Todos os artigos de gibel

Memphis

memphis2.jpg

Nos arredores desta cidade do Tenessee, aconteceu a primeira das supostas aparições post-mortem de Topsy. Corria a noite de 17 de Março de 1903, quando dois vigilantes dos caminhos de ferro observaram uma “nuvem luminosa” a ganhar “corpo e peso” mesmo debaixo de um poste eléctrico junto a uma estação de comboios. Um deles, Joseph Mallard, aproximou-se no momento em que a “nuvem” coalesceu numa forma gigantesca, “assente em quatro patas”. No meio de urros terríveis, aquela massa de luz avançou para o pobre homem. Segundos depois, ele caiu carbonizado por uma descarga eléctrica de intensidade incalculável. O seu colega deu início ao frenesi que envolveu as seguintes visões de paquidermes luminosos quando garantiu que aquilo lhe parecera “a alma de um elefante furioso”. Alguns jornais do dia seguinte ligaram a tragédia à morte, semanas antes, de Topsy. Logo de seguida, quase ao ritmo de uma aparição por noite, as investidas fantasmagóricas sucederam-se um pouco por todo o país, sempre por perto de postes de electricidade, sempre no meio de bramidos de fazer gelar o sangue. Provavelmente, poucas passaram de ataques de histeria. Mas, fosse como fosse, nascera a lenda do Elefante Eléctrico.

Execução

execucao.jpg

Artigo do jornal Commercial Advertiser de 5 de Janeiro de 1903: “Topsy, a irascível elefanta de Coney Island, foi abatida no Luna Park, ontem à tarde. A execução foi testemunhada por mais de 1.500 espectadores curiosos que viajaram até à ilha para ver o fim do grande animal a que tinham dado amendoins e bolos em Verões que já lá vão. Para tornar a execução de Topsy rápida e certa, deram-lhe 460 gramas de cianeto, misturado com cenouras. Então, um cabo foi colocado ao redor do seu pescoço, com uma ponta presa a um motor a vapor e a outra ligada a um poste. De seguida, colocaram nas suas patas sandálias de madeira revestidas a cobre. Estes eléctrodos foram ligados por fios de cobre à central eléctrica Edison e uma corrente de 6.000 volts atravessou o seu corpo. A grande besta morreu sem um urro nem um gemido”. O pequeno filme que a equipa do grande inventor fez deste elefanticídio ainda hoje circula pela Internet.

Edison, Thomas Alva

edison.jpg

A sua reputação de Prometeu contemporâneo, de inventor inexaurível, eclipsou durante décadas a herança de Tesla: o homem prático que confiava mais na experiência do que em teorias e cálculos complexos versus o génio excêntrico que se dispersava por todos os ramos do saber sem conseguir garantir lucros ou reputação firme em nenhum deles. Do seu laboratório em Menlo Park saíram inovações em quase todos os domínios da vida contemporânea: do gramofone ao cinema, da lâmpada eléctrica à pistola de tatuagem. A aposta na corrente contínua levou-o a esquecer a sua oposição à pena de morte, empenhando-se em propagandear as virtudes da cadeira eléctrica alimentada a corrente alternada. A execução de Topsy, que ele filmou com o seu Kinetoscope, acabou por ser um golpe já desesperado numa guerra havia muito decidida e perdida.

Dirigíveis Misteriosos

Dirigiveis.jpg

Objectos voadores não identificados que enxamearam os céus dos estados ocidentais dos EUA em 1896 e 1897. De forma cilíndrica e aparentados com os dirigíveis, apresentavam luzes e ruídos bizarros, gozando de métodos de propulsão desconhecidos na época. Mais estranhos ainda eram os seus ocupantes: desde cavalheiros bem vestidos que se declaravam a caminho de Cuba para participar na guerra hispano-americana até putativos descendentes das tribos perdidas de Israel, havia de tudo um pouco. Em comum, todos patenteavam uma grande vontade de comunicar com as testemunhas dos seus voos e uma afabilidade notável, mesmo quando se entretinham a raptar cabeças de gado. Em 1909, algumas zonas de Inglaterra puderam assistir a uma reedição do fenómeno. Estes antepassados dos discos voadores foram evocados por Cutter ainda no início do “Caso Topsy”. E partilharam uma característica peculiar com os Viajantes Loucos, seus contemporâneos: a rapidez com que a imaginação popular os esqueceu. Uma década depois da sua chegada, já quase ninguém os recordava. Hoje, estes relatos surgem-nos como incongruências anacrónicas, aberrações em que dificilmente conseguimos acreditar. Ovnis nos ares e manadas de zombies migratórios nos prados… tudo isto soa mais a uma fantástica História alternativa do que a algo que pudesse mesmo ter ocorrido no pacato século XIX.

