicaria a omissão de tanta gente no artigo. Porque acontece não podermos extrair das suas palavras a quem se refere, daí este esforço para a decifração. Mas estaria o fulano, realmente, a querer insultar tanta gente? Não é crível — não por falta de gana para o fazer, até a muitos mais, tão-só porque revela ser consumidor das opiniões dos seus alvos. Terão de ser apenas uma mão-cheia de seres que defenderam publicamente Sócrates “noutros tempos com fervor”. E que, naturalmente para este Torquemada, merecem o opróbrio eterno, quiçá a prisão.

Assim, lembrando que um caluniador profissional está sempre, sempre e sempre a cuidar do seu ganha-pão, passamos a ter a cifra para atravessar a cobardia do autor e chegar ao âmago da sua pulhice. Ela chama “viúva de José Sócrates” a qualquer um que ameace a sua reputação. E para ameaçar a sua reputação basta ir para o espaço público defender o Estado de direito democrático, a Constituição, a legalidade, a decência, os direitos humanos. Pessoas que pensem pela sua cabeça, que apontem para o óbvio, que não fizeram de Sócrates e do PS uma obsessão por oportunismo venal e mercenário, ameaçam a sua reputação.

Não me espanta que se assuste com os raros comentadores e políticos que o façam (mas mais hoje do que no passado, tamanho o escândalo com Ivo Rosa). Espanta-me é que este caluniador profissional, em 2025, precise de vigiar antigos bloggers.

Arraial, arraial, por Portugal

«O que me parece que existe neste caso de Ivo Rosa é algo que é absolutamente habitual na actuação do Ministério Público, o que é raro é que isto seja feito relativamente a um magistrado judicial. [...] Esta espécie de instrumentalização do processo penal, de medidas altamente intrusivas dos direitos, liberdades e garantias, não em função da tentativa de apuramento de crimes, mas de pura e simplesmente andar à procura de coisas, isto é típico de Estados policiais. Isto é o que fazia a Stasi, isto é o que fazia a KGB, isto é o que fazia a PIDE. [...] Isto ocorre há muito tempo. Isto ocorre perante ou a passividade, ou a inoperância, ou a cumplicidade de sucessivos responsáveis da Procuradoria-Geral da República. [...] Neste momento, não só podemos pensar que há uma intimidação do sistema político, como podemos pensar que há também uma intimidação do poder judicial. [...] É uma questão de regime, a de saber se nós temos separação de poderes, se nós temos o respeito pelo Estado de direito dentro dos próprios operadores judiciários, e se os magistrados judiciais vão ou não ser o garante do Estado de direito e das liberdades, ou vão ser um instrumento ao serviço do Ministério Público.»

Pedro Siza Vieira

«Este caso do juiz Ivo Rosa é de facto muito grave, e eu tenho pena que o Senhor Presidente da República ainda não se tenha pronunciado sobre isto. Tinha que meter o dedo na ferida. A ideia que fica para a opinião pública é muito simples: este juiz estava a decidir contra a opinião do Ministério Público, passa a ser investigado. Ponto. E a partir daí isso também é um sinal para os restantes: "Quem manda somos nós, e vocês ou se portam bem ou nós vamos atrás de vocês". Essa forma de o Ministério Público actuar é completamente inaceitável. [...] Sobre um crime que se passa dentro de casa, que é as fugas de informação, não há uma investigação. Isto significa que todos nós podemos ser acusados, se cometermos crimes temos de pagar pelos crimes que cometemos, mas aqueles senhores podem cometer crimes diariamente e nunca são responsabilizados pelos crimes que cometem. E não há crimes bons nem crimes maus. Um crime é um crime, e isto é um crime.»

Duarte Pacheco

Pedro Siza Vieira e Duarte Pacheco são duas prestigiadas figuras da elite política nacional, tendo já desempenhado cargos de alta responsabilidade política. Comungam também por terem uma invariável pose de estadistas, respeitando as regras de decência e deferência no trato das questões públicas e na relação com os diversos agentes políticos e comunitários. Não se venderam à indústria da calúnia, discursam a partir de uma assunção de honra e, portanto, responsabilidade.

Pois aqui estão eles em sintonia, fazendo em público uma das mais alarmantes denúncias que é possível conceber em democracia — a de que temos um Ministério Público que viola o Estado de direito democrático; portanto, que comete crimes impunemente. Que o mesmo é dizer que estamos numa situação de irregular funcionamento das instituições, agravado tragicamente pela cumplicidade do sistema partidário e, principalmente, do Presidente da República.

Estas palavras lancinantes e implacáveis não geraram qualquer comoção popular, nem reacção fosse de quem fosse. Os patrões da imprensa, os editorialistas, os jornalistas e o comentariado, a que se somam os deputados, são todos igualmente cúmplices. Sabem o que se passa, sabem o que significa, sabem as consequências, mas alinham porque há diversas agendas que se juntam com a mesma finalidade: é preciso que o auto-de-fé de Sócrates, em que uns foram linchadores e outros cobardia, se consume. Estar a dizer que o Ministério Público violou a lei com o Ivo Rosa dá azo a que, por maioria de razão, se leve o bom povo a pensar que fez o mesmo na Operação Marquês. E isso seria uma chatice do caralho para o projecto de manter o País subjugado por criminosos que juraram defender a Constituição.

Perguntas simples

Quando Marques Mendes disse que Ivo Rosa era “um perigo à solta” — Abril de 2021, já a devassa do Ministério Público estava em andamento — tratou-se apenas de mais um dos seus exercícios de difamação e calúnias ou foi em consequência de este conselheiro de Estado ter sido criminosamente informado da investigação em curso, querendo aparecer como vidente do que julgava ser a iminente prisão do perseguido e odiado juiz?