Todos os artigos de Valupi

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Dominguice

Leitão Amaro declarou que o tal vídeo onde é protagonista de actos heróicos, vídeo que apareceu na sua conta do Instagram, “não devia ter sido publicado“. Mais esclareceu que ele foi retirado por ter sido “entendido de uma forma que não era a forma pretendida“, causando “más interpretações e sentimentos de incompreensão“. Ou seja, um problema de hermenêutica levou ao apagamento chocantemente prematuro de uma obra que foi criada com o talento e empenho de vários profissionais da imagem e do som. Estamos perante duas justificações que não aparentam ter conexão entre si. Por um lado, há a reacção infeliz do público, manifestamente incapaz de atingir a sofisticação e beleza da narrativa e suas ponderosas mensagens. Por outro, fica o enigma a respeito de quem terá violado a conta de Instagram do ministro, indo lá colocar cinema de autor com nenhum apelo comercial. Ainda mais intrigante é a seguinte hipótese, suscitada pelas ambíguas palavras de Leitão Amaro: a de que a intenção original talvez fosse a de nunca publicar o vídeo, ficando a peça para fruição privada no seu círculo familiar e de amigos. Seriam os únicos a poder aplaudir a estrela em mangas de camisa. Projecto boicotado com a publicação.

Tenho uma outra hipótese explicativa, que me parece muito mais realista dada a reconhecida seriedade, honestidade e coragem do senhor em causa. Que é esta: Leitão Amaro não fazia a menor ideia de que estavam a produzir o tal vídeo acerca da sua pessoa ao leme da governação no meio da tempestade, ele nem sequer conhecia o marmanjo que estava a filmar com o telemóvel. E daí o seu nervosismo, as unhacas roídas, os telefonemas para este e aquele na ânsia de querer saber quem era o gajo do telemóvel que não o largava e que raio fazia ele no seu gabinete. Acima de tudo, uma dúvida dilacerante atormentava o seu espírito e enchia-lhe de aflição o peito, como as imagens captadas exibem com impressionante comoção. Esta: “Se isto é mesmo para um vídeo catita, será que vou aparecer a cores ou a preto e branco?”

Bons e xenerosos

«Quer isso dizer que ninguém à direita te mereceria admiração moral? É só uma curiosidade.»

Agradeço a pergunta. Cingindo-me só a Galiza : Gostaria muito que assim fosse. Pois uma direita organizada e moral para o conceito de nação política galega é imprescindível. Houve e há uma grande tradição de nomes que cumprem esse requisito, mas estão já na história. No caso de valorizar a uma pessoa política pela sua moral, acho que não sou sectário, pois ainda que pareça virar, e vire, para a esquerda, não tenho, ataduras nem reparos em admirar, seja quem for, o bom fazer e estou co olho posto nos personagens da direita ou do centro. No caso de desejar o melhor para Galiza no desenvolvimento de nação política e cultural qualquer que ararar com esses bois, é prá mim, um dos “bons e xenerosos”, conceito moi usado no nacionalismo e galeguismo histórico para definir as pessoas com “moral”.

Postos assim, ainda a risco de ser um pouco maçado no relato, citarei :
Afonso Daniel Rodriguez Castelao: pai do nacionalismo moderno. Médico, artista pintor, saltou a areia política como necessidade de mudar as condições de Galiza e os seus cidadãos. Na procura dum mundo próprio para os galegos, dentro de Espanha, era um homem de centro e mais tarde de centro esquerda que liderou o ressurgimento galego nos tempo da República e que ninguém discute hoje, desde a direita a extrema esquerda, a sua liderança, luta e moral pelos ideais de todos os galegos. Ministro da vencida República, era pragmático, possibilista e homem de paz. Morreu no exílio em Argentina depois duma vida cheia de moral, laica, social, respeito os direitos mais fundamentais das nações e das pessoas.

Ramón Otero Pedraio: católico, fidalgo, intelectual, professor. Companheiro de Castelao no partido galeguista da época republicana, respeitado como figura emblemática, honesta, com uma moral católica e profundo sonhador e activista duma Galiza dono de se mesma. Ninguém hoje duvidaria do seu magistério, liderança para o nosso país e respeitado por todas as camadas sociais.