Dadas, Albert

dadas.jpg

O primeiro “Viajante Louco” — diagnosticado em 1886 — era um humilde trabalhador parisiense que começava a sentir uma vontade irresistível de viajar sempre que ouvia falar numa qualquer paragem longínqua; pouco depois, acabava invariavelmente por se pôr a caminho até alcançar destinos improváveis, por vezes a centenas ou milhares de quilómetros de distância. Uma vez terminada a peregrinação insensata, desprovido de qualquer memória ou pista sobre a sua identidade, ele tratava de angariar o dinheiro suficiente para regressar de comboio. Só que perdia sempre o rumo a meio do trajecto, embarcando noutra viagem incompreensível, depois de rasgar mais uma vez os seus documentos. Constantinopla, Argel e Moscovo foram cidades nos itinerários destas demandas não de descoberta mas sim de esquecimento. Depois, à medida que relatos de tais viagens sem rumo transbordavam das revistas médicas para os jornais europeus, os transes peripatéticos de Dadas começaram a infectar a imaginação popular. E pouco tardou até que eclodisse uma verdadeira epidemia de Fugas Dissociativas, denominação actual deste distúrbio. Os contaminados partiam sobretudo de França, mas logo os caminhos da Alemanha, Rússia e Itália se viram juncados de tristes viajantes de olhos vagos e passos obsessivos. Abraham Cutter sustentava que estes nómadas alucinados obedeciam aos ditames de uma Egosfera desequilibrada, como bússolas humanas condenadas a perseguir um Norte sempre imprevisível e errático.

Cutter, Abraham

cutter.jpg

Membro fundador da Sociedade Teosófica, recusou-se a acompanhar o coronel Henry Steel Olcott na migração da seita para a Índia, em 1876. Fundou de seguida a mais discreta Irmandade do Novo Paradigma, onde pode expandir o seu peculiar conceito de “Egosfera”. Esta, uma evolução do “sétimo corpo”, ou Atma, dos teosofistas, seria um campo de energia senciente que envolve a Terra, gerada por todos os organismos do planeta. Para Cutter, a Egosfera seria uma interface com o próprio Deus e também um ente ainda em crescimento, prestes a despertar para a consciência. Ele analisou delongadamente eventos psicossociais como a epidemia dos “Viajantes Loucos” do final do século XIX e a vaga de aparições de “Dirigíveis Misteriosos” que assolou os EUA no mesmo período. Cutter postulava que comportamentos anómalos e visões inexplicáveis eram apenas sintomas de distúrbios na Egosfera: a sua interacção com espíritos humanos e com a própria matéria inanimada estaria a ser distorcida pelo uso cada vez mais disseminado da electricidade. Claro está que o caso Topsy não poderia deixar de o atrair; no seu último artigo, publicado no Boston Chronicle sob o revelador título “Visitors from Within”, este visionário semi-louco fez um levantamento de todos os fenómenos similares até então recenseados e teceu uma complexa rede de relações entre essas anomalias e a sua peculiar cosmovisão. O seu desaparecimento nunca explicado deu a derradeira nota insólita à biografia do último grande místico americano.

Condenação

condena.jpg

Quando Topsy fez a sua terceira vítima mortal, os seus donos, a dupla de empresários do showbusiness Thompson e Dundy, decidiram que era hora de fazer algo ao animal endemoninhado. E, se possível, retirar algum lucro do processo. Assim, foi anunciada a execução pública da elefanta assassina, por enforcamento. Os defensores dos animais protestaram ante a crueldade inaudita do método proposto. E a electrocussão surgiu, com alguma ajuda de Edison, como a alternativa natural: o estado de Nova Iorque substituíra pouco antes a forca pela moderna e mais “humana” cadeira eléctrica.

