A soberba em forma de gente

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No “Público” de hoje, Miguel Sousa Tavares trata de trucidar o “Esta Noite a Liberdade”, livro de onde sacou à má fila, para usar a feliz expressão do Fernando Venâncio, algum “colorido narrativo”. Tal livro “não é ficção, é um relato histórico, e muito mau” e de lá só se aproveitam mesmo as fotografias. Não sei se a cruel descrição corresponde à verdade, pois não li a obra em (des)apreço. Mas dá para desconfiar de alguém com um umbigo de tal forma inflacionado que lhe tapa a vista e o bom senso ao ponto de se sair com esta: “Sem modéstia, escrevi um grande livro”. “Grande”, só se for pelo número de páginas. “Grandes” são obras como “Moby Dick” ou “Gravity’s Rainbow”. O resto é conversa.

42 thoughts on “A soberba em forma de gente”

  1. Leste esta obra, ao menos? Ou vais lá apenas pelo cheiro? É que aposto que não a leste. E o que é que isso faz deste post?

    (não estou a dizer que concordo com a apreciação do MST em causa própria, embora não me custe conceder, nem me caem os parentes na lama por isso, que gostei bastante do livro e que o mesmo não é necessariamente mau apenas porque é mais fino referenciar Moby Dick” ou “Gravity’s Rainbow”. Que esquerda tão fidalga, esta.)

  2. à época em que saiu o Equador eu trabalhava numa livraria e tínhamos lá a encarnação do mst em cartão, tamanho real. aquele culto da personalidade molestava-me as moléculas colectivistas que vou tendo mas agora percebo o sentido do catrapázio – estamos na presença de um ego enorme num espécime unicamente bidimensional.

  3. Afixe,

    Tentei ler a coisa e bastantes páginas ainda consegui digerir. Não estou a dizer que seja “mau”; só que está a milhas, anos-luz de ser um “Grande livro”.
    Estás a ver a subtileza? E olha que não consigo muito bem entender o que tem gostar de Melville a ver com isso da “esquerda”.
    Se continuas a encarar tudo como ataques à tua pessoa, não tarda até que angaries uma úlcera ou duas. :-)

  4. Ora bem. Assim é que as coisas ficam claras.

    E acaba-se com a desculpa de poder ser remake ou pastiche pós-modernista.

    Se nem assume a cópia, é fraude.

    Todo o remake é forma de homenagem.
    Não esconde nem nega a fonte, actualiza-a.

  5. Acabei agora mesmo de ouvir o fim da crónica de Pedro Rolo Duarte na Antena 1.

    Já começou a campanha de recolha de assinaturas virtuais…

  6. Não tem nada a ver. Aliás, eu não disse que tinha. Apreciei um facto e constatei outro. Que nestes meios, neste tipo de consciências políticas, sói cada vez menos admitir-se que determinadas coisas têm valor. Mas só determinadas coisas.

    Claro que se for um tipo do cariz do penúltimo prémio nobel, mesmo que escreva coisas daquele nível, baixo, leia-se, a coisa já merece outra atenção e apreciação (é a mesma història do vinho de belmonte e da cerveja não sei de onde)

    Voltando ao Equador, não será um Grande Livro, no sentido que, presumo, queiras dizer. Mas é, por certo, dos poucos livros portugueses, muito bons, com aquele referencial histórico – aquele e não outro.

    A sobranceria do teu “Tentei ler a coisa e bastantes páginas ainda consegui digeri” é arrepiante.

    Será que, tendo em conta bastantes páginas que ainda conseguiste digerir, me podias fazer aqui uma apreciação crítica do dito cujo? Fala-me das milhas, dos anos luz de que carece.

    Algo que conteste, mas conteste mesmo, o facto de aquele livro, com aquela história em concreto, não ser um grande livro, que mereça uma semanita do teu tempo (ok, um mês, que conheço o teu ritmo).

    (onde é que vi o que quer que seja como um ataque à minha pessoa, pá? Estás com a mania da perseguição?

  7. Mais uma vez, a tónica é a do costume: denegrir os anónimos ao ponto de os colocar na área da vilanagem e justificar o que é injustificável.

    Quanto aos factos: que se danem!
    Os compinchas primeiro!