Manuel Fraga Iribarne: Ora essa. A quem me chame contraditório, palerma, pateta, andar na bebedeira ou algum dos muitos adjectivos tão sonoros e habituais neste blog, produto da variedade e riqueza da língua portuguesa. Será compreensível, e tal vez acho que apropriado, no entanto, seria mui injusto receber o apelativo de sectário. Este homem ( para dar contexto) foi ministro com Franco. Mente privilegiada, catedrático, homem de acção, visceral nas formas, era todo o contrario do estereotipo que os espanhóis têm de nós os galegos ( estereótipos nada positivos, mas essa é outra história). Foi o grande líder da direita espanhola depois da morte de Franco, ainda que o Rei não contou com ele para dirigir a transição, mais tarde fundaria o actual partido da direita o PP, actualmente na oposição. De família humilde, emigrante durante a sua infância na Cuba, foi um avançado e reformador na ditadura ( do pouco que se podia). Depois de dois intentos para atingir o poder para Presidente do Governo de Espanha, desistiu da liderança da direita espanhola e apresentou-se na Galiza para ser presidente da Xunta de Galiza. Foi Presidente quatro legislaturas. Tinha, política mente, essa dupla personalidade de ser para uns o grande líder espanhol e para outros, os galegos, um homem que representou a Galiza dentro de Espanha com personalidade e valentia que nos entendia, que sintonizava co país, que era um dos nossos. Tal vez fosse populismo e tactismo, no entanto o coração não engana. Nos seus governos havia nacionalistas ou galeguistas de direita e dentro deste jogo fez políticas avançadas e manifestou-se ele, de forma supressiva, como um líder da ideia da Galiza, da língua, do ser, e da gestão dos nossos recursos. Essa é a parte positiva além de que no plano moral, e de honestidade pessoal e política ninguém duvidava. Nunca tive, nos muitos anos de actividade política, suspeita de corrupção. Conseguiu boas relações com a esquerda nacionalista, coas elites económicas e culturais, e pode-se dizer que atingiu ser respeitado moralmente pela sociedade em geral. A sua figura era moi respeitada tanto na Galiza como em Espanha e isso dava sempre um plus de categoría a Galiza.

Depois a parte negativa, dizer que gostava do culto a sua personalidade o que fazia que misturada a sua grande vocação política e o seu narcisismo, fizera políticas populistas e mentíreis por vezes. Que não fiz reformas profundas e que o seu lado cresceu o clientelismo e o caciquismo secular. Que havia um partido nacionalista de direitas galego que ele conseguiu atrair para si e pouco a pouco ficarão mergulhados no seu grande partido. Foi isto uma grande mágoa para a política galega, pois um partido nacionalista como têm bascos e catalães e necessaario. Embora o seu poder atraente ganhou e os parvos perderam, eis a questão da vida. Depois, perdeu uma legislatura e deixou Galiza. Os seus voltaram a ganhar com Nuñez Feijoo a Xunta e até de agora. Neste caso calha a perfeição, o dito popular de quem melhor era o mão conhecido pelo bom por conhecer. Deixou um baleeiro grande na política galega e chegou a vacuidade, a indigência intelectual e a pilhéria de quem hoje pretende, desde a oposição ser presidente do governo de Espanha.

Todos mortinhos, mágoa. Hoje ando a buscar em Galiza, e não encontro. Depois de Fraga os medíocres e ordinários ocuparam e ocupam o poder “daquela maneira” que não seja prioridade nenhuma Galiza como ente política e a defensa da língua, a economía e a cultura galegas. São mandados, gestores de alguém, e obedintes as consignas do seu partido em Madrid. Priorizam políticas populistas para a sua clientela e o mantenham-se no poder controlando como seja os meios de comunicação, públicos e privados. Pouca moral. Eles não têm toda a culpa.
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Oferta do nosso amigo reis. Para entender o contexto, ler este seu primeiro comentário.

Obrigado, Leitão Amaro

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Santa hipocrisia

«Antes da primeira volta já eu tinha escrito um artigo em que dizia que não iria votar em André Ventura “porque sou um cristão substancial e não um cristão cultural". O cristão substancial sabe que as interpretações das Escrituras dão para quase tudo, excepto para isto: fingir que não se tem de amar o próximo como a si mesmo. O cristão substancial é simplesmente aquele que leva a sério a crença de que todo o ser humano tem em si uma centelha de divino – e por isso não pode ser humilhado, maltratado, desprezado.»

Caluniador profissional pago pelo Público

Se a pulhice pagasse imposto, teríamos o salário mínimo nos cinco mil euros, todas as escolas públicas com piscina e um hospital em cada bairro. Este fulano tornou-se numa estrela da indústria da calúnia precisamente porque escolheu a violência – muitíssimo bem paga – de atentar contra os direitos de personalidade, e outros, dos alvos políticos que lhe apareciam na mira. Para tal, foi explorador e amplificador de crimes cometidos por magistrados e jornalistas. Com isso provocou sofrimentos incomensuráveis nas pessoas que perseguia directamente, e que continua obsessiva e venalmente a perseguir, assim como nos seus familiares e amigos.

O exercício da difamação e da calúnia é permitido pelo Deus dos “cristãos substanciais”? A César o que é de César, pelo que se pode pecar à-vontadinha nos jornais e televisões e depois papar a hóstia e curar a diabolização em curso?

Na origem do Estado de direito democrático está o liberalismo como filosofia. Neste, nas suas origens, Deus é convocado para fundamentar os direitos inalienáveis de cada um, os direitos naturais. O que até então tinha sido um exclusivo privilégio de sacerdotes e reis passava a poder ser apanágio do mais miserável à nascença. Não é preciso acreditar em qualquer entidade divina para aceitar que o humanismo consiste em não fazer ao outro o que não queremos que nos façam a nós, por um lado, e em fazer ao outro o que queremos que nos façam a nós no plano dos direitos e garantias, a dimensão da liberdade, pelo outro. É o amor à lei, como expressão da civilização onde queremos viver juntos.