Blount, J. Fielding

blount.jpg

Este tratador de animais celebrizou-se depois de ter tentado dar um cigarro aceso a uma das elefantas do Luna Park, à laia de amendoim. Foi de imediato esmagado pelo paquiderme enfurecido. Um crime que, adicionado a dois homicídios anteriores, ditou o fim da pobre Topsy, assim se chamava esta elefanta indiana de seis toneladas. Fontes dificilmente verificáveis atribuem a Blount algumas relações com o círculo do filósofo e agitador Abraham Cutter, antes de uma tragédia familiar ou amorosa hoje insondável o ter entregue ao alcoolismo e a uma série de profissões não especializadas.

Atracção

atraca2.jpg

No início de 1903, o Luna Park, o grandioso parque de diversões de Coney Island, estava a receber os últimos retoques antes da inauguração. Alguns elefantes, comprados a circos, eram usados no transporte das cargas mais volumosas. Esta manada, que podia vaguear quase em liberdade pelo local, tornou-se numa atracção popular, recebendo a atenção de verdadeiras romarias de nova-iorquinos ao fim de semana.

Coisas que dão mau nome à Esquerda

Há muito que a malta do costume já nos tirou a pinta: sempre em pé de guerra com acusações estapafúrdias, sempre prontos a ensaiar grotescos levantamentos populares, cronicamente incapazes de entender o funcionamento do mundo real.
Notem que se trata de generalizações simplistas e redutoras, claro. Mas, de quando em vez, lá surge alguém que se empenha em dar-lhes uma amostra de razão. Fazendo eco de folclores ridículos via SMS; acusando de censura, nem mais, o doclisboa por se ter resguardado de um processo legal que talvez nem tivesse forma de custear; apontando hoje o dedo justiceiro para a Banca: que o que paga de impostos está “longe, muito longe, daquilo que legalmente deveria pagar”; que usufruiu de uma isenção fiscal para “depósitos colocados em Offshores”; que o “último registo de lucros da banca é da ordem dos 30%”, em pungente oposição às “famílias endividadas”.
Isto quando a realidade é bastante mais complexa. E menos passível de ser iluminada com tiradas estridentes, panfletárias e simplistas (claro que a Banca não paga menos do que a lei exige, apenas se agarra a todos os buracos da mesma; tratava-se sim de obrigações emitidas em paraísos fiscais, não de depósitos; 30%? De quê? ).
Pessoalmente, agradeço à Joana Amaral Dias por ter ajudado a afundar a última candidatura presidencial de Mário Soares; mas parece ideia recomendável que se abstenha de participações muito activas, por exemplo, na campanha pelo “sim” à despenalização da IVG.