    TOuche pas a mon pote!

  8. Ah, essa treta dos anónimos resolve-se em segundos.

    Basta fazer a apresentação. Chamo-me Marta Almeida e sou estudante de engenharia de sistemas.

    Acabou-se. Deixei de ser anónima.

    E agora, tratem lá de provar o contrário.

    Albarde-se o burro à vontade do dono.

  9. E não se lembram de que o nosso Eça foi acusado de se ter “inspirado” em “La faute de l’Abbé Mouret”, para escrever “O Crime do Padre Amaro”?
    Devo dizer que li os dois e que, embora a temática seja semelhante, o Eça é muitíssimo superior.Muito mais moderno e corrosivamente realista.

    Quanto ao caso em foco, só li excertos do “Equador”, que me pareceram bem esgalhados. Mas, se há uma tal semelhança de efabulação, resolução verbal e tópicos é caso por demais bizarro.
    E das duas uma:
    ou o autor – por quem nutro alguma simpatia, devido a posições públicas, em que não tem “medo de existir” – explica o “mistério” ou então trata-se daquela palavra que está no fim do canto X, de “Os Lusíadas”.Quer numa ou noutra circunstância, a questão é bicuda.

    Ni.

  10. Injustificável é …a indulgência plenária.

    Ponham-se as coisas no seu devido lugar.

    O livro vale como obra prima?
    Não, segundo dizem.

    Então, valerá certamente que se critique objectivamente e que se assuma abertamente aquilo que sucedeu e que todos podem ler.

    Não será o fim do mundo. Mas pode ser o esclarecimento de uma técnica de escrita que fica a dever a outras e principalmente a narrativa que afinal tem partes que não são originais,mas, segundo Fernando Venâncio, coloridas narrativamente.

    Que se dê então importância a esta nuance e que se determine o seu contorno exacto.
    Injustificável será, portanto, meter a cabeça na areia e fazer de conta que no pasa nada…

  11. Afixe,

    Com a minha avançada idade e os meus dias frenéticos, não tenho tempo para ler tudo o que anda por aí. Apanhei o “Equador” à mão e provei o caldo a ver se me parecia sápido qb. E, como disse, até sorvi umas quantas colheradas.
    Encontrei um enredo com pés e cabeça, uma narrativa escorreita, um estilo mais discreto que fascinante, diálogos a mandar pró naturalista (no problem with that). Nada mais.
    Já estou naquele ponto em que exijo bastante mais a um livro antes de lhe entregar umas quantas horas da minha vida. Será “sobranceria” querer ler primeiro os infindos “grandes livros” que sei que ainda não consumi e só depois atirar-me a um produto bem arrumadinho mas sem outras ambições à vista? Olha, serei orgulhoso, pronto. Mas continuo na minha: o “Equador” é romance atinado mas sem lampejo de génio.

  12. Ó meu velho, já podias ter dito, caramba. Adoro esse tipo de frases “um estilo mais discreto que fascinante”. Belo! O que é que quer dizer? Deixa lá, pá, não te incomodes, que sei agora que a idade já pesa.

    Fora de merdas, o que me deixa mesmo fodido é teres insultado o vinho kosher de Belmonte. Grande lambão, que bebeste a garrafa sozinho com a sobremesa.

  13. “Mais discreto que fascinante” é uma forma simpátiica e comedida de dizer que o estilo é funcional, “jornalístico” e escorreito, sem qualquer espécie de originalidade, arrojo, risco. Não que estas características garantam excelsos resultados; mas a sua ausência garante, neste caso, banalidade de linguagem, recursos estilísticos e diegese.

  14. O Equador está muito bem escrito, em minha opinião. Já li muitos autores consagrados, e obras eméritas, para poder dizer isso, que aliás já tinha dito noutro post, lá para trás.

    Agarrou-me meeesmo.

    Outra coisa é eu não gostar de caçadores, muito menos de touradas, mas isso é o velho problema de não confundir o autor com a obra.

  15. Just a question: onde está o texto em que o Fernando Venâncio se refere a toda esta problemática? Gostava muito de ler.

