UMA PROSA COMPLEXA # Contributo para o debate literário que decorre neste blogue

(…) as imagens iniciais mostram uma cama meio desfeita, na qual a “mulher”
(a “esposa”) se encontra deitada, aparentemente nua até à zona púbica, onde o plano
termina. Uma voz masculina em off anuncia, em tom grave e pausado:

“Em Setembro na SIC, o garanhão, a mulher e a amante dele”.

A voz sublinha e identifica as cenas que se vão sucedendo: o “garanhão” – umas vezes
com a “mulher”, outras com a “amante”, em sequência alternada; cenas de sexo
quase explícito e cenas de convívio entre a “mulher” e a “amante” (que é também a
“melhor amiga” da “mulher” dele); cenas em que o “garanhão” oferece rosas e champanhe
a uma delas, aparece de surpresa à outra e acaricia as coxas a uma terceira.

A voz off pontua as cenas com frases sincopadas, alternando frases da “mulher” com
frases da “amante” que acentuam a duplicidade do “garanhão”:


“Rosas e champanhe”; (O que é que estás aqui a fazer?); “ Fernando não sabe por
onde escolher”; “Diana, a esposa fiel (estou grávida)”; “Telma, a melhor amiga”; (Agora
quem precisa de um chá sou eu); “A morena ou a loura”; (O Fernando tem todo o
direito de saber que vai ser pai); (“Ele é um mentiroso”).

Nas cenas do “garanhão”, umas vezes com a “mulher”, outras com a “amante” na
cama, ambos estão nus. Ele está meio deitado sobre ela(s), os corpos nus são visíveis até
à zona púbica. Ele desliza sobre o corpo dela(s) em movimento descendente. Noutros
planos, também na cama, a “mulher” surge mais recatada, parcialmente coberta com um
lençol, ele beija-lhe o peito. O plano termina quando ele se prepara para beijar-lhe o
corpo.

(…) Nas imagens do “garanhão” com a “amante”, na cama, os rostos de ambos são mais
expressivos na demonstração do prazer e as cenas são sôfregas, impetuosas. Num dos
planos em que ambos se encontram de pé, ela veste uma camisa (presumivelmente,
dele), ele em cuecas; ela salta para o colo dele, pernas enlaçando-lhe a cintura. Noutro
plano, estão ambos já sem roupa, na mesma posição, agora inclinados em direcção à
cama.

(…) Não fez o Conselho Regulador a contagem da
cadência de cenas sexuais na novela “Jura”, nem tinha de a fazer. Mas atentou, ainda
que de forma empírica, que a sua “frequência” média é muito menor do que aquilo que
pôde visionar nos spots autopromocionais em questão.

(…) Com certeza, não é qualquer um que lida no quotidiano com um “garanhão” ou que
aspira a tal papel; e nem todos, seguramente, abordam no dia a dia (como parece inculcar-
se) o sexo sob a perspectiva ali representada, ou sequer com a “traição”, a “violência”,
o “vício” ou a “polémica”.

(…) Ora, se estes estereótipos e imagens simbólicas são perceptíveis pelo adulto médio,
que assim poderá exercer o seu escrutínio crítico, são muito menos identificáveis (e
“criticáveis”, no sentido exposto) por uma criança ou por um adolescente. Mais se reforça,
por conseguinte, a ideia de que a transmissão dos spots autopromocionais em
quaisquer horários era susceptível de afectar, para utilizar os termos legais, a formação
da personalidade de crianças e adolescentes.

[Excerto da Deliberação da Entidade Reguladora da Comunicação Social, de 2006-10-20]

3 thoughts on “UMA PROSA COMPLEXA # Contributo para o debate literário que decorre neste blogue”

  1. Confesso-me impressionado; que exegese complexa! Quantas vezes devoraste tu este suculento pedaço de audiovisual, meu maroto? Gravaste a coisa em DVD? Ou ficou logo gravada na tua memória?

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