Mais uma conversa da treta, a propósito do aborto

Eduardo Pitta acaba de retomar uma conhecida argumentação acerca da lei portuguesa que regulamenta o aborto. Conhecida e errada, aliás.
De acordo com a rediviva teoria, a lei existente é igual à espanhola sendo, portanto, bem capaz de dar conta do recado. Ou seja, não faz falta um referendo, urge sim obrigar os relapsos dos médicos a cumprir os preceitos legais: “a lei espanhola foi decalcada da nossa: permite o que se sabe porque, num Estado de Direito, as leis cumprem-se”.
Ciclicamente, esta invenção com aparência de coisa sensata vem de novo à tona. E importa relembrar de novo o óbvio:
O artigo 140.º do nosso Código Penal descreve os casos em que a IVG não é ilícita, começando por:
“a) Constituir o único meio de remover perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida;
b) Se mostrar indicada para evitar perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida, e for realizada nas primeiras 12 semanas de gravidez;”
Por acaso, o artigo 417 bis do Código Penal dos nossos vizinhos até faz exigência parecida: “Que sea necesario para evitar un grave peligro para la vida o la salud física o psíquica de la embarazada”. Só que se nota uma crucial divergência, mesmo aos olhos de quem, como eu, não é jurista: a falta dos adjectivos “irreversível” ou “duradoura” a classificar os perigos que a saúde física ou psíquica da mulher grávida terá de correr. O que faz toda a diferença: imaginam algum psiquiatra a certificar que alguém — que não um convalescente de AVC ou de lobotomia — vai por certo ter problemas psíquicos indeléveis ou delongados? Claro que não.
Mas há mais. A Lei 90/97 veio deixar claro que “o Governo adoptará as providências organizativas e regulamentares necessárias à boa execução da legislação atinente à interrupção voluntária da gravidez”. Isto aconteceu com a Portaria n.º 189/98, que obriga à constituição de “comissões técnicas de certificação”, compostas por “três ou cinco médicos como membros efectivos e dois suplentes”, incluindo “a presença obrigatória de um obstetra/ecografista, de um neonatologista e, sempre que possível, de um geneticista, sendo os restantes elementos necessariamente possuidores de conhecimentos categorizados para a avaliação das circunstâncias que tornam não punível a interrupção da gravidez”. Coisa simples e pouco burocrática, claramente vocacionada para simplificar a vida às grávidas em risco. Eis como a lei se viu regulamentada com generosa abrangência.
Já se começa a tornar claro o abismo que separa esta situação da espanhola, não? É que lá, nas clínicas que hoje atraem inúmeras portuguesas, basta um “dictamen emitido con anterioridad a la intervención por un médico de la especialidad correspondiente, distinto de aquel bajo cuya dirección se practique el aborto” para que a intervenção possa ocorrer.
Não, Eduardo. Como se vê, esta não é uma mera questão de “chiliques”.

Recordações em remix

A quase-revolucionária obra-prima de David Byrne e Brian Eno, My Life in the Bush of Ghosts foi recentemente objecto de uma reedição ampliada e melhorada. Para quem anda há 25 anos fascinado com a esta colecção de sobreposições de ritmos ocidentais com objets trouvés sonoros vários (de uma gravação de um exorcismo a orações em Árabe), eis uma excelente notícia. Para quem gosta de desfazer e remontar obras alheias até as transformar em coisa sua, também: no site dedicado a este projecto, dois dos temas originais estão disponíveis para download às peças, com total liberdade de uso para os remixers. Até por lá anda um top das melhores versões recebidas até agora. Não sei se é, como os autores afirmam, uma estreia mundial, mas a visita recomenda-se, mesmo aos que não têm inclinações para a bricolage musical.

Just another compassionate conservative

O Blasfemo CAA, por norma tão preocupado com a propriedade privada, resolveu agora fazer humor a propósito das recentes inundações. O facto de centenas de pessoas estarem neste momento a braços com prejuízos terríveis, para já nem mencionar a vida que se perdeu, pouco importa quando comparado com o fim último da coisa: gozar com quem anda a anunciar a iminência de um aquecimento global.
Um dia, ainda irei entender o fervor quase religioso com que esta malta se encarniça, sem ter de entender peva do assunto, contra qualquer preocupação com o estado do planeta. Eu, por mim, não tenho certezas absolutas sobre o efeito das actividades humanas no clima; mas parece-me da mais elementar prudência ir acautelando o futuro. Um dia destes ainda se prova mesmo que andámos a fazer asneira; o problema é que aí talvez seja tarde de mais para emendar a mão.

A soberba em forma de gente

miguel_sousa_tavares1.jpg

No “Público” de hoje, Miguel Sousa Tavares trata de trucidar o “Esta Noite a Liberdade”, livro de onde sacou à má fila, para usar a feliz expressão do Fernando Venâncio, algum “colorido narrativo”. Tal livro “não é ficção, é um relato histórico, e muito mau” e de lá só se aproveitam mesmo as fotografias. Não sei se a cruel descrição corresponde à verdade, pois não li a obra em (des)apreço. Mas dá para desconfiar de alguém com um umbigo de tal forma inflacionado que lhe tapa a vista e o bom senso ao ponto de se sair com esta: “Sem modéstia, escrevi um grande livro”. “Grande”, só se for pelo número de páginas. “Grandes” são obras como “Moby Dick” ou “Gravity’s Rainbow”. O resto é conversa.