  16. py,

    O bom destas coisas artísticas é que verdades absolutas não há. Cada opinião segue os vectore do gosto do seu dono: eu aprecio prosa complexa, arriscada e por vezes inovadora. Privilegio a forma sobre a função, talvez. Você tem outros pontos de vista. Só ficamos a ganhar com a diversidade.

    Eugénio,

    Procure a “ração para porcos” que encontra lá alguns comentários do Fernando.

  17. Pedro Guerreiro, afixe:

    Uns grandes cromos me sairam vocês, ainda temos que chamar o Fernando Venâncio ou o TT para vos pôr na ordem!

  18. Contrariamente àquilo que a páginas tantas alguém advoga lá atrás, acredito que quando o autor tem o tipo de exposição pública que tanto apraz ao MST se torna indissociável da obra.

    No caso presente, o autor é um poço de vaidade e arrogância, vulgo pedante, que entre muitas outras alarvidades defende acérrima e nobremente essa bela espécie ameaçada de extinção, o jipe, da praga contranatural de javalis que pulula nas matas. No entanto, o autor é também um fulano que escreve bem, muito bem, e que até tem uma mão-cheia de ideias peneiráveis no alojadas no córtex.

    Conforme desigualmente demonstram as obras-primas de Melville ou Pynchon, supracitadas, o que ilustra o valor de um livro é a sua capacidade para sobreviver ao próprio tempo sem perder o devir, e não a quantidade de leitores ou o seu resultado comercial imediato. E, nesta matéria, a auto-avaliação do MST é, no mínimo, de uma generosidade solipcista. Aliás, a Guida Rebelo Pinto também deve achar que escreve grandes obras…

    Pessoalmente achei o “Equador” interessante, bem circunstanciado e com uma estrutura sólida, no entanto muito racional — desprovido daquela escrita apaixonante que gera uma mística em torno da estória, que transcende a própria estória e nos transporta; aquela essência simpática e omnipresente que encontrei, para dar um exemplo de um texto mais ou menos nos mesmos parâmetros, n’”O Último Cabalista de Lisboa”, do Richard Zimler.

    Mas tudo isto são questões profusamente pessoais, impura opinião. Tal e qual como o ensoberbecimento do MST. Resta verificar se com o acumular dos anos o “Equador” vai permanecer quente ou vai derivar até um dos pólos e aí permanecer, congelado, na “noite dos tempos”.

    Até já.

  19. Agradeço ao blog anónimo e aos seus perspicazes autores terem-me despertado o interesse para a leitura do Equador. Comecei ontem a lê-lo.
    Quem leu diz que é muito bom, de facto, está bem escrito e é bastante absorvente, ao ponto de se devorar rapidamente as suas quatrocentas e tal páginas.
    E um livro que já vai na 27.ª edição, foi editado em vários países estrangeiros, e tem em vista uma versão cinematográfica é um grande livro, SIM!
    No Blasfémias o João Miranda já desmascarou os falsários e boateiros.
    Os dectratores de MST, tenham paciência, mas vão ter de esperar por outra oportunidade.

  20. “No Blasfémias o João Miranda já desmascarou os falsários e boateiros.”

    Para quem isto acha, bom proveito lhe faça a leitura de pastiches.

    Quem não tem cão, caça com gato, como diz o povo.

  21. Tambem existem muitos filmes e series de tv que se veem bem, e sao quase copias umas das outras. Nao ha’ grande crise, parece-me.

    O “Equador” e’ um livro porreiro, que se le bem, a descricao historica pareceu-me inteligente, mas nao e’ grande literatura.

    Um pouco como aquele das “Particules Elementaires” – escrita jornalistica, algumas ideias interessantes. Sera’, porventura, um catalisador de outras obras, pode sugerir postas interessantes para outros romancistas.

    Plagio? Nao faco ideia, mas os escritores costumam ir copiando de umas obras para as outras, nao sera’ assim que fazem os artesaos? Por exemplo, a cena do cavalo na chegada ‘a abadia no “Nome da Rosa” e’ capaz de ter sido tirada do “Zadig” do Voltaire.(e talvez este a tenha tirado de outro sitio). E depois?