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Dominguice

Se tivéssemos de identificar uma autoridade moral em Portugal, quem seria? O problema começa a montante: seria possível chegarmos a acordo do que significaria ser-se uma autoridade moral? Obviamente que não. Mas imaginando esse impossível, e calhando a definição ter fundamento e coerência, resultaria fatalmente inglório ir à procura de tal ser. Moralmente, não se conhece quem seja confiável, constante, corajoso. Há exemplos que se aproximam, cada um se lembrará dos seus, mas não existe uma figura que tenha reconhecimento comunitário nessa dimensão por palavras e actos. Não existe nas religiões, na justiça, na academia, na política, nas artes, no mundo das empresas e do trabalho, na imprensa.

Grave? Não. Grave é ir à rua, perguntar a quem passa o que seja a moral, e descobrir que quase ninguém elaboraria uma resposta acima da indigência intelectual.

Puta que pariu foda-se caralho

Advogados rejeitam proposta do Governo sobre multas por atrasos na justiça

Isto está a acontecer contando com o silêncio cúmplice do sistema partidário, do editorialismo e do comentariado.

Um Governo propõe uma medida lesiva dos direitos dos cidadãos e da prática da advocacia só para tomar partido perante um processo na Justiça que está a decorrer. A Operação Marquês sempre foi um processo político por decisão dos poderes políticos na Presidência, Governo e Parlamento em 2013 e seguintes. Em 2026, atinge o zénite do despudor.

Como tal se tornou possível? Porque o regime e a sociedade não só aceitam como querem que haja uma condenação independentemente de ter ou não sido feita a defesa de Sócrates num processo justo em que se cumpra o Estado de direito democrático e a Constituição.

Amor de pai

«O antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho vai manter-se em silêncio na segunda volta das eleições presidenciais, que vão ser disputadas por António José Seguro e André Ventura a 08 de fevereiro.

"Não desejo fazer qualquer comentário ou declaração sobre as eleições presidenciais", escreveu o ex-líder do PSD e do Governo em resposta a uma pergunta escrita da agência Lusa.

Passos Coelho não fez qualquer declaração sobre as eleições presidenciais até domingo, dia das eleições, devendo manter a mesma postura relativamente à segunda volta.»

Fonte

Porquê? Porque Passos não pode dizer “Votem Ventura”. Nem pode dizer “Votem Seguro”. Nem pode dizer “Não votem Ventura”. Nem pode dizer “Não votem Seguro”.

Porquê? Porque Passos criou o Ventura, o qual criou o Chega. E depois Passos olhou para a sua criação, directa e indirecta, e gostou do que viu. Passou a proteger as suas crias, as quais correspondiam ao amor do pai com paixão fervorosa.

Não se peça a um pai para fazer mal ao seu filho. Só Deus se lembraria de crueldade tamanha.

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Dominguice

Corina Machado entregou mesmo a sua medalha do Nobel da Paz a Trump. Em simultâneo, ambos ofereceram à História um dos momentos mais absurdos e patéticos de que há memória. Mas a coisa teve um epílogo que eu não teria sido capaz de imaginar. É que ela saiu da Casa Branca com um saco daqueles que se dão em qualquer pronto-a-vestir – onde no exterior se via a assinatura de Trump, e no interior transportava bugigangas. Ou seja, a senhora trocou uma medalha de ouro com o seu nome gravado, símbolo de uma das mais prestigiantes honras mundiais, por um saco cheio de quinquilharia do marketing MAGA.

Fiquei a admirar Trump neste episódio. Porque tratou Corina Machado como um dejecto ambulante, sorridente e de saco na mão. Fez-lhe justiça.

Seria lindo

Concordo a 300% com a Guida: a melhor segunda volta possível é Seguro-Gouveia e Melo. Mendes-Ventura, Cotrim-Ventura, Mendes-Cotrim, seriam experiências traumáticas. Seguro contra outro qualquer da direita, é apenas triste. O confronto interessante, com potencial para ser fascinante, seria entre o fulano com dificuldade em se dizer de esquerda, apoiado por passistas e com excelente imprensa entre os direitolas, e o outro fulano que promete, que lança uns fogachos, mas que continua a ser uma incógnita.

Seguro conseguiu recuperar votos no PS e consolidar quem vota PSD pragmaticamente porque não se comprometeu com nada que tivesse alguma importância para a República. Disse merdas convencionais, inanes, e isso agrada a quem vê nele a escolha sem risco. Seguro é conhecido, faz parte da fauna política, pode ficar em Belém a brincar aos estadistas corta-fitas. Já o almirante não foi carne nem peixe, mostrou muita dificuldade em perceber qual era o seu papel (talvez ainda assim continue) e para as pessoas que não querem perder tempo com a política aparece como um tipo esquisito. Se fosse só uma farda a salvar-nos do virus, poderia ter colhido o fervor messiânico. Tendo que tomar posição sobre a miséria institucional que atravessamos, perdeu o voto dos borregos.

Vai acontecer? Não, infelizmente.