  22. O problema central do livro está na escrita, a qual se presta grandes reparos e deixa muito a desejar. Quero dizer: pobreza do vocabulário, limitados recursos expressivos, estilo sem matizes, descuidado, repetitivo. O suficiente para vulgarizar um livro. Feri-lo de morte. Desde logo, há qualquer coisa de errado quando um escritor utiliza, amiúde, as mesmas fórmulas: “a leitura sonolenta do Mundo, o seu jornal de todos os dias (p. 11); “a sua pacata e habitual vida de todos os dias” (p. 15); “tentando adivinhar como era a sua vida de todos os dias” (p. 44); “os rituais de todos os dias” (p. 86). Ou ainda: “regressara à sua Lisboa de sempre” (p. 12); “almoçava invariavelmente no seu clube de sempre, no Chiado” (p. 14); “João Forjaz, um dos membros do grupo das quintas-feiras e seu amigo de sempre” (p. 18); “mal tinha acabado de entrar na sala de baile, vindo do bar e das mesmas conversas de sempre com os mesmos de sempre” (p. 26); “na atitude eterna do caçador esperando a sua presa, como sempre sucedeu desde a noite dos tempos, desde que o primeiro caçador de sempre (p. 41); “a sua delicadeza de sempre” (p. 87); “meia dúzia dos seus amigos de sempre (p. 103). Exemplos como estes abundam, volta e meio tropeçamos em coisas como “o melhor peixe do mundo” (p. 23), “dar a resposta mais natural do mundo” (p. 28), “como se fosse a coisa mais previsível do mundo” (p. 34), “serviram sumo espremido das laranjas de Vila Viçosa – as melhores do mundo” (p. 36), “demorara todo o tempo do mundo” (p. 96), “o homem mais rico e mais avarento do mundo” (p. 245), “com o ar mais calmo e natural do mundo” (p. 322). Mas há mais. Diria mesmo, há muito mais: “Mergulhar na sua boca e ficar lá dentro” (p. 90); “e ele mergulhou, também de olhos fechados, naquela boca e naquela paixão” (p. 312); “a boca que, sôfrega, mergulhava na dele” (p. 323); “e mergulhou a boca na sua” (p. 332); “puxou-lhe um pouco o vestido mais para baixo e mergulhou lá dentro a língua e a cabeça” (p. 335); “agarrou-lhe a boca e mergulhou nela a sua” (p. 383).

    Casos como estes denunciam desatenção, descuido, negligência. Porque, enfim, as palavras devem ser escolhidas com rigor e ponderação. E em Equador não parece ter havido esse esforço, esse trabalho. Quero dizer: Miguel Sousa Tavares não conseguiu desembaraçar-se (ou não esteve para isso?!) de certas “muletas” literárias, de certos vícios de linguagem: “via desfilar lentamente a vila” (p. 44), “a igual monotonia da paisagem que via desfilar da sua cadeira” (p. 93), “horas passadas a ver desfilar a costa angolana” (p. 118), “a paisagem desfilava ao ritmo do passo do cavalo” (p. 165); “passeando o olhar” e “passeando os seus lânguidos olhos”; “uma chuva de pingos, grossos como bagos de uva” ou “bátegas de chuva, grossas como pedras”; “rolava o cognac francês dentro do pesado copo” ou “cada um com o seu pesado copo de cognac na mão”; “o Pico de S. Tomé, eternamente afogado em nuvens e nevoeiro”, “da cor do Sol afogando-se no mar”, “quando a tarde já se afogava no mar”; “madrugada adentro”, “pela sua boca adentro”, “subira pela floresta adentro”, “que sussurrava pelo seu corpo adentro”, “o frio que lhe entrara pelo seu corpo adentro”, “mar adentro”, “água adentro”, etc.

    (…) Advérbios de modo, então, nem se fala. No mesmo parágrafo, um surto pavoroso
    de “estupidamente”, “imediatamente”, “ligeiramente”, “finalmente”, “subitamente”; na mesma página (89), “verdadeiramente”, “instintivamente”, “ligeiramente”, “friamente”, “seguramente”, “naturalmente”, “suavemente”. Não deixa de ser notável, porém, a capacidade de Sousa Tavares para utilizar tantos advérbios de modo numa mesma frase (p. 314): “infinitamente”, “ligeiramente”, “nervosamente”, “livremente”. Difícil é escolher entre tantos exemplos.”

    E a rematar:

    “ Insuficiência linguística, limitação na linguagem? Trapalhice? Custa-me a admitir, mas é o que parece.”

  23. Zé dos Porquinhos,

    Você não tinha aí um pseudónimo literário, qualquer coisa como «João Pedro George»?

    Se não tem, é fabuloso. Se tem, também.

    Mas estou varado. Não pelos advérbios de modo, que não são graves, acredite. Mas o resto é espantoso. Eu só tinha reparado no «adentro». De resto, não desfazendo, uma palavra belíssima.

  24. Qualquer um reconhecerá em MST o cronista exemplar das fealdades paisagísticas a que uma corja de patos-bravos, e os portugueses em geral, vêm sujeitando o país todos os dias. Ou o que nos ajuda a distinguir a América da liberdade original e dos direitos fundadores, da perigosa América actual, conduzida por fanáticos medíocres. Ou o autor de reportagens e relatos de viagem como os que nos deixou em SUL. MST tem a ousadia, a lucidez e o desassombro que ao jornalista competem. O que ele não tem é o sentido estético do ficcionista. E não manifesta saber, em Equador, que o trajecto da ficção narrativa é multifacetado, mas segue um caminho tão estreito como o fio duma navalha. Onde o artista se estatela ao mais ligeiro escorregar do pé.
    Tendo presente quanto há de pessoal e subjectivo na apreciação duma obra, dir-se-á que Equador não passa do sofrível. Tem uma história a contar e muito para dizer, já isso não é pouco, se anda este mundo pejado de figuritas imberbes a dar-se por escritores. Mas é um trabalho desequilibrado e prolixo, a espraiar-se em secundárias peripécias longuíssimas, que apenas lhe roubam vigor e o empobrecem. O todo ganharia com outra economia.
    Há nele situa´ções mal cosidas, em que o pesponto se vê. Mas o grande senão é o modo de contar, que nada de novo nos propõe. Não se conta hoje uma história com as técnicas narrativas, o tipo de linguagem, os mesmos exercícios e recursos dos finais do séc. XIX. Ainda por cima sem a artilharia requintada que nesse tempo alguns sabiam usar. A técnica primaríssima e descuidada de que MST faz uso, se é apropriada e eficaz num trabalho jornalístico, resulta de todo inadequada, e gasta, e anacrónica em literatura. Por isso o sseu efeito estético é nulo, já que também o jogo sonoro da frrase, a harmonia e o ritmo do discurso utilizado são ausências. Ora nada disto a literatura pode dispensar, por infindável que seja a discussão sobre o que ela é.
    Lá onde MST brilha é quando se conserva no seu campo. É quando analisa, quando aponta, quando denuncia, quando levanta o véu da nudez dum império a fingir. O seu Equador vendeu muito, com mais proveitos para o editor que para a literatura. E os leitores.

  25. Jagudi,

    No alvo. E com vigor e clareza.

    O romance não parece ser, de facto, a «medida» de MST (e há mil vezes pior, claro). Noutras medidas, sim, a da crónica, da reportagem, mesmo do conto, ele é mestre.

  26. Ora bem… ontem vi António Lobo Antunes que a entrevistadora da RTP1 tratava colquialmente por “António”. Sendo médico, é escritor. Outros, sendo qualquer coisa que nunca foram, são políticos e esses merecem o tratamento deferenciado de Dr.Eng. Arquitecto.
    Enfim, passando ao que interessa:

    O Lobo Antunes disse algo que parece evidente: o talento veradeiro na escrita é muito raro. Raro mesmo. Mesmo raro.
    Não é o MST que se pode alcandorar ao nível dos talentosos de que fala ALA. Nem será isso que conta aqui.
    O que aqui conta é a habilidade saloia em copiar passagens de um livro de outrém para compor narrativemente a paisagem do nosso.
    Trata-se de denunciar uma cópia, disfarçada ou na expressão de Fernando Venãncio, para colorir a narrativa.
    E agora conta mais uma coisa: o autor nega o plágio e será preciso ver se há efectivamente plágio.
    Apurar os critérios do que é ou não plágio.
    Para uns não é; para outros, trata-se de uma mera evidência.
    Afine-se então o critério ético e técnico até.
    Pela minha parte ando a laborar um texto. E vou publicar algures.
    É só isso e apenas isso.

    Se muitas pessoas gostam do livro, ainda bem que assim é. Diria o mesmo dos livros da Margarida “marca registada” R.P.
    Que se leia, cum catano!
    Que se aproveite para ler em português, nem que seja o 24 Horas, cum catano!
    A leitura desenvolve e ginastica o raciocínio, parece-me.
    Leiam então! Mesmo que seja o tal Equador.

  27. Tem o José muita razão! A questão era a do plágio. Para mim (assumo a precipitada ousadia porque não sou crítico encartado na praça, senão tinha mais cuidado!) o que li no Freedomtocopy basta-me. E tenho pena, porque tenho admiração pelo MST jornalista e cronista. O ficcionista é um equívoco, é um produto do marketing desse arrastão que dá pelo nome de Oficina do Livro.
    Usem os eufemismos que quiserem! Parágrafos quase literalmente transcritos são chupismo puro. Não passa sequer no crivo dos tempos classicistas, em que a noção de plágio não existia, e a imitação dos modelos clássicos era sinal de qualidade e capacidade. Imitação de estruturas, de construções, de recursos, de truques, de modos. Arma virumque cano, pois claro, o Camões imitou o avô mas não se pôs a transcrever-lhe estrofes.
    Como é que MST caiu nisso, só ele saberá. Como vai sair daí, havemos de ver. Presumo que à portuguesa. Mas chamuscado, evidentemente. O que é pena. No seu campo o rapaz faz falta.
    Mas tem o José razão! É de ler! Mesmo plagiado! Já considerá-lo muito bom… É a história de ‘quem o feio ama…’!
    Já agora, há duas razões para que ele se tenha vendido como pipocas: o arrastão vendeu-lhe primeiro a imagem mediática; e segundo o livro aparece no meio dum deserto sem concorrência. Longo período que ainda dura. Não são os crípticos GMTavares, os melífluos JLPeixotos, mesmo bem apaparicados pelos papas de serviço, que ocupam o mercado. Esses servem apenas uma faixa de ‘crentes’. O mercado comprou um discurso fluente e objectivo, que fala de coisas concretas e perceptíveis. Está farto de dores de alma, de azias metafísicas. Está farto de ouvir gajos que não têm nada para dizer.

  28. Os factos são os seguintes.
    Em 1975, Lapierre e Collins publicam em Paris o livro «Cette nuit la Liberté» (Esta noite a Igualdade).
    Em 2003, Sousa Tavares publica em Portugal o livro «Equador» (Equador).
    O perfil dos protagonistas dos dois livros é semelhante, apesar de terem nacionalidades perfeitamente distintas. Um foi para a Índia e outro para São Tomé.
    Acontece que alguns parágrafos das duas obras também são praticamente iguais.
    A única coisa que está aqui em causa é saber se, em 1975, Lapierre e Collins podiam razoavelmente prever que, em 2003, Sousa Tavares, ia ter a mesma ideia e usar as mesmas expressões constantes no «Cette nuit la Liberté» (Esta noite a Igualdade).
    Se podiam prever, a conclusão é óbvia: Lapierre e Collins deviam ter incluido na bibliografia consultada, uma referência ao futuro «Equador» (2003).
    Não o fizeram.
    Se não podiam prever, a conclusão é igualmente óbvia:
    Lapierre e Collins não podem ser acusados de não terem citado o futuro «Equador» (2003) na bibliografia consultada.
    Como eu tinha previsto.

  29. Bom, ao menos é divertido.

    Eu dei o “meu” Equador já nem me lembro a quem, em Timor – mas ainda me lembro que se o João tivesse ido ter com o Bernardo – acudido ao pedido – o final teria sido diferente. Deve fazer falta um amigo ao MST. Not me, detesto touradas.

  30. Isto está tudo ligado, as ordens para os jornalistas do DN fazerem o frete ao MST, e o JM Fernandes escrever o editorial branqueador, vieram directamente da Trilateral, que por sua vez as recebeu dos Sete Sábios Ocultos que governam o mundo do topo oco de uma montanha no Tibete, cheia de computadores e radares e parabólicas. Somos todos instrumentos inconscientes de vontades invisíveis e mais poderosas. A sério, caraças